Tonks voava o mais rápido que sua vassoura a permitia, sentindo a chuva bater em seu rosto como pequenas navalhas e o vento gelado a lhe enrijecer os lábios, de frio. Tudo que a tempestade a permitia ver eram algumas luzes fracas e alinhadas abaixo dela, vindas dos postes nas ruas. Tinha acabado de aparatar próximo ao local que os outros membros deveriam estar, mas não havia sinal deles por perto.
Um raio súbito fez um clarão que iluminou toda a área. Tonks viu a luz sendo refletida pelos telhados molhados das casas e em seguida o ruído grave e ensurdecedor do trovão. Mas nem sinal dos outros. Continuou voando a toda sua potência, eles tinham que estar por ali. Outro flash de luz repentino. Tonks segurou com mais força o cabo da vassoura, seus dedos mal respondiam aos seus comandos, paralisados pelo frio. Fez-se outro clarão. Mais outro. E outro. E Tonks percebeu, subitamente, que os clarões não estavam vindo do céu... estavam vindo do chão.
Há alguns metros dali, quatro bruxos rasgavam o céu em seu vôo, rastreando desesperadamente a área abaixo deles. Voavam com um grande espaço entre si, para cobrir a maior área possível. Nas pontas estavam Arthur Weasley e Remus Lupin, ambos em suas vassouras, esquadrinhando atentamente a cidade que passava rápido abaixo deles. No meio, uma carruagem pequena puxada por testrálios, que abrigava Alastor Moody e Alvo Dumbledore. Os relâmpagos eram freqüentes e a tempestade cada vez mais intensa, dificultando a visão e a locomoção deles. O barulho da chuva era tão alto que impedia qualquer comunicação clara entre Lupin e Arthur. Porém, não foi preciso mais que um grito para que eles se entendessem.
- ALI!! EM FRENTE!!
Arthur olhou para Lupin e conseguiu distinguir a forma dele sobre a vassoura apontando para o horizonte. Havia algo lá explodindo em luz, como os relâmpagos da tempestade, mas sem o ruído do trovão. A luz dos clarões era tão intensa que chegava a iluminar as nuvens carregadas acima deles. Eles aumentaram ao máximo a velocidade, acompanhados pela carruagem. Havia um paredão de árvores ao final da cidade, que os impedia de ver claramente de onde estavam vindo os flashes de luz, mas, assim que ultrapassaram as árvores, se depararam com o que havia depois: Um campo aberto e escuro, sem nenhuma casa ou construção em cima. Lupin inclinou sua vassoura e diminuiu a altitude, ao mesmo tempo em que mais um clarão gigantesco saiu de um ponto adiante no campo, indicando exatamente onde eles tinham que ir.
- VAMOS DESCER!!
Lupin e Arthur tomaram a frente e se prepararam para pousar. Havia pessoas estiradas no chão, Comensais da Morte. Continuaram a voar o mais rápido possível, já bem próximo ao solo. Passaram a ouvir gritos, até então abafados pela distância, e avistaram logo à frente o que parecia ser um duelo: três Comensais estavam lançando feitiços alucinadamente contra uma única pessoa. Lupin e Arthur desceram de suas vassouras e se puseram a correr, empunhando suas varinhas. A carruagem parou logo depois, com as rodas derrapando no chão embarrado. Lupin apontou para o Comensal mais próximo e gritou.
- Estupefaça!!
O Comensal caiu, enquanto os outros dois se viraram imediatamente. Arthur investiu contra um deles e Lupin percebeu horrorizado que a pessoa que eles estavam atacando era... Tonks. O outro Comensal não hesitou um segundo em revidar Lupin.
- Avada Ke...
- PROTEGO!!
Lupin se defendeu, enquanto viu Arthur desviar de um feitiço por muito pouco. Tonks desarmou o Comensal que duelava com Lupin pelas costas, no mesmo instante em que Dumbledore e Moody chegaram. Ao vê-los, os dois Comensais aparataram, fugindo.
- Demônios! Não acredito que perdi a melhor parte... - Moody exclamou, já ofegante e encharcado.
Lupin foi rápido até Tonks, que agora estava ajoelhada no chão.
- Tonks! Você está bem?!
- Vou ficar bem! Peguem ela, rápido!
- Ela quem?!
- Ela!! Lá!!
Tonks apontou e Lupin viu uma silhueta adiante, se movimentando na chuva, aos tropeços.
Arthur indagava Dumbledore sobre onde estava a arma, quando Lupin avisou:
- Por aqui, rápido!!
Arthur viu Lupin sair correndo em direção a uma pessoa que fugia, com muita dificuldade. Dumbledore e Arthur seguiram Lupin.
- Remus, haja o que houver, não toque!!
Dumbledore gritou, ao ver que a pessoa tinha caído no chão, sem se reerguer depois. Surpreendentemente, Moody passou ao lado deles montado em uma vassoura, deixando todos para trás. Seguiu direto, sem prestar atenção em mais nada, com os dois olhos fixos no mesmo ponto e só desmontou da vassoura quando viu de perto quem estava tentando fugir.
Muito enfraquecida, uma garota tentava levantar da lama e continuar correndo, mas não tinha força para se sustentar. Ela chorava em desespero. Moody apontou a varinha, mas antes que ele dissesse qualquer coisa, ela o percebeu ali e passou a gritar descontroladamente, tentando com todas as suas forças fugir.
- Onde está a arma?! – Moody esbravejava, apontando a varinha para ela. - O que você fez com ela?!
A garota não parou de chorar e gritar, sempre tentando levantar, mas sem sucesso. Não pareceu escutar uma palavra do que Moody dissera, estava desesperada, fora de si, olhando-o com uma expressão de extremo terror. Moody se inclinou para segurá-la, no que a garota gritou muito alto, sobrepondo o grito de Lupin que acabava de chegar.
- Alastor!! NÃO!!
Com um impacto impressionante, algo nas mãos da garota emitiu um clarão gigantesco de luz branca, que arremessou Moody pelos ares e fez Lupin e os outros caírem e serem empurrados muitos metros pra trás numa velocidade considerável. Com esse impacto, Moody perdeu a consciência no ar e, muito distante, teve a queda amortizada por uma árvore, que o fez bater de galho em galho até alcançar o chão, caindo de uma altura de três metros.
Quando parou de ser arrastado, Lupin se viu estirado no chão, tal qual os Comensais que havia visto anteriormente. Cada músculo de seu corpo parecia ter sido esticado ao máximo e socado com um martelo de bater bife. Seus dedos doíam, seus olhos doíam, suas pernas, braços, cabeça... doía até para respirar. Sua vontade era ficar ali, imóvel, até que pudesse se mexer sem ter vontade de gritar de dor. Num esforço descomunal, mexeu o braço e tirou do bolso um pequeno frasco, de líquido escuro, que, com muita dificuldade, levou à boca e tomou. Um breve instante depois, Lupin levantou, meio desajeitado, e foi caminhando até a garota, andando como se fosse uma criança de dois anos, sem controle absoluto de seus movimentos. Ele não sentia mais o corpo. Com a varinha em punho, se aproximou cautelosamente. A garota, no chão, parecia ainda mais fraca que antes. Lupin viu claramente o desespero dela em se afastar dele, ela mal conseguia rastejar, mas ainda gritava palavras incompreensíveis, misturadas ao seu choro.
- Silencio!
Lupin exclamou receoso, apontando a varinha pra ela, e a garota se encolheu no chão, contorcida, sem emitir mais som algum.
- Remus, afaste-se.
Dumbledore e Arthur se aproximavam devagar. Lupin deduziu que Dumbledore tivesse conseguido proteger Arthur e a si próprio do impacto da explosão. Mas Arthur caminhava apoiado em um galho, um de seus pés estava virado num ângulo estranho. Arthur parou ao lado de Lupin, que prontamente lhe deu apoio.
- Temos que verificar Moody! – Lupin adiantou, falando com a língua dormente - Ele pode estar ferido!
- Temos que tirar a arma dela primeiro! – Arthur respondeu, ofegante.
- Não podemos. – Dumbledore se impôs. - Ela é... a Arma.
Lupin e Arthur olharam para Dumbledore, estáticos, num misto de surpresa e tensão. A garota ainda se mexia, muito fraca, inutilmente tentando sair do lugar. Eles sabiam o que Dumbledore quisera dizer. Sabiam o que ela era, embora mal pudessem acreditar. Dumbledore se aproximou lentamente dela.
- Dumbledore... cuidado... ela pode fazer aquilo de novo...
Arthur falou receoso, sem querer questionar a atitude de Dumbledore.
- Ela está se defendendo, Arthur. – Ele respondeu, solene e concentrado – No momento, nós é que somos os agressores.
- Não há nada que possamos fazer para neutralizá-la? - Lupin acrescentou, imaginando que seria mais fácil lidar com ela se estivesse desacordada.
- Nada, além de mostrar que ela não precisa mais se defender.
Arthur e Lupin se perguntaram como ele pretendia mostrar isso a ela sem ser arremessado campo afora, mas esperaram em silêncio. Dumbledore se abaixou, ficando de joelhos no chão, ao lado dela. Ela mal tinha forças para manter os olhos abertos, e, ainda assim, demonstrava todo o seu pânico em relação à aproximação dele. Dumbledore sorriu para ela. Lentamente ele ergueu a mão e foi aproximando do rosto da garota, que parecia tentar se esquivar daquilo a todo custo. Lupin involuntariamente segurou a respiração. Ela iria fazer outra explosão a qualquer momento... Os dedos de Dumbledore foram se aproximando da testa da garota enquanto ela ficava cada vez mais desesperada e ofegante e enfim... ele a tocou.
Naquele instante, ela parou de fazer qualquer tipo de esforço, sua expressão se tornou amena e aliviada. Ela olhou para Dumbledore durante um breve instante e por fim, fechou os olhos, se entregando.
- Ela cedeu!
Arthur exclamou, aliviado.
- Temos que ir embora daqui o mais rápido possível. – Dumbledore concluiu, olhando para os dois. – Não podemos aparatar, ela pode não resistir a mais iss... Ah... Ninfadora! Bem a tempo!
Guiando os testrálios que puxavam a pequena carruagem, Tonks se aproximava deles sobre sua vassoura, determinada.
- Conseguiram?! – ela disse, descendo da vassoura.
- Sim! Encontrou o Moody, Tonks? – Lupin perguntou preocupado.
- Ta na carruagem, ele sofreu várias fraturas! Onde está a...
Tonks viu Dumbledore caminhando em direção à carruagem com a garota em seus braços. Os longos cabelos escuros dela pendiam de sua cabeça inerte. Ela não só estava suja de lama, mas também de sangue. A chuva intensa sobre seu rosto começava a mostrar os esfolões e cortes que sofreu tentando fugir.
- Por gentileza, Ninfadora....
Tonks agilmente abriu a porta da carruagem para que Dumbledore entrasse, mas, repentinamente, um feitiço vindo de trás acertou um dos testrálios, matando-o.
- Não tão rápido, velho.
A voz fria e cavernosa que ecoou no descampado era de um homem alto e esguio, vestindo um capuz preto. Outros dois, aguardavam atrás dele. Arthur assimilou incrédulo que... Voldemort viera pessoalmente buscar o que queria.
- Você teve sua chance, Tom. – Dumbledore disse, seguro. - Deixe que eu a leve antes que uma tragédia aconteça.
Uma risada alta e gélida se sobrepôs ao som da chuva.
- Hahaha... Eu diria o mesmo, Dumbledore. Mas não tenho paciência pra tanto.
Voldemort imediatamente lançou um feitiço em Dumbledore que Tonks agilmente repeliu, se colocando na frente dele. Arthur e Lupin atacaram os comensais que protegiam Voldemort, duelando arduamente. O testrálio vivo perdeu o controle e saiu trotando com a carruagem atrás de si.
- Temos que tirá-la daqui! – Tonks gritou, enquanto repelia um feitiço após o outro.
Ao mesmo tempo, a garota inerte nos braços de Dumbledore mexeu-se em leves espasmos. Ela franziu as sobrancelhas. Foi numa fração de segundo que ocorreu a Dumbledore o que aconteceria.
- Protejam-se!!
Dumbledore gritou, segurando a garota firme e sentindo ela estremecer. Sem questionar, Tonks se abaixou. Mas Arthur e Lupin não tiveram tempo.
Ela fez. Uma nova explosão mágica varreu tudo ao seu redor, inundando o campo com um mais um clarão de luz branca, exatamente como da outra vez. Voldemort e os comensais foram arremessados violentamente para longe, sofrendo um grande impacto ao tocar o chão, há muitos metros de distância dali. Mas, surpreendentemente, eles foram os únicos a sentir esse impacto.
Dumbledore abriu os olhos a tempo de ver a expressão abismada de Arthur e Tonks e Lupin. Eles estavam intactos.
- Não nos atingiu! Como é possível?! – Arthur indagava impressionado.
- Esse é um dos muitos mistérios que nós teremos que desvendar. – Dumbledore respondeu, deixando escapar um breve sorriso.
A carruagem que antes havia sido levada pelo testrálio desgovernado, voltava devagar e parou próximo a eles. A porta se abriu, revelando Moody, muito debilitado, mas tão mal-humorado quanto antes.
- Perdi o melhor da festa, de novo. Hoje definitivamente não é meu dia...
Dumbledore colocou a garota dentro da carruagem. O testrálio morto já não estava mais amarrado a ela. Rapidamente, Dumbledore passou instruções aos outros sobre o que fariam. Arthur iria para a sede da Ordem da Fênix aparatando, Dumbledore e os outros percorreriam todo o caminho com Moody e a garota.
- Arthur, assim que chegar mande uma coruja a Papoula Pomfrey, pedindo que ela nos ajude na sede. E peça a Molly por gentileza para preparar um quarto extra... Essa noite, teremos como hóspede, uma legítima Letrohrian.
- Harry, você faz idéia do que está dizendo?
- Bem, eu fazia... até você me olhar com essa cara de catástrofe.
Hermione olhava para ele atônita, numa expressão de preocupação que Harry não esperava ver ao terminar de contar sobre sua divertida e inusitada experiência com Megan.
Ele passara os últimos momentos narrando animadamente o que aconteceu na festa de trouxas que tinha ido, no começo da noite. Claro, ele omitiu alguns detalhes mais “pessoais”, mas não deixou de contar sobre as sensações e o descontrole de sua varinha, quando ele e Megan se encostaram por mais tempo.
- Você acha normal sair por aí e encontrar uma trouxa que consegue influenciar na sua magia? Nos poderes da sua varinha?
Hermione parecia não acreditar na tranqüilidade de Harry. Rony apenas o olhava desconfiado. Harry estava começando a entender o porque do nervosismo dela.
- Não sei, Hermione! Eu disse, não faço idéia do que aconteceu ou por que nós...
Ela o interrompeu.
- Já ouviu falar de Letrohrians, Harry?
- Que?
- Letrohrians!
- Ahm... não.
Rony olhou para ela com um leve sorriso.
- O que, Hermione? Você acha que essa garota do Harry é uma Letrohrian? Como a da Lenda do Cavaleiro Minsky?
Hermione levantou.
- Não percebem que tudo encaixa?! Não foi coincidência Harry! Eu comecei a desconfiar quando você começou a contar, mas deixei você ir até o fim!
Harry levantou também, com o coração aos pulos, finalmente percebendo o quão óbvia era a relação de Megan com a Arma que a Ordem procurava.
- Claro! O sinal! A Tonks foi me buscar logo depois de eu ter encontrado a Megan, dizendo que algo estava emanando quantidades anormais de Magia... É ela!! - Harry olhava para os dois, muito agitado. - A arma! É a Megan!!
Harry saiu correndo escadaria abaixo, com Hermione e Rony nos seus calcanhares. A única coisa que passava na sua cabeça era buscar Megan, onde quer que ela estivesse. E nada o impediria de fazer isso. Passou correndo pela sala e foi direto para a porta de saída.
- Harry, espera!! – Rony gritou.
- Não posso esperar! Já esperei demais. Eu vou encontrar ela agora!
- Mas o que é que está acontecendo aqui?!!
Sra. Weasley saiu da cozinha, secando as mãos em um pano, olhando para os três em alarme.
- Eu vou ir ajudar a Ordem, Sra Weasley. Eu sei o que eles estão procurando.
- Nós vamos com você, Harry! – Hermione acrescentou, nervosa.
- Nada disso!! – Sra. Weasley disse, revoltada. – Ninguém vai sair daqui! Já tem gente demais cuidado disso lá fora!
- Eles não sabem o que eu sei, Sra. Weasley! Eu tenho que ir!!
- Eu não vou deixar você sair, Harry! É pro seu próprio bem!! Nunca me perdoaria se acontecesse algo a você!
Por um instante, Harry sentiu a agonia de Sra. Weasley ao tentar mantê-lo ali. Mas ele não tinha escolha. Ele esteve com Megan e deixou ela sozinha, deu ela de presente para os Comensais, mesmo percebendo que ela estava estranha quando se despediram. Ele iria buscá-la com ou sem a aprovação dos outros.
- Eu realmente sinto muito Sra. Weasley... Mas eu vou.
- Oh, Harry, não!!
Harry se virou e abriu a porta, decidido. Mas, parado ali, com a mão estendida pra bater na porta, estava Arthur Weasley.
- Ah, Arthur!! Graças aos céus!!
Sr Weasley entrou mancando, completamente encharcado e sujo dos pés à cabeça de barro. Rony e Harry prontamente o ajudaram a caminhar, Rony pálido. Sra Weasley parecia estar prestes a ter um ataque cardíaco.
- Arthur?! O que houve com você?!
- Estou bem, Molly. Estou bem...
Harry não se conteve.
- Onde estão os outros, Sr. Weasley?! Encontraram Megan? A garota?
- Como você sabe que... Ah... Estão a caminho, Harry... todos. – Ele disse, enfraquecido, pelo visto, decidido a poupar palavras. – Precisamos da Pomfrey aqui, estão machucados. Temos que mandar uma coruja...
- Eu mando!
Hermione saiu correndo para o segundo andar, ansiosa para ser útil de alguma forma.
- Oh, Arthur! O que fizeram com você...?!
Rony e Harry o ajudaram a sentar em uma cadeira da mesa, apoiando o pé ferido em uma cadeira na frente. Sra Weasley se apressou em buscar poções curativas.
- Quando nós chegamos lá... – Sr. Weasley explicava, com certa dificuldade - ...Tonks já estava duelando com os Comensais... Acho que ela não teve escolha, ao ver aquela garota sozinha sendo atacada...
- Eles atacaram a Megan!? O que eles fizeram com ela?! Como ela ta?! – Harry disparou a falar, sem parar para respirar.
- Ah, você sabe quem é ela, Harry? – Sr Weasley o olhou surpreso.
- É, eu sei, encontrei ela hoje, mais cedo... – Harry olhou para Rony, sentindo-se levemente culpado. – Ela ta bem?!
- É difícil dizer, Harry... Já a encontramos muito fraca... Só mesmo Dumbledore conseguiu acalmá-la, ela não deixava ninguém chegar perto... Ou você acha que eu estou nesse estado por causa dos Comensais?
Por um momento, Harry achou que estivesse cometendo um engano. Simplesmente não conseguiu imaginar “sua” Megan causando tanto estrago em outra pessoa. Mas lembrou imediatamente do que ela dissera sobre explodir uma casa em cinco segundos, e as coisas voltaram a fazer sentido...
Sra Weasley vinha trazendo uma vasilha com um líquido fumegante e algumas toalhas. Ela sentou ao lado do marido e começou a limpar os ferimentos superficiais de seu rosto, com as mesmas dúvidas de Harry.
- Mas o que essa garota tinha, afinal? Qual era a Arma dela?
- ... É uma Letrohrian, Molly.
Sra Weasley parou, em choque.
- Eu disse!!
Hermione exclamou entusiasmada, descendo as escadas e se juntando a eles. Rony girou os olhos, arremedando ela sem que ela visse.
- Você-sabe-quem em pessoa veio capturá-la, quando percebeu que os Comensais não dariam conta... Mas também não conseguiu. Aich... – Sr Weasley contava, em meio a mínimas contrações de dor, pelos cuidados da Sra Weasley. - Em menos de um minuto ele estava em órbita... Foi arremessado pela garota.
Harry e Rony trocaram olhares impressionados, Sra Weasley suprimiu uma interjeição de surpresa. Até Hermione parecia não acreditar.
- Mas isso é forte demais! Qual o nível ancestral dessa Letrohrian?
- Bem, isso eu não faço idéia, mas...
- Espera, espera Hermione! – Harry interrompeu. – O que de fato é uma Letrohrian?!
Hermione virou-se pra ele com o ar típico de sabedoria avançada que ela mostrava de vez em quando.
- Tecnicamente, Harry, uma Letrohrian é o resultado de duas ou mais gerações de bruxos inábeis, que acumula magia em estado inativo e acaba por atrofiar a sua capacidade de expor a magia por si só, aumentando progressivamente a potência da magia inativa a cada nova geração feminina.
- Quê?!?
Hermione respirou fundo.
- Imagine ela como uma varinha muito, muito potente. O bruxo que a possuir, faz seus feitiços com uma intensidade muito maior que o habitual.
- Ah... – Harry decidiu que se informaria melhor sobre isso depois, as explicações de Hermione o deixavam zonzo. – Mas possuir? Do tipo, pegar e usar?!
Hermione ficou em silêncio demonstrando que não sabia responder, com uma expressão negativa. Sr Weasley se endireitou melhor na cadeira e começou a falar.
- Na verdade, existe um processo a ser feito para se “possuir” uma Letrohrian. E depois que esse processo é feito, a Letrohrian passa a ter um único dono, que é justamente o bruxo que realizar esse processo. Ela só vai conseguir intensificar os poderes desse bruxo que a possuir. Mais ninguém.
- Mas... como assim “dono”? Letrohrians são um objeto?! É isso? – Harry se sentia revoltado.
- Quase, Harry. Quase isso... – Sr Weasley respondeu com certo pesar - Letrohrians são raras. Não existiram muitas até hoje... E as que existiram, vieram em um tempo em que pessoas eram escravizadas e vendidas, num comércio autorizado... Possuir pessoas era uma coisa normal, entende? ...Mas não faço idéia de como isso vai funcionar nos dias de hoje... Não sei muito sobre Letrohrians, não dá pra dizer exatamente como isso funciona... Aich! – Sra. Weasley limpou um corte particularmente dolorido - O último registro de uma Letrohrian deve ter mais ou menos uns...
- Quinhentos anos... – Hermione concluiu por ele.
- Pelo visto você vai ser útil quando eles chegarem, Hermione...
Sr Weasley deu um breve sorriso, ao mesmo tempo em que alguém bateu na porta. Harry foi num salto abrir, mal se contendo de ansiedade.
- Ah, olá menino Potter.
Madame Pomfrey se protegia um pouco da chuva com uma pequena maletinha, na soleira da porta. Ela entrou logo em seguida. Antes de fechar a porta, meio decepcionado, Harry deu uma boa espiada do lado de fora, pra ver se eles não estavam chegando. Mas não havia nada lá fora além da chuva e da escuridão.
- Papoula! Que bom que você chegou! Arthur precisa muito dos seus cuidados!
Sra Weasley se aproximou dela e a ajudou com a maleta.
- Chegou muito mais rápido do que esperávamos! Que coruja você mandou Hermione?!
- Ah... – Hermione corou levemente – Eu achei que uma coruja não seria rápida o suficiente pra chegar em Hogwarts a tempo, então eu usei o sistema de quadros e...
- Mas é claro! Você é mesmo uma menina brilhante, Hermione!
Sra Weasley sorriu, enquanto Madame Pomfrey sugeria que levassem Sr Weasley para um quarto, onde ele pudesse ficar deitado para se recuperar melhor. Rony e Harry o ajudaram na locomoção. Madame Pomfrey e os Weasley ficaram no quarto, enquanto Rony, Harry e Hermione ficaram na sala, conversando. Harry andava de um lado para o outro, sem conseguir relaxar, com o colar de Megan preso em duas voltas em seu pulso.
- Eles estão demorando demais! Deve ter acontecido alguma coisa no caminho! Só pode! Voldemort deve ter encontrado eles de novo! Eu vou sair e fazer o caminho inverso, eles podem estar precisando de ajuda!
- Harry, não! – Hermione disse incisiva – Você tem que relaxar! Dumbledore está com ela, lembra?! Eles já vão chegar, espera!
Harry respirou fundo e sentou, passando as mãos no cabelo, nervoso.
- Tem muita coisa que eu não entendo nisso, Hermione. Muita coisa. Se ela é como uma “varinha”, como é que conseguiu afastar Voldemort sozinha?! Uma varinha não pode fazer feitiços sem um bruxo comandando! Ou pode?
- Não sei, Harry. Não sei... Vamos esperar que Dumbledore chegue e nos explique melhor isso tudo. Além do mais...
Sem aviso prévio, a porta se escancarou. A voz de Moody soou alta.
- ...Eu só queria saber quem foi o asno que ativou essa Letrohrian sem fazer a Iniciação...
Lupin e Tonks entraram carregando Moody no que parecia ser uma maca improvisada. E, logo atrás deles, Dumbledore entrou com uma garota inerte nos braços.
- MEGAN!!
Harry correu até ela, incrédulo. Moody olhou a cena com seu olho mágico e concluiu, em voz baixa.
- Ah... Acaba de me ocorrer uma suspeita sobre o asno... |