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2. Capítulo II


Fic: A Despedida de Solteiro


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Capítulo II Hermione fitava-o intensamente, o rosto um pouco inclinado, como se conferisse cada traço com imagens de sua memória. As pupilas dilataram-se com o reconhecimento. — Harry? É você mesmo, Harry? — repetiu ela, estendendo a mão como se fosse tocar o rosto dele, mas parando bem antes. — Como vai? O que está fazendo aqui em São Francisco? Ele sacudiu a cabeça e enfiou as mãos nos bolsos, tentando assumir uma postura relaxada, para poder dar a impressão de tê-la encontrado naquele instante, por acaso. Abriu a boca para responder, mas ela falou antes. — Você está ótimo! — murmurou ela, o fôlego alterado. — Você também está ótima, Mione. Maravilhosa. Dizer aquilo era, no mínimo, o óbvio ululante. Só então Harry parou de pensar e prestou atenção aos traços no rosto delicado, que sem a indefinição do crescimento, atingiam a perfeição da forma. Tudo o que sua memória guardara continuava ali, mais uma qualidade de consciência da própria beleza e autoconfiança. Desejou não tê-la visto. — Engraçado a gente se encontrar tão longe de casa. Quero dizer, tão longe de Spokane... claro, não deve mais morar lá, certo? O que faz por aqui? — indagou ela. — Bem... estou na cidade para ir a um casamento — respondeu ele, sentindo-se estranhamente culpado, como um garoto que tivesse feito alguma reinação. — Meu casamento. — Parabéns, nesse caso — respondeu ela, sem mover um músculo do rosto. Talvez por premonição, talvez por timidez de perguntar, Harry baixou os olhos para as mãos dela, procurando uma aliança. Não havia anel de espécie alguma. Em nenhuma das mãos. — Eu nunca... quer dizer, ainda estou solteira. Harry não sabia se dava parabéns ou não. No íntimo algo pulava de alegria, mas não admitiria isso nem para si mesmo. Sentiu tentação de responder algo ácido como "da próxima vez que for casar é bom pensar direito se é isso mesmo o que você quer", mas resolveu ficar quieto. — Seria bom a gente sentar um pouco e conversar sobre a nossa época, não acha? — foi o que ouviu a própria voz dizer. Harry não sabia por que a convidava, depois de tudo, nem teve tempo de entender, porque a animação dela fez com que os dedos delicados se apoiassem nele, no antebraço. O contato da pele de ambos foi como um choque elétrico. — Vamos! Vamos, Harry, claro — respondeu ela, alegre. Em seguida uma sombra lhe toldou o olhar, e Harry olhou na direção do bar, mordendo de leve o lábio inferior. — Bem, no momento acho que não posso... estou com alguém. — É, eu vi — comentou ele, soturno. Com aquilo, Harry desistiu de fingir que acabara de encontrá-la. Hermione perceberia, mas pelo menos ele podia manifestar sua desaprovação pela diferença de idades. — Você viu Roger? Não adiantava tentar esconder. O melhor era dizer a verdade. Era a melhor forma de não se meter em encrencas. Quando a gente começava a mentir para alguém, era necessário continuar, uma mentira encobrindo a outra, até ficar tão distante da realidade que o mais fácil era afastar-se daquela pessoa. — Vi. Eu estava lá no bar do restaurante agora há pouco, e vi uma pessoa que achei parecida com você. Mas não tive certeza absoluta. — A gente pode jantar — sugeriu ela, ansiosa, transbordante de excitação e um entusiasmo quase juvenil. — Ainda não comi nada e... — Em alguma outra oportunidade — interrompeu Harry. Com certeza não tinha a intenção de se juntar a ela e aquele velho para contar histórias a noite inteira. Mesmo quando era mais novo, jamais gostara de "segurar vela" para os amigos. Não pretendia começar agora, e justo com Harry. E ele ao menos era seu amigo. — Mas... — insistiu ela, ainda animada, apesar da relutância dele. — Eu só queria cumprimentar você e dizer que está ótima — disse ele, com um sorriso formal e torcido. Aquilo fez com que ela acusasse o golpe. O entusiasmo diminuiu e os olhos permaneceram brilhantes, mas o sorriso morreu aos poucos, na mesma medida em que a postura do corpo enrijecia. Hermione deu um passo para trás, como se antecipasse alguma experiência desagradável. — É que... tem tanta coisa que eu queria dizer. Tanta coisa que eu queria perguntar... O próprio Harry podia fazer coro. Com certeza existia muita coisa que ele gostaria de perguntar, de saber. Para poder entender o que acontecera e encerrar de vez aquele capítulo. Essa idéia o deixou indeciso, pois talvez a chance de esclarecer o passado fosse a chave para o sucesso de seu casamento futuro. Haveria ali, talvez, a mão do destino naquele encontro improvável. Mione também percebeu sua indecisão e aproveitou-se. — Por favor, Harry.. Eu invento alguma coisa. Digo a Roger que estou com dor de cabeça ou algo parecido. A gente se encontra aqui mesmo, daqui a uma hora, está bem? — sugeriu ela, encarando-o. Percebeu que ainda havia hesitação. — Ora, vamos. Acho que mereço isso, não? Pelos velhos tempos? — Está bem — concordou Harry, com certa relutância. — Daqui a uma hora, no bar do restaurante, está bem? — Está ótimo. Obrigada, Harry — murmurou ela com ar de colegial. Em seguida voltou-se e retomou ao bar, onde certamente encontraria Roger. A única desculpa de Harry, se é que precisava de alguma, é que pretendia resolver de uma vez todos os seus problemas emocionais antes de casar. Isso o tomaria um marido melhor. Pelo menos era o que repetia para si mesmo enquanto se aprontava para exorcizar seus últimos demônios do passado. Mione não conseguia controlar aquela sensação de ansiedade; não estava mais acostumada com reações desse tipo. Se realmente fosse levar as coisas ao pé-da-letra, não se sentia daquela forma desde que combinaram sua fuga enquanto todos estavam no baile. Harry parecia participar das situações mais emocionantes de sua vida. O sangue pulsava forte em suas veias, fazendo com que se sentisse viva e nervosa. As maçãs do rosto estavam avermelhadas de excitação com a memória do que acontecera naquela noite, ou melhor, do que não acontecera. Seu coração ansiava pelos dois e também por tudo o que não ocorrera em sua vida. Vestiu-se como fazia quando era adolescente, deixando sobre a cama as roupas que experimentou e não gostou, e os cosméticos sobre a pia, sem guardar. De vez em quando pairava uma sensação de irrealidade, como se ela estivesse imaginando ou sonhando aquilo tudo. Ou como se uma parte sua revivesse, depois de dormir durante muito tempo. Com esses pensamentos, Hermione tomou o elevador em seu apartamento, quase uma hora depois do encontro ocasional, imaginando que era como descer até uma época anterior de sua vida. Dez anos como dez andares. No andar térreo, entrou em seu carro e partiu, na direção do hotel. Quando passou pela porta giratória, seu coração batia forte e ela caminhou de cabeça erguida para o saguão, esperando encontrá-lo ali. Uma passada de olhos bastou para que percebesse que Harry não estava ali. Hermione dirigiu-se para o restaurante. Embora Harry tivesse se aproximado dela, não parecia contente em vê-la. Compreendia bem esse dilema, pois sentia algo parecido. Ele mesmo dissera que estava a poucas horas de se casar com outra mulher. Hermione deveria ficar contente por ele, contente por ele ter encontrado uma mulher com a qual compartilhar sua vida. Que ironia do destino, encontrar um ao outro exatamente naquele instante de suas vidas... Ao entrar no restaurante, percebeu que ele já estava sentado. Será que ainda desejava aquele homem? Se fosse julgar pelas aparências, não perderia tempo em dizer sim; ele trocara de roupa e parecia tão à vontade quanto elegante, emanando uma aura de segurança. Só o fato de vê-lo já despertara alguns sentimentos que julgara abandonados e enterrados há alguns anos. Tanto trabalho e força de vontade para que tudo retornasse de repente, como se nunca tivesse deixado de sentir. Só conseguira enganar a si mesma durante o período de dez anos. Por outro lado, sempre soubera que amava Harry, nunca escondera esse fato de si mesma. Conduzida pelo maître, respirou fundo para acalmar-se e enfrentá-lo. — Ah, vejo que nos encontramos outra vez — comentou ele, com uma ponta de sarcasmo. Teria mudado de idéia sobre encontrar-se com ela? Talvez não tenha sido uma idéia tão boa assim, a de se encontrarem depois de tanto tempo, pensou Hermione, mas afinal, ele lhe devia uma explicação. — E então, por onde andou esses últimos dez anos? — indagou ela, querendo amenizar a conversa. Existiu uma época em que poderiam conversar sobre todos os assuntos sem brigar, depois partilhar as decisões e resoluções. Porém tais dias ficaram no passado. Harry era pouco mais do que um estranho ali na Califórnia, dez anos depois. Um estranho que ela sempre amaria. Lentamente ele ergueu a cabeça até que os olhares se encontrassem. Hermione esquecera-se de como podiam ser verdes e intensos. Entretanto, ficou surpresa pela ponta de frieza que enxergou, quase uma irritação. Sempre fora capaz de ler as nuances de humor no rosto e nos gestos dele, e vice-versa. Era uma ligação especial, tinham certeza. Houve ocasiões em que acreditaram partilhar os pensamentos um do outro sem necessidade de falar, só com olhares. Entendiam-se. Não havia dúvida, como agora. Quando Harry deu a impressão de estar a ponto de falar, o garçom apareceu com a garrafa de Chardonnay. Hermione raramente se permitia ingerir bebidas alcoólicas, mas se já houve uma ocasião em que necessitasse acalmar os nervos, era aquela. O primeiro gole, de estômago vazio, deu a impressão de ir direto para a cabeça. Enquanto o garçom servia, os dois permaneceram em silêncio, colocando em ordem os próprios pensamentos e emoções. Assim que o vinho foi servido, Harry ergueu os olhos para ela. — Vamos ver... — começou ele, em tom quase amistoso. — Depois que assinei os papéis de anulação que você mandou, fui me alistar nos Fuzileiros Navais. Ele mencionou a anulação do casamento como se não significasse nada para ele além de uma formalidade. Como se tivessem discutido aquela possibilidade antes de casar; esse fora um dos pontos em que falharam por falta de experiência. Não havia "plano B". Nem tinham pensado na possibilidade de tudo dar errado, ou desenrolar-se de outra forma. Esperava que ele tivesse uma idéia de como fora difícil para ela assinar o nome naquele papel. Fizera greve de fome e sofrerá muito até se convencer de que não havia outra forma. Se pudesse, teria fugido de casa outra vez para estar com ele, mas a vigilância redobrara. Como era fácil imergir de novo no mundo das lembranças, dos acontecimentos que não pudera discutir com ele. Hermione estendeu a mão para a taça e os dedos fecharam-se sobre o cristal. Sem dificuldade, viajava até uma época em que a inocência, há tanto desaparecida, ditava suas ações. Uma época que se fora. — Quando terminou meu período de alistamento nos Fuzileiros, voltei para a escola e me formei. Agora trabalho para uma das grandes firmas de exportação. — Na Costa Leste? — Não, na Costa Oeste. Só vim até São Francisco para o casamento. Hermione não deixou de reparar que ele não dissera nada sobre a mulher com a qual iria casar, nem ao menos o nome. Talvez não estivesse apaixonado. — E quanto a você? — quis saber ele, erguendo sua taça. — Bem, vamos ver... — começou Hermione, respirando fundo para clarear a cabeça. — Freqüentei a faculdade, me formei em administração. Sempre fui aplicada, você lembra, não lembra? Me formei nos primeiros lugares e acabei aceitando um cargo numa das grandes instituições financeiras daqui, de São Francisco. Não quis se demorar em explicar a importância de seu cargo no banco, embora fosse considerada uma das carreiras mais promissoras na instituição. Gabar-se nunca fora de seu feitio. — Exatamente do jeito que Papai queria — comentou Harry, sem conseguir evitar uma ponta de sarcasmo. Hermione sentiu que corava, e sua voz saiu com certa frieza. — Se está lembrado, meus pais queriam que eu me formasse em Direito — corrigiu ela. — Direito... é verdade. Como pude esquecer de uma coisa dessas? Eficientemente o garçom retomou com o couvert e encheu outra vez as taças. O odor da comida era convidativo e agradável, porém a prioridade de Hermione no momento não se focalizava na alimentação. Deu mais um gole no vinho, que talvez fosse o responsável por seu comportamento ousado ao deixar escapar exatamente o que pensava; — Você nem ao menos tentou me encontrar? Não tentou falar comigo? —Tentou... — repetiu ele alto, chamando a atenção das pessoas nas mesas próximas. — Está falando sério? Acha mesmo isso? Porque fiquei como louco procurando você em todos os lugares. Para onde levaram você, afinal? — Me mandaram para Londres, morar com minha tia — informou ela. — Londres? E lá na Inglaterra eles não usam telefone? Quer dizer, fiquei esperando notícias depois de perceber que você não estava na cidade. Falei com suas amigas, falei com os empregados do vizinho... ninguém sabia onde você estava. Fiquei nessa situação muito tempo. Até me convencer que você não iria telefonar nem escrever. Hermione cerrou os olhos, lembrando de sua prisão domiciliar na casa da tia, vigiada o tempo inteiro para não se aproximar do telefone. Sentia-se triste e desanimada, sem motivação para viver. Rezara dia e noite para que ele conseguisse encontrá-la e a salvasse daquela situação. — Não me deixavam... — E isso impediu você? — Você podia ter tentado me encontrar — protestou ela, externando o que pensara dia e noite em sua reclusão. — Claro que eu tentei. De todas as formas que sabia. Mas eu era um garoto na época, como ia saber para onde mandaram você? Esqueci completamente que você tinha uma tia na Inglaterra. Acho que só falamos nela uma vez... — Eu tinha mesmo falado sobre a irmã do meu pai com você, não lembra? Eles queriam que eu passasse o verão lá antes de ir para a faculdade. Ela é professora de direito... Hermione interrompeu-se quando o garçom chegou com as saladas. Percebeu que estava ofegante, como se tivesse corrido uma boa extensão. Respirando fundo, estendeu a mão e apanhou uma folha de alface com seu garfo. Não conseguiu identificar gosto algum na folha e tomou um gole de vinho. Acalmou-se, por fim. — Tem razão, você mencionou mesmo essa tia para mim, mas fiquei com a impressão de que era alguém distante, que você iria visitar um dia para satisfazer seu pai. Eu não tinha nome nem endereço, e para dizer a verdade, achei que ela morava aqui, na Costa Leste. Mas mesmo assim não adiantava nada. Não tenho poderes mágicos, Mione. Como eu ia adivinhar onde você estava? — Pois você podia ter tentado mais — argumentou ela, inconformada. Harry encarou-a por um instante, depois deu uma garfada em sua salada, mastigando devagar para pensar um pouco. Fez um gesto no ar. — Talvez fosse melhor a gente deixar essas coisas do passado para trás. — Não! A firmeza e a decisão na voz dela fizeram com que as sobrancelhas de Harry se arqueassem. Não se tratava mais da adolescente tímida que ele conhecera, assustada e inexperiente. Aquela mulher sabia o que desejava. — Quero saber o que aconteceu. Todos os detalhes — afirmou ela. — Acho que mereço isso. Hermione estava consciente que, no momento, o apetite era a última coisa em sua mente. Não acreditava ser capaz de comer. O garçom voltou com os pratos, colocando primeiro o frango com legumes dela, depois o bife dele, com gestos eficientes. Harry ignorou a comida. — Fiz tudo o que eu sabia para encontrar você. No começo fui conversar civilizadamente com seu pai, falar com ele para que me desse uma chance para provar que era digno de você. Nem preciso dizer o resultado. Em seguida apelei para sua mãe — contou ele, recordando sua atitude. — Quando eu percebi, eles tinham conseguido um mandado de restrição, daqueles que a gente não pode chegar a menos de duzentos metros das pessoas... — Eu não sabia. — Mas só você não ficou sabendo. Não foi nada fácil para mim. Todos na cidade sabiam que a gente estava junto, e de repente... fiquei trancado em casa e você sumida. Foi horrível. Hermione perguntou-se o que ele acharia de ser mandado para uma tia que não se importava nem um pouco com ela e parecia não ter se apaixonado nunca em sua vida. — Pois foi a época mais triste da minha vida — afirmou ela. — Eu amava tanto você... — Amava coisa nenhuma — respondeu Harry, elevando a voz. — Quanto tempo demorou para assinar os papéis de anulação? Duas semanas? Três? — Cinco! — afirmou ela, quase gritando. — Coisa nenhuma! — respondeu Harry, no mesmo tom. Todos em volta olhavam para eles agora. Harry encarou a todos, depois tirou o guardanapo do colo, colocando-o sobre a mesa, ao lado do prato que não tocara. — Não podemos conversar esse assunto de forma razoável. Não aqui, pelo menos — disse ela, colocando o próprio guardanapo sobre a mesa. — Também acho. Vamos terminar de resolver isso de uma vez por todas, no meu quarto. Se você quiser, peço para servirem o jantar lá. — Obrigada, Harry, mas pensando bem acho que não estou com fome. Pelo menos não ia conseguir comer agora. Harry pediu a conta, que o garçom trouxe com rapidez admirável. Assinou e deixou uma gorjeta, apesar de não terem jantado. Afinal, o rapaz não tinha culpa. Ergueram-se e caminharam até os elevadores. Quando a porta se fechou, cerrando o mundo formal à volta e deixando apenas os dois, o ambiente permaneceu tenso e cheio de irritação durante a longa subida até o vigésimo andar. Depois de chegarem, caminharam até a porta do quarto dele e Hermione perguntou-se se aquele seria o melhor procedimento. Sentiu-se aliviada quando viu que ele se hospedava numa suíte com ante-sala. Não seria produtivo que discutissem sua experiência de quase-casamento com uma cama de casal entre os dois, lembrando exatamente o que nunca puderam ter na noite de núpcias. — Muito bem, então você quer saber sobre os papéis da anulação? — afirmou ela, colocando as mãos nos quadris, numa atitude belicosa. — Isso. Aqueles que você assinou tão rápido. Ela cerrou os punhos antes de responder. —Pois eu assinei aqueles papéis no hospital, se você quer saber, Harry Potter. Estava tão doente que mal conseguia pensar. Ainda sob efeito de anestesia. Sozinha. Com tanta dor e sofrimento mental que mal conseguia pensar. Fiquei meio louca. Ele empalideceu. — O que aconteceu, exatamente? — Eu estava fazendo greve de fome. Minha tia enfiava aqueles papéis na minha cara, sempre que tinha uma chance. Exigia que eu assinasse, dizendo que todos tiveram muita sorte por terem me encontrado a tempo, antes que eu arruinasse minha vida. Dizia que eu só voltaria para os Estados Unidos se assinasse. Harry caminhou até a janela, de costas para ela, observando a silhueta de São Francisco enquanto ouvia a voz de Hermione. — Eu não queria assinar, todo dia recusava. Insistia em que meu nome era Hermione Potter. Não tinha a menor vontade de comer, nem... — Você podia ter telefonado para mim. — Não era tão fácil assim. Na casa não tinha telefone, a não ser no quarto da minha tia, que ficava trancado. Se quer saber, eu não podia ter contato com o mundo exterior, era como se fosse mesmo uma prisão domiciliar. Não foi falta de tentar escapar para a rua para chegar até um telefone público. Minha tia errou de profissão. Devia ser carcereira, isso sim. O que você queria que eu fizesse? A pergunta ecoou pelo quarto, sem resposta. Ele a fitou, ainda chocado ao saber os detalhes do que ocorrera com ela. — Harry, eu tentei. Queria que soubesse disso. Em meu estado normal jamais teriam conseguido, mas eu não estava raciocinando bem, minha cabeça parecia confusa, talvez por causa dos remédios. — Você teve de ir para o hospital? — quis saber Harry, sem se voltar. Por alguns instantes antes de responder, foi como se os anos passassem perante sua vista, como naqueles filmes em que as cenas correm para trás. Cenas de seu trabalho. Da festa de formatura, com os colegas. A seriedade dos anos de faculdade, ainda amargurada. Até que fosse, outra vez, uma garota de dezoito anos. Uma sensação dolorida formou-se em sua garganta, um prenuncio de lágrimas, tornando a voz entrecortada. — No começo eu pensei que aquelas dores fossem de fome, quer dizer, fizessem parte da sensação de ficar sem comer. Afinal, eu perdi seis quilos nas primeiras duas semanas, e... — Seis quilos? — repetiu ele, voltando-se para ela. Os olhos de Harry estavam arregalados, como se vissem todo o sofrimento e a dor contidos no relato que acabava de ouvir. Talvez tivesse sido apressado em seu julgamento. — Foi o apêndice. Estourou e... bem, quase morri. — Deus do Céu! — Assim que acordei da anestesia, dei de cara com minha mãe ao lado da cama. Ela tinha uma aparência péssima, parecia pálida e abalada. Os olhos estavam vermelhos, e ela me estendeu o documento de anulação do casamento enquanto eu estava tonta. Disse que você preferia assim, e que eu devia terminar logo aquela formalidade para poder voltar para casa com ela. Eu acreditei... ou talvez tenha preferido acreditar, porque estava cansada de lutar contra, de me opor a todos em volta de mim, me sentia fraca — declarou Hermione, com os olhos úmidos. — Você tem toda a razão, eu devia ter insistido e lutado mais, mas estava sozinha, confusa e assustada. E doente. Eu me sentia fraca, sem forças. Pensei também que seria melhor morrer de uma vez, assim terminaria tudo. Seria mais fácil desistir de viver, do que viver sem você. A emoção não deixou que ela continuasse. A respiração profunda e rápida demonstrou o sofrimento passado. Harry esfregou a mão ao longo da nuca, num gesto de surpresa, para ajudar a absorver a cena que ele imaginava. Não era em nada parecida com a cena que construíra em sua mente ao longo dos anos. Talvez em sua ansiedade para lidar com o sentimento de rejeição, enxergasse algo que não existia. Ela sofrerá mais ainda que ele, estivera às portas da morte e demonstrara uma coragem que não estava em sua versão dos acontecimentos. Sentiu-se diminuído perante tanta determinação e um erro tão grande de julgamento sobre a pessoa que amava. Era preciso explicar. — Mione, eu pensei que... quer dizer, presumi que você queria terminar o casamento. — Não, claro que não. Era só o que eu tinha no mundo, o resultado de tudo o que a gente foi um para o outro. Tentei segurar meu casamento-surpresa o mais que consegui. Acima de tudo eu queria provar para todos que nosso amor era maior do que as mesquinharias deles e ia acabar vencendo, não ia morrer com o tempo, do jeito que todos me diziam. Eu queria provar que nosso sentimento um pelo outro iria durar uma vida inteira. — E justo nessa hora, assinei o papel... e entrei para os Fuzileiros — completou ele, num sussurro. — Quando você mais precisava. — Só sei que quando voltei, você tinha partido. Os olhos grandes de Mione apresentavam uma qualidade líquida, com a lágrima ali contida. Naquele instante aconteceu uma comunicação direta entre as pupilas dos olhos de ambos, restabelecendo uma ligação perdida dez anos antes. A distância entre os dois pareceu evaporar-se, e os braços de Harry a envolveram, num abraço carinhoso e familiar. — Desculpe, Mione, por ter duvidado de você na minha cabeça. — Desculpe se falhei com você. — Acho que falhamos um com o outro — completou ele. — Não consigo esconder. Amo muito você — começou Hermione num sussurro, até sua voz falhar. — Tentava enganar a mim mesma, mas nunca consegui, de verdade. — Durante cinco anos não se passou nem um dia sem que eu tenha pensado em você. — E depois? — Depois foi uma questão de sobrevivência e levar a vida adiante. Enterrei fundo essas memórias. O beijo foi suave, como um beijo de adolescentes, um que tivesse restado dos anos que haviam partilhado. Uma espécie de absolvição dos pecados e exorcismo dos demônios da juventude. Por não confiar e por permitir que as dúvidas e depois o orgulho os separassem melhor do que os pais jamais poderiam. Um perdão por ceder a seus medos. Separaram-se devagar, para poder examinar o olhar um do outro. — Se eu soubesse... Os lábios de Harry tocaram a pele do rosto dela, traçando um torturante caminho para a boca. Hermione tentou não pensar nessa outra mulher com a qual ele iria casar-se, mas quando a boca desejada tocou a sua, qualquer idéia de culpa que pudesse ter foi completamente esquecida. Virou o rosto, para que pudessem beijar-se com a entrega necessária, urgente, que o primeiro toque entre ambos trouxera à vida outra vez. Porém a conta emocional e física entre ambos estava devedora há dez anos. As emoções represadas existiam com certeza, pois voltavam em ondas de desejo. As bocas de ambos se procuravam, as línguas se tocavam naquele encontro ao mesmo tempo novo e familiar. A excitação não pertencia apenas a um deles, mas era como se fosse uma aura ao redor de ambos. O beijo aprofundou-se. Harry passou os braços ao redor dela, erguendo-a do assoalho. Mantendo-a contra seu corpo com uma das mãos, beijou-a com intensidade, sentindo cada poro do corpo de ambos excitar-se. — Todos esses anos eu acreditei... — murmurou ele. — Eu também. Hermione chorava e ria ao mesmo tempo. — Amo você. Muito! — Eu nunca deixei de amar, Harry. Nunca! Quando a língua penetrou entre os lábios, num frenesi de paixão, ela correspondeu. Acolheu a invasão, provocando-o também. Ele gemeu. As mãos de Harry procuravam os fechos do terninho de Hermione, retirando-o dos ombros e deixando que ele deslizasse para o chão. Ela passou os braços pelo pescoço dele, com dificuldade de respirar, pela excitação e pela surpresa. — Harry... o que estamos fazendo?

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