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Descrição: Capítulo 1 – Paisagens e Presságios
O céu sobre Londres amanheceu em silêncio. As nuvens, pesadas como lembranças que se recusam a partir, pairavam imóveis acima da Estação King’s Cross, como se o tempo aguardasse algo que ainda não tinha nome. As engrenagens do mundo trouxa se moviam discretamente enquanto bruxos e bruxas de todas as idades atravessaravam a muralha invisível entre as plataformas 9 e 10, num ritual repetido a cada outono, mas que nunca deixava de ser mágico.
Klaus Feingold saiu de um táxi bruxo sem pressa. Seus cabelos escuros estavam desalinhados pelo vento e uma expressão de sono crônico estampada no rosto. O calor tímido do final do verão mal tocava sua pele, abafado por um sobretudo azul-petróleo que sua mãe insistira que ele levasse. Ele equilibrava uma mala pesada de um lado e uma caixa de madeira do outro — dentro, adormecia seu gato, Galileu, que resmungava cada vez que o tremor do carrinho de bagagens ameaçava sua soneca.
Seraphina Vess estava encostada com desleixo no vagão, como se o mundo todo tivesse que esperar por ela. Os braços cruzados, o olhar atento aos arredores, mas com aquele ar despreocupado de quem sabe que será notada, mesmo em silêncio.
O cabelo, negro como tinta fresca, estava preso num coque alto e imperfeito, com algumas mechas escapando ao vento — o tipo de descuido calculado que, de alguma forma, deixava tudo mais interessante. O uniforme estava dobrado com elegância nos braços, e os sapatos brilhavam como se tivessem saído de um feitiço de polimento há poucos segundos.
— Você está atrasado — disse ela, sem mover um músculo, o tom seco, mas carregado de familiaridade.
— Você está elegante demais para estar julgando horários — rebateu Klaus, largando as malas com um suspiro. Seraphina arqueou uma sobrancelha, o olhar firme e os braços ainda cruzados.
— E eu te mandei mensagem — retrucou Klaus, com um sorriso de canto. — A culpa é sua que não viu. Minha concha mágica quase fritou tentando se conectar com essa sua pulseira de florzinha.
Ela olhou brevemente para o pulso, onde a delicada pulseira encantada — entrelaçada com pequenas flores encantadas que brilhavam conforme as emoções de quem a usava — emitia um leve brilho esverdeado.
— Jamais — disse Klaus, fingindo ofensa. — Caprichei tanto que a concha piscou três vezes, fez aquele som de “plim” e tudo.
Seraphina soltou um suspiro, a postura começando a relaxar.
— Talvez tenha sido minha culpa, então. Desativei as notificações ontem à noite… estava tendo sonhos ruins.
O rosto de Klaus suavizou, o olhar ficando mais atento.
— Se soubesse disso, teria ido te ver pessoalmente. Ou mandado um bilhete-voador. Ou um dragão. Enfim, algo mais difícil de ignorar.
Seraphina sorriu de leve, virando-se finalmente para abrir a porta do vagão. — Da próxima vez, tente o dragão. Darei mais atenção.
— De qualquer forma, você acha que eu perderia a chance de dividir o vagão com a minha pessoa favorita em Hogwarts?
— A gente mal começou o ano e você já está me bajulando? Está querendo alguma coisa?
— Estou. Uma boa cabine, uma conversa decente e talvez um pouco menos de sarcasmo. Mas não exijo muito.
A troca era fácil, quase automática. Como duas peças de quebra-cabeça que se encaixavam sem esforço. Desde a morte da mãe de Seraphina, a mãe de Klaus a acolhera como se fosse filha, e nos meses que se seguiram, os dois haviam se tornado mais do que amigos: quase uma extensão um do outro.
O vagão escolhido ficava próximo do final do trem, menos visado pelos alunos que buscavam espaço logo nos primeiros compartimentos. Instalados, com as malas organizadas nos bagageiros, Klaus puxou do bolso um exemplar dobrado do Profeta Diário. Galileu se acomodou numa almofada no chão, e Klaus afundou no banco com um suspiro de satisfação.
— Então — disse Seraphina, puxando o Profeta Diário das mãos de Klaus —, pronto para mais um ano de feitiços mal executados, professores instáveis e comida excelente?
— Na verdade, esse ano vai ser diferente — respondeu Klaus, enquanto buscava algo em sua mochila. — Eu fui aceito em Teoria da Magia.
Ela o olhou por cima do jornal, surpresa sincera cruzando seu rosto.
— Você está brincando. Essa disciplina mal abre... tipo... nunca.
— Uma vez a cada cinco anos. E parece que o Professor Vernetti resolveu voltar. — Ele sorriu, quase orgulhoso. — Dizem que ele é meio excêntrico.
— Isso é eufemismo para maluco, né?
— O tipo de maluco que eu gosto — rebateu Klaus, com um brilho nos olhos. — Ele já escreveu artigos sobre o uso simbólico da linguagem mágica, acredita que a magia tem "humores", como se fosse um organismo vivo. E que feitiços sentem o que queremos dizer.
— Você ama essas coisas complicadas demais para fazer sentido — murmurou Seraphina, voltando ao jornal. — Mas fico feliz por você. De verdade.
— É por isso que eu amo você, Sera. - Klaus disse rindo.
Um breve silêncio se instalou, confortável. Do lado de fora, os campos ingleses começavam a se alongar pela janela, substituindo os prédios e postes por florestas esparsas e colinas molhadas de orvalho.
Foi Seraphina quem rompeu o silêncio de novo.
— Você viu isso? — perguntou, abrindo a página manchada de tinta. — Já são cinco unicórnios desaparecidos na Floresta de Ashgrove. É um território protegido. Isso não deveria estar acontecendo.
Seraphina se inclinou para olhar, os olhos levemente apertados.
— Isso parece coisa do Ministério escondendo o jogo, como sempre. Até hoje não conseguiram explicar porque aqueles sumiços dos testrálios no ano que entramos em Hogwarts, ou o desaparecimento de vários elfos-domésticos há alguns anos… — Comentou Klaus
Do outro lado da divisória de vidro, um movimento sutil atraiu sua atenção.
— Espera — murmurou ela. — Aquele ali não é o Nir Shawt?
Klaus ergueu os olhos por cima do jornal. No compartimento ao lado, Nir — um lufano tão discreto quanto um feitiço de desilusão — estava sentado de frente para alguém que Klaus jamais vira antes. Era um garoto da mesma idade deles, talvez um pouco mais alto, pele pálida, cabelos escuros caindo nos olhos. Ele usava o uniforme de Hogwarts, mas com um suéter cinza por cima da camisa e um colar com pingente redondo que parecia antigo demais para ser só um enfeite.
O estranho estava com o rosto voltado para a janela, o queixo apoiado na mão, distraído com a paisagem. Uma figura quase etérea — silenciosa, calma, como se não pertencesse completamente ao mundo ao redor.
Então ele se virou, lentamente, e seus olhos encontraram os de Klaus.
Por um segundo inteiro — ou uma eternidade — os dois se encararam.
O estômago de Klaus afundou. Algo naquele olhar — direto, sereno, profundo — fez com que ele se esquecesse que estava sentado. Sua perna esbarrou sem querer na de Seraphina, que chutou Galileu de sua almofada dando um miado longo. Klaus rapidamente olhou para baixo, para qualquer lugar que não fosse aquele par de olhos escuros.
— Ele… ele viu a gente? — perguntou, baixinho, com a voz um pouco falha.
Seraphina ergueu uma sobrancelha, observando o novo garoto com mais atenção.
— Acho que viu você, na real. Nossa, ele parece intenso. Ele é novato?
Klaus deu de ombros, os dedos amassando levemente o canto do jornal.
— Nunca o vi antes. Deve ser transferência. Ou... um aluno que ficou sumido? Sei lá. — Disse Klaus tentando ainda se recuperar da troca de olhares.
— Bonito, né? — Comentou Sera.
— Quê?
— Ele. O garoto. É bonito.
Klaus abriu a boca e fechou em seguida. Seus pensamentos pareciam ter colidido uns com os outros.
— É... não sei. Quer dizer, é? Ele tem uma... cara meio estranha. Sabe, um jeito esquisito. Parece um dos elfos das histórias que minha mãe lia pra mim. Daqueles que olham pra você como se soubessem alguma coisa que você não sabe.
Seraphina sorriu, apoiando o queixo na mão.
— Uau. Poético, do nada. — Zombou Sera.
— Cala a boca.
Ela riu.
— Você tá vermelho.
— Eu tô com calor — insistiu ele, tentando não parecer tão inquieto. — Tá abafado aqui.
Antes que ela pudesse provocar mais, a paisagem pela janela mudou abruptamente. Colinas cobertas de neblina, e, no alto de uma delas, por apenas um segundo, uma figura encapuzada — parada, solitária, observando o trem como uma estátua contra o vento.
— Você viu isso? — Klaus se adiantou, encostando o rosto no vidro.
— Vi. O que foi aquilo?
— Não sei. Mas não gostei.
A silhueta sumiu tão rápido quanto surgira. E, de repente, o interior do trem parecia muito mais silencioso.
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