- ...Harry?
A garota o olhou com certa estranheza e só então Harry percebeu que estava estático olhando pra ela com a boca semi-aberta.
- Ah Claro, Isso? É... Ahm, uma lanterna que ganhei de presente de uns amigos.
- Nossa...! – ela aproximou devagar o dedo indicador da ponta da varinha, mas Harry impediu que ela tocasse. – Ahm, é realmente bonita, deve custar muito caro! – ela sorriu e olhou para ele, baixando a mão
Harry não conseguia tirar os olhos dela.
- Na verdade eu não perguntei o preço, mas me é muito útil!
Os dois se olharam, sem saber o que dizer. Ambos com um brilho diferente nos olhos, querendo descobrir um ao outro, conhecer. Um leve sorriso se esboçou no rosto de Megan. Harry retribuiu. O silêncio estava começando a ficar constrangedor, algo precisava acontecer naquele instante e...
- Olha! Que cama enorme! – Megan reparou na cama, do nada – Da vontade de se jogar nela! – Ela deu a volta na cama e se sentou do outro lado – Senta aí, Harry, é macia! – Ela se impulsionou na cama ao sentar, provando a elasticidade do colchão.
Harry se sentou no lado oposto da cama, percebendo nitidamente a intenção dela de quebrar o clima formal que havia se instaurado. Ele se escorou nos travesseiros da cabeceira da cama.
- Pelo visto sua cabeça já parou de doer, né? – ele sorriu – pra ficar se balançando desse jeito...
- Na verdade não. – ela disse enquanto se ajeitava melhor na cama, ao lado de Harry – Mas reclamar não vai ajudar a passar, vai? Aliás, nem perguntei como você está! Chegou a se machucar na queda? – ela de repente pareceu preocupada.
- Hm, dei uma batidinha na cama, mas nada sério!
- Tem certeza? Onde foi? – ela virou-se pra ele e o olhava bem preocupada.
Harry estava encantado com o jeito dela falar, com o jeito com que olhava pra ele, com o ar frágil que ela emanava, com a beleza dela. Ainda não tinha tido a chance de olhar detalhadamente para o corpo dela sem que ela percebesse, mas pelo pouco que ele pode discretamente notar, era perfeita.
- Ah, foi na cabeça, mas eu estou bem, nada comparável à sua batida. Pelo menos eu não desmaiei! – Harry sorriu de leve.
- É... Que bom! Olha, acho que se você tivesse desmaiado eu teria te deixado no chão até você acordar, porque não conseguiria te levar no colo até a cama.
- Mas eu também não consegui te levar até a cama!
Ela sorriu abertamente.
- Haha, é mesmo. Mas você tentou vai... o que vale é a intenção, eu te agradeço.
O sorriso dela foi se desfazendo e eles se olharam mais seriamente. Megan transpassava o mesmo ar de admiração por Harry que ele demonstrava por ela. Passaram alguns segundos se olhando nos olhos, como se reconhecessem um ao outro. Harry via vida nos olhos dela, Ela emanava alguma coisa diferente, como se fosse um ímã, que o atraía inexplicavelmente. Então, Megan disse, sem mudar sua expressão, ainda fitando Harry:
- Eu vi você e a Ágatha antes de desligarem a luz.
Harry ficou em silêncio por um tempo, lembrando de como Ágatha tomou a iniciativa e partiu pra cima dele. E de como ele aceitou a investida dela. O que Megan esperava que ele dissesse? Antes, ele realmente demonstrou algum interesse em Ágatha, mas como explicar que não era nada comparado ao que ele estava sentindo por Megan, naquele instante? Será que ele devia dizer que sentia algo diferente por ela?
- E porque não foi conversar conosco logo que nos viu? – Harry tentou dar uma de inocente.
- Porque acho que vocês estavam ocupados demais para que eu interrompesse. – Ela manteve o mesmo ar natural de antes.
Harry sabia que Megan não era idiota, e que não adiantaria negar que eles quase se beijaram.
- Bom, de fato, se não tivesse havido o tumulto acho que nós ainda estaríamos nos beijando lá na sala. – ele disse, com um pouco de culpa. – Mas não quero que pense mal de mim, não fico dando em cima de ninguém. Sei que ela é sua amiga mas, ela foi quem começou... Eu só segui meus instintos depois. – Harry ficou um pouco sem jeito.
- Não se preocupe Harry, eu sei a amiga que tenho. – ela sorriu, achando engraçado o modo com que Harry quase pedia desculpas a ela. – Conheço as técnicas da Ágatha para capturar suas presas... Devo admitir que eu e ela somos bem diferentes nesse ponto, aliás, somos diferentes em muitas coisas, não sei como a gente é amiga há tanto tempo.
- É, eu percebi que vocês são diferentes. – Harry disse, pensando se Ágatha realmente o tinha considerado uma “presa”. - Desde quando são amigas?
- Desde que éramos bem pequenas. Nossas famílias são amigas há muito tempo. Apesar de termos algumas linhas de raciocínio diferentes.
- Ahm. – Harry não sabia ao certo o que dizer.
- O que eu queria dizer Harry, é que... Bem, não quero que você me entenda mal, isso não é uma cantada e eu também não estou dando em cima de você. – Harry prestou muita atenção quando ela disse isso. – Mas eu não me senti bem ao ver vocês juntos.
Harry apenas observava, estático, esperando o que viria a seguir.
- Não estou dizendo isso por ter ficado com ciúme ou por estar de mal com a Ágatha, não. É que, pode parecer idiota o que vou te dizer agora, mas você tem alguma coisa diferente Harry. Não sei dizer o que é, só sei que você tem. Eu sinto isso. Não queria que a Ágatha te usasse como ela faz com os outros garotos.
Harry não sabia o que dizer, estava maravilhado, era exatamente o que ele estava sentindo por ela. Sentiu-se uma criança, feliz por ter ganhado o presente que queria, e tinha vontade de abraça-la infantilmente, mas manteve uma postura adulta e a olhou seriamente.
- Eu sei do que você está falando, Megan. Por incrível que pareça, também sinto isso em você.
Ela sorriu. Harry também.
- Tem idéia do que poderia ser isso? – ela disse, com bastante inocência – Já senti isso em algumas pessoas, que cruzavam por mim na rua ou no mercado, mas nada comparado ao que você tem.
- Como assim, já sentiu isso em outras pessoas? – Harry estava curioso e, no fundo, um pouco enciumado.
Megan ficou em silêncio durante um tempo e desviou o olhar.
- Bom, eu acho que não te conheço a tempo suficiente pra contar essas coisas.
- Que coisas? Do que você está falando?
Megan suspirou e tornou a olhar para Harry, como se tomasse coragem para contar algo.
- A maioria das pessoas que sabe disso acha que eu sou louca, bruxa ou coisa assim. Mas não quero que você pense essas coisas de mim. Será que você consegue não me tratar diferente depois do que eu te contar? – Megan estava muito insegura e Harry percebia isso.
Harry teve vontade de dizer que ela não precisava se preocupar porque ele também era bruxo e entenderia. Mas percebeu que talvez ela não tivesse o mesmo conceito de “bruxo” que ele.
- Eu não posso garantir nada, porque se você me disser que é uma assassina psicopata eu vou ser obrigado a sair correndo feito um louco e bater naquela porta até derruba-la. Mas prometo tentar entender.
A tentativa de Harry de deixa-la mais descontraída funcionou, porque ela sorriu e pareceu aliviar um pouco a tensão.
- Está certo então... – ela disse ainda sorrindo – Acho que talvez você possa entender mesmo. É que, desde pequena, algumas coisas estranhas acontecem comigo. – Ela ficou mais séria. – Eu não tenho controle, não sei o que é que eu faço que de repente as coisas começam a tremer... ou as lâmpadas estouram. Às vezes eu sei o que vai acontecer no outro dia, ou apenas tenho pressentimentos de que algo vai ser bom ou ruim para alguém.
Harry ouvia atentamente. Era inacreditável o que ela dizia. Ele estava vendo nela a si próprio quando criança. Ele também fazia vidros desaparecerem do nada, e seu cabelo crescia de um dia para o outro sem que ele tivesse controle. Só não tinha a parte das premonições, mas o resto era muito familiar. Mas não podia ser, ela não podia ser uma bruxa e não saber disso. Não com aquela idade.
- E ninguém nunca falou com você sobre isso, quero dizer, você nunca recebeu uma carta, um chamado para uma escola ou coisa assim?
Megan o olhou de forma estranha, obviamente sem entender nada do que ele estava dizendo e então Harry percebeu o quanto era absurdo pra ela o que ele havia dito.
- Ahm, não, não recebi nenhuma carta nem nada. Mas minha mãe é muito ligada a mim e sempre me tranqüilizou, disse que isso também acontecia com ela antes de eu nascer. E também acontecia com a minha avó. Minha mãe só disse que com ela as “coisas” não eram tão fortes quanto são comigo.
- Fortes? O que seria uma coisa forte?
Megan o olhou com ar de confissão.
- Com quatro anos eu transformei toda a minha casa em escombros em 5 segundos.
- Você destruiu a sua casa?! – Harry estava incrédulo.
- Sim. Meu pai me levou ao parque e eu não queria voltar pra casa. Então ele teve que me levar de volta à força e quando nós chegamos na frente de casa eu simplesmente olhei pra casa e fechei os olhos, irritada. Tudo começou a desmoronar, e quando eu abri os olhos de novo só tive tempo de ver a chaminé tombando sobre uma montanha de escombros e poeira.
Harry estava abismado. Não sabia o que pensar.
- E alguém se machucou?! Tinha alguém na casa?!
- Felizmente minha mãe estava na casa dos pais da Ágatha e ninguém se machucou. Mas nós passamos por um período muito difícil até conseguir reconstruir a casa, tudo que estava lá dentro foi destruído. Com o tempo meus pais foram me ensinando a controlar meus sentimentos e as coisas que eu penso, então os acidentes foram diminuindo. Mas se sinto algo forte, como raiva ou ódio, as coisas fogem do controle.
Megan parecia triste ao lembrar disso.
- Nossa eu, eu não sei o que dizer, estou chocado. – Harry tentava decifrar isso a todo custo, mas não sabia mesmo o que poderia estar acontecendo com ela.
- E isso não é tudo. – ela não estava mais olhando para Harry, o que a deixava com um ar ainda mais triste, iluminada à luz fraca da “varinha-lanterna” na mão de Harry. - Às vezes eu consigo saber o que as pessoas estão pensando. Mas isso não é sempre, é só com pessoas próximas a mim, que eu conheço há mais tempo.
Harry estava muito intrigado. Isso só seria normal com bruxos treinados, ele mesmo havia treinado legilimência, a arte de ler mentes, e não tinha obtido sucesso facilmente.
- E é por isso que eu disse que você tem alguma coisa diferente, Harry. E por isso que eu me senti mal quando vi você e Ágatha juntos. Algo me fez sentir que aquilo não seria bom. Não seria bom mesmo. Eu apenas sinto isso. – Ela o olhou – Algumas pessoas tem o que você tem, mas eu não sei dizer o que é. Eu percebi isso em você quando te vi na casa do seu primo hoje cedo.
Harry julgou que essa “coisa” que ela tinha sentido nele talvez fosse o fato de ele ser um bruxo, mas não achou que seria um bom momento para explicar essas coisas a ela. O que o deixava mais intrigado era como ela poderia saber isso, sendo uma trouxa? Mas Harry não esquecia o que tinha acontecido antes, quando ele tocou na pele dela. Com certeza ela tinha alguma coisa que Harry não sabia explicar.
- Então Harry? Você vai sair correndo agora e bater na porta até derruba-la? – Megan perguntou, irônica, vendo a expressão de dúvida de Harry – O que você está pensando?
- Eu simplesmente não sei o que dizer Megan. Estou muito impressionado com tudo que você disse.
- Vai me tratar diferente agora...? Acha que sou louca? – Megan pareceu um pouco triste ao perguntar isso.
- Não, de maneira nenhuma! Você tem um talento especial e isso não é motivo pra eu te tratar diferente! Eu só estou tentando... entender.
Ela pareceu mais tranqüila ao ouvir isso.
- Mas o que há para entender nisso?
Harry respirou fundo e olhou bem nos olhos dela.
- Megan, antes de você acordar do desmaio, aconteceu uma coisa estranha também. Quando eu toquei em você. – Harry a olhou com seriedade, finalmente dizendo a ela o que ele queria.
Megan o olhava com atenção e curiosidade.
- Eu toquei no seu rosto para ver como você estava e de repente algo me prendeu a você. Foi como se algo passasse de você pra mim, algo que me fez sentir muito bem. Eu não sei explicar o que foi aquilo, nunca tinha sentido nada parecido antes.
Megan parecia mais espantada que Harry ao saber daquilo.
- Como assim?
- Sei lá! Não é algo que eu consiga explicar, só sei que alguma coisa muito fora do normal aconteceu. Você não deve ter sentido também porque estava desmaiada, mas eu senti algo muito bom mesmo.
- Ninguém nunca disse que sentiu algo diferente ao tocar em mim, isso é realmente estranho.
Os dois ficaram quietos. Com o quarto em perfeito silêncio, eles puderam ouvir pequenos ruídos vindos de um dos quartos vizinhos. Mas nenhum dos dois comentou sobre isso.
Harry podia ver a mente de Megan trabalhando.
- Quer fazer de novo?
Megan disse, com algum entusiasmo.
- Fazer o que de novo? Tocar em você? – Harry quase não conseguiu esconder sua imensa vontade de fazer isso.
- É! Assim eu vejo se também sinto algo diferente tocando em você! – Ela passava uma alegria inocente ao propor isso. Como se fosse uma criança falando.
- Certo! Acho uma boa idéia!
Megan mexeu-se na cama, ficando ajoelhada de frente pra Harry e vendo isso ele também se endireitou ficando de frente pra ela. Ela sorriu e respirou fundo, ansiosa.
- Vamos lá então...
Megan começou a levantar sua mão direita, olhando fixamente para Harry. Harry, de frente pra ela, levantou sua mão esquerda, segurando com a direita sua varinha, que ainda era a única iluminação que tinham no quarto. Eles foram aproximando suas mãos, bem devagar, elas foram ficando próximas... próximas... próximas... até que se encostaram.
Um turbilhão de sensações invadiu o corpo de Harry. Ele sentiu o mesmo arrepio na espinha que havia sentido antes. Era como tomar um refrescante banho gelado num dia de muito calor, só que a água corria por dentro dele. Sentiu a mesma energia pulsante e frenética fluir do corpo dela e entrar no dele, se sentia muito bem, feliz, alegre. Estava sorrindo. Harry viu que Megan também sorria, mas ela não parecia tão deslumbrada como ele estava. Pensou em perguntar se ela estava sentindo o mesmo mas não teve tempo...
A partir daquele momento, gradualmente, a luz da varinha na sua mão começou a aumentar, e ficar cada vez mais forte. Harry e Megan olharam espantados mas a varinha não parava de se fortalecer, até que a luz fugiu completamente do controle, e se expandiu em um clarão surpreendente que deixou o quarto inteiro branco, como um relâmpago, e então caiu da mão de Harry, no mesmo instante em que Megan desencostou sua mão da dele. O quarto mergulhou no breu total, outra vez.
- Você viu isso!? – Harry perguntava extasiado. – Você viu?!
- Eu, eu vi sim!! O que aconteceu?! Sua lanterna ficou louca!
- Foi inacreditável! Estava sentindo a mesma coisa que eu!? – Harry estava eufórico.
- Bom, senti uma espécie de formicação gelada, foi legal!
- Você só sentiu isso? – Harry estava decepcionado – Eu senti muito mais eu acho!
- E como foi?
- Ah, não sei explicar, foi fantástico!
Harry pegou sua varinha, estava prestes a dizer “lumus” baixinho novamente quando Megan o interrompeu.
- Então me dá sua mão de novo. Se você gostou mesmo acho que essa pode ser uma boa maneira de passarmos o tempo!
Pela voz dela enquanto dizia isso, Harry percebeu que ela estava sorrindo. Mesmo no escuro, Megan encontrou a mão de Harry e entrelaçou na sua, criando novamente todo aquele efeito metafísico. Ele ficou alguns segundos anestesiado de tudo, apenas sentindo aquilo ao máximo. Mas ele queria mais. Ele queria ela, e tudo que ela representava. Harry procurou a outra mão dela, encontrou e entrelaçou na sua. A mão dela era delicada, dava a impressão de ser frágil, mas no mesmo instante em que ele encostou na mão dela ela também retribuiu a vontade de tocar nele. Ele começou a sentir as coisas mais fortes, com mais intensidade. Tinha impressão de ouvir música dentro da sua cabeça, era a melhor sensação que ele já tinha sentido na vida.
Harry queria chegar mais perto de Megan, queria mais que encostar a mão na mão dela. Tinha vontade de beijar e abraçar ela, mas por mais que ele estivesse com os sentidos alterados ele precisava pensar, e não podia arriscar a fazer algo contra a vontade dela.
- Não se preocupe Harry Potter. Isso não vai ser contra minha vontade.
Ela havia lido os pensamentos dele. |