Seria possível que aquela mulher fosse Hermione Granger ? Hermione, entrando
no bar do Hotel St. Regis em São Francisco, o último lugar do planeta onde esperava
encontrá-la? Não parecia ser possível. Não depois de tanto tempo.
A simples lembrança deu a impressão de abrir uma parte do seu cérebro que
permanecera fechada durante muitos anos. Imagens e emoções apagadas por não ser
capaz de conviver com elas. Não que fossem tristes, ou feias, ao contrário. Recordavam
uma época agradável demais, um sonho jovem não realizado, e a beleza não desfrutada.
O jeito de Hermione, no andar, que certamente parecia o daquela mulher, dez anos
depois, do outro lado do país.
Os quadris ondulavam com graça inata, num movimento ao mesmo tempo sensual
e elegante, no andar de mulher sofisticada e segura, que parecia dirigir-se diretamente
para a mesa de Harry Potter. A forma de movimentar-se parecia de modo impressionante
com a de sua namorada em Spokane, Washington, dez anos antes, com quem fugira certa
vez. Mais de uma vida, no que dizia respeito a Harry, que acabara de chegar à Califórnia.
Esfregou os olhos, como se assim pudesse alterar a cena que sua visão indicava.
Mas não adiantou. A doce Hermione continuava ali, naquele cenário improvável.
Foi tão fácil e agradável recordar o relacionamento de ambos até a noite fatídica na qual
se haviam separado, numa ocorrência que mobilizara as famílias de ambos. Uma coisa
era preciso admitir. Apesar de apaixonado, acreditara realmente que ambos ficariam
juntos para sempre. Jamais imaginaria que com a primeira dificuldade tudo o que sentiam
um pelo outro fosse descartado. Talvez não tivesse sido intencional, mas ela o enganara
direitinho sobre quem de fato era e o que desejava. Pelo menos até que os acontecimentos
se precipitassem e eles fossem separados à força, partindo seu coração e deixando apenas
uma mágoa indescritível.
Harry sentiu o perfume que ela usava e fechou os olhos, tentando identificar a
fragrância quente e sensual... jasmim! Um aroma sedutor e cativante, como a mulher
envolvida por ele. Como Hermione.
Só que não podia ser Hermione. Simplesmente não era possível. Harry esperava
com sinceridade que a vida não brincasse dessa forma com ele. Que o destino não o
colocasse naquela situação, a três dias... dois dias de seu casamento marcado com Gina
Weasley. Afinal, ele levara boa parte dos últimos dez anos tentando recuperar-se dos
sentimentos insatisfeitos e frustrados em relação àquela mulher, Hermione. Ainda iria
demorar um bom tempo para que a pudesse perdoar completamente.
Apesar de tudo, dos sentimentos inesperados e conflitantes, apesar de não desejar
o encontro, ficou com a impressão de que ela vinha na sua direção, e quase ficou aliviado
quando ela passou ao lado da mesa, os olhos postos numa pessoa mais à frente. Como ela
não encarou Harry diretamente, este não conseguiu identificá-la com precisão, devido ao
inesperado da situação e à emoção que tomara conta dele. Poderia ser uma mulher muito
parecida, somado à vontade de rever Hermione.
Harry tomou um grande gole de sua cerveja preta, voltando novamente a atenção
para os dois rapazes com ele à mesa. Eram os dois irmãos mais velhos de sua noiva, que
faziam seu melhor para entretê-lo, conversando e contando piadas, numa antecipação de
aceitação do novo membro da família. No dia seguinte organizariam sua despedida de
solteiro.
— Não se sinta obrigado a vir nessa reunião que mamãe está oferecendo hoje à
noite — disse um deles, interrompendo a corrente de pensamentos.
Foi necessário utilizar toda a força de vontade que possuía para retirar os olhos da
mulher que atraía sua atenção. Na verdade, não era o único que a observava
intencionalmente, pois todos os homens no bar do Hotel St. Regis faziam o mesmo, com
os mais variados graus de interesse, incluindo Fred e George. Ela era estonteante, com
aquele ar de beleza insuspeitada, como se nem percebesse o efeito que causava nos
homens. Quanto a ele, não era novidade, pois Hermione sempre tivera a particularidade
de fazer com que ele ficasse sem fôlego. Porém estava se deixando levar pela
imaginação, com certeza. Não podia tratar-se de Hermione, seria uma mulher muito
parecida, até na forma de movimentar-se. Estavam os dois tão longe de sua cidade natal
que não podia ser ela. Simplesmente não podia.
—Eu mesmo, se pudesse, tirava o corpo fora desse jantar formal de hoje à noite —
declarou Fred, apanhando sua caneca de cerveja.
Dos dois irmãos, era o mais próximo a Gina, a caçula, apesar disso, ela sempre
agira de forma protetora com Fred, protegendo-o e aconselhando-o, como se a relação de
idade fosse ao contrário.
Percebendo com uma espécie de terceiro sentido que a presença feminina
afastava-se, envolta na nuvem de perfume e recordações, Harry conseguiu encontrar um
instante para afastar os olhos o bastante para seguir os olhares masculinos. Ela se
aproximava de uma mesa do outro lado do salão, percorrido com o mesmo andar
magnetizante; lá foi recebida por um senhor de meia-idade, que ergueu-se polidamente,
beijando-a no rosto. Harry fez uma careta e voltou a atenção para a própria mesa.
— Isso depende inteiramente de você — acrescentou George. — Vai encontrar
todo mundo mais tarde, mesmo porque amanhã tem ensaio e poderá conhecer os mais
íntimos lá... enfim, hoje você deve estar cansado e nem sabia do jantar. Mamãe diz que
tem muito prazer em recebê-lo, mas que não se sinta obrigado. De qualquer forma, vai
conhecer a todos no casamento.
Casamento... a palavra soava diferente. Como um feixe de raios laser atravessando
seus pensamentos, penetrando em sua consciência de forma quase dolorosa. Estava a
ponto de casar-se com Gina, foi obrigado a lembrar-se, espantado pela distância mental
entre ele e a noiva. Amava Gina, repetiu para si mesmo. O suficiente para pedir a ela que
passasse o resto de sua vida com ele.
Agora deparava com uma parte enterrada de seu passado, no bar do hotel onde
estava hospedado e entrara por acaso, na companhia dos irmãos de sua noiva. A ironia
maior era que jamais mencionara a Gina o episódio com Hermione. Como se soubesse o
que estava por acontecer. Porque na verdade não existia razão alguma para que não
tivesse contado nada sobre um casamento anulado em sua adolescência, quase dez anos
antes de conhecê-la. Com certeza Gina tinha todo o direito de saber que ele fora casado
antes, ainda que pudesse concorrer no livro dos recordes como um dos casamentos mais
curtos de toda a história. Pela melhor das estimativas, estivera casado com Hermione
pouco mais de uma hora. Se não fosse tão trágico, seria divertido. A cerimônia de
casamento durara tanto quanto o próprio casamento.
— Deve estar exausto. Por causa dos fusos horários.
A atenção de Harry retornou aos dois irmãos acomodados à sua frente, que em
pouco tempo se tornariam cunhados.
— O vôo até que foi bastante agradável, se a gente considerar que atravessei o país
e nem me dei conta.
— Quanto se demora para vir da Costa Leste até aqui hoje em dia? — quis saber
Fred.
— Cinco, seis horas — respondeu Harry, ainda ausente. — Se o vôo for sem
escalas, claro.
Tentava não parecer óbvio em seu interesse pela mulher do outro lado do salão, ao
lado do homem grisalho. Só depois que sentou é que Harry se sentiu livre para olhar na
direção dela. Com vagar, comparando com as imagens e lembranças em sua memória.
Quanto mais via, mais acreditava que, apesar da impossibilidade da situação, era
mesmo Hermione.
Seu coração, confirmando as impressões visuais, acelerou-se como se não
coubesse mais no peito. O impacto da emoção teve o poder de convencê-lo; não era algo
que sentisse com facilidade.
Em poucos segundos, dez longos anos deram a impressão de dissolver-se e Harry
voltou a ser um jovem recém-saído da adolescência. O amor que sentira por ela
borbulhou em seu interior como um gêiser que vira certa vez, num jato de água fervendo
para o alto. A temperatura era comparável à raiva que brotava outra vez, tão real como
naqueles dias, ameaçando consumi-lo.
Houve uma época em que amava Hermione Granger mais do que qualquer outra
pessoa no planeta, incluindo a si próprio. Sacrificaria qualquer coisa por ela com um
sorriso nos lábios. Presumiu, de forma incorreta, que ela sentia o mesmo por ele. O tempo
provara esse engano. No instante em que tiveram de enfrentar a oposição da família, ela
não defendera seu casamento, escolhendo voltar as costas para ele e nunca mais
procurá-lo, nem por carta ou telefone, para algum tipo de explicação, pelo menos. Foi
como ter o chão arrancado de sob seus pés. O pior de tudo fora a angústia de não saber
coisa alguma sobre o paradeiro dela. Não saber o que seria feito dos sonhos que
construíram juntos, da loucura que, rindo, realizaram, fugindo para casar-se enquanto
todos esperavam que estivessem em outro lugar.
Respirando fundo, interrompeu os devaneios e retornou à mesa que ocupava,
forçando a vista a fitar os irmãos da noiva. Não se sentia disposto a enfrentar uma reunião
formal logo após a chegada à Califórnia.
— Acho que vou mesmo recusar esse jantar hoje — disse Harry, passando a mão
na testa.
Olhou para a caneca de cerveja, cerrando os dedos em torno da umidade gelada,
obrigando-se a não erguer os olhos na direção do passado.
— No seu lugar eu faria o mesmo... — concordou George.
— Por que não vai dormir cedo? — sugeriu Fred, terminando sua cerveja e
consultando o relógio. — Pelo seu horário na Costa Leste, já são dez horas da noite.
— Boa idéia — respondeu Harry. — Com certeza uma boa noite de sono vai me
deixar novo em folha,
A última coisa que sentia era cansaço. Verdade que passara o dia inteiro envolvido
no processo de viajar, desde arrumar as malas bem cedo até a espera do horário e a
demora para apanhar a bagagem, porém viajava habitualmente em seu trabalho, e isso
não o abalava. A única coisa diferente fora o motivo da viagem.
George olhou também o relógio e levantou-se.
— Fred e eu entramos em contato com você amanhã, nesse caso.
— Você tem menos de trinta e seis horas para comemorar o seu estado civil de
solteiro. Não perca tempo — aconselhou Fred, rindo e olhando sugestivamente na direção
de Hermione. — E não esqueça da pequena comemoração que estamos organizando, para
depois do ensaio na igreja.
Em pé, ele procurou a carteira no bolso traseiro, impedido por um gesto de Harry.
— Hoje a cerveja é por minha conta.
Os dois irmãos agradeceram.
— Nesse caso, a gente se vê no ensaio. Amanhã.
— Amanhã — confirmou Harry.
Ergueu-se para se despedir e estender a mão aos futuros cunhados, que logo se
dirigiram para a porta. Sentiu-se grato por um pouco de tempo sozinho, a fim de analisar
os próprios sentimentos. Estava surpreso e abalado. Seu estado de espírito não era
propício a respostas polidas e educadas, por estranho que aquilo parecesse. Além do
mais, se a mulher fosse mesmo Hermione, e a possibilidade era forte, então era preciso
resolver o que fazer a respeito daquilo.
Nada, provavelmente. O melhor seria não fazer nada, de qualquer forma.
O casamento, se é que podia ser chamado dessa forma, tinha sido há muito tempo.
Nem ao menos tinha certeza se Hermione desejava vê-lo... para dizer a verdade, o próprio
Harry não sabia se queria voltar a viver aqueles dias intensos e frustrantes. A voz e a
visão do rosto de Hermione eram drogas poderosas, que atraíam, mas lembravam muito
sofrimento. Era preferível esquecer.
Só que agora não parecia mais possível. Sentimentos e memórias que ele julgava
totalmente esquecidas retornaram com força insuspeitada.
A garçonete entregava os cardápios a Hermione e seu acompanhante. Enquanto
estavam na escola, ela não tomava álcool de nenhuma espécie, e ainda ralhava com ele
por causa de uma cerveja ou outra. Aparentemente não conservara essa tendência em sua
vida adulta.
A garçonete aproximou-se dele, depois de anotar o pedido dos dois.
— Mais alguma coisa, senhor?
— Não, obrigado. Só a nota, por favor.
Aparentemente ela estava preparada para essa possibilidade, pois trazia a nota no
bolso. Colocou sobre um pires, que apanhou no outro bolso do avental. Harry assinou e
colocou o número do quarto onde estava. Deixou uma gorjeta generosa.
Brincou com a idéia de erguer-se, aproximar-se da mesa dela e começar um novo
relacionamento. Seria o mais civilizado e educado a se fazer, disse a si mesmo. Mas
duvidava ter coragem para realizar os atos físicos necessários, quanto mais falar
diretamente com ela. Afinal, estava irritado e magoado, com todo o direito. Ela fora sua
esposa e o desertara, destruindo todos os sonhos que haviam construído juntos.
A família de Hermione, desde o início, fora contra o romance. Harry jamais
chegara a entender por que. Suspeitava que não fosse um problema contra a sua pessoa,
mas contra qualquer envolvimento que ela pudesse ter com o sexo oposto. Talvez fosse
um caso de ciúme, ou simplesmente pelo fato de não ter sido escolhido pela família, o
que poderia estragar os planos para o futuro dela.
O homem que ela acompanhava no momento seria o tipo preferido pelos pais dela,
com certeza. Mais velho, dava a impressão de ser fabulosamente rico e arrogante na
mesma medida. Não que fosse inveja ou ciúme pelo fato de estar acompanhando
Hermione... deviam ser casados. Não se surpreenderia.
Dez anos antes Harry não fora bom o suficiente para a única filha e herdeira dos
Granger, que não tiveram o menor problema em externar os sentimentos antagônicos.
Isso tinha forçado os adolescentes a ter um namoro escondido. Naturalmente era um
atrativo romântico, embora não tenha resultado em nada de bom para eles: na época,
qualquer aventura parecia emprestar uma qualidade dramática e desejável à realidade
hostil. Porém, do jeito que a amava, teria feito qualquer coisa, ainda que fosse realmente
ilegal.
À medida que o ano final do colegial terminava e o romance oculto continuava,
tornava-se aparente que os pais dela pretendiam mandá-la para uma universidade bem
distante. Então Hermione ficou sabendo que já fora matriculada numa faculdade
exclusivamente feminina na Costa Leste. Foi quando os dois resolveram agir, baseados
num filme a que haviam assistido.
O pensamento de ficarem .separados foi mais do que qualquer um dos dois se
achava capaz de suportar, por isso a idéia do casamento veio na hora certa, acompanhada
de uma ausência absoluta de alternativas.
Na noite em que se formaram, em vez de irem à festa como todos esperavam,
Harry e Hermione atravessaram a fronteira do Estado de Idaho.
Fora muito romântico e divertido. O ar límpido e frio da noite estrelada tinha a
propriedade de deixá-los embriagados de amor e aventura. Estavam certos de ter
enganado a todos, famílias e amigos. Uma das coisas que incomodaram Harry na época
era que Hermione, apesar de negar, teria gostado de uma cerimônia realmente grande de
casamento, uma festa adequada com a presença de todos que os conheciam.
Por causa disso, ele estava disposto a compensá-la da melhor forma possível, o
que acabou sendo um dos motivos pelos quais a união deles não chegou a se consumar de
forma física.
Durante a cerimônia de casamento, quando Hermione leu os votos que eles
mesmos haviam escrito, seus olhos se encheram de lágrimas, e os dois se encararam com
sinceridade e devoção; dali em diante ambos lutariam juntos contra o mundo. Jamais
poderia esperar que o amor dela fosse durar tão pouco tempo.
Sentiu o sangue pulsar mais forte ao recordar-se da noite do casamento. Não
consumado. O tempo que seria usado para isso foi gasto num jantar de casamento,
insistência dele, ao imaginar que tinham todo o tempo do mundo. Harry só podia culpar a
si mesmo por isso. Insistira em comemorar com um belo e romântico jantar à luz de
velas, como se assim a pudesse compensar pela falta de festas e pompa religiosa.
Estava nervoso quanto a fazerem amor e sabia que ela também estava. Ela era
virgem e a experiência dele limitava-se a um encontro rápido com a prima de seu melhor
amigo quando ele tinha dezesseis anos, o que o deixara com mais dúvidas do que
respostas sobre a relação de um casal.
A refeição foi longa e agradável, incluindo sobremesa, café e licores, como se os
dois estivessem querendo prolongar aquele momento e adiar a lua-de-mel. Finalmente
levantaram, levemente tontos por causa do licor, e deram entrada no quarto de hotel. Sem
graça, sentaram-se à borda da cama, como sempre faziam, e começaram a abraçar-se e
beijar-se. Em todos os anos que se passaram desde então, Harry jamais encontrara uma
moça que beijasse como Hermione. Nem mesmo Gina.
Exatamente no ponto em que o amor de um pelo outro sobrepujava a vergonha que
ambos haviam sentido, a porta foi escancarada e de repente viram-se perante os
indignados pais dela e os agentes da polícia local. Jamais conseguiu livrar-se da
lembrança da cena que ocorreu em seguida. Foi como se os acontecimentos ficassem
impressos em sua memória, a exemplo de um pesadelo arrastado, e ao menos era do tipo
de lembrança da qual se dá risada depois. Até agora Harry não tivera a menor vontade de
rir ao lembrar a imagem que a porta aberta mostrou aos jovens apaixonados.
A mãe de Hermione soluçava histericamente enquanto o pai gritava acusações
contra ambos. O policial jogou Harry contra a parede assim que entrou no quarto. Em
pouco tempo viu-se arrastado para fora do quarto, e a última cena que registrou foi
Hermione, os dois braços estendidos em sua direção, segura pela cintura pelos pais. Na
delegacia, fora acusado de coisas que nem conhecia, além de rapto e estupro. Sentia-se
confuso e assustado, incapaz de perceber exatamente o que acontecera ou o que dera
errado, principalmente depois que notou a ausência de notícias de Hermione. Não a vira
sair, nem para onde fora levada. Naquele instante a solidão pesou sobre ele mais do que
em qualquer outro momento de sua vida.
Nunca mais a vira depois disso, nem ouvira notícia sobre ela, ou obtivera resposta
de suas cartas.
Correção. Ela assinara a anulação dos papéis de casamento, pois vira a letra dela
no documento. Não recebera nenhuma carta, depois. Nenhum telefonema. Nem mesmo
um bilhete de despedida. Nunca mais ouvira falar de Hermione Granger.
Até aquela noite, tão longe e tanto tempo depois. Trinta horas antes de se casar
com outra mulher. Exatamente naquele instante de sua vida... Zás! Hermione aparecia,
como num seriado de televisão, para colocar em dúvida o rumo que sua vida tomava. Ou
pelo menos para abalar as estruturas existentes, e fazer lembrar que velhos fantasmas
ainda viviam, não haviam desaparecido no tempo. Hermione Granger... se é que era
Granger ainda, o que duvidava. Os pais dela a teriam casado com o Coroa Bom Partido
há muito tempo.
No início nutrira esperanças, tinha certeza que o amor de ambos encontraria uma
forma de colocá-los em contato outra vez. Então sim, fariam planos de verdade, para
fugir e sumir de vista, fora do alcance das famílias. Acreditara no amor deles. Acreditou
até que a realidade e os meses dissolvessem tudo o que restara; ao final, vencido, aceitara
a verdade. Ela o descartara, preferindo a segurança dos pais aos sonhos que ambos
haviam criado. Aceitara o fato de não ligar seu destino ao dele.
Perguntou-se se Hermione o reconheceria. Imaginou que teria seguido todos os
planos que o pai delineou para sua vida, onde o próprio Harry não passaria de um
momento de distração e loucura. Talvez ela nem lembrasse seu rosto.
De qualquer forma, fora assim que ela escolhera... ou aceitara a escolha que
haviam feito por ela.
Harry levantou e saiu do salão, como se não tivesse nada a fazer naquele lugar.
Era possível que tudo não passasse de alucinação, ou coisa parecida, e fosse sumir assim
que deixasse aquele aposento. Caminhou ereto para a saída, olhando apenas uma vez,
rapidamente, por sobre o ombro. Pareceu readquirir um pouco do controle ao voltar as
costas para Hermione e caminhar em direção oposta. O melhor a fazer seria subir, tomar
um banho bem quente e relaxante, e assistir a um pouco de televisão antes de desligar as
luzes. Os dois dias que tinha pela frente estavam repletos de compromissos e ocupações.
Já seriam suficientemente atribulados sem a lembrança de outra mulher para atrapalhar
seu casamento.
Mais tarde, ao analisar os acontecimentos no meio da crise, recordou aquele
instante exato, quando as coisas ainda podiam ser controladas; seria possível ter subido
diretamente para o quarto, sem hesitar nem olhar para trás. E sem parar no saguão.
Foi exatamente o que fez, sem o menor motivo. Parou no saguão e olhou para trás.
Engraçado como alguns segundos podem decidir a vida de uma pessoa...
A tempo de ver que ela saía do bar do restaurante e entrava no saguão,
desacompanhada.
Afinal, qual o problema? Ele apenas a cumprimentaria, pelos velhos tempos que
passaram juntos. Dez anos depois, não significavam mesmo mais nada um para o outro.
Seria até bom saber como era a vida que Hermione levava, para esquecer a amargura da
falta de comunicação. Talvez mudasse de pensar, e se despedissem como amigos. Seria
bom que ambos desfizessem as más impressões da adolescência.
Só não sabia por que estava tão nervoso, seu pulso tão acelerado, como se fosse
um colegial outra vez. Parou de reprimir os pensamentos e procurou um lugar onde
pudesse observá-la, parando ao lado dos telefones públicos.
A iluminação não era forte, porém não demorou nem um instante para que ele a
identificasse além de toda a sombra de dúvida. Existe uma qualidade nas pessoas que
jamais se altera, embora seja cada vez menos perceptível, a partir da adolescência. Dizia
respeito a movimento, à forma como ela se movia. Não era difícil reparar nisso porque
esse mesmo fluir do movimento o encantara desde a primeira vez em que a vira. Apesar
dos gestos educados, adultos e comedidos, aquela rebeldia delicada ainda estava lá. Na
base de tudo, podia ser disfarçada, mas não anulada. Era Hermione. Sem sombra de
dúvida.
Mione. Mais bonita do que em sua lembrança, se é que isso era possível; talvez
fosse o ar de maturidade e sofisticação ao redor dela; talvez fosse a aparência mais
segura, que os adolescentes de dez anos antes nem teriam entendido direito, nem se
importariam em definir. Em relação ao estilo de roupas, sim, a mudança fora mais
explícita. Para melhor: o terninho assentava-lhe bem, e o caimento parecia perfeito, como
se fosse feito sob medida. Talvez fosse mesmo. A saia risca-de-giz chegava ao meio das
coxas e abraçava os quadris, delineando sem apertar. As linhas do paletó tomavam essa
peça uma vestimenta feminina, cujo único propósito era o de realçar as curvas sob o
pano. O cabelo castanho-dourado estava mais curto e basto, com as pontas curvas
tocando os ombros.
No geral, era a aparência de uma jovem executiva.
Harry fingiu estar usando o telefone, para poder apreciar com calma a visão dela.
Esperou até que Hermione passasse por ele antes de colocar o receptor no gancho outra
vez, desligando alguma coisa no mundo exterior. Pronunciou o nome dela no tom de
quem a estivesse enxergando apenas ali, naqueles segundos:
— Mione! Hermione Granger?
A própria voz pareceu-lhe sem fôlego, não de surpresa, mas de emoção.
Ela se voltou, girando nos calcanhares ao reconhecer o timbre que pronunciava
seu nome. Os lábios se entreabriram e os olhos rolaram nas órbitas, como se não
conseguissem acreditar no que viam.
— Harry? Harry Potter? |