Capítulo IV
Harry resistiu à vontade de socar as paredes do elevador quando Hermione saiu
praticamente a correr do saguão do hotel, mas controlou-se. Ficou claro que nada do que
pudesse dizer ou argumentar a convenceria a ficar e terminar o que haviam começado.
Ficou olhando na direção da porta, por onde ela não demorou a desaparecer.
Derrotado e deprimido, ficou grato por ninguém haver entrado no elevador com
ele. Quando as portas se abriram em seu próprio andar, saiu e dirigiu-se para seu quarto,
descobrindo que batera a porta ao sair. Enfiou a mão no bolso, para procurar a chave do
quarto, lembrando em seguida que ela ficara na mesa da ante-sala, onde a colocara
quando chegara com Hermione, na noite anterior. Procurou mais alguns segundos, depois
praguejou alto e retornou ao elevador. Não tinha alternativa senão descer até o saguão e
pedir outra na portaria. Talvez isso fosse uma espécie de justiça poética.
No saguão, comportou-se como se estivesse trajando um terno executivo. Saiu do
elevador e dirigiu-se à portaria, onde foi atendido na mesma hora por um porteiro
boquiaberto. De posse da chave, retomou ao elevador com a maior dignidade que
conseguiu reunir, e subiu até seu andar. Ainda ofegante do exercício e frustrado de várias
formas, Harry entrou no quarto e deixou-se cair no sofá, onde fincou os cotovelos nos
joelhos, inclinando a cabeça para a frente e apoiando-a nas mãos. Tinha a impressão de
que seus ombros carregavam o peso do mundo. O interessante era que a última coisa que
esperava era que Hermione fugisse dele. Um fato desses só vinha provar como ela era
pouco razoável quando se tratava de relacionamentos, já que, ao partir, dissera que fora o
contrário: ele a abandonava. Isso não fazia sentido em absoluto, nem ele podia entender
como Hermione podia pensar essas coisas.
Pois bem, se era isso mesmo o que ela pensava, se era assim que ela sentia as
coisas, não havia nada a fazer. Não lhe restaram mesmo muitas opções. O melhor era
ficar sem ela, como estava antes de encontrá-la, horas atrás. Ainda assim, era difícil
acreditar que tanta coincidência fosse resultar em nada: dez anos sem ver um ao outro e
se encontram na véspera de seu casamento. Acreditava que aquilo teria um significado
especial, tratava-se de uma chance para voltar atrás e redimir erros do passado, não podia
terminar daquela forma. Era a mesma sensação que Harry tivera na noite em que ela fora
arrancada de seus braços pelos pais e pela polícia.
Embora fabricasse argumentos para se tranqüilizar, Harry não acreditava neles.
Amara Mione quando ambos tinham dezoito anos e fugiram para casar, e amava Mione
agora. Não havia dúvidas nem nada mudara. A não ser por um pequeno detalhe de menos
importância: seu casamento com Gina estava marcado para o dia seguinte.
Engraçado como sua vida parecia ter dois enfoques completamente diferentes,
duas épocas diferentes e duas pessoas diferentes. Ou melhor, sentia-se recuperado, como
se Mione tivesse aparecido para salvá-lo de um relacionamento desastroso, no qual só iria
magoar a si mesmo e à futura esposa.
Gina... como iria explicar para ela que passara a noite com outra mulher? Não
queria nem pensar no assunto ainda. Até então, tinha a si mesmo na conta de um homem
honrado e decente. Para continuar pensando assim só havia uma forma: ser honesto com
ela e contar tudo.
Tendo descoberto que ainda amava Hermione, e provavelmente nunca deixara de
amar, não era possível, em seu raciocínio, casar com Gina. Parecia não ser muito bom em
saber o que sentia de verdade. Amor... o que ele sabia sobre isso? Há dezesseis horas
atrás, quando desembarcara em São Francisco, presumira estar apaixonado por Gina. Seu
raciocínio lhe dizia que isso deveria ser verdade, ou então nunca teria pedido que ela se
casasse com ele. Pelo que sabia, um homem não se compromete dessa forma a passar o
resto da vida com uma mulher a menos que esteja pronto para isso. Seria possível que ele
amasse as duas, ainda que de forma diferente?
Porém a questão principal não era a respeito de amar ou não Gina. Era preciso
decidir o que fazer a respeito do casamento. Ainda que não gostasse, porém, só existia
uma alternativa a esse respeito. Tendo passado a noite com Hermione, soube que seu
casamento com Gina seria um erro, quer a amasse muito ou não.
O problema é que o fato de cancelar à última hora a cerimônia, humilhando Gina
perante sua família e amigos, era também impensável. Ela não merecia aquilo.
Tratava-se de uma mulher maravilhosa, e ele realmente se importava com ela. E
mesmo esquecendo o aspecto sentimental sobre a cerimônia, havia o problema dos
custos, pois o custo das despesas não fora pequeno. O pai dela gastara por volta de vinte
mil dólares entre o jantar e a recepção. Harry investira outros cinco mil de suas próprias
economias.
Recostou-se contra o sofá, olhando cuidadosamente para o teto decorado. Nunca
se considerara um sovina, mas também não queria deixar que alguns milhares de dólares
decidissem o curso de sua própria vida.
Enfim, considerando tudo o que acreditava e mais o que sabia, o certo seria
colocar agora um final nos preparativos do casamento, enfrentando Gina e sua família
antes que fosse tarde demais, não importava quão difícil ou desagradável se revelasse
essa tarefa.
O problema é que saber isso não tornava seu curso de ação mais fácil, pois a idéia
de confrontar a noiva, depois os pais e a família, além das dezenas de parentes que
estavam viajando de todas as partes do país para a festa de casamento não era, de modo
algum, animadora.
Harry imaginava como se tinha metido naquela situação. Devia haver alguma
coisa errada com ele, concluiu. Chegara a considerar a possibilidade de continuar com os
planos e casar com Gina, porque sentia-se mal pela situação e não queria envergonhá-la,
nem causar inconvenientes para as famílias. Uma coisa dessas era o caminho mais curto
para a infelicidade conjugal, tanto para ela quanto para ele. Para resolver aquilo,
precisava primeiro de um sacerdote, depois de um psiquiatra, e isso só para começar.
Não havia um caminho claro e único para resolver seu procedimento imediato, e
Harry, para não piorar sua situação, resolveu tomar o único caminho possível para não
complicar mais a situação: a honestidade. Por mais doloroso que parecesse, o correto
seria confessar à noiva o que acontecera naquela noite com Hermione; depois, ele e Gina
resolveriam o que fazer em relação à festa de casamento e aos convidados.
Ainda tentando digerir os acontecimentos das últimas horas que haviam alterado
todo o rumo de sua vida, Harry tomou um longo banho de chuveiro e vestiu-se.
Continuou, porém, com a impressão de que deveria ser preso. Pelo menos seria mais fácil
do que enfrentar sua noiva e a família dela, isso sem mencionar os próprios parentes que
chegavam para o casamento, a começar de seu irmão. Contudo, sua decisão estava
tomada. Lidaria com Gina primeiro, depois com Hermione. Se sua ex-esposa da
adolescência imaginava que as coisas entre eles haviam terminado, estava redondamente
enganada. Por ele, as coisas estavam apenas começando. Ou melhor, recomeçando.
Estacionou à porta da casa dos pais de Gina exatamente ao meio-dia.
Ela estava na varanda, e sorriu para ele enquanto estacionava. Hary a observou,
como se a visse pela primeira vez, ou melhor, como se nunca a tivesse visto antes. O
corpo era pequeno, atraente e bem proporcionado, de traços delicados e finos; tão
diferente de Hermione quanto seria possível. Ao pensar nela, sentiu saudade dos
momentos que compartilharam na noite anterior, juntamente com uma pontada de culpa
pelo sofrimento que teria de causar à mulher que o recebia naquele momento.
Observando a noiva, Harry recordou a oportunidade em que primeiro se haviam
encontrado, um ano antes. Gina trabalhava como secretária, na firma que ficava do outro
lado do saguão onde ele tinha seu escritório; era eficiente, trabalhadora e ambiciosa. Fora
ela quem o convidara para o primeiro encontro, o que se constituiu em novidade no que
dizia respeito a Harry, que sempre tomava a iniciativa. Por outro lado, também apreciava
a mulher que sabia o que desejava. Não demorou muito para que ela o convencesse de
que eram bons juntos.
À medida que o tempo passava, os dois se comunicavam cada vez melhor, e
descobriram que partilhavam uma série de sonhos e objetivos. A carreira era um ponto
importante para ela, que conseguira passar de secretária da vice-presidência para o
escalão inferior de executivos, onde progredia a olhos vistos, pelos próprios méritos.
Nesse ínterim haviam conversado e resolvido marcar o casamento, pois não parecia haver
sentido em adiar mais tempo. Então, a dois meses do casamento, marcado para junho,
Gina decidira mudar de emprego, aceitando a oferta de uma companhia rival. Parecia a
Harry um movimento horizontal, no qual não havia chance imediata de progresso, mas
ele se absteve de opinar, pois a carreira era um assunto dela. Gina era capaz de tomar
suas próprias decisões profissionais.
Parecia mais bonita do que nunca ao aproximar-se dos degraus para recebê-lo.
Aquilo não melhorou em nada o estado de espírito de Harry.
— Como é, dormiu bem? — indagou ela, beijando-o nos lábios. Quando os lábios
se tocaram, foi impossível evitar a comparação. Algo mais ou menos como a diferença
entre um cão de companhia e um lobo selvagem; como um prato de comida caseira e uma
iguaria apimentada, a mesma diferença entre um comportado namoro caseiro e um caso
tórrido de paixão. As duas eram bonitas e desejáveis, mas apenas uma possuía empatia
total com sua alma, e não era Gina.
Levado por esses pensamentos, Harry achou que a coisa mais decente a fazer seria
falar logo com ela, contar tudo o mais depressa possível. Ainda antes de entrar na casa, e
seria exatamente o que teria feito se a mãe dela não chegasse para recebê-lo. Saindo para
a luz da varanda, Molly Weasley era uma versão mais velha de Gina, polida e formal.
— Parece que encomendamos um tempo maravilhoso para o casamento —
comentou ela, aproximando-se do casal. — Nessa época do ano sempre é arriscada uma
cerimônia a céu aberto, mas parece que o nosso sol da Califórnia vai tomar a ocasião
perfeita.
Uma agulhada de culpa perturbou a consciência de Harry. Gina era a única filha
do casal, que não poupava nada para fazê-la feliz, fato que era comprovado pela festa que
iriam oferecer. Perguntou-se se àquela altura os Weasley conseguiriam recuperar parte do
dinheiro aplicado na festa. Achou que seria quase impossível. Era tarde demais para
qualquer coisa, exceto ir em frente. Concordou com Molly, educadamente.
Os três entraram e logo encontraram o tio Jerome e da Beti, que estavam na casa
dos oitenta, mas pareciam vivazes e alegres, muito saudáveis para a idade avançada.
Cumprimentaram Harry como se já fosse da família, fato que seria completamente
verdadeiro não tivesse ele encontrado Hermione.
Logo depois das apresentações, repletas de frases formais, Harry olhou para Gina,
procurando uma forma de criar oportunidade a fim de conversar com ela e contar tudo.
Quanto antes aquilo acorresse, melhor seria para ambos, e melhor ele se sentiria, apesar
do sofrimento causado. Talvez se sentisse muito mal, era algo que só saberia na hora
certa. O que importava é que precisava fazer aquilo, não havia outra forma. O quanto
antes, melhor. Ainda que estragasse a refeição que tinham pela frente.
— Achei que seria bom almoçarmos aqui fora, no pátio — convidou Molly,
passando com eles pela sala de jantar formal atravessando as portas que levavam à
varanda.
— Ótima idéia, Molly. Reparou como esse ano as flores estão bonitas? — disse tia
Beti, apontando os canteiros à distância, logo após o grande gramado impecável.
As duas senhoras mais velhas deram os braços aos maridos e Harry foi compelido
a fazer o mesmo com Gina. Os três casais passaram em procissão pela porta, e pareceu a
ele que entrava numa vida que na verdade era um ciclo. Conseguiu, por um instante,
enxergar a si mesmo casado com Gina, tomando o braço dela quando tivesse a idade dos
pais à frente, e era como se nada tivesse mudado ali nas várias gerações. Gina seria mais
um ciclo a se repetir naquela casa, embalada pelo vento nas árvores que cercavam a
propriedade e pelo canto dos passarinhos que cantavam ali. Mas o canto que escutava não
parecia alegre e vivaz, e sim a repetição de um ritual que ali acontecia e continuaria a
acontecer sempre.
Teve vontade de gritar para que os pássaros ficassem quietos, para que se fossem
ou piassem de forma diferente; naquele instante se deu conta de que seu sistema nervoso
ficara abalado, e a tendência era piorar. Sentiu uma necessidade premente para conversar
o mais rápido possível com Gina. Seria melhor para ambos.
— Preciso conversar com você — sussurrou ele para a noiva. — Em particular.
Ela se voltou para encará-lo.
— Meu bem, seja o que for, pode esperar até depois do almoço, não pode?
— Na verdade, não. Eu preferia que fosse agora.
Se ela tivesse a menor idéia da gravidade do assunto que precisavam conversar,
sairia dali correndo e gritando. A necessidade de confessar fazia com que o próprio Harry
tivesse vontade de correr e gritar pelo gramado.
— Daqui a um minutinho, está bem? — respondeu ela, saindo para a cozinha.
Harry ficou ali, conversando com os tios dela e controlando-se para manter o tom
e a polidez. Não foi fácil conversar sobre banalidades enquanto seu interior se encontrava
em tumulto, numa crise sem precedentes. Em pouco tempo, Gina retornou com uma jarra
de chá gelado, que produzia um tilintar refrescante, devido aos cubos de gelo.
— A que horas disse que chega seu irmão? — quis saber Molly, dirigindo-se a
Harry.
Estavam acomodados a uma mesa de pés em ferro trabalhado e tampo de cristal,
sob a proteção de um enorme guarda-sol multicor. O sol brilhava até pouco tempo antes,
porém no momento encontrava-se oculto atrás da camada de nuvens. O humor de Harry
combinava com as nuvens mais escuras, ao longe. Sentia-se como se estivesse sozinho
sob uma nuvem negra e carregada, esperando que um raio o atingisse a qualquer
momento. Percebeu que seria difícil conversarem antes do almoço e a futura sogra o
lembrava de que o irmão chegaria em pouco tempo.
— Steve e Lisa devem chegar por volta das duas da tarde — respondeu ele,
percebendo que todos olhavam para ele, esperando a resposta.
Gina notou que ele parecia ausente e pensativo, intervindo para completar a
resposta:
— Ele vem para organizar a despedida de solteiro — disse ela. — São irmãos
muito unidos, não é, meu bem?
— Somos, mesmo. Sempre fomos...
— Claro, George e Fred vão ajudar, também. Eles são muito unidos, também.
Você os conheceu ontem à noite, não foi? — perguntou Molly ao futuro genro,
passando-lhe os pãezinhos.
Não seria muito fácil esquecer os irmãos de Gina, pois estava com eles quando
reencontrara Hermione. Parecia algo ocorrido há muito tempo, embora mal se tivessem
passado doze horas.
— Não me disseram nada, mas acho que acabaram embebedando Harry, e ele
resolveu ficar no hotel, para ir mais cedo para a cama — disse Gina, apanhando a terrina
de salada.
Harry chegou a abrir a boca para protestar que uma caneca de cerveja não se
poderia chamar de bebedeira, mas pensou melhor e acabou sorrindo com ar culpado, o
que não foi difícil. Afinal, fora cedo para a cama.
— Não provoque seu noivo. Deve existir respeito entre o casal — opinou tia Beti.
— Hoje em dia, acho que boa parte das separações é por causa disso. Os jovens não têm
respeito mais um pelo outro.
Aquele comentário apenas piorou o estado de ânimo de Harry, que nem casara
ainda e já faltara com o respeito à sua noiva.
— Hoje tudo é mais rápido. Até o que as pessoas sentem. Casam e descasam como
quem passa de um bonde para outro. Parece que ninguém sabe o que quer — comentou
Jerome, olhando para o casal mais novo.
Outra pontada de culpa. Porém o motivo era o oposto, já que sabia exatamente o
que queria.
— Não pode imaginar como andam as coisas por aqui, Harry — contou Molly. —
Gina e eu levantamos ao raiar do dia, e começamos a correr de um bairro para outro, na
cidade. Assuntos de última hora, atrasos nas entregas e improvisos de última hora. Foi
uma verdadeira odisséia, uma loucura!
Gina, que mastigava uma garfada de camarão, arregalou os olhos, enfatizando o
que a mãe dizia. Apanhou o guardanapo e limpou os lábios, depois tomou um gole de chá
gelado.
— Mal posso acreditar que você dormiu metade da manhã, Harry. Você não é de
fazer essas coisas — comentou ela, olhando para o noivo.
— Eu... tive problemas para conseguir dormir — respondeu ele, imaginando que
toda a família dela sabia o que ele estivera fazendo em vez de dormir. — Talvez tenha
sido o vôo e a diferença de horários. Sabe como é, estou acostumado com o horário da
Costa Leste.
— Um mal que é sinal dos tempos — lembrou o tio de Gina.
— As coisas andam tão rápido hoje em dia que nem o sono consegue acompanhar.
Fazem tudo mais rápido, depois não sabem o que fazer com o tempo que sobra, ou então
sentam na frente da televisão, assistindo à vida dos outros em vez de cuidar da própria
vida.
— É verdade. Esse hábito eu não tenho. Prefiro uma boa conversa — afirmou
Harry, olhando em seguida para a noiva, esperando que ela entendesse sua indireta.
Gina brindou-o com um sorriso confiante. Nem uma vez desde que haviam
decidido casar-se ela externara nenhum tipo de dúvida ou má vontade em relação a esse
assunto. Se experimentava esse tipo de sentimento, era algo que permanecia oculto.
Parecia saber exatamente o que desejava.
— Imaginem só! A uma hora dessas, amanhã, você vai estar casada, querida —
comentou tia Beti. — E eu que ainda lembro quando andava por aí, de tranças, com suas
bonecas...
— Nossa, tia Beti, isso faz muito tempo! — Gina riu.
— Nem tanto, minha querida. Quando você chegar à minha idade, vai ver que o
tempo passa depressa demais. A gente se distrai um pouco e pronto! Todos vocês viram
adultos também. Quando tiver filhos, aproveite, minha querida, porque dura pouco.
Principalmente a época em que eles ficam perto da gente. Vão embora tão rápido que
levam uma parte da gente. Mas vale a pena.
Harry já ficara arrepiado à menção do casamento que ele queria adiar. O conceito
de filhos e a responsabilidade que eles traziam não faziam nada para melhorar seu estado
de espírito.
Gina esticou a mão por sobre a mesa para tocar a dele. — Sou a mulher mais feliz
do mundo por casar com um homem como Harry.
Ele chegou a sentir tontura.
— O amor é uma coisa maravilhosa, não acham? — comentou tia Beti, sorrindo
para o casal e limpando um começo de lágrima nos olhos com o guardanapo.
De alguma forma Harry conseguiu paciência para responder calmamente as
perguntas de tio Jerome sobre o trabalho de ambos, que dizia respeito à importação e
exportação, e ainda responder com educação as perguntas das mulheres. Assim que foi
possível sem parecer mal educado, voltou a tocar no assunto que o interessava depois que
todos terminaram as saladas.
— Gostaria de roubar Gina por alguns minutos — insistiu Harry, erguendo e
estendendo a mão para ela.
— Estou dizendo que vou ser só dele o resto da vida depois do dia de amanhã, mas
ele não quer saber — brincou Gina.
Molly olhou para o relógio e Harry percebeu o que pensava. O vôo de Steve e Lisa
chegava em pouco mais de uma hora e estavam pelo menos a quarenta minutos do
aeroporto, o que significava que não teriam muito tempo se ele pretendesse chegar na
hora. Ele olhou para a sogra.
— Dez minutos é tudo quanto preciso — declarou ele. — Prometo que não vou
me atrasar para ir ao aeroporto.
—Leve-o até o jardim—concordou Molly, com uma piscadela.
Harry teve vontade de dar um beijo na sogra. Quando mais isolada a área, melhor.
Gina era conhecida por seu temperamento explosivo, que ele já presenciara várias vezes
ao vê-la contrariada, e tinha uma dose razoável de certeza que seria exatamente esse o
caso, dado o que pretendia conversar com ela. Não a poderia culpar por nada que fizesse,
mas com certeza seria melhor estar bem longe dos outros.
Começaram a afastar-se. O local ao qual Molly se referira como jardim era uma
área determinada, na lateral do terreno em volta da propriedade, onde cresciam arbustos
floridos. No caminho para lá havia um extenso gramado, recentemente aparado,
dominado ao centro por um grande salgueiro, cujos galhos vinham de uma altura
respeitável até o solo, como uma cascata verde, justificando o nome de chorão. Quando
ainda estavam no meio do gramado, Gina pôs-se a correr de braços abertos na direção da
árvore, como uma criança brincando, deixando que as folhas mais baixas fizessem
cócegas em seu corpo ao passar por elas, voltando depois o lado dele.
— Conheço muito bem você, Harry Potter. Quer ficar sozinho comigo para poder
se aproveitar de mim, com seus braços de polvo e sua mente depravada — disse ela,
beijando-o nos lábios.
O clima não estaria nada propício enquanto Gina mantivesse aquele espírito
brincalhão. Harry desvencilhou-se do abraço dela com dificuldade, o que não foi nada
fácil. Ela é quem parecia um polvo, tornando impossível sua tarefa. Sorriu
controladamente para ela, que insistia em manter o maior contato físico possível, como se
adivinhasse o que ele pretendia dizer e dificultasse o máximo possível a chance de
escutar.
— Gina, por favor...
— Relaxe um pouco, meu bem. Acho que está muito tenso.
— É que existe um assunto importante que eu preciso falar com você.
— Pois pode falar, estou escutando — afirmou ela, apoiando-se no tronco da
árvore e olhando para ele com curiosidade.
O momento que ele provocara finalmente se cristalizava ali, sob o salgueiro. Harry
sentiu um aperto no coração pelo que teria de dizer a ela. Porém, não conseguiu manter o
olhar preso ao dela, e baixou os olhos para a grama.
— Antes que a gente prossiga com esse casamento, existe uma coisa que eu
preciso dizer—declarou ele, juntando toda a coragem que conseguiu reunir.
— Isso parece sério mesmo — disse ela.
Mesmo nesse instante, ela não fazia idéia o quão sério podia ser aquilo. Harry,
sem querer entrar direto no assunto, optou por contar o início da história.
— Como você sabe, nasci e fui criado em Spokane.
— Claro.
— Acontece que ao final do colegial...
— Por acaso você vai me contar algum problema que teve com a lei? Vai me dizer
que estou casando com um criminoso condenado? Um fugitivo da justiça?
Ele pensou que a alternativa seria bem mais agradável e menos séria.
— Gina, por favor! Não é capaz de escutar sem interromper?
— Desculpe. Não vai acontecer mais — prometeu ela, com o indicador nos lábios
para prometer silêncio.
Ainda mantinha um sorriso brincalhão nos lábios.
— Pode falar que eu escuto quietinha.
Por um instante, Harry imaginou que ela saberia exatamente o que ele queria dizer
e tentava evitar de todas as maneiras que conhecia, fugindo dele ao almoço, depois
tentando adiar de todas as formas. O melhor era falar com clareza, para não deixar espaço
para novas interpretações.
— Pois nessa época, comecei a sair com uma garota chamada Hermione Granger,
e nos apaixonamos de verdade. Quer dizer, sabe como é, nessa idade.
— Ah, já entendi. Você deixou a menina grávida, não foi, seu malandro? Harry
Potter, você não presta, sabia?
— Não, Gina, não foi nada disso — retrucou ele, começando a ficar impaciente de
verdade com a brejeirice de GIna. — Eu e ela não... quer dizer, a gente nunca... enfim,
não aconteceu nada disso que você está pensando.
— Desculpe-me — disse ela, endireitando os ombros e encarando-o.
Permaneceu em silêncio, o que significava que ele tinha agora a atenção que
desejava.
— Como eu dizia, Hermione e eu estávamos totalmente apaixonados —
recomeçou ele, percebendo que Gina tinha vontade de fazer mais algum comentário. —
De qualquer forma, a família dela não me aprovava. Acho até que não era pessoal. Não
aprovariam ninguém para a filha deles, nem achavam que ela estivesse com idade
suficiente para levar a sério qualquer compromisso.
A pequena pausa que fez, olhando para sua noiva, bastou para saber que agora
Gina estava interessada. Escutaria em silêncio daí por diante.
— Pode continuar. Não vou interromper mais — reforçou ela.
— Acontece que os pais dela tinham planos que não incluíam casamento. Já
tinham tudo combinado, desde a infância. Não me surpreenderia se tivessem já escolhido
um marido. Mas queriam que terminasse a faculdade primeiro.
— Muito sensato, aliás — comentou Gina, com certa formalidade.
— O caso é que éramos adolescentes apaixonados. Não tínhamos a menor
intenção de deixar que outras coisas interferissem — afirmou Harry, sentindo de novo a
indignação da época. — Enfim... ficamos sabendo que a intenção da família dela era nos
separar ao final do colegial, mandando-a para longe.
Harry fez uma pausa e Gina estreitou os olhos sem dizer nada.
— Então nós dois resolvemos fazer a única coisa que podíamos fazer para ficar
juntos — declarou ele, encarando-a. — No dia da festa de formatura, fugimos, e casamos.
— Casaram? — A palavra foi pronunciada em tom de quem se escandaliza, como
se repete um palavrão. — Como assim, casaram? Quer dizer, a uma altura dessas é que
você me conta isso? Devia ter falado antes...
— Eu sei, eu sei, você tem toda a razão — concordou Harry, sem poder culpá-la
pela irritação.
— Harry Potter, se você pretende me contar que tem uma esposa da qual nunca se
divorciou, é melhor ir rezando, porque acho que vou dar uns tiros em você.
Os olhos dela fuzilavam, e ele pensou que o espírito do velho Oeste se
manifestava ali, na forma como ela reagia. Por um instante, imaginou que ela poderia
estar falando sério, e que realmente seria capaz de fazer isso, ou aplicar um golpe de
kung-fu, arte marcial que praticava desde criança. Porém não terminara ainda.
— Calma, não me divorciei, porque não precisamos nos dar a esse trabalho. O
casamento foi anulado.
— Graças a Deus! — desabafou sua noiva, colocando a mão sobre o coração, num
gesto de alívio.
Nesse ponto as coisas se tomaram difíceis. Realmente difíceis. Seria a deixa ideal
para continuar o assunto e mencionar que reencontrara Hermione ali em São Francisco,
tantos anos depois. Seria o momento para explicar como viram um ao outro depois de dez
anos de separação e perceberam que ainda estavam apaixonados. Era a hora certa para
explicar como uma coisa leva à outra, e antes que tivessem consciência do que faziam,
estavam os dois na cama juntos. Toda a conversa anterior levara àquele momento ideal
para que as coisas que precisava falar fossem ditas de forma clara e de modo a não
deixarem dúvidas.
O momento para evitar que ele arruinasse toda a sua vida cristalizava-se ali.
— Existe algum motivo para você nunca ter mencionado essa outra garota antes?
— quis saber Gina, com uma ponta de desconfiança. — Quer dizer, quando me pediu
para casar com você seria uma coisa natural para se fazer, contar esse episódio de sua
vida. Enfim, pelo menos para me dizer que tinha casado uma vez.
— É que faz tanto tempo...
Na memória de Harry, a anulação do casamento era algo desagradável e sofrido
em sua vida, algo que o marcara de forma negativa, como a morte do pai.
— Mesmo assim, você devia ter me contado.
— Devia mesmo, você tem razão.
Ela suspirou resignada, como se tomasse uma importante resolução a contragosto.
Conseguiria lidar com aquele assunto.
— Pois eu acho que todos nós cometemos erros. Isso é uma coisa compreensível,
principalmente na adolescência — disse Gina. — Mas vou dizer uma coisa: não gostei
que tivesse escondido uma coisa dessas de mim. Dou valor ao fato de você ter coragem
para vir até mim antes do casamento e contar. Quer dizer, estou a ponto de me tornar sua
esposa e todos nós temos os nossos segredinhos, não é?
Harry prendeu a respiração. Seria naquele instante, ou nunca mais.
— Eu a amava. De verdade.
— Claro que amava, meu bem. Mas nessa idade as coisas acontecem assim
mesmo, e a gente sempre exagera quando lembra. Só que é preciso lembrar que faz
tempo, isso já passou e agora vivemos outro momento — afirmou ela, com ar de quem,
apesar de tudo, estava disposta a perdoar.
Nesse instante, que resumia toda uma manhã de preparação e oportunidades,
Harry chegou a abrir a boca para falar. Porém as palavras não vieram; o coração, no
peito, parecia a ponto de estourar com a intensidade das emoções.
— Gina! — chamou Molly, do interior da casa.
Ela olhou na direção do chamado, ansiosa para sair dali e terminar aquela sensação
embaraçosa.
— Ainda não acabei — acrescentou Harry, tentando impedir que ela se fosse.
— Já volto — anunciou ela, beijando o rosto dele e saindo a correr na direção do
chamado da mãe.
Observando-a no gramado, Harry passou uma reprimenda em si mesmo, pela sua
falta de iniciativa. Fizera a parte mais difícil, preparando-a para aquela conversa, agora
não podia deixar passar a oportunidade. Precisava buscar a coragem necessária para
completar o que já começara, pensou, praguejando. Começou a andar, ensaiando as
palavras que diria, assim que ela voltasse. Gina tinha todo o direito de saber o que
acontecera. Era seu dever contar a ela.
A ansiedade aumentara muito quando ela voltou, sem fôlego e agitada,
completamente esquecida da conversa anterior. Com certeza outro assunto a perturbava.
— Meu bem, temos um problema com o bufê — anunciou ela, com a testa
vincada. — Acontece que a gente pediu canapés com pontas de aspargo por cima, e
acabamos de saber que o pedido já saiu para ser entregue sem nada em cima.
Harry não acreditou que tivesse compreendido direito. Não duvidou de seus
ouvidos, mas devia ter entendido alguma coisa errada.
— Está preocupada com as pontas dos aspargos? — indagou ele, incrédulo.
— Claro, é um detalhe muito importante, meu bem. Minha mãe está ao telefone
com eles nesse instante — explicou ela, agitada.
— Ao telefone?
— Claro, é preciso lidar com esse assunto. Imediatamente. Mamãe diz que essas
coisas precisam ser resolvidas na hora; é preciso confrontar essas pessoas o quanto antes,
senão fazem o que querem conosco. Tem mais alguma coisa que queira dizer?
— Mais alguma coisa? — repetiu ele, percebendo que parecia um eco. — Não.
Odiou-se por sua atitude covarde. Deixar que os acontecimentos o atropelassem
não iria levá-lo a lugar nenhum. Era preciso agir, ser pró-ativo e não reativo. Fazer o que
achava certo e não caminhar para onde as circunstâncias o empurrassem.
— Ótimo — declarou Gina, beijando-o no rosto e correndo de volta para a casa.
Harry deixou-se ficar sob o salgueiro no meio do gramado, condenando a si
mesmo. Como servira nos fuzileiros, seu vocabulário de pragas era bastante extenso, e
quase todas foram usadas naquela oportunidade para qualificar a si mesmo, andando de
um lado para outro. Por fim, decepcionado com a própria covardia, sentou-se ficou
olhando para o céu. Mas não durou muito seu sossego.
—Harry — gritou Molly, pela porta da cozinha. — Não esqueça de seu irmão no
aeroporto!
— Já vou — disse ele, aproximando-se da casa. — Onde está Gina?
— Ela está no telefone, tentando resolver o problema com o pessoal do bufê. Mas
não é nada para se preocupar — informou a sogra, acompanhando-o até a porta da frente.
— Vão ter de corrigir tudo.
— Não me despedi de tio Jerome nem da tia Beti — lembrou ele, retornando ao
local onde haviam comido.
O casal saboreava um café, que Harry recusou, dizendo que não podia atrasar-se.
O irmão não conhecia a cidade.
— É melhor descansarem até amanhã — sugeriu tia Beti. — Só se casa uma vez
na vida, não é como esses moços que por qualquer coisa já estão se divorciando.
Aproveitem.
— Vou aproveitar, não se preocupem — respondeu ele, consultando o relógio.
— Até as cinco horas, então — disse Molly.
— Cinco horas? — repetiu ele. com ar de quem não sabia do que a dona da casa
falava.
— Harry, você está igual a Gina, com a cabeça na Lua! O ensaio na igreja. Está
marcado para as cinco horas. Por favor, não se atrase, sim?
— Claro, o ensaio!
— Quer que ligue para lembrar? — ofereceu a futura sogra.
— Não, obrigado, Molly. As cinco em ponto estou lá. Meu irmão é muito pontual
e nunca deixa que eu me atrase. Até logo.
— Até logo. Sabe ir até o aeroporto?
— Eu tenho um mapa, Molly. Até mais tarde.
— Até logo. Cinco horas, hein?
Harry não sabia como resolveria seus compromissos durante a tarde. Não tinha
nenhum plano alternativo, e no que dizia respeito a Gina e sua família, o casamento iria
realizar-se conforme o horário previsto.
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