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33. O Baile à Fantasia


Fic: O ENCANTAMENTO DAS ALMAS - R & Hr - COM CAPA - FIC COMPLETA!


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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N/A: Oi! Está aí o capítulo gigante. É o último com acontecimentos mesmo, já que o 34 é só uma pequena espécie de epílogo, no modelo do primeiro capítulo da história. Se ainda tiverem com paciência até lá, não deixem de ler as notas ao final, ok? Beijos!


Capítulo XXXIII
O Baile à Fantasia



Abril chegou ao fim e maio passou tão rápido quanto uma forte e avassaladora rajada de vento. À medida que junho despontou e o tempo se tornava gradativamente mais quente com a aproximação do verão, a atmosfera em Hogwarts também começava a mudar. O clima de choque e tristeza em prol dos acontecimentos que culminaram na morte da professora Rebecca Brinks aos poucos foi se dissipando, se transformando em calmaria e agora dando lugar a uma crescente excitação, que se tornava mais e mais evidente com a perspectiva da chegada do Baile à Fantasia e, logo após, das merecidas férias de verão.

O resultado disso é que os estudantes estavam em polvorosa, desde os mais novos, que se encontravam excitadíssimos com a chance de enfim participarem de uma festa de toda escola, até os mais velhos, que como o habitual depositavam no evento seus devaneios secretos e suas esperanças de quem sabe realizarem seus sonhos adolescentes, fosse ele uma dança lenta com determinada pessoa ou um beijo de amor.

E as coisas não eram diferentes com Gina Weasley, que mesmo tendo nascido com um caráter ímpar e crescido ao lado de seis irmãos homens, ainda se permitia ser apenas uma garota de vez em quando. Uma garota com inseguranças tolas, sentimentos transparentes e até uma certa histeria completamente comum para sua idade. De fato, a ruiva se encontrava tão distraída em seu próprio mundo juvenil, observando sua imagem no espelho, que nem notou outra adolescente parada à porta de seu quarto, parecendo impaciente com os braços cruzados contra o peito e um dos pés tamborilando insistentemente sobre o chão. E só quando a menina bufou audivelmente foi que Gina virou-se e por fim notou sua presença.

-Ah... – fez ela sorrindo. – Oi, Hermione. Eu não tinha visto que você estava aí.

-Claro que não.
– respondeu Hermione revirando os olhos. – Você parece tão avoada que não teria visto nem se o Grope entrasse aqui treinando sapateado.

Gina corou de leve, mas não tardou a retrucar:

-Muito engraçadinha você. – disse ela. – Eu não sabia que o sarcasmo do Rony era contagioso.

-Bom...
– Hermione encolheu os ombros com um muxoxo – se for contagioso você certamente já está contaminada também.

-Eeuu??
– Gina levou ambas as mãos à boca fingindo estar surpresa e ofendida. – Isso é calúnia! O que te leva a afirmar que eu estaria contaminada?

-Você é a irmã dele, não é?
– resmungou Hermione.

-Sim, mas esse não é um ponto válido.

-E por que não?

-Talvez o sarcasmo do Rony só seja contagioso através de certos contatos FÍSICOS.
– explicou a ruiva com um sorriso maroto. – Certos contatos físicos que de forma alguma eu teria com meu irmão, se é que você me entende. – completou rindo abertamente.

Mas Hermione não compartilhou a piada. Ela meramente baixou os olhos, parecendo amuada e insatisfeita e perguntou numa clara tentativa de mudar o assunto:

-Podemos ir agora? Eu realmente tenho que me apressar, Gina, a Professora McGonagall me pediu que encontrasse Carole Rumbold e Dave Brennan em Hogsmeade às dez horas de sábado, faltam menos de quarenta minutos e eu não quero me atrasar. – falou num fôlego só.

Gina deixou de sorrir e franziu a testa para a amiga:

-O que está errado, Hermione? – indagou ela. – Por que esse mal-humor todo? Pensei que você estivesse feliz por ter sido a única monitora indicada pela McGonagall para ajudar os Monitores-Chefes numa tarefa.

-É claro que eu estou feliz.
– disse Hermione de modo conclusivo. – Não há absolutamente nada errado.

-Se essa é sua cara de felicidade, Hermione, não me deixe chegar perto num dia em que você estiver insatisfeita.
– afirmou Gina balançando a cabeça e se virando para mirar o espelho outra vez. – Vamos, diga logo o que incomoda você.

-Você quer dizer fora o fato de você estar arrumando essas presilhas no seu cabelo pela sétima vez desde que eu cheguei aqui?


Gina retirou imediatamente as mãos de cima das brilhantes presilhas verdes que refulgiam contra o vermelho bonito de seu cabelo e sacudiu a cabeça, parecendo irritada:

-Não são minhas presilhas que estão te deixando com esse humor tão sórdido, ok? Provavelmente o seu motivo é bem maior, não é verde e coincidentemente tem sardas estúpidas como as minhas e o mesmo sobrenome que o meu. – despejou ela encarando Hermione com as mãos sobre a cintura. – Então, o que foi que o Rony fez dessa vez?

-Nada.
– afirmou Hermione convicta. – O Rony não fez NADA.

“E esse é justamente o problema.”
– pensou ela com amargura, sentindo a angústia que a acompanhava há alguns dias vir à tona novamente, enchendo sua cabeça com dúvidas e seu coração com incertezas.

-Sabe, - disse Gina alisando sua blusa branca e endireitando o cinto de sua calça jeans clara, que apesar de gasto era elegante e seu tom verde combinava perfeitamente com o das presilhas do cabelo – eu não entendo a relação de vocês. Acho que nunca entendi e dificilmente entenderei algum dia.

-Não há nada para entender, Gina.
– Hermione murmurou encarando o chão mais uma vez. – Nós somos amigos.

-Amigos com contatos de terceiro grau, só se for.
– desdenhou a ruiva. – Por que é que vocês não assumem logo de uma vez?

-Assumir o quê?

-O romance, o rolo, o namoro, o caso, as sessões de amassos ou sei lá o nome que vocês darão. Isso não importa, apenas assumam.

-Não há nada para assumir, Gina, francamente...
– falou Hermione começando a caminhar para a saída, mas a ruiva foi mais rápida e se postou em sua frente, a agarrando pelos ombros como se quisesse sacudi-la e fazer o seu cérebro balançar até que ela chegasse a algum senso.

-Você tem coragem de afirmar olhando em meus olhos que só existe amizade entre vocês? – questionou Gina, seus olhos perfurando os de Hermione numa seriedade que chegava a intimidar.

-Eu... – gaguejou Hermione mordendo o lábio e desviando o olhar para os próprios pés. – Eu... não. – completou num cochicho.

-Não o quê? – exigiu Gina ainda a segurando.

-Não. – repetiu ela mais firmemente. – Não é só amizade o que eu... o que NÓS sentimos um pelo outro. É... é mais que isso. Muito mais. – confessou corando violentamente.

-Então?

-As coisas não são tão simples como aparentam, Gina.
– Hermione balançou a cabeça de leve. – Há poréns, existem complicações...

-Que tipo de complicações podem existir entre duas pessoas furiosamente apaixonadas uma pela outra que as impeçam de ficarem juntas?

-Que tal uma AMIZADE de quase SEIS anos?
– explodiu Hermione se desvencilhando da ruiva e dando as costas para ela. – Você acha essa uma complicação forte o suficiente?

Gina boquiabriu-se, sem ação. Ela encarou as costas da amiga por um momento e pôde perceber que a menina respirava pesadamente. Correndo uma mão pelo cabelo e brincando distraidamente com uma de suas presilhas, a ruiva deu um passo para perto de Hermione, insegura do que dizer ou fazer a seguir.

-Er... – começou ela hesitante. – Você já tentou conversar com o Rony sobre isso?

-Não.
– Hermione respondeu sem se virar.

-Mas... nesse caso como está a relação de vocês?

-Não está, Gina.
– falou Hermione aparentando cansaço e finalmente voltando-se para a amiga. – É aí que mora o problema. Nós nos beijamos quando estávamos na Ala Hospitalar e na manhã seguinte, pouco antes de partirmos para... para o funeral da Rebecca, como você já sabe. Mas só. Não houve mais nada depois disso... Nada.

-Eu não acredito nisso, Mione, vocês não se desgrudam, como é que pode não ter acontecido mais nada?

-Isso é uma das coisas que me assusta.
– confessou Hermione enrolando uma mecha de seu cabelo nervosamente entre os dedos. – O Rony e eu nunca estivemos tão próximos antes. Ele agora vive me abraçando, beijando minha bochecha ou segurando minha mão... Está sempre me atacando com cócegas, me erguendo nos braços dele e eu confesso que não resisto a tocá-lo de volta e oferecê-lo um carinho sempre que tenho chance. Mas... ao mesmo tempo é como se houvesse um muro invisível entre nós. Um muro que por mais que nós fiquemos dançando ao redor dele nunca permitirá ser atravessado completamente. – ela terminou com um suspiro.

-Mas o Rony nunca sequer tentou algo mais? Ele nunca ao menos fez menção de beijá-la novamente ou algo?

Hermione pareceu pensativa antes de responder lentamente:

-Não... – murmurou. – Quer dizer... apenas em uma única ocasião. Foi no dia do funeral também, à tarde, quando estávamos sentados sob a árvore perto do lago, mas eu estava tão arrasada e triste que não senti que era justo, então não aconteceu.

-Você o repeliu?
– a voz de Gina soou alarmada.

-Anh?

-O Rony tentou beijá-la e você o repeliu?

-Eu estava arrasada, Gina!
– Hermione exclamou defensivamente. – Eu não achei que fosse o momento e-

-Acalme-se!
– pediu Gina. – Eu não estou te acusando de nada! Só estou tentando entender o que provavelmente se passa na cabeça do meu irmão.

-E chegou a alguma conclusão?

-Bem, não é óbvio? O Rony só está com medo de ser repelido novamente, por isso nunca mais tentou nada.


A boca de Hermione se escancarou. Conhecendo Rony e suas memoráveis inseguranças, aquilo provavelmente era verdade. Ele estava assustado demais para dar outro passo. Mas assim estava ela. E se ela o beijasse e ele também a repelisse? Certamente Rony não faria isso, já que muitas vezes Hermione vira desejo nos olhos dele. Mas então, o que era pior, e se ao invés ele correspondesse ao beijo e os dois mergulhassem de cabeça nessa paixão e acabassem estragando a amizade de anos e a maravilhosa relação de cumplicidade e carinho que ambos tinham construído nesse último mês? Valeria a pena arriscar?

-Você conhece meu irmão. – continuou Gina caminhando para a saída e fazendo um sinal para que Hermione a acompanhasse. – Ele certamente está com medo, o covarde.

-Ele não é um covarde, Gina.
– retrucou Hermione seguindo a amiga para fora do dormitório das quintanistas. – Ele tem medo, eu também tenho. Mas se ele está inseguro dos meus sentimentos não há nada que eu possa fazer a respeito. Quem não compreende um olhar não compreenderia uma longa explicação. Se o meu silêncio não diz nada ao Rony, minhas palavras seriam inúteis.

E com isso ambas as garotas cruzaram o corredor e desceram os degraus, seguindo rumo à sala comunal e a um ensolarado dia de sábado em Hogsmeade.

*****



Hermione e Gina encontraram a sala comunal incrivelmente cheia e barulhenta. Conversas animadas e risinhos excitados vinham de todos os lados, especialmente dos lugares ocupados pelos estudantes mais novos. Harry e Rony estavam sentados numa poltrona próxima à escada e, por alguma razão, o ruivo parecia irritado.

-Ah, até que enfim! – exclamou Harry assim que as meninas se aproximaram. Rony ergueu a cabeça para olhar também e seu rosto nitidamente se iluminou quando seus olhos azuis pousaram sobre Hermione, fato que não era nada novo naquele último mês.

-Oi! – falou o menino se erguendo num salto. Sua carranca tinha se transformado num sorriso e ele envolveu os ombros de Hermione com um braço e muito carinhosamente deu um beijo leve no topo da cabeça dela, aspirando profundamente o aroma suave dos cabelos fofos da garota.

Oi, Ron. – ela murmurou se esticando para beijar-lhe a bochecha sardenta. – Bom dia, Harry. – acrescentou se voltando para o amigo, que também tinha se levantado e depois de aplicar um beijinho puro nos lábios de Gina encarava o perfil da ruiva com um olhar não tão puro assim.

-Dia, Mione. – cumprimentou Harry saindo do estado de ofuscação e deixando de observar Gina, embora umedecesse seus lábios nervosamente, como se eles estivessem ficado repentinamente muito secos.

-Por que você estava com uma cara de tão poucos amigos quando nós chegamos, Rony? – perguntou Gina ao irmão quando os quatro começaram a caminhar para o buraco do retrato.

-Eu não estava com cara nenhuma. – respondeu o ruivo.

Gina ergueu as sobrancelhas criticamente e Harry explicou:

-O Rony só estava irritado com o barulho da sala comunal.

-Quem falou em irritado?
– indignou-se Rony. – Eu só comentei que para anõezinhos minúsculos esses primeiranistas conseguem emitir muito barulho! Quem olha só uma vez não imaginaria que eles fariam tanto estrago aos tímpanos alheios com tão pouca massa corporal.

Harry e Hermione riram e Gina disse numa voz zombeteira:

-“Tímpanos” e “massa corporal”? Acho que já é hora de você deixar de ensinar meu irmão a falar difícil, Hermione! Ele já aprendeu direitinho...

As pontas das orelhas de Rony tingiram-se de escarlate imediatamente e ele resmungou:

-Ha ha ha... Estamos todos morrendo de rir com a piadinha, Ginevra Weasley.

Harry, que de fato era o único que parecia realmente divertido com a gracinha da ruiva, pressionou fortemente os lábios juntos para tentar disfarçar o riso e enrugou a testa em concentração. Mas Gina percebeu e resolveu poupar o garoto do esforço, mudando o assunto:

-Mas para falar a verdade, eu também achei a sala comunal muito mais barulhenta do que de costume. Será que tudo isso é por causa da visita a Hogsmeade ou da proximidade do baile?

-Do baile.
– Harry e Rony responderam juntos. As meninas ergueram as sobrancelhas para eles e Rony explicou, encolhendo os ombros:

-Vocês sabem, as garotas se tornam tão alucinadas com essas coisas de bailes, é bem assustador...

Hermione, que estava caminhando de braços dados com o ruivo num gesto muito comum entre os dois ultimamente, soltou-se do aperto e estapeou com força o braço de Rony.

-Vou te mostrar o que é bem assustador, Rony Weasley... – sibilou ela não conseguindo soar totalmente brava e tentando em vão esconder o sorriso.

-Eu não disse? – o ruivo se virou para Harry. – São umas alucinadas, é sério!...

Hermione ergueu a mão para estapeá-lo novamente, mas Rony foi mais rápido: ele agarrou-a pelo pulso e imobilizou a menina com os dois braços para trás, usando os dedos da outra mão para atacá-la com cócegas nas costelas.

-R-Ron!... Ha ha ha... P-paaree! – gaguejava ela entre gargalhadas. – P-por favor, Rony, cheeegaa!...

Os estudantes que abarrotavam o corredor para o Salão Principal paravam para observar, curiosos e risonhos. Harry e Gina, por sua vez, já nem prestavam mais atenção, vendo que aquilo já havia se tornado freqüente.

-Que coisa mais feia!... – falava Rony num tom de repreensão totalmente forçado enquanto continuava a cutucar Hermione nas costelas e observava a garota dar risada. – Uma MONITORA perdendo a compostura no meio do corredor! Tenha modos, Srta. Granger! Isso não é a maneira que a garota mais cotada ao cargo de Monitora-Chefe deve agir...

Hermione continuou guinchando e implorando, mas somente quando ela já começava a ficar mole e sem forças foi que Rony parou. Ele a olhou então, ofegante, com as bochechas afogueadas e ligeiramente molhadas com lágrimas de riso. Os cabelos dela, presos num coque sério e caprichado no começo da manhã, agora se resumiam a uma bagunça de mechas e fios se sobressaindo de todos os lados e caindo negligentemente nas laterais do seu rosto.

Rony sorriu, satisfeito com o resultado. As pessoas poderiam não saber, mas esse era o real motivo pelo qual o ruivo adorava fazer cócegas em Hermione: não apenas pelo prazer do durante, onde o som das risadas da menina vibrava nos ouvidos dele mandando boas vibrações direto ao seu coração e a sensação de tê-la tremendo e implorando em seus braços o fazia se sentir verdadeiramente um rei. O Rei Weasley. Mas não era por isso que ele adorava “torturá-la” assim. Porque por mais que o “durante” fosse bom, era a recompensa do “depois” que impulsionava Rony. Não havia nada no mundo que ele gostasse mais do que vê-la exatamente do jeito que ela estava agora: com os olhos emanando calor e as bochechas em chamas. Com os cabelos indomáveis e a respiração descompassada. Descomposta, selvagem, risonha, VIVA.

E ser ele a pessoa que conseguia deixar Hermione Granger naquele estado fazia seu ego minúsculo inchar de orgulho e seu coração encher-se com um desejo opressivo de descobrir outras formas de fazer Hermione assim tão descontroladamente feliz.

Beijando-a até à insensatez, quem sabe. Perdendo-se nos lábios dela até que um dos dois desfalecesse sem ar.

Essa era uma opção que dia após dia brincava pela mente de Rony, a cada vez que ele pensava no assunto, ou seja, umas sessenta vezes por hora ou uma vez por minuto. Mas beijá-la não era permitido. Tocar seus lábios aos dela reacenderia fogos que poderiam transformar em cinzas a relação encantadora de “amizade colorida” que os dois tinham cuidadosamente construído. E isso o assustava das pontas dos pés até cada milímetro de seus ossos estupidamente grandes.

-Eu. Vou. Matar. Você! – Hermione anunciou solenemente, enfiando o dedo indicador no peito do ruivo a cada palavra pronunciada. – Você me deixou uma bagunça, Rony! E justamente no dia do meu compromisso com os Monitores-Chefes! O que eles vão pensar quando me virem com o cabelo tão alto quando um balão de gás?

Rony abriu ainda mais o sorriso e tocou de leve o que sobrara do coque organizado de Hermione:

-Eu não sei bem o que é um balão de gás, Mione, mas eu tenho certeza que se isso se parecer com o seu cabelo é algo totalmente adorável.

A garota corou e mordeu o lábio inferior para reprimir um sorriso.

-Seu idiota. – ela murmurou girando os olhos.

-Sua alucinada. – ele provocou no mesmo tom, se inclinando abaixo e atacando a bochecha dela com um beijo demorado.

Hermione ergueu o olhar para a face sardenta do ruivo e também sorriu abertamente:

-Ron, eu...

“Amo você.”
– pensou ela. – “Apenas diga, Hermione, vamos!”

-Eu...
– ela suspirou. – Eu estou atrasada. Vamos logo para o café?

“Covarde sangrenta!”
– a mente dela gritou.

Mas Rony só afirmou com a cabeça, enlaçou seus dedos aos dela e, de mãos dadas, ambos entraram no Salão Principal.

*****


A pequena Hogsmeade estava quente e iluminada naquele sábado. O sol reinava absoluto no céu límpido e azul, jorrando sua luz sobre as casas e lojas e aquecendo todos os bruxos que ali perambulavam com seu calor e energia. Muito calor e energia na opinião de Rony. Calor e energia até demais.

O ruivo deixou sair um resmungo mal-humorado e bateu fechada a porta do pub atrás de si com mais força que deveria. Ele estava suando dentro daquela velha camisa preta de tecido grosso que sua mãe tinha lhe costurado e praguejou baixo quando a luz forte do sol lá fora cegou momentaneamente seus olhos azuis.

-Seja lá qual for o seu problema, Rony, faça o favor de tentar resolvê-lo ao invés de descontar suas frustrações na porta do “Três Vassouras”. – falou Gina calmamente olhando para o irmão de um modo recriminador.

Rony bufou audivelmente e não respondeu. Ele chutou a terra da estrada do povoado para tentar aliviar um pouco de sua amargura, mas arrependeu-se logo em seguida, quando sentiu sua meia enchendo-se de poeira e pedrinhas que tinham entrado por um dos muitos buracos que “enfeitavam” a sola do seu sapato. Seu belo sapato, herdado de Carlinhos, que provavelmente tinha herdado de Gui. Mais uma de suas velharias. Como a calça jeans que ele vestia, antiga, desbotada e com as barras tão curtas que mal cobriam seus tornozelos. E como aquela camisa de tecido estupidamente quente.

O garoto carranqueou e chutou uma pedra em sua frente com mais força do que tinha chutado a terra ainda há pouco. Ela se estilhaçou e enquanto observava os pequenos pedregulhos rolarem estrada abaixo, Rony deixou seus pensamentos vagarem também. Por que inferno ele tinha que ser tão pobre? E se não bastasse, por que tão burro e incompetente? O que em Terra ele estava pensando quando convidou Hermione para um baile, sendo que nem dinheiro suficiente para comprar uma roupa decente ele tinha? Hermione não merecia ir ao um baile com um sujeito maltrapilho. Ela merecia alguém do nível dela, tão bom, tão capaz. E não um Rony Weasley de sapatos furados, calças “pegando frango” e falta de capacidade para ser o futuro Monitor-Chefe ao lado dela.

-Se você continuar chutando as coisas assim vai acabar se machucando, Rony. – a voz de Gina entrou por seus ouvidos mais uma vez. O ruivo ergueu os olhos do chão para olhar para frente e ver sua irmã o olhando curiosamente por cima do ombro, enquanto caminhava de braços dados com Harry.

“Ah, sim, além de pobre, burro e incompetente, sou também um segurador de velas oficial. Acrescente isso à lista, Rony.” – ele pensou furiosamente.

-Me deixe, Gina. – resmungou baixinho.

-Por que você tem que ser tão teimoso? – se impacientou a menina. – Ficar todo emburrado só porque nós não fomos à “Trapobelo” com a Hermione, isso é patético! Você se encontrará com ela depois, desgruda um pouco!

-Olha quem fala em desgrudar.
– desdenhou Rony. – Você e o Harry parecem mais duas gomas de mascar Baba-Bola de tão grudentos que são!

-Me deixe fora disso, companheiro.
– pediu Harry parecendo sem-graça.

-Mas nós não ficamos com essa tromba de elefante africano quando um vai sozinho a algum lugar. Até parece que a Hermione foi à lua e não logo ali numa outra loja.

-Eu não estou com tromba nenhuma, sua língua de trapo!
– se exaltou o ruivo. – Hermione pode ir onde quiser. Eu só disse que nós poderíamos ter ido junto e enquanto ela se encontrava com os Monitores-Chefes nós olharíamos algumas fantasias. Essa é a finalidade dessa visita de hoje ao povoado, não é? Adquirirmos fantasias...

-A “Trapobelo Moda Mágica” é a loja de vestes mais luxuosa do mundo bruxo, Rony! Nós não teríamos dinheiro para comprar nem um retalho de uma fantasia de lá!

-Eu sei, você já fez o favor de dizer isso.
– Rony respondeu com raiva.

“E na frente da Hermione”. – pensou amargamente. – “A essa hora ela já deve estar se arrependendo mil vezes por ter aceitado ir comigo nesse baile.”

-Mas sempre se pode improvisar.
– Harry entrou na conversa. Ele conhecia o amigo o suficiente para saber que Rony estava outra vez profundamente encabulado e chateado com sua situação financeira.

-É claro que sim. – concordou Gina animada. – Na “Madame Louise Witch Gifts” há uma sessão de vestes enorme e os preços de lá são bem mais acessíveis. Com um pouco de imaginação podemos sair de lá com fantasias maravilhosas, Rony.

-É, eu vou fazer isso também.
– disse Harry ainda no intuito de animar seu amigo.

-Você pode comprar qualquer fantasia da “Trapobelo” que quiser, Harry. – falou Rony. – Não precisa dessa coisa de improvisar.

-Mas eu quero!
– teimou Harry convicto. – Você não vê o quanto é mais legal, Rony? Aposto que vai aparecer um monte de fantasias sem-graça e iguais, vindas da “Trapobelo”. Mas se improvisarmos estaremos usando algo único, que nós inventamos! Poderemos nos fantasiar de qualquer coisa!... Até de Snape! – ele deu risada.

-Ou de Hagrid. – Rony riu levemente, parecendo convencido pelo amigo.

-Lockart! – Harry disse sorrindo e fazendo pose de galã.

-Murta-Que-Geme! – Gina entrou na piada também. – Aí você poderia me emprestar os seus óculos, Harry.

-Ei!
– protestou o garoto. – Meus óculos não são iguais aos da Murta!

-Não, os seus são mais feios!
– gargalhou Rony.

-Ah, é? – disse Harry. – Pior você, com essas sardas no rosto poderia ir fantasiado de um doente de... como é mesmo o nome da coisa que aquele curandeiro no quadro do St. Mungos falou para você?... Ah sim, Sarapintose! Vai de “Roniquinho Sarapintose”!

-Ei, Sr. Potter, eu também tenho sardas!
– Gina o lembrou com um beliscão no braço.

-Ah... – Harry murmurou ligeiramente encabulado, mas se recuperou logo. – Vai de “Gininha Sarapintose” também, então. – disse sorrindo divertido para a namorada e calando-a com um beijo quando viu que ela estava prestes a protestar.

Rony desviou o olhar daquela “pouca-vergonha” entre seu melhor amigo e sua irmãzinha bebê e encarou o enorme toldo roxo berrante à sua frente. Haviam acabado de chegar à “Madame Louise Witch Gifts” e ele já sabia exatamente o que procurar ali para improvisar sua fantasia. Desde que Harry havia dito que eles poderiam se fantasiar de qualquer coisa, um pensamento tinha lhe vindo à cabeça: então por que não se fantasiar de alguma coisa que Hermione iria gostar? Ou melhor, alguma coisa que ela iria concordar e achar perfeito para ele?

Sim, daria trabalho e precisaria de uma boa quantidade de “improviso”. Mas Gina poderia ajudá-lo (ele sozinho era uma negação com feitiços de costura) e só a recompensa de ver o rosto surpreso e aprovador de Hermione valeria a pena. Sim. Rony sorriu e se virou para os outros dois:

-Vamos logo! – chamou. – Chega de dedos para o lado de minha irmã, Sr. Potter, agora você precisa me ajudar a achar uma roupa. Uma roupa verde.

*****



Hermione puxou um banquinho caprichosamente lustrado postado a um canto da “Trapobelo Moda Mágica” e se sentou, deixando escapar um suspiro que poderia ser classificado como um sinal de cansaço, impaciência ou frustração. Quem sabe os três, até mesmo.

Já havia mais de quarenta minutos que ela, o monitor corvinal Antônio Goldstein e os dois Monitores-Chefes se encontravam ali e só agora as coisas começavam a se encaminhar. A tarefa à qual ela e Antônio tinham sido designados a auxiliar poderia até parecer coisa simples, mas na verdade era uma batalha duríssima que fez os cabelos de Hermione ficarem até mesmo mais em pé do que de costume: cuidar de um bando enorme de primeiranistas e secundanistas e acompanhar todos eles na escolha e compra de suas fantasias, auxiliando no que fosse preciso.

E onde está a dificuldade nisso tudo? – alguém poderia pensar.

“Bem,” – pensou Hermione – “experimentem controlar mais de cinqüenta CRIANÇAS em sua PRIMEIRA visita à Hogsmeade para comprarem fantasias para seu PRIMEIRO baile. Tenho certeza que verão exatamente aonde está a dificuldade...”

-Ei, não é tão ruim assim, Hermione.
– Antônio Goldstein disse sorridente colocando uma mão sobre o ombro da garota, que enrijeceu e ergueu a cabeça para o colega, dividida entre sorrir em agradecimento ou explodi-lo com uma azaração apenas por ele ser o monitor convidado a estar ali no lugar que ela desejava que fosse de Rony. Ela acabou decidindo-se por um meio termo:

-Eu nunca disse que era ruim, Antônio. – falou de modo simpático, mas sem sorrir. – Eles até que estão controlados agora. – somou observando a fila organizada de crianças, que de uma a uma apanhavam uma fantasia e entravam no provador.

-Foi genial a sua idéia deles todos usarem fantasias iguais. – comentou Antônio puxando um primeiranista desviado pelo braço e o endireitando na fila.

-Obrigada. – agradeceu Hermione. – Ficou bem mais simples assim, não foi? Acabou com as discussões de que “eu é que vou usar essa fantasia porque a vi primeiro.”
...Michael Vitz, sem furar fila, por favor!
– acrescentou com eficiência, carranqueando para um garotinho moreno de olhos esbugalhados e expressão malandra.

-Sim, Srta. “menina-que-retornou”! – disse o menino fazendo continência e retomando seu lugar na fila. As outras crianças gargalharam com a cena.

-Cinco pontos da Lufa-Lufa por causa da gracinha, Michael.

-Mas monitora...

-Se reclamar serão dez.


Michael se calou, mas Maicon, seu gêmeo idêntico, fez careta para as costas de Hermione, provocando risadas entre as crianças outra vez. A garota abriu a boca para protestar, mas foi desviada por um pequeno tumulto: dois dos garotos da fila tinham se engalfinhado e chutavam e socavam, rolando pelo chão.

-Parem já com isso! – Hermione ralhou agarrando Adam Banks pelas costas das vestes enquanto Antônio fazia o mesmo com Maicon Vitz.

-Se você desrespeitar minha monitora outra vez eu vou te arrebentar! – berrava Adam para Maicon.

-Vai arrebentar coisa nenhuma, Adam! – brigou Hermione. – Isso é coisa que se faça?

-Mas monitora, ele fez careta para você!

-Com violência não se resolve nada, você deveria saber disso.

-Mas meu monitor arrebentou a cara daquele monitor sonserino no começo do ano letivo...

-Sim, e por isso ele não está aqui agora, batalhando pelo cargo de futuro Monitor-Chefe. O Weasley nunca teria essa capacidade.
– falou uma voz dura e fria e Hermione se virou para ver Dave Brennan se aproximando, acompanhado por Carole Rumbold e a bruxa proprietária da loja, que parecia horrorizada e chocada com tamanha confusão dentro de seu estabelecimento tão fino.

Raiva borbulhou pelo estômago de Hermione e de repente ela sentia uma necessidade avassaladora de enfeitiçar cada pedacinho desprezível do Monitor-Chefe por ele se referir assim a Rony. Ou apenas enfiar a mão em sua cara como fizera um dia com Draco Malfoy.

-O “Weasley” tem muito mais capacidade do que você possa mesmo sonhar, Brennan. – sibilou ela, desprezo presente em cada sílaba.

Dave Brennan pareceu meio surpreso, mas replicou logo em seguida, um sorriso arrogante e malicioso brincando em seus lábios:

-Você é a pessoa a dizer, Granger, é a namorada dele. Mas quem sabe você também não tenha tanta capacidade como todo mundo pensa que tem...

A garota ignorou a provocação. Ela apenas sentiu sua face esquentar com a palavra “namorada” e abriu a boca para negar, mas fechou-a logo em seguida: não valia a pena desmentir e explicar a verdade. E além do mais, essa era uma mentira que ela não se importava nem um pouco em deixar as pessoas acreditarem. Pelo contrário.

-Todos em fila outra vez, vamos. – disse ela suspirando e se virando para as crianças, que tinham começado a se dispersar. – Adam, Maicon, Grifinória e Lufa-Lufa acabam de perder vinte pontos cada uma pela atitude dos dois.

Os menininhos abaixaram a cabeça e se aquietaram. Foi quando Hermione sentiu Carole Rumbold dar um apertão consolador em seu ombro e sussurrar em seu ouvido:

-Não ligue para o Dave. – disse com firmeza. – O cargo já é seu, você sabe.

Ela sorriu fracamente: - Obrigada, Carole.

A Monitora-Chefe acenou e se virou, mas olhou por cima do ombro logo em seguida:

-E Hermione?

-Sim?

-Não tem nada demais em uma Monitora-Chefe namorar com alguém que seja apenas monitor.
– disse Carole. - De certa forma, é até agradável, já que é você quem controla horários de reuniões, pares de rondas e todo esse tipo de coisa.

E com uma piscadinha divertida ela se virou, deixando Hermione parada e com a boca ligeiramente aberta.

*****



Pouco mais de uma hora depois, Hermione, Antônio Goldstein, os Monitores-Chefes e as crianças deixaram a “Trapobelo Moda Mágica” e seguiram na direção do outro lado de Hogsmeade, onde ficava a “Madame Louise Witch Gifts”. Os alunos mais novos, depois de finalmente terem comprado suas fantasias (de palhaços para todos eles, só alterando cores e pequenos detalhes) tanto insistiram em adquirir acessórios e maquiagens que conseguiram a permissão de Carole e Dave para visitarem a grande loja de departamentos, onde possivelmente encontrariam tudo.

E Hermione estava até satisfeita com isso. A menina carregava um grande pacote em seus braços e sentia sua bolsa de dinheiro muitíssimo mais leve, já que boa parte de seus Galeões havia ficado para trás, no caixa da “Trapobelo Moda Mágica”. Mas tinha valido a pena. Apesar de ter custado uma pequena fortuna (muito mais do que qualquer das fantasias prontas mais caras da loja), aquele vestido vermelho agora caprichosamente embrulhado no pacote em seus braços, era fácil fácil o mais lindo e encantador que Hermione alguma vez já tinha botado os olhos. E seria perfeito para o que ela precisava, bastaria encontrar alguns acessórios extras na “Madame Louise Witch Gifts” e improvisar um pouco...

A grande loja de departamentos estava abarrotada de alunos quando eles se aproximaram. O enorme toldo roxo berrante à porta do lugar estava refulgindo sob os raios do sol forte e ofuscando por um momento a visão de todos que o olhassem. Hermione e Antônio ajudaram os Monitores-Chefes a organizarem a entrada das crianças e só então fizeram seu caminho ao interior do estabelecimento.

Muitos primeiranistas e secundanistas exclamaram em alegria e admiração assim que olharam ao redor. Hermione não pôde se ajudar e sorriu a eles, entendendo exatamente o que aquelas crianças deviam estar sentindo. A “Madame Louise Witch Gifts” era a loja mais extravagante que a garota já tinha visto na vida, mas seguramente a mais bonita. Era uma bela imagem todos aqueles tons de roxo contrastando com o prateado, aquelas enormes vitrines de rodapés roxos com as silhuetas prateadas animadas de bruxos e bruxas em diversas ações, as letras ofuscantes na parede ao fundo, se embaralhando e se alternando para formar o nome da loja e logo em seguida a frase “Presentes bruxos para todas as ocasiões”.

Mas não só a aparência fazia dessa loja a favorita absoluta de Hermione, vencendo até mesmo a “Floreios e Borrões”. Pois além de também possuir uma sessão maravilhosa de livros, esse lugar era morno, atraente, receptivo. Parecia emanar uma energia positiva de cada centímetro das paredes e encher todos os que estavam ali com um sentimento gostoso e tranqüilizador. Hermione fechou os olhos brevemente, desfrutando aquela sensação de bem estar, mas então alguém a chamou de volta à realidade:

-Ei, Mione!

Ela se virou e viu Gina sorridente na fila do caixa, carregando uma cesta larga lotada de coisas e acenando vivamente com a outra mão. Hermione devolveu o sorriso e se aproximou:

-Oi Gina. – cumprimentou ela. – Onde estão os garotos?

-De volta ao “Três Vassouras”.
– contou a ruiva. – Eles me deixaram para trás para pagar e levar as compras, aqueles preguiçosos estúpidos.

-Mas por que eles fariam isso?
– estranhou Hermione.

-Bem, o Rony disse que estava se sentindo meio causto... caustóbico ou algo assim. – Gina encolheu os ombros. – Algo que tem o mesmo sentido de abafado, eu acho. Certamente é outra palavra nova que você ensinou a ele.

Hermione revirou os olhos, mas sorriu tímida e cupavelmente, se lembrando exatamente de uma noite há pouco mais de uma semana, em que Rony e ela estavam numa ronda de monitores e ela disse que estava se sentindo claustrofóbica dentro daqueles corredores estreitos e mal iluminados do castelo.

-Clausto o quê? – ele tinha perguntado com uma de suas caretas típicas.

-Claustrofóbica, Ron. – ela tinha dito. – Vem de Claustrofobia. Quer dizer fobia de lugares fechados.

-Ah...
– Rony tinha falado com um sorriso. – Resumindo, você quer dizer que está abafado aqui?

-É,
- ela tinha respondido sorrindo de volta – mais ou menos isso.

E a lembrança do que tinha vindo depois fez Hermione sorrir mais bobamente: Rony, dizendo que iria resolver esse problema num instante, tinha a erguido nos braços como uma mãe segura um bebê (ou um noivo segura uma noiva em sua primeira noite juntos) e tinha sorrateiramente partido com ela para os exteriores do castelo, levando-a para debaixo da árvore próxima ao lago e deixando-a sentir a brisa gostosa da noite em seu rosto e assistir a lua prateada refletindo nas águas negras do lago. Naquela noite os dois tinham conversado trivialidades até adormecerem abraçados sobre a grama, só acordando horas depois em plena madrugada, quando nervosos com o medo de serem pegos, mas rindo de se acabar da aventura, ambos se apressaram de volta à Torre da Grifinória, deixando uma sonolenta Mulher Gorda praguejando muito irada no processo.

-O que? – indagou Gina interrompendo os devaneios da amiga. – Por que esse sorriso culpado?

-Nada.
– cortou Hermione. – Não há sorriso culpado nenhum. E o que você tem aí? – perguntou mudando o assunto, apontando para a cesta abarrotada na mão de Gina.

-Ah!... – exclamou a ruiva empolgada. – São nossas futuras fantasias! Dos garotos e minha, eu quero dizer.

-Ah, é?
– Hermione pareceu interessada. – E o que são? – acrescentou dando uma espiada no interior da cesta e vendo de relance uma espécie de capa de chuva vermelha, um tecido verde, um estranho chapéu vermelho enorme e algumas penas.

-Não, isso eu não posso dizer! – falou Gina sacudindo a cabeça. – Os meninos me matariam!

-Ei, mas por que eu não posso saber e você pode?
– indignou-se Hermione. – Não é justo!

-Esqueça isso, Hermione, no dia você verá.
– disse a ruiva, mas notando a expressão pouco convencida da amiga, completou: - Mas você vai saber a minha fantasia, claro, desde que você irá me ajudar a me arrumar.

-Certo.
– concordou a menina ainda meio desconfiada.

-Ei, Hermione! – alguém a chamou da extremidade oposta da loja. Ela se virou e viu Antônio Goldstein rodeado por falantes primeiranistas e parecendo perdido. Carole Rumbold e Dave Brennan controlavam outra turminha não muito longe. – Você poderia me dar uma mãozinha aqui com eles?

-Sim, estou indo, Antônio.
– respondeu ela e se voltou para Gina: - Eu tenho que ir.

-Essa era a tarefa então?
– quis saber Gina. – Cuidar desse bando de monstrinhos?

-Bem, é.
– Hermione riu. – Ajudá-los com as fantasias e tudo o mais.

-O outro monitor convidado foi o Antônio Goldstein? Provavelmente já temos os futuros Monitores-Chefes, então...

-Você sabe quem eu gostaria que fosse.
– murmurou Hermione.

-Bom, - a ruiva encolheu os ombros – melhor assim. Às vezes é bom não misturar trabalho e diversão.

Hermione revirou os olhos e sorrindo foi se juntar a Antônio.Quando ela olhou na direção da fila do caixa quase quinze minutos depois, Gina já estava saindo. Aparentemente ela já tinha pagado e caminhava para a saída da loja com os braços repletos de pacotes. Hermione notou que ela estava levando inclusive a cesta onde todas as outras coisas estavam dentro ainda há pouco. Será que aquilo faria parte da fantasia de algum deles? O que eles estariam tramando?

A menina balançou a cabeça e caminhou para uma vitrine de acessórios. Ela aproveitaria a calmaria temporária das crianças para cuidar de sua própria fantasia. Afinal, ela também merecia. Ou melhor, Rony também merecia.

*****



Quando Hermione se viu finalmente indo rumo ao caixa da “Madame Louise Witch Gifts”, já era bem de tardezinha. A menina era a próxima da fila, mas atrás de si ainda vinham vários primeiranistas e secundanistas, o que significava que ela ainda teria que esperar mais algum tempo para deixar a loja e encerrar a visita a Hogsmeade, ajudando a levar todas aquelas crianças de volta a Hogwarts.

Ela sacudiu com impaciência a pequena cestinha com os acessórios que tinha escolhido cuidadosamente para montar sua fantasia e esperou que a pálida atendente atrás do balcão a chamasse. E ela o fez:

-Próximo, por favor. – falou a jovem parecendo entediada e cansada dentro de seu uniforme tão roxo berrante quanto o balcão. Hermione deu alguns passos adiante e depositou os conteúdos da cestinha em frente à moça, que passava sua varinha brevemente sobre cada acessório, fazendo o preço de cada mercadoria surgir no ar como uma fumaça dourada e irem se somando magicamente.

Hermione estava tão atenta naquele feitiço tão prático, desejando saber qual era, que nem notou que uma bruxinha muito velha e encurvada, usando vestes prateadas violentamente cintilantes, a observava de um banquinho a um canto, com uma atenção e curiosidade muito além dos padrões normais. Os olhos sábios da velha bruxa brilhavam e percorriam do pingente de estrela feito de diamante no pescoço de Hermione até o rosto da garota. A testa pregueada da bruxinha se enrugou ainda mais em algo que poderia ser concentração ou confusão. Ela ficou de pé.

-São três Galeões, vinte e quatro Sicles e cinco Nuques. – disse a atendente lendo a soma dos números feitos de fumaça dourada e colocando as compras de Hermione numa sacola também roxa com outro aceno da varinha.

Hermione remexeu em sua bolsa e buscou pela quantia exata de moedas. A garota pagou e agradeceu a pálida moça, mas assim que se virou para sair para um lugar mais vazio próximo à saída da loja, sentiu uma mão fria a segurando firmemente pelo pulso. Ela olhou e se assustou ao ver uma bruxinha muito velha e minúscula encarando-a com uma intensidade até incômoda.

-P-perdão? – gaguejou Hermione. – Eu... eu posso fazer algo pela senhora?

A velhinha não respondeu e meramente continuou a fitando, como se a medisse. A menina se remexeu, desconfortável e notou que os olhos miúdos da bruxa se demoravam no pingente de estrela do colar que ela tinha ganhado de Rony. Ela levou a mão à superfície fria do diamante e o apertou defensivamente:

-O que está errado? – perguntou alarmada. – Quem é a senhora?

A expressão indecifrável no rosto da velha bruxa se desanuviou e ela sorriu assim que seus olhos encontraram os de Hermione mais uma vez:

-Eu sou a Madame Louise, bela jovem. – disse ela numa voz tranqüila e bastante firme para alguém com tanta idade. – E você me daria o prazer de saber quem você é?

-Eu... Hermione Granger, senhora.
– ela respondeu confusa.

-Hermione Granger... – Madame Louise repetiu lentamente, como se soletrasse. – Forte. De impacto. Imponente... Gostei.

-Hum...
– fez Hermione ainda segurando seu pingente. – Obrigada.

-Me siga, minha jovem, eu gostaria de uma palavrinha com você.


A bruxinha se virou e caminhou para uma pequena salinha ao fundo da loja, acenando para que Hermione a acompanhasse. A menina hesitou por alguns instantes, mas então, vencida pela curiosidade, seguiu Madame Louise.

-Sente-se, Hermione. – pediu a velha quando ambas entraram num micro-escritório com duas cadeiras estofadas roxas e uma mesinha prateada entre elas.

-O que está errado? – Hermione não se agüentou e repetiu a pergunta, mas fez como o pedido e se sentou.

-Nada errado. – disse a bruxa sorrindo serenamente. – Pelo contrário. Algo está absurdamente certo por aqui.

Hermione manteve-se calada, aguardando que ela continuasse.

-Seu colar, minha jovem. – Madame Louise sussurrou depois de um breve silêncio.

-O que tem ele? – a menina apertou o pingente com mais força entre seus dedos. – Eu sei que ele veio de um sorteio dessa loja, mas eu não vou devolvê-lo!

-Eu não quero que você o devolva, mas mesmo que quisesse, isso seria impossível.
– a velha bruxa explicou calmamente. – A partir do dia que ele foi dado a você, esse colar nunca mais será de outra pessoa. Enquanto você viver ele será unicamente seu.

-E se por acaso alguém o roubasse de mim?
– indagou Hermione, estremecendo apenas com o pensamento de ficar sem o colar que Rony lhe dera. Madame Louise sorriu bondosamente:

-Ele nunca se adequaria a outro alguém. Ou ficaria curto, ou não se abotoaria, ou simplesmente se partiria ao meio. E você sabe por quê?

A menina balançou a cabeça em sinal negativo.

-Porque o que está contido nesse pingente, Hermione Granger, só pertence a você. A você e a mais ninguém.

-A luz da estrela...
– sussurrou Hermione.

-Você conhece a importância dessa luz?

-Ela vai brilhar durante toda a minha vida.
– afirmou a garota se lembrando das palavras de Rony.

-Sim, ela é a luz da sua vida. – disse Madame Louise. – Mas não é só isso.

-Não?
– estranhou Hermione. – Então o que mais ela é?

-Ela também é a luz de um olhar.
– a bruxinha falou séria. – A luz do olhar daquele belo jovem que lhe presenteou com o colar.

Um arrepio percorreu a espinha de Hermione e ela encarou a velha bruxa à sua frente, sem palavras.

-A luz... a luz do olhar do Rony? – ela perguntou baixinho. – Mas... mas como isso é possível?

-A maior magia do mundo, minha jovem.
– falou a velhinha com um sorriso enigmático. – Aquela que move montanhas, gera vida e envolve o universo. A que faz os olhos brilharem e os objetos de vidro se transformarem em diamante. A magia chamada AMOR.

Hermione piscou, perturbada:

-A-amor? – gaguejou.

-Sim. O sentimento mais sublime do universo. E é ele quem está presente na sua estrela.

-Como assim?

-Parte da luz dela vem da sua vida, e sua vida só foi gerada pelo amor entre seus pais. A outra parte vem do brilho dos olhos daquele jovem, e os olhos dele só brilham desse modo em prol do amor. Do amor que sente por VOCÊ.


Hermione empalideceu. Ela entrou num acesso de tosse e tentou respirar fundo para controlar as batidas desenfreadas de seu coração. Só quando conseguiu se recuperar um pouco alguns minutos depois, foi que ela conseguiu murmurar:

-Como... como é que a senhora pode saber algo assim?... Eu quero dizer... como é que a senhora pode saber que ele... que ele me... AMA?

-O diamante.
– contou Madame Louise. – Esse pingente era de vidro e poderia vir a ser um cristal. Era suposto a se transformar de acordo com a intensidade e sinceridade do sentimento de quem lhe deu. E se hoje é o mais nobre dos materiais... representa o mais sublime dos sentimentos. Você é uma jovem de sorte.

Hermione estremeceu e sentiu lágrimas quentes picando os cantos de seus olhos. Sua garganta apertou e a garota notou que todo seu corpo estava sendo invadido por uma sensação morna, aquecedora. Ela ergueu o olhar para Madame Louise à sua frente e, por entre lágrimas, notou que todo aquele brilho que envolvia a pequena bruxa não era por causa das vestes prateadas cintilantes. Era por causa de sua experiência de vida.

E se do alto de sua idade avançada a velha bruxa afirmava que o que Rony sentia por Hermione era amor, por que ela não haveria de acreditar?

Então, apertando seu pingente de estrela com força, a menina sorriu. Sorriu simplesmente por entender que o que ela carregava no pescoço não era um pingente com uma luz. Era o amor e o olhar do único garoto que ela já quis e continuaria a querer por toda sua vida. Junto dela.

*****



O tão aguardado dia do Baile à Fantasia chegou bonito e ensolarado, trazendo consigo uma atmosfera morna e agradável de verão e um clima de excitação contagiante que enchia cada milímetro do castelo de Hogwarts. A perspectiva de um baile logo mais e o início das férias de verão já no dia seguinte estava deixando os alunos num grau de agitação quase assustador durante todo o dia.

Como não haveria mais aulas e a tensão dos exames já tinha terminado, tudo o que os estudantes tinham para se preocupar eram coisas triviais como fantasias e danças. Pelo menos nessa noite eles só queriam esquecer guerra, bruxos das trevas e se divertir. Deixar para trás todas as preocupações e tristezas para dar uma chance à felicidade. Pelo menos nessa noite.

Dessa forma, quando a tarde chegou e o sol oferecia seus raios derradeiros antes de se despedir, os corredores do castelo estavam desertos, já que todos os habitantes do lugar se encontravam em seus respectivos dormitórios se preparando para o baile. Inclusive os habitantes do sexo masculino...

-Cara, eu me sinto absolutamente ridículo nessa roupa. – murmurou Harry endireitando seu enorme chapéu vermelho enfeitado com uma pena branca no topo e mirando criticamente sua imagem no espelho.

-Por que será? – indagou Rony sarcasticamente da ponta de sua cama onde estava sentado lutando para calçar uma espécie de sapatilha pontuda de couro bege, costurada por Gina. – Deixe-me pensar... – continuou ele meio histérico – talvez seja pelo fato de que você ESTÁ absolutamente ridículo nessa roupa, Harry! EU estou absolutamente ridículo NESSA roupa, todos nós estamos absolutamente ridículos nessas fantasias sangrentas!

Neville também mirou o espelho e quando seu nítido reflexo vestido em sua extravagante fantasia de índio americano lhe encarou de volta, ele afirmou com a cabeça tristemente:

-A verdade é mesmo essa. – disse ele com um suspiro. – Nós todos estamos ridículos.

-Qual é o problema de vocês?
– perguntou Simas, de quem os outros só poderiam ver uma pequena parte dos olhos, sua boca e metade do nariz, já que o restante estava completamente oculto pelas ataduras brancas que compunham sua fantasia de múmia. – Vocês não conseguem enxergar todo o humor da coisa?

-Ah, eu consigo!
– falou Dino com um sorriso. – Principalmente o humor contido no Rony vestido com essa roupinha verde apertada e esse cinto de couro combinando com a sapatilha! – completou dando risadas e fazendo o ruivo corar imediatamente.

-Cale a boca, Dino! – resmungou Rony se postando ao lado de Harry em frente ao espelho e ajeitando uma pequena imitação de canivete em seu cinto com uma mão, enquanto a outra firmava seu gorro verde como a roupa e com uma pena no topo como o chapéu de Harry, embora a pena do seu gorro fosse vermelha.

-Mas falando sério, - continuou Dino ainda rindo – as fantasias de vocês são as mais engraçadas que eu já vi na vida.

-Viu?
– Harry pareceu meio desesperado, olhando para Rony com um olho só, já que o outro estava escondido com um tampão preto colocado sobre uma das lentes de seus óculos. – Por que eu fui ouvir você? Por que eu fui entrar nessa de “Capitão Gancho”?

-Não venha me culpar agora.
– defendeu-se Rony. – Na ocasião você também achou que fosse uma idéia brilhante. E você ainda está bem melhor do que eu! – falou observando a roupa vermelha elegante do amigo, a qual Gina tinha deixado parecidíssima com a de um pirata, embora estivesse muito refinada. – Nós não podemos negar que Gina fez um ótimo trabalho.

-Sim, ela fez.
– concordou Harry com um sorriso orgulhoso.

-Gina? – perguntou Dino tentando parecer casual. – O que ela tem a ver com essas fantasias?

Harry ergueu as sobrancelhas de modo quase imperceptível. Não gostava nem um pouco desse interesse de Dino por sua namorada:

-Foi ela quem as montou. – respondeu ele brevemente. – Nós não somos bons em feitiços de costura.

-E por que Hermione não poderia fazer isso?
– quis saber Dino sem olhar para Harry ou Rony, apenas fingindo conferir outra vez sua fantasia de lobisomem. – Vai me dizer que a menina mais inteligente de Hogwarts não domina feitiços de costura também?

Rony se virou para Dino depressa e o encarou suspeitosamente:

-É claro que ela domina. – disse o ruivo lentamente. – Como você mesmo acabou de dizer, ela é a menina mais inteligente de Hogwarts.

-Então por que ela não fez isso para vocês ao invés da Gina?


Rony pareceu nervoso e Harry sentiu seu próprio autocontrole escapando aos poucos de suas mãos, dando lugar a uma raiva incômoda que queimava seus interiores e retorcia suas entranhas.

-Rony queria fazer surpresa quanto às nossas fantasias. – Harry respondeu juntando todo seu controle que restava.

-Sim, - concordou Rony – mas pelo que eu me lembre você não tem nada com isso, Dino.

“Absolutamente nada!”
– Harry pensou furiosamente.

Dino encolheu os ombros, sem-graça:

-Bem, espero que Gina e Hermione estejam bem bonitas para compensar o sacrifício de vocês em usarem isso. – falou o moreno apontando para as fantasias de Harry e Rony. – Mas certamente vão estar, Gina sempre foi encantadora e Hermione está mais mulher a cada dia.

Harry cerrou os dentes e sentiu seu sangue borbulhar, incapaz de controlar sua respiração, que se tornou descompassada. Pelo olho que não estava coberto com o tampão, ele viu a face de Rony tornar-se púrpura e assistiu o amigo apertar os punhos.

“Eu não vou impedir se o Rony estourar cada pedacinho do Dino, é da IRMÃ dele que Dino está falando... E de Hermione, claro.” – pensou Harry. – “Espera. Ele está falando da MINHA namorada. MINHA. NAMORADA.” – Ele se virou para o moreno:

-Encantadora, mas não para você, Dino. – falou muito sério encarando o colega.

-Isso mesmo. – completou Rony de imediato. – É melhor você deixar cada um desses pêlinhos nojentos de lobisomem bem longe da minha irmã se não quiser problemas. Ela é encantadora, mas não para você, ouviu isso?

Dino jogou as mãos para cima como se dissesse “Ah, esqueçam isso!” e já ia se virar para partir quando Rony o chamou novamente:

-E Dino? – disse o ruivo ainda muito vermelho.

-O que é? – Dino olhou por cima do ombro.

-Só mais uma coisa para encerrarmos o assunto. – falou Rony, seus olhos azuis brilhando perigosamente. – Hermione pode sim estar mais mulher a cada dia, mas definitivamente você não é homem o suficiente para ela.

O moreno pareceu profundamente afrontado e prestes a se atirar sobre Rony, mas Simas e Neville o agarraram pelos braços antes que ele fizesse isso.

-Chega dessa história, caras, vamos curtir a noite. – disse Simas conciliador e sua voz ecoou engraçada já que sua boca estava apertada entre as ataduras. – Há cargas de garotas e diversão nos esperando lá fora, é inútil vocês gastarem energias em brigas tolas aqui dentro! Vamos descer, Dino.

Dino se acalmou um pouco e concordou com a cabeça, mas reservou a Rony um olhar particularmente sórdido antes de bater com força a porta do dormitório e sumir atrás de Simas.

-Estúpido. – murmurou Harry para si mesmo, mas Rony o ouviu e acenou em concordância.

-Vocês estão prontos? – perguntou Neville olhando nervosamente de Rony para Harry. Ele sempre parecia desconfortável com essas brigas.

-Só falta ajeitar esse gancho na mão. – falou Harry.

-Eu já estou. – respondeu Rony admirando sua imagem no espelho uma última vez.

“Espero que Hermione aprove.” – sua mente resmungou e o ruivo sentiu suas mãos suarem ligeiramente. O nervosismo por ter de dançar na abertura do baile se mesclou com a ansiedade e o medo de falhar com Hermione, fazendo-o prestes a vomitar. Ele queria que essa noite fosse perfeita e estava em pânico de pensar que pudesse fazer algo estúpido e estragar tudo. Ele queria que essa noite fosse perfeita para ela, pois só assim, seria também perfeita para ele.

-Estou pronto.
– disse Harry se virando aos amigos.

-Então vamos descer, Amélie já deve estar me esperando no saguão de entrada. – falou Neville abrindo a porta do quarto.

Harry se virou para Rony e observou a face repentinamente pálida do amigo:

-Tudo certo aí, Peter Pan? – ele indagou com um meio sorriso.

Rony respirou fundo:

-Isso só vamos descobrir mais tarde, Gancho. – respondeu. – A batalha vai começar...

*****



Gina Weasley suspirou profundamente e praguejou baixinho debaixo de sua respiração. Enquanto as outras garotas quintanistas com quem ela dividia o dormitório desfilavam na frente do espelho em luxuosas fantasias de fadas e princesas, a ruiva lutava para fazer o capuz de sua própria fantasia improvisada voltar ao seu tamanho normal.

Gina estava bonita, usando um vestido branco florido reto e simples, mas que quase não poderia ser visto, já que estava totalmente coberto com uma comprida capa vermelha sedosa e brilhante, amarrada com um laço em volta de seu pescoço. Seus cabelos rubros reluzentes estavam dispostos em cachos grandes e perfeitamente modelados, mas eram pouco visíveis debaixo do capuz que acompanhava sua capa. E o capuz estava tão grande que cobria não apenas os cabelos de Gina, mas também seus olhos e todo seu rosto. O maldito capuz.

-Por que eu tive que inventar de aumentar essa droga de capuz? – murmurou a ruiva para ela mesma. – Nem estava tão apertado assim... Hermione, cadê você quando eu mais preciso?...

-Você disse alguma coisa, Gina?
– uma das suas companheiras de quarto indagou, parecendo deslumbrante em sua fantasia cor-de-rosa de princesa.

-Não, Flora, nada. – Gina resmungou de volta, se levantando de supetão.

“Eu tenho que achar a Hermione para me salvar.” – pensou ela deixando seu dormitório como um flash e correndo para o quarto das sextanistas, onde ela abriu a porta sem bater.

-Aaahhh! – Parvati deu um gritinho histérico quando Gina enfiou a cabeça pelo portal. – Você me assustou! – guinchou ela olhando para a ruiva com desaprovação.

-Desculpe, eu não sabia que alguém aqui ainda estaria se vestindo a essa hora. – disse Gina olhando atentamente para Parvati, que estava com um top verde pequeno e uma espécie de saia azul brilhante e escamosa, muito comprida, cheia de lantejoulas e completamente colada ao corpo.

-O que você quer dizer com isso? – Parvati enrijeceu o queixo e encarou Gina de modo desafiador. – Eu não estou mais me vestindo.

-Não está?
– a ruiva pareceu confusa. – Você quer dizer que vai ao baile... ASSIM? – completou fazendo uma careta divertida.

-Assim como, exatamente? – Parvati parecia irritada.

-Bem... – Gina deu um sorrisinho. – Com essa roupa... Ou melhor dizendo, com essa FALTA de roupa.

-Isso é uma sereia, sua tolinha!
– falou outra voz e Gina se virou para ver Lilá Brown numa provocante fantasia amarela de Odalisca, um lenço de seda cobrindo parte de seu rosto e seus cabelos loiros sedosos moldando sua face perfeitamente.

-Sereia? – disse Gina e observando melhor viu que a saia azul apertada de Parvati ia até próxima aos pés e terminava numa espécie de cauda que lembrava a de um peixe.

-É. – afirmou Parvati sorrindo convencida. – Mas e você? Que coisa esquisita é essa que você está vestindo?

Lilá soltou uma risadinha abafada pelo nariz e as feições de Gina endureceram:

-Essa fantasia aqui chama-se “Não-te-interessa-sua-abelhuda”! – falou a ruiva com um sorriso mau. – Cadê a Hermione?

-No meu bolso é que não está.
– resmungou Parvati, ofendida.

-Não mesmo, porque sua fantasia não tem nem pano, quem dirá bolso. – Gina disse amavelmente e com o olhar mais meigo que conseguiu ensaiar deixou o dormitório das sextanistas batendo a porta com toda força.

Quando entrou de volta ao seu quarto, Gina gratamente encontrou o lugar vazio. Ela mirou-se novamente no espelho e achou que não estava tão ruim, a não ser pelo tamanho exagerado do capuz. A menina já ia tirando sua varinha para tentar consertá-lo uma última vez, quando ouviu uma batidinha leve à porta. Alguns segundos depois Hermione entrou. E a boca de Gina se escancarou: Hermione estava magnífica.

Sua fantasia não era luxuosa quanto as das companheiras de dormitório de Gina, nem provocante como as de Lilá e Parvati, mas era de uma beleza singela, diferente, única. Ela usava um longo vestido vermelho escuro aveludado, de mangas fofas e saia ligeiramente rodada com detalhes em ouro em toda sua barra. O corpo do vestido também era todo bordado em dourado e havia um pequeno decote em “V” que apesar de revelar uma quantidade mínima de pele, dava um toque de sensualidade à peça.

Os cabelos de Hermione também estavam diferentes: não estavam presos em nenhum penteado complicado, mas sim soltos, lisos e sedosos na raiz e com cachos cuidadosamente modelados nas pontas. Uma tiara de imitação de pérolas, parecida com uma coroa e com uma única pedra vermelha de rubi caindo sobre a testa de Hermione completava o visual, que estava um bonito contraste de jeito de menina num corpo de mulher.

-Uau, Mione! – murmurou Gina levando ambas as mãos à boca. – Você está estonteante!

As bochechas de Hermione esquentaram e tornaram-se quase da cor de seu vestido:

-Obrigada, Gina. – disse ela sorrindo timidamente. – Você está ótima também. Vejo que nem precisou da minha ajuda.

-Não precisei da sua ajuda? NÃO PRECISEI DA SUA AJUDA? Hermione, só você pode me salvar!

-Eu?
– estranhou Hermione. – Mas por quê? O que houve?

-Meu capuz!
– exclamou Gina acenando para a cabeça. – Eu arruinei o meu capuz! Tudo o que eu queria era aumentá-lo um pouquinho de tamanho, mas acabei com uma barraca de camping na cabeça!

Hermione riu e ergueu sua varinha:

-Vire-se, Gina. – disse ela. – Vamos dar um jeito nisso num instante.

-Ah, o que eu faria sem você?
– falou a ruiva parecendo aliviada. – Ainda bem que você trouxe sua varinha. Onde você estava afinal de contas?

-No dormitório das primeiranistas ajudando-as a se arrumarem.
– contou Hermione enquanto encolhia o capuz de Gina. – Você tem de ver como elas ficaram graciosas nas fantasias de palhaço... Terminei aqui.

-Ah, ficou perfeito!
– exclamou Gina voltando a cobrir sua cabeça com o capuz agora completamente ajustado. – Obrigada, Mione.

-Às ordens.
– Hermione encolheu os ombros. – Sabe, eu não me canso de pensar como foi genial você ter tirado a idéia de sua fantasia de um livro infantil trouxa que seu pai lhe deu...

-É, papai sempre gostou dessas coisas, você o conhece.

-Bom... há qualquer outra coisa que você ainda queira fazer ou podemos descer?


Gina sentiu um certo nervosismo na voz da amiga e ao erguer os olhos para ela, notou que a garota parecia extremamente tensa.

-Você está nervosa? – perguntou a ruiva se sentando na ponta de sua cama e puxando Hermione para que ela fizesse o mesmo.

-Muito. – confessou Hermione baixinho.

-Eu entendo. – disse Gina. – Mas não é como se você nunca tivesse feito isso antes, não é mesmo? Você de certa forma também abriu o Baile de Inverno, já que dançou com um dos campeões do Torneio Tribruxo...

-Gina?
– murmurou Hermione alcançando instintivamente o seu luminoso pingente de estrela e apertando-o entre os dedos. – Eu não estou nervosa por ter de dançar na abertura de um baile, eu estou apavorada com a perspectiva de ir com o seu irmão!

-Ah...
– fez Gina. – Mas por que apavorada? O Rony nem é tão feio assim... Só brincando! – acrescentou depressa ao receber um olhar cortante de Hermione, que continuou:

-Eu não sei... acho que só estou me sentindo um tanto insegura.

-Eu também estou.
– falou a ruiva erguendo as sobrancelhas para a amiga. – Insegura de quanto tempo o Rony vai agüentar de pé olhando para você assim, sem babar, desmaiar ou te atacar selvagemente como um animal desgovernado.

Hermione bufou, mas não pode segurar um risinho:

-Gina! – repreendeu ela. – Você quer, por favor, me levar a sério?

-Sim, Madame.
– a ruiva fez uma reverência. – Eu estou falando muito sério aqui. Qual é o problema? Todo mundo sabe que meu irmão arrasta um trem do tamanho do Expresso de Hogwarts por você.

-Eu já te expliquei o problema, não já?
– desesperou-se Hermione. – O que fazer com nossa amizade? E se não der certo e nós nunca mais conseguirmos ser nem amigos? Rony e eu somos muito diferentes!

-E daí se são diferentes? Se ser igual fosse um quesito necessário, ninguém ficaria com ninguém. Bem, talvez Fred se casasse com o Jorge, mas não vejo outra exceção...

-Ah, Gina...
– Hermione sorriu cansada.

-Hermione. – a ruiva colocou uma mão sobre cada ombro da amiga e a encarou fundo nos olhos. – Me escute. O Rony ama você. Acredite em mim.

-Eu sei.
– Hermione suspirou e Gina viu que ela acariciava ternamente a estrelinha de diamante do seu colar. – Mas talvez... – continuou a menina com a voz triste - talvez amor não seja o suficiente.

-Nem sempre é.
– disse Gina muito séria. – Mas a pergunta é: Você vai tentar?

Silêncio por um momento. Expectativa nos olhos de Gina. Tensão nos olhos de Hermione. Respiração se entrecortando. Estrelinha brilhando. Um coração se decidindo. Uma mente protestando. Batalha entre mente e coração, cada um tentando o seu melhor para convencer Hermione.

Razão X Emoção.

E qual delas levaria a melhor, só os eventos da noite poderiam dizer.

-Vamos, Gina. – disse Hermione se levantando. – Harry já deve estar ansioso por sua Chapeuzinho-Vermelho.

-Sim, e eu espero que essa noite seja um conto de fadas!
– falou a ruiva agarrando sua cesta e girando no mesmo lugar. – Um conto de fadas completo!

Hermione sorriu carinhosamente para a amiga:

-Pois eu me contentaria só com o “eles foram felizes para sempre”, Gina. Seria mais que suficiente.

E elas sorriram cúmplices antes de deixar o quarto.

*****



Já havia mais de vinte minutos que Rony e Harry estavam plantados na sala comunal da Grifinória aguardando seus pares. Harry ajeitava seu chapéu pela centésima vez e Rony estava anormalmente quieto e pálido, afundado numa poltrona parecendo enjoado e doente.

-Há quanto tempo nós estamos aqui? – perguntou Harry rodando sua luva de gancho de aparência enferrujada e fitando o chão.

-Tempo bastante para me enlouquecer. – murmurou Rony.

-E você acha que elas ainda irão demorar? – Harry indagou sem perceber o som de passos vindo da escada do dormitório feminino e ainda de cabeça baixa. O ruivo não respondeu.

-Héim, Rony? – insistiu Harry. – Eu estou falando com você! – ele ergueu os olhos para o amigo, mas notou que o ruivo não dava sinais nenhum de estar o ouvindo.

Rony parecia estar em transe, com os olhos envidraçados e fixos numa direção, a boca ligeiramente aberta e as mãos caídas frouxamente dos seus lados. Harry seguiu a direção do olhar dele. E sua boca também se abriu: Hermione e Gina vinham lentamente descendo as escadas, ambas vestidas em vermelho e ambas mais lindas do que Harry jamais tinha visto ou sequer sonhado. Eles tinham mesmo muita sorte. E esse era o pensamento mais racional que sua mente era capaz de processar no momento.

-Oi. – cumprimentou Hermione assim que elas alcançaram os garotos.

-Olá, Mione. – falou Harry sorrindo. – Você está... er... – ele olhou nervosamente para Gina e para Rony, que continuava fitando a garota abobado e arraigado no mesmo lugar, antes de concluir – bem bonita.

-Hum... obrigada, Harry.
– agradeceu Hermione com um ligeiro sorriso.

-E Gina... – o menino se voltou para a namorada e a visão da ruiva fez surgir em seus olhos a chama que ele já sentia arder por cada milímetro de seu corpo. – Você... você está... uau. – sussurrou na falta de palavras.

-Você está ótimo também, Harry. – respondeu Gina o beijando de leve nos lábios, entrelaçando o braço com o dele e o puxando na direção da saída.

-Espera, Gina, o Rony-

-Confie em mim.
– Gina cortou o namorado. – Eles estarão bem melhor sem nós.

Harry riu um pouco e afirmou com a cabeça, acompanhando a menina.

Hermione, por sua vez, encarou o ruivo sentado à sua frente com o coração tão disparado que ela poderia sentir a força dos golpes contra seu tórax. A garota não poderia acreditar que Rony estava fantasiado de Peter Pan.

Peter. Pan.


O personagem mais Rony que Hermione conhecia. O protagonista do livro que ela tinha lhe dado no natal...

Isso significava que Rony tinha lido? A curiosidade dele sobre “o que era um Peter Pan” tinha falado mais alto?

“Não...” – pensou Hermione. – “Rony e livros é como água e óleo, ou seja, dois ingredientes que não se misturam. Ele provavelmente só folheou algumas páginas para descobrir sobre o personagem e tentar me impressionar...
Mas espera! Então ele QUIS tentar me impressionar? Ai, Merlim, o que eu faço?... Isso tudo é muito novo para mim...”


A menina remexeu-se meio incomodamente sob o olhar azul vítreo de Rony e tentou sorrir. Harry e Gina deixaram finalmente a sala e talvez pelo barulho do buraco do retrato se fechando o ruivo pareceu “acordar”. Ou talvez não tenha sido o barulho, e sim o sorriso tímido de Hermione.

-Oi... – disse a garota tentativamente, sentindo seu corpo inteiro tremer em nervoso assim que Rony ficou de pé.

-Mione... – sussurrou ele muito sério, seus olhos luminosos varrendo sobre Hermione. – Isso... Essa roupa é... Essa fantasia... Isso é a perfeição?

Hermione riu um pouco, suas bochechas emparelhando com a cor do seu vestido:

-Não, Ron, é a Julieta. – disse ela.

-Anh? – fez ele confuso.

-Julieta Capuleto, do livro “Romeu & Julieta” de Shakespeare, lembra?

-Sim.
– Rony respondeu e um sorriso lento e preguiçoso começou a se esparramar em sua face sardenta. – Os jovens de Verona...

-Exatamente.
– confirmou Hermione devolvendo o sorriso.

-Mas sabe, - o ruivo deu um passo para mais perto e tocou as pérolas da tiara de Hermione, deslizando as pontas dos dedos para o rubi vermelho-sangue na testa da garota e alcançando a bochecha esquerda dela com um toque suave, macio – Julieta ou não, eu ainda acho que isso é a perfeição.

Ao ouvir isso, Hermione apertou os olhos fechados e respirou fundo, sentindo seu autocontrole se esvaindo muito rápido. Ela nem mesmo imaginava que Rony também lutava para manter-se em cheque. Uma duríssima batalha interna se travava dentro dele exatamente nesse instante:

“Beije ela, seu idiota, apenas mexa-se e beije a boca dela até que ela esteja clamando por ar e você por mais!” – parte da mente de Rony gritava.

“Não, eu não posso, eu vou estragar tudo...” – a outra parte argumentava.

“Mas Hermione também quer, eu posso ver nos olhos dela...”

“Não estrague tudo, seu imbecil, ela já o repeliu uma vez...”

“Certo! Mas como é suposto que eu resista com ela vestida assim? É a coisa mais malditamente brilhante que eu já vi...”

-Ron?
– chamou Hermione o encarando de um jeito esquisito que fez ele saltar e as labaredas que queimavam seu corpo se intensificarem. – Acho melhor irmos...

-Sim.
– Rony piscou tentando focalizar sua atenção de volta à realidade. – Vamos.

Ele tomou o braço dela com todo carinho e cuidado que poderia reunir e a guiou para fora da sala comunal e pelos corredores de Hogwarts. Havia um certo silêncio desajeitado entre eles e Hermione resolveu quebrá-lo:

-Vejo que você conseguiu descobrir finalmente o que é “um Peter Pan”, héim, “menino-que-não-quer-crescer”? – falou a menina meio zombeteira.

-Hermione, - Rony disse com um sorriso divertido – nunca duvide das minhas habilidades!...

“Principalmente se você estiver incluída na história.”
– completou em pensamento.

-Eu nunca duvidei. – ela respondeu repentinamente séria, o encarando profundamente dentro dos olhos.

Os dois chegaram ao saguão de entrada e encontraram o lugar abarrotado. Gente com fantasias de todos os tipos e cores andavam de um lado para outro, falavam e riam cheios de excitação, apenas aguardando o momento de entrarem no Salão Principal.

Um pânico começou a subir pelo estômago de Rony e a apertar sua garganta quando ele se lembrou que dentro de poucos minutos os olhares curiosos de toda essa gente iriam estar voltados para ele. Para ele fazendo algo terrível, chocante, amedrontador e traumatizante: dançando.

-Hermione,
- ele falou se virando para olhá-la, uma nota de desespero nítida em sua voz. – Por favor, duvide das minhas habilidades!

-Quê?
– ela pareceu confusa. – Sobre o que você está falando?

-Danças!
– Rony respondeu histérico. – Pode duvidar das minhas habilidades! Eu NÃO SEI dançar!

Hermione riu gostosamente e pela primeira vez na noite ela parecia tranqüila:

-Ora, Rony, não seja bobo. – disse ainda rindo. – Não há dificuldade alguma, o segredo é deixar a música te envolver, te levar...

-O único lugar que eu queria que ela me levasse é para longe das vistas desse bando de gente...
– retrucou o ruivo amargurado. – Eu vou fazer papel de idiota na frente da escola inteira!...

-Não.
– Hermione discutiu firmemente. – Você não vai. Agora deixe de besteiras. Veja, a Professora McGonagall está acenando para nós!

Rony soltou um grunhido desesperado e deixou-se ser guiado por Hermione pela multidão até que pararam num lugar lateral à porta de entrada do Salão e encararam McGonagall, que parecia extremamente engraçada numa roupa rodada verde brilhante e um chapéu pontudo da mesma cor, com uma estrela na ponta.

-Isso é uma árvore de natal? – Rony sussurrou no ouvido de Hermione. Ele deveria estar encarando McGonagall totalmente chocado e boquiaberto, pois levou um cutucão disfarçado, mas dolorido de Hermione.

-Muito bem, com a Srta. Granger e o Sr. Weasley, estão todos aqui agora. – disse a professora de modo eficiente. Rony olhou para os lados e notou pela primeira vez que todos os outros monitores estavam ali também, devidamente acompanhados por seus pares. Raiva retorceu os interiores do garoto assim que ele viu Draco Malfoy.

O rosto do loiro estava quase todo oculto por sua fantasia de Dementador, mas Rony notou que ele parecia pálido e tinha um olhar meio acuado. Pansy Parkinson, por sua vez, numa fantasia adequadíssima de diabinha, parecia insolente e arrogante como sempre, atarracada no braço de Malfoy.

-Eu irei permitir que os outros entrem. – falou McGonagall. – Então vocês e seus pares irão se dispor em uma fila e devagar entrarão para abrirem o baile, valsando a primeira canção da noite.

Hermione ouviu Rony engolir com força e deu um apertão reconfortante em seu braço. Eles assistiram em silêncio as portas do Salão Principal se abrirem com um aceno da varinha de McGonagall e os estudantes começarem a entrar aos pares.

Os dois viram Neville sorrindo nervosamente em sua fantasia de índio americano e trazendo uma radiante Amélie Bridge pelo braço, vestida numa recatada roupa de anjo; notaram a odalisca Lilá Brown entrando com Simas, que apesar de ter o rosto escondido pelas ataduras de múmia, tinha um olhar safado muito visível; assistiram os alunos mais novos em suas fantasias de palhaço e até pegaram um relance rápido de Harry e Gina, ambos com suas roupas vermelhas.

Quando todos entraram, Minerva McGonagall se voltou para os monitores e seus pares:

-Srta. Rumbold, como Monitora-Chefe a Srta. abrirá a fila juntamente com o seu par. – disse a professora. – Sr. Brennan, o Sr. e o seu par virão logo em seguida.

Carole Rumbold veio prontamente à frente e Hermione sorriu: a Monitora-Chefe estava bonita numa fantasia de fada e agarrado ao braço dela estava ninguém menos que o monitor corvinal Antônio Goldstein, sorridente vestido com uma roupa de cowboy que o deixava irremediavelmente engraçado.

“Ahá!” – pensou Hermione disfarçando o sorriso. – “Então é daí que vem aquela história que tudo bem se a Monitora-Chefe namorar um monitor... Tese testada e aprovada por ela mesma!”

Dave Brennan veio puxando Emília Bulstrode logo em seguida, ambos de peitos estufados e com as expressões arrogantes dignas dos sonserinos. O Monitor-Chefe estava atraente num kimono, fantasiado do que poderia ser um lutador de alguma arte marcial e Emília parecia ainda mais estranha do que o normal numa roupa egípcia.

-Granger e Weasley. – falou a professora McGonagall. – Os dois logo depois.

Rony sentiu seu estômago revirar:

-Por que nós? – ele murmurou num tom quase inaudível, mas ganhou um olhar pontudo de Hermione.

Logo atrás deles veio a monitora da Lufa-Lufa Ana Abbott, seus cabelos loiros presos num coque e brilhando em contraste à colã rosa de bailarina que ela usava. Seu par Zacarias Smith estava caracterizado de duende, e por causa de seu nariz fino e orelhas salientes, Hermione achou que a fantasia estava bem convincente.

-Muito bem, as portas serão abertas e o baile terá seu início. – anunciou Minerva assim que a longa fila dos monitores e seus pares já estava formada.

Hermione sentiu Rony estremecer ao seu lado.

-Vai dar tudo certo. – sussurrou ela no ouvido do garoto. – Acredite em mim.

Mas mal a menina teve tempo para dizer isso e a varinha de McGonagall já estava cortando o ar, fazendo com que as portas do Salão Principal se abrissem. Uma melodia lenta e triste soou lá de dentro e com passos firmes a fila começou a entrar, de par em par.

O Salão Principal estava magnífico de tal forma que dispensava palavras. A sensação que Hermione estava tendo era que despencara direto dentro de um conto de fadas, onde tudo era perfeito. As quatro grandes mesas tinham se ido e centenas de mesinhas brancas redondas ocupavam o lugar. Um tapete vermelho longo com o brasão de Hogwarts esculpido em alto relevo cobria toda a extensão de um comprido corredor formado entre as mesinhas e ao fim dele estava uma pista de dança redonda e mal-iluminada, onde fadinhas vivas sobrevoavam, dando a aparência de pequenas luzinhas brilhantes, multicores e tremeluzentes. Todas as paredes do Salão estavam cobertas do que pareciam ser cristais. Cristais de todas as cores e formatos, cintilando sob a luz pálida da lua e das estrelas, vistas através do teto enfeitiçado para parecer o céu da noite lá fora.

Atrás da pista de dança e encostado à parede do fundo estava um pequeno palco onde a famosa banda bruxa “As Esquisitonas” tocavam seus muitos instrumentos de corda e sopro. Todos os integrantes da banda estavam vestidos de roupas brancas esfarrapadas e usando grandes asas fofas sobre as costas, dando-lhes a bizarra aparência de um coral de anjos pouco convencional.

O Salão explodiu em aplausos e assovios quando a fila entrou pelo tapete vermelho e atingiu a pista de dança. Assim que todos os monitores se viraram de frente para seus pares, fez-se silêncio total. E então outra canção começou.

Essa era ainda mais lenta e suave do que a anterior. E milhares de vezes mais tocante, já que não era apenas instrumental. Dessa forma, quando a voz macia do vocalista das Esquisitonas encheu o Salão, o pânico que Rony sentia começou aos poucos se esvair...

“And dance, your final dance
This is your final chance
To hold the one you love
You know you've waited long enough”

E dance sua última dança
Esta é sua última chance
Para abraçar aquele que você ama
Você sabe que você esperou bastante tempo


O ruivo envolveu Hermione pela cintura e a pressionou junto ao seu corpo. Os braços da menina enlaçaram o pescoço dele e os dedos dela começaram a misturar seus cabelos, fazendo ele se arrepiar.

“So, believe
That magic works
Don't be afraid
Of being hurt
Don't let this magic dies
The answer's there
Oh, just look in her eyes”

Então, acredite
Que magia funciona
Não tenha medo
De ser ferido
Não deixe esta magia morrer
A resposta está lá
Oh, apenas olhe nos olhos dela


À essa altura, todo medo, timidez e a aversão pela dança já tinha se ido totalmente. Rony só podia pensar que dançar com música lenta era no mínimo uma coisa bem estranha. Porque não é nem dançar de verdade, já que os corpos só se mexem ligeiramente, como se apenas vibrassem no ritmo da melodia. Tudo o que ele tinha que fazer era ter seus braços firmes ao redor de Hermione e mover um pé após o outro bem devagar, no compasso da canção.

E ter a menina ali, grudada nele, era uma sensação impagável.

“And make your final move
Don't be scared, she wants you too
Yeah, it's hard, you must be brave
Don't let this moment slip away...”

E faça seu último movimento
Não fique assustado, ela te quer também
Sim, é difícil, você deve ser valente
Não deixe este momento escapar...


Os olhares de todo o Salão estavam sobre eles, fitando, analisando atentamente. Mas quem se importava?

Quando Hermione encostou a face no peito de Rony e ele acomodou a bochecha no topo da cabeça dela, para ambos era como se tudo e todos tivessem desaparecido e fossem só os dois no mundo, flutuando numa dimensão à parte, com uma melodia gostosa zumbindo em seus ouvidos. Não era necessário dizer nada, apenas sentir o momento.

“Now, believe
That magic works
Don't be afraid
Afraid of being hurt
Don't, don't let this magic dies
The answer's there
Oh, just look in her eyes”

Agora, acredite
Que magia funciona
Não tenha medo
Medo de ser ferido
Não, não deixe esta magia morrer
A resposta está lá
Oh, apenas olhe nos olhos dela


Aquele brilho ao redor dos dois seria apenas as luzes das fadinhas? – Hermione desejou saber. Pois no fundo ela acreditava que se o amor tivesse aparência, ele seria cintilante exatamente como aquela aura que os envolvia.

Rony, por sua vez, já não sabia ao certo se a canção que os moviam vinha da banda sobre aquele palco ou se ela fluía de dentro do seu coração. Coração esse que estava num ritmo alucinado pelo simples fato de ter Hermione tão perto.

“And don't believe that magic can die
No, no, no, this magic can't die”

E não acredite que a magia pode morrer
Não, não, não, esta magia não pode morrer


E tudo o que Hermione poderia pensar era que estar ali, dançando com Rony, sentindo o cheiro e o toque dele, era fantástico. Não era só paixão, excitação ou ansiedade que vibrava entre eles. Não era nem mesmo só amor. Era mais.

Era magia.

“So dance, your final dance
Cause this is, your final chance”

Então dance, sua última dança
Porque esta é, sua última chance.


Quando a última nota da canção silenciou, Hermione ainda mantinha o rosto contra o peito do ruivo e os olhos de Rony continuavam fechados. Os outros casais muito provavelmente já tinham se soltado, mas Rony e Hermione queriam prolongar tanto quanto possível o contato, desfrutar o tato da pele um do outro um pouco mais, flutuar mais uns instantes naquela dimensão onde só existiam os dois. Os dois e toda uma carga de tensão mal-resolvida, paixão reprimida, desejos gritantes e amor inabalável.

Assim, somente quando o Salão Principal irrompeu em aplausos foi que os dois jovens pareceram voltar a si e relutantemente soltaram-se um do outro, Hermione fitando o chão e Rony fitando Hermione com uma expressão aturdida no rosto.

-E com essa maravilhosa canção e a belíssima apresentação artística dos nossos monitores e seus pares, eu declaro aberto o nosso Baile à Fantasia. – disse uma voz conhecida e Hermione se virou para ver um sorridente Dumbledore de pé atrás de uma mesa branca redonda um pouco maior do que as demais e colocada estrategicamente ao centro. O diretor estava fantasiado de Merlim, usando uma veste prateada longa toda bordada em estrelas douradas e um chapéu combinando bem mais pontudo do que o chapéu normal de um bruxo.

À sua volta pela mesa todos os professores pareciam estar acomodados: Snape numa veste a rigor negra formal, a professora McGonagall em sua extravagante fantasia verde de fada, Hagrid com seu horrível casaco marrom de toupeira e uma máscara de couro ainda mais horrenda cobrindo-lhe os olhos (certamente acessório feito por ele mesmo).

-A única coisa que tenho a dizer a vocês é que entrem no seu mundo dos sonhos e tragam de lá todos os fatores necessários para fazer desses sonhos realidade. – falou Dumbledore. – E a última regra desse ano letivo é que se divirtam e façam com que essa noite não seja apenas mais uma de suas vidas. Façam com que ela seja ESPECIAL. Uma noite inesquecível a qual todos vocês se lembrarão e contarão aos seus filhos.

O diretor se sentou ao som de mais aplausos e assovios e as “Esquisitonas” já iniciavam uma canção agitada quando Hermione olhou novamente nos olhos de Rony. O ruivo ainda tinha uma expressão esquisita e parecia meio sonhador, fitando a garota à sua frente de uma forma tão profunda e desenfreada que fez Hermione corar dos pés à cabeça.

-Er... – fez a menina. – Nós estamos parados no meio da pista de dança, Rony, você gostaria de ir procurar o Harry e a Gina?

-O que você disse?
– ele perguntou carranqueando por causa do som alto.

Hermione bufou com impaciência e fez sinal da banda para os próprios ouvidos, tentando dizer que ali eles não conseguiriam conversar. Ela agarrou o braço de Rony e o puxou por entre a multidão que agora começava a lotar a pista de dança.

-Onde nós estamos indo? – o ruivo indagou quando eles se afastaram da pista e começaram a caminhar pelo tapete vermelho.

-Eu não sei. – ela encolheu os ombros, mas continuou andando. – Nós apenas tínhamos que desempatar a pista, não é?

-E por quê?
– quis saber Rony. – Nós tínhamos tanto direito de ficar lá quanto qualquer outro.

-Não desde que não estejamos dançando e aquilo seja uma pista de dança, Rony. E você detesta dançar, lembra?

-Sim.
– ele murmurou, sua face voltando a ficar aérea e inexpressiva. – Eu detesto dançar...

-Bem...
– disse Hermione arriscando um olhar de esguelha para o ruivo. – Não foi tão ruim assim, foi?

Rony engoliu em seco. Na verdade aquela experiência de dançar tinha sido maravilhosa, aquecendo seu coração e causando combustão em seus fogos. Tanto que o garoto estremeceu só de relembrar a situação. E por Merlim, como era suposto que ele resistisse a Hermione essa noite? COMO?

-Não.
– ele respondeu lentamente. – Até que não foi tão ruim, Hermione.

O som de uma risada abafada soou atrás deles e Rony e Hermione se viraram para ver Harry e Gina se aproximando de braços dados, Harry com uma expressão divertida e Gina segurando a cesta que compunha sua fantasia com uma mão e cobrindo a boca com a outra, numa tentativa fracassada de impedir suas risadas de saírem. Ela estava tão vermelha do esforço que sua pele estava quase se misturando com a cor de sua fantasia.

-Oi. – disse Harry aos amigos. – Como é que vocês dois estão indo?

-Acabamos de encerrar nossas tarefas do ano com aquela dança.
– respondeu Hermione. – Gina, o que é tão engraçado?

Os três pares de olhos se fixaram na ruiva, que mantinha os nós dos dedos firmemente sobre a boca, rindo de se acabar. Ela respirou fundo para se controlar um pouco, antes de responder:

-Esse baile. – disse a menina com simplicidade. – Esse baile é a coisa mais malditamente engraçada que eu já vi na minha vida!

-Como assim?
– indagou Hermione sem entender.

-Hermione, você já olhou ao redor? – falou Gina arregalando os olhos. – Você já deu uma olhada nas pessoas? Nas FANTASIAS das pessoas?

Hermione acenou com a cabeça: -Tem fantasias de tudo o que você imaginar aqui...

-Sim, uma mais engraçada do que a outra!
– exclamou a ruiva voltando a rir loucamente.

-Ela ficou assim depois de ver a professora McGonagall. – disse Harry tentando explicar.

-Mas o que há de tão engraçado numa pessoa se fantasiar de árvore de natal? – perguntou Rony encolhendo os ombros.

-Rony! – repreendeu Hermione disfarçando o sorriso. – Você não devia falar assim da professora McGonagall!

-Mas o que foi que eu disse de errado?
– ele fez cara de inocente.

-Você sabe muito bem que a fantasia dela é de uma FADA!

-Ah, é?
– Rony pareceu chocado. – E como eu iria saber, Hermione? Ela está toda verde, brilhante e tem uma estrela na ponta da cabeça, para mim estava óbvio que era uma árvore de natal.

Harry, Gina e até Hermione explodiram em risadas. Rony encolheu os ombros uma vez mais e observou em volta: os muitos tons das fantasias das pessoas refletiam sobre os cristais coloridos das paredes e ofuscavam a visão. Um clarão particularmente forte cegou Rony momentaneamente e o menino piscou com força algumas vezes antes de olhar melhor e ver Colin Creevey com sua inseparável máquina fotográfica.

O loiro estava agitado numa fantasia simples de vampiro e fotografava com fervor uma garota com uma roupa laranjada peluda absurdamente bizarra. Mas espere um segundo, aquela era...

-Ei! – Rony se virou para os outros três, que ainda se recuperavam do acesso de risos. – Se vocês estão rindo da árvore de natal da McGonagall, esperem só até verem o visual da Luna! – falou ele divertido apontando para o lado onde Luna Lovegood continuava abrindo os braços, girando e saltando para Colin fotografar.

Os três giraram para olhar também e a loira corvinal pareceu notá-los com o canto dos olhos, porque deixou imediatamente de fazer pose e caminhou na direção dos garotos, acenando para que Colin a acompanhasse.

-Alô. – disse Luna assim que se emparelhou com eles. – Noite agradável, não?

Harry e Hermione a fitavam ligeiramente boquiabertos. Rony continuava a encarando com uma curiosidade divertida e Gina enfiara os nós dos dedos na boca outra vez, lutando bravamente contra outro ataque de gargalhadas.

Luna Lovegood tinha o visual mais estranho que alguém poderia imaginar: ela usava uma espécie de macacão peludo muito extravagante, verde brilhante nas pernas e laranjado fosforescente da cintura para cima. Quase todo seu rosto estava coberto por um óculos amarelo de borracha cujas “lentes” mais pareciam as metades de uma bola de tênis cortada ao meio. Os longos cabelos loiros sujos da menina estavam enrolados e presos para cima num rolinho desajeitado e ao redor de seu pescoço a roupa fazia uma gola de babados compridos que lembravam pétalas de flores.

-Isso... – disse Rony apontando para a fantasia dela com um sorriso inclinado. – Isso é uma coruja selvagem?

Harry mordeu os lábios com força, Hermione encarou seus pés e Gina enfiou os nós dos dedos na boca com mais firmeza.

-Não. – disse Luna com tranqüilidade. – Não está meio óbvio o que é? – indagou ela dando uma voltinha ao redor de si mesma, lentamente, com os olhos fechados e os braços abertos como se estivesse prestes a voar.

-Er... – fez Harry coçando a cabeça.

-Um HELIOPATA? – falou Hermione com sarcasmo.

-Tacanha como sempre. – murmurou Luna balançando a cabeça. – Não. É um “Alecrim Dourado do Campo Irlandês”. – contou orgulhosa. – Aquele que floresce no campo irlandês no décimo sexto dia da primavera de cem em cem anos!

Harry fingiu se engasgar, Rony gargalhou abertamente e Gina parecia comer seus dedos agora.

-Um O QUÊ? – Rony tentou perguntar entre as risadas.

-Alecrim Dourado do Campo Irlandês! – contou Colin Creevey que também tinha se aproximado. – Isso não é genial, Harry? Não é? – falou animado.

-Er... hum... muito, Colin, genial. – disse Harry suspirando para se controlar.

-Pois é, quem diria! – Colin prosseguiu com um grande sorriso. – Quando eu convidei a Luna para o baile eu não tinha nem idéia do quanto ela é inteligente e conhece das coisas. Ela conhece cada coisa fantástica que você não iria acreditar, Harry!

-Oh, sim, ele ia.
– Rony murmurou sob sua respiração.

-E sabe do que mais, sabe do que mais? – Colin quase saltava de excitação. – Luna me convidou para a visitar no verão! Nós iremos para a Espanha fotografar os “Bufadores de Chifre Enrugado”!

Harry, Rony e Gina estouraram em risadas e Hermione girou os olhos, mas estava sorrindo também.

-Bem, se não conversarmos mais antes, tenham um bom verão. – disse Luna serenamente, deslizando de modo sonhador para longe, Colin ao seu encalço.

-A Luna é única. – disse Gina enxugando as lágrimas de riso assim que a loira sumiu de visão.

-Bem, - falou Rony ainda rindo – poderia ter sido pior. Pelo menos ela não se fantasiou de Chifradores Bofudos, querubins castanhos ou moscas fosforescentes da Nicarágua.

-Acho que você não acertou UM desses nomes, companheiro, mas tudo bem.
– Harry zombou.

-Como ele iria acertar? – perguntou Hermione. – Essas coisas nem existem.

-Ah, mas na cabeça da Luna elas existem aos montes!
– falou Gina.

-É, e é cada coisa mais esquisita que a outra. – complementou Harry.

-Esquisitas? – Rony fingiu surpresa. – Eu sinceramente não entendo. O que há de esquisito em um “Arlequim Prateado do Campo Norueguês”?

Todos riram, mas Hermione se virou para Rony:

-É “Alecrim Dourado do Campo Irlandês”, Rony. – disse ela zombeteira.

-Você mesma disse que essas coisas nem existem, Mione. – o ruivo argumentou com outro sorriso inclinado e se curvou para beijar o rosto de Hermione, mas desistiu a meio caminho.

“Se eu fizer isso, eu não vou resistir.” – pensou ele angustiado. – “Eu mal estou conseguindo me controlar apenas OLHANDO para ela, se eu a TOCAR aí é que estarei perdido de vez... Por que tudo isso tem de acontecer comigo? Por que eu simplesmente não posso me conformar em ter a Hermione apenas como amiga?” – Rony correu os dedos nervosamente pelos cabelos, tendo cuidado para não derrubar seu chapéu de “Peter Pan”. – “Porque não é suficiente.” – outra vozinha gritou no fundo de sua mente. – “Amizade nunca vai ser suficiente entre Rony e Hermione. É impossível, improvável... E não adianta continuar lutando contra isso...”

-Ron, você está bem?
– Rony sacudiu a cabeça para afastar os pensamentos e olhou para Hermione, que estava o encarando atentamente num misto de timidez e preocupação. Ele se segurou para não saltar sobre ela ali mesmo.

-Estou ótimo. – respondeu mexendo nos cabelos novamente e desviando o olhar de Hermione. Ele dirigiu sua atenção para o outro lado do salão e notou Dino Thomas de mãos dadas com Cacilda Crookfond, a quintanista da Lufa-Lufa. O moreno cochichava coisas no ouvido da garota, mas ela não parecia muito interessada, porque ao invés de dar atenção a Dino ela olhava fixamente para Rony, fuzilando Hermione com o olhar algumas vezes.

E quando Cacilda viu Rony observando brevemente na direção em que ela se encontrava, a menina obviamente interpretou errado o olhar do ruivo, pois pareceu se encher de esperança e ficou de pé, puxando Dino pela mão e caminhando a passos firmes para onde os garotos estavam.

-Oi, garotos. – fez ela para Harry e Rony assim que os alcançou. – Tudo legal?

Os dois acenaram positivamente e Hermione e Gina trocaram um olhar. Dino parecia apenas confuso.

-Sabe o que é, eu precisava da opinião de vocês dois. – Cacilda continuou numa voz chorosa e enjoativa. – O Dininho aqui já me disse que minha fantasia caiu perfeitamente bem, mas eu precisava ouvir de alguém da área e vocês são do time de Quadribol, não são?

-Você está fantasiada de balaço?
– perguntou Gina ironicamente e viu que Dino lhe lançou um sorriso.

Cacilda vacilou: - Quê? – indagou ela estreitando os olhos para Gina. – Claro que não! Eu estou vestida de jogadora da equipe dos Tornados, você não está vendo? Você gosta, Rony? – ela se virou para Rony e se empinou de um modo bem provocante, tocando o braço do ruivo no processo.

Ele engoliu em seco e abriu a boca para gaguejar alguma resposta, mas Hermione foi mais rápida: - Eu suponho que não, Cacilda. – falou ela calmamente, embora seus olhos estivessem enviando fagulhas sobre a menina da Lufa-Lufa. – Rony é torcedor dos Cannons, você vê. São times rivais...

Cacilda parecia ter levado uma bofetada na cara. Hermione sorriu amavelmente para ela e isso só pareceu piorar ainda mais a irritação da garota.

-Bom... – disse ela soltando o braço de Rony e se pendurando no pescoço de Dino. – O Dininho gosta, não é?

-Claro, Caci.
– afirmou o moreno lançando um olhar muito faminto no decote de Cacilda. – Eu gosto muito.

E então o casal se afastou do grupo sem dizer mais nada.

-Garotinha ridícula. – Gina disse com ferocidade. – Como alguém pode ser tão vulgar e oferecida?

-O pior é que há quem goste.
– Hermione resmungou no mesmo tom raivoso.

-Sim. O Dino estava praticamente babando dentro da blusa dela. – comentou a ruiva e Harry soltou imediatamente o braço da namorada:

-Você está com ciúmes do Dino? – ele perguntou num tom impassível, mas Rony e Hermione o conheciam bastante para saber que ele estava à beira da extremidade.

-Quê? – Gina encarou o namorado, espantada. – O que você está dizendo, Harry?

-Você entendeu.
– Harry deu de ombros e Rony notou a expressão no rosto de sua irmã passar de espanto para raiva e indignação. Conhecendo o temperamento de Gina, o ruivo sabia que Harry estava em maus bocados. E o melhor era sair rapidinho dali, antes que ele estivesse também.

-Vamos. – Rony sussurrou para Hermione a agarrando pela mão. – Vamos deixar os dois conversarem...

Hermione arregalou os olhos e afirmou com a cabeça, mas antes que eles dessem as costas para os amigos, Gina já tinha começado a gritar.

“Pobre Harry”. – foi o último pensamento de Rony antes de se afastar puxando Hermione com ele.

*****



-Você acha que eles vão ficar bem? – Hermione perguntou aflita quando ela e Rony caminhavam de mãos dadas pelo salão apinhado de gente.

-Sim, vão. – Rony respondeu sem hesitar. – Quer dizer, o Harry vai ouvir um bocado e quem sabe até ser premiado com uma “Azaração para Rebater Bicho-Papão”, mas eles vão ficar bem.

-E como você pode ter tanta certeza disso?
– a garota insistiu.

-Eles estão condenados a ficar juntos, aqueles dois. – disse Rony com simplicidade.

-Eu nunca soube das suas habilidades em Adivinhação, Rony. – arreliou Hermione.

-Não é preciso de Adivinhação para ver que eles... que eles se amam, Mione. – o ruivo falou meio sem-graça.

Hermione suspirou e encarou o chão: - Mas às vezes, Ron... – começou ela – às vezes amor não é o suficiente...

Um brilho triste flamejou nos olhos azuis de Rony e a garota sentiu seu coração muito pesado com a visão. Um mal-estar a invadiu e de repente suas pernas estavam bambas e ela estava suando frio.

-Mione? – Rony pareceu alarmado. – Você está ok?

-Sim...
– ela respirou profundamente. – Quer dizer, não... Não muito. Está abafado aqui.

-Você quer dizer que está sentindo claustrofobia?
– perguntou Rony passando um braço pela cintura de Hermione e a guiando cuidadosamente para as portas do Salão Principal.

-É, Ron... – Hermione não pôde deixar de sorrir mesmo que sua cabeça ainda rodasse. – Mais ou menos isso.

Os dois passaram pelas portas do salão, atravessaram o saguão de entrada e alcançaram o exterior do castelo. Os jardins estavam iluminados pela luz pálida do luar e haviam casaizinhos escondidos entre os arbustos e nas pequenas grutas de pedra que tinham sido conjuradas por lá. Uma fonte de água cristalina rodeada por fadinhas multicores brilhava ao longe e bonitos bancos de ferro estavam dispostos aqui e ali.

A brisa fresca da noite brincou com os cabelos de Hermione e agitou ligeiramente a pena no alto do gorro verde de Rony. A menina fechou os olhos, agradada com a sensação e respirou profundamente.

-Melhor? – o ruivo perguntou olhando para Hermione com o canto dos olhos.

-Sim. – murmurou ela. – Bem melhor.

-Você quer se sentar?
– disse Rony tentativamente.

-Pode ser. – Hermione respondeu alisando a saia do seu vestido de modo nervoso. Ela estava plenamente consciente de que o braço firme de Rony continuava envolvendo sua cintura.

O garoto acenou com a cabeça e começou a guiá-la na direção de um dos bancos, mas Hermione parou. Rony a olhou curiosamente:

-O que foi? – ele quis saber.

-Você se importaria se não nos sentássemos ali? – falou a menina apontando para o banco.

-Não. – o ruivo encolheu os ombros. – Mas parece que todos os outros já estão ocupados.

-Eu não queria me sentar nesses bancos, Rony.
– disse Hermione meio hesitante. – É que eles parecem tão expostos, tão centralizados, e você sabe como me sinto incomodada com tantos olhares sobre mim...

“Você não parecia nada incomodada com tantos olhares sobre você lá dentro.”
– Rony pensou desconfortável, mas preferiu não comentar.

-Você gostaria de ir para algum lugar mais calmo? – ele falou e corou violentamente logo em seguida, assim que notou como isso tinha soado.

“Merlim! Ótimo, Rony, agora ela vai pensar que você é um louco pervertido cheio de segundas intenções... Não que isso esteja completamente errado, mas...”

-Sim.
– o sussurro tímido de Hermione interrompeu sua linha de pensamento.

“Por que você disse isso, Hermione?” – a mente dela bradou. – “O que inferno você pensa que está fazendo? Você sabe que não pode... Que não dará certo. Vocês são muito diferentes!...”

Os dois caminharam em silêncio por algum tempo, cada um imerso em suas próprias batalhas internas. Rony já tinha soltado a cintura de Hermione e aparentemente estava muito inseguro para segurar a mão dela ou enlaçar seu braço com o da garota. Apesar de já ter feito isso centenas de vezes nesse último mês, agora parecia diferente, assustador. O ruivo não temia a reação DELA, mas tinha medo do que ELE seria capaz se tocasse Hermione e a sentisse tão perto mais uma vez. Definitivamente toda aquela coisa de dança tinha mexido muito com ele.

-Você não vai se sentar? – a voz de Hermione o sobressaltou novamente e só então o menino notou que eles tinham chegado ao pé da conhecida árvore próxima ao lago e que Hermione já tinha se sentado. Ele fez um gesto afirmativo e se sentou em silêncio, tomando todo o cuidado para não permitir nem que seus braços se roçassem. Hermione suspirou ao seu lado e mordeu o lábio em concentração, parecendo a milhas de distância dali. Porém, esse pequeno gesto causou uma avalanche de sensações no corpo e na cabeça de Rony, sugando toda sua racionalidade e o deixando à mercê da emoção.

“Senhor supremo, por que ela tem que ser tão bonita? Qual é o feitiço que existe nesses lábios que não me deixa desgrudar os olhos de cima deles? Inferno, eu não vou resistir...!” – pensava o ruivo desesperado. – “E por que em Terra eu tenho que resistir, afinal de contas? Por que não tentar? Poderia dar certo, não poderia...? E eu já ouvi alguém que eu não sei quem, dizer em algum lugar que eu não sei onde, que o único fracasso é não tentar...”

Rony sentiu Hermione mexer-se ao seu lado e girou para vê-la agarrando uma pedrinha e atirando-a com força ao meio do lago. Mas ela pareceu insatisfeita e repetiu a ação.

-O que você está tentando fazer? – ele perguntou com um meio sorriso.

-Acertar a lua. – ela disse com simplicidade.

-Anh? – Rony carranqueou.

-O reflexo da lua, Rony. – Hermione explicou apontando para o meio do lago, onde a grande lua cheia se refletia sobre a superfície das águas escuras.

-Ah... – fez o menino entendendo.

-Ron? – chamou Hermione suavemente alguns segundos silenciosos depois. O ruivo sentiu os pêlos de sua nuca se eriçarem apenas com o som da voz dela:

-Hum? – ele grunhiu.

-Eu sempre fui encantada com a lua. – contou ela fitando o céu. – Quando eu era bem pequena, mamãe me disse que havia um Santo que morava lá, montado em um cavalo e lutando com um dragão...

-Um Santo lutando com um dragão?
– riu Rony meio incrédulo. – Mas você acreditava nisso?

-Bem,
- ela encolheu os ombros. – eu era uma criança e além disso eu tinha que encontrar uma função para a lua... Você sabe como eu sempre quis encontrar uma explicação lógica para tudo.

-E você desistiu de encontrar uma função para a lua?
– quis saber o ruivo interessado, agarrando as pontas dos dedos de Hermione e estremecendo ao contato. – Ou ainda acredita na história do dragão?

-Eu acho que encontrei sua função, afinal de contas.
– disse Hermione aceitando a oferta de Rony e apertando os dedos dele de volta.

-E eu poderia saber qual é?– ele perguntou enquanto acariciava a mão dela com o polegar.

-A função da lua é ser misteriosa. – declarou a menina com os olhos ainda fixos no céu. Rony ergueu as sobrancelhas e ela continuou:

-E acredite, Ron, essa é uma função e tanto. A lua é misteriosa a ponto de gerar curiosidade nas crianças, o que acarreta em histórias e lendas encantadoras, como essa do dragão. Ela é misteriosa a ponto de escreverem livros e livros falando a seu respeito... – ela desviou o olhar da lua e fitou dentro dos olhos azuis de Rony corajosamente antes de prosseguir. – E é misteriosa até ao ponto de fazer duas pessoas como nós, numa noite tão linda quanto essa, ficarmos discutindo a seu respeito.

Um dos típicos sorrisos inclinados começou a se esparramar pelo rosto do garoto: - Mais uma vez você tem razão, Mione. – concordou ele apertando a mão de Hermione com mais intensidade. – Como sempre.

-Sim, a lua é linda, mágica e poderosa...

-Certo. Mas sabe de uma coisa?
– Rony colocou a outra mão sobre a de Hermione também, segurou-a forte e encarou a garota. Ele sentiu os dedos dela tremerem e os dele próprio suarem. – A lua nunca será linda como você, nunca fará meu mundo tão mágico quanto você faz e nunca será tão poderosa ao ponto de afastar você de mim.

Hermione sentiu seu coração acelerar e sua cabeça girar. Suas mãos estavam geladas, contrastando ferozmente com a pressa de calor que ferveu seu sangue e esquentou sua face. Assim como a secura de sua garganta foi amenizada pela umidade súbita que subiu aos seus olhos.

-Rony... – ela murmurou baixando o olhar. – Por favor, não... Nós não... nós não podemos.

-Eu sei.
– ele sussurrou com pesar. – Eu sei! Mas droga, Hermione, o que eu posso fazer? O que eu posso fazer se em algum lugar ao longo das linhas eu fiz confusão e me apaixonei por você? – explodiu o ruivo ficando de pé e caminhando para a margem do lago, onde ele se abaixou, apanhou um pouco de água com as mãos e molhou o rosto.

Hermione o observou, triste, preocupada e um pouco chocada. Mas a preocupação venceu e ela ficou de pé e caminhou até a margem de areia escura onde Rony estava parado meio ajoelhado e fazendo pequenas ondulações na água com os dedos.

-Ron? – ela chamou aflita. – Ron, por favor...

Ele olhou para cima ao rosto dela com os olhos azuis feridos, confusos.

-Hermione. – disse ele ficando de pé de súbito e segurando-a pelos ombros. A menina sentiu a mão dele molhada sobre a manga fofa de sua fantasia. – Hermione, por favor, pare de se fechar em outro mundo para fugir de mim!

-Ron, eu não estou, eu-

-Hermione, eu quero poder olhar para você sempre que eu quiser e não me preocupar em ser pego olhando. Eu quero poder compartilhar a poltrona mais confortável perto da lareira com você. Eu quero poder te abraçar quando quiser, eu quero saber todos seus segredos que por alguma razão eu já não saiba, eu quero-

-Rony!
– Hermione interrompeu quase histérica. – N-nós... nós somos tão diferentes...

Ele chutou a areia suavemente e sussurrou:

-Eu sei que nós somos diferentes. Se alguém sabe como diferente nós somos, sou eu. Você é tudo o que uma pessoa deveria ser e tudo que eu não sou. Hermione, você é perfeita. – ele suspirou antes de continuar. – Eu sei que você é perfeita e eu sei que eu não sou, mas eu queria que eu pudesse ser, mesmo se só por um dia, então você poderia ter orgulho de mim. Eu queria que durante um dia eu não fosse estúpido, ou parecesse horrível, ou dissesse algo ridículo, de forma que você não apontaria o que está errado comigo. Durante um dia.

Os intensos olhares de Rony perfuraram a face boquiaberta e lacrimosa de Hermione:

-Eu sou grato a você. – ele murmurou. – Por alguma razão é bom saber que você é assim. Me faz pensar que eu posso consertar isso. ME consertar. Assim eu poderia ser bom o bastante para você...
Sabe, eu tenho tentado melhorar. Agora eu faço a maioria de minhas lições e eu estudo para testes. Eu nem mesmo desisti de Poções, embora eu esteja sempre pronto para empurrar um caldeirão abaixo à garganta do Snape. Isso só porque você disse que é importante... Mas eu nunca consegui ser perfeito em qualquer coisa. Embora eu tente fazer tudo isso para ser merecedor de você, eu sei que eu nunca serei perfeito. Eu sempre estarei só no “quase lá”. E o que eu queria é que eu tivesse uma chance. Se eu não sou perfeito, então que eu tivesse algo que é perfeito para chamar de meu.

-Eu não sou mais perfeita do que você é, Ronald Weasley.
– Hermione falou com voz trêmula. – E caso você não tenha percebido, eu sempre fui sua. Sempre.

Os dois se encararam, ambos com lágrimas nos olhos.

-Nós somos muito diferentes... – ela voltou a sussurrar com angústia e o estômago de Rony se contorceu ao pensar no que ele estava fazendo:

-E eu tenho medo do que possa acontecer à nossa amizade. – disse ele sacudindo a cabeça. – Eu não quero perder isso, Mione.

-Eu também tenho...
– ela falou abaixando a cabeça, enquanto ele desviava o olhar.

-Você também está assustada, então?

-Apavorada.

-Você... você acha que valeria a pena arriscarmos perder isso para ficarmos... juntos?


Alguns momentos passaram em silêncio, apenas com Hermione travando uma batalha mortal dentro de si mesma, pesando atitudes e conseqüências, preços e recompensas. Pareceu uma eternidade até que finalmente ela falou numa voz fraca e sem realmente encarar Rony:

-Eu li certa vez em um livro, Rony, uma frase que diz que um anjo tem que morrer para ganhar suas asas, mas uma vez que morrem, eles têm as suas asas para usar por toda a eternidade...

Ele ainda não a olhava.

-Ron, - sussurrou ela. Ele ergueu a cabeça e os olhos que encontraram os dela eram de um azul cobalto tempestuoso, escuro com angústia e medo.

-Ron, nossa amizade já não é mais a mesma agora... – disse Hermione. – Você... Você me deu minhas asas no momento em que me apaixonei por você. – ela ergueu a mão e afastou com o dedo polegar uma lágrima que estava fazendo seu espaço solitário abaixo a bochecha do menino. – Agora... agora me ajude a voar, Ron.

Mais uma trilha de lágrimas começou a surgir vinda dos olhos do ruivo, mas o azul de seu olhar agora não era mais tempestuoso e sim brilhante como um oceano calmo em tempos de maré baixa.

-Voe comigo... anjo. – ele murmurou tocando de leve seu rosto e estudando cada detalhe da face da garota, que agora também chorava.

-Eu... eu amaria voar com você. – falou ela numa voz embargada, também tocando o rosto dele com ambas as mãos e brincando com uma mecha daqueles cabelos vermelhos. – Mas para onde nós iremos?

-Hum... Verona?
– disse o menino olhando a fantasia de “Julieta” que ela estava usando, um sorriso começando a pintar por trás da trilha fina de lágrimas vindas dos seus olhos azuis. Hermione sorriu suavemente, embora as lágrimas, agora de emoção, caíssem ainda mais rápido pela sua própria face.

-Ou então... o que você acha da “Terra do Nunca”? – Rony murmurou. A garota sorriu ainda mais. Ele REALMENTE tinha lido!...

E se para voarem juntos só precisassem de um pensamento feliz como na história de “Peter Pan”, agora poderiam ir muito longe...

-Segunda estrela à direita e siga reto na direção do amanhecer. – disse ela suavemente e, enfim, puxou a cabeça dele para um beijo.

Quando os lábios deles se roçaram, foi como se labaredas os envolvessem e as chamas flamejassem de um para outro, queimando pele e aquecendo corações. Ambos agiam com urgência, movidos por uma necessidade quase vital de se provarem e obterem o máximo um do outro: o viável, o possível, o improvável e até o impossível. O que importava é que um queria tudo que o outro pudesse oferecer.

Hermione entrelaçou os dois braços pelo pescoço de Rony e o puxou para mais perto. O ruivo por sua vez, afundou uma das mãos nos cachos definidos da garota e envolvendo sua cintura com a outra, a colou em seu corpo com firmeza.

O roçar de lábios começou a ficar insuficiente e obedecendo somente seus instintos e seus corações que clamavam por mais, os dois jovens entreabriram os lábios simultaneamente e aprofundaram o contato. Não demorou muito e a ponta da língua de Rony estava tocando ligeiramente o lábio inferior de Hermione, sondando, espreitando. A menina se arrepiou e deixou escapar um gemido baixo de surpresa e satisfação contra a boca do ruivo. Mas ela não se intimidou. Hermione estava completamente disposta a provar que era uma Grifinória por total merecimento.

E ela conseguiu a façanha: num súbito gesto de coragem, a menina moveu a própria língua, fazendo com que ela se encontrasse com a de Rony e deslizasse suavemente ao longo de toda sua extensão, sentindo o sabor do garoto em sua boca e apresentando o seu próprio gosto a ele. Ambos estremeceram e Hermione não pôde se impedir de gemer novamente contra os lábios de Rony, fato que fez o sangue do ruivo ferver. Ele a apertou com mais força pela cintura e sua mão que antes desmanchava os cachos bonitos dela, agora vagava livremente pelas costas da garota, que parecia querer deixar suas mãos vagarem pelo corpo dele também.

Hermione colocava tudo naquele beijo. Quase seis anos de frustração, raiva, necessidade e amor, dando a ele um gosto do que ela estava disposta a lhe oferecer: tudo. Afinal, ela sempre pertencera a Rony. Só o que ela estava fazendo agora, era deixar que ele a reivindicasse como tal.

Já Rony não parecia saber onde estava, nem que dia era. Tudo o que o ruivo podia pensar era com QUEM ele estava.

Hermione.

Esta era Hermione o tocando desse modo! Hermione, a amiga dele de quase seis anos, a mesma menina que tinha o enfurecido durante tanto tempo com sua teimosia e determinação, estava ABRAÇADA a ele e com a LÍNGUA dele na boca!

Esta era a menina com quem ele tinha brigado quase diariamente durante os quatro primeiro anos depois que eles tinham se conhecido. E suas brigas eram lendárias! Esta era a mesma Hermione que com doze anos tinha levado um filhote de dragão até o alto da Torre de Astronomia para salvar a pele de Hagrid. A mesma Hermione que mesmo tendo pavor de altura, tinha ido com Harry sobre um hipogrifo roubado para salvar Sirius Black do beijo dos Dementadores. A menina que morrera e revivera.

“A bruxa mais inteligente da Grã-Bretanha,”
– Rony pensou de maneira selvagem – “tem minha língua na boca dela! E Merlim, é brilhante!... Ela leu sobre isto em um livro?”

Vários minutos já tinham se passado quando infelizmente a necessidade fisiológica por oxigênio fez Rony e Hermione descolarem as bocas uma da outra. Ambos estavam vermelhos, ofegantes e descompostos. Os cachos definidos de Hermione tinham se tornado uma adorável bagunça e o gorro de “Peter Pan” de Rony estava caído em algum lugar próximo aos seus pés. Os lábios dos dois estavam ligeiramente inchados e o coração de cada um deles estava tão feliz e tão leve que poderia ter flutuado e nesse momento estar perdido em algum lugar entre as milhares de estrelas que adornavam o céu daquela noite. Eles se olharam, ainda abraçados e sorriram um ao outro de maneira tímida, cúmplice e apaixonada:

-Mione... – sussurrou Rony parecendo se lembrar de algo. – Você estava errada!

-O quê?
– ela pareceu confusa.

-Se lembra daquela aula de Feitiços em que você me disse que não era possível voar sem vassoura?

A garota sorriu, suas bochechas brilhando e vermelhas como seu vestido: - Sim.

-Decididamente É possível, Mione. Nós acabamos de fazer isso...


Hermione atirou sua cabeça para trás e soltou um riso relaxante, despreocupado, encarando o céu sobre suas cabeças:

-Se essa é a sensação, Rony, eu JURO que eu nunca mais vou ter medo de voar! – exclamou ela. – Nunca mais!

-Então você tem sorte.
– disse Rony a puxando para perto outra vez e beijando de leve a curva onde o ombro dela se encontrava com o pescoço. – Porque se depender de mim, suas aulas de vôo estão apenas começando.

-Hum...
– riu a menina fechando os olhos e desfrutando os beijos suaves do ruivo na pele morna de seu pescoço. – E você vai ser meu instrutor?

-Sim, e nós vamos voar juntos para todos os lugares do mundo, porque nós temos o resto de nossas vidas para fazer isso.

-Não diga “o resto de nossas vidas”, Ron, diga “nossas vidas inteiras”
. – pediu Hermione segurando o rosto sardento do ruivo outra vez. – Porque para mim, a vida só começa agora.

Ela o puxou para perto novamente e uma vez mais os olhos se fecharam e os lábios se encontraram. Bocas se encaixaram, línguas se exploraram e corações cantarolaram em ritmo.

“Ah, Ron, não sei por que estudei na vida, se tudo o que eu preciso está no FEITIÇO do seu corpo, a HISTÓRIA que preciso saber seus olhos me contam e a MAGIA da minha vida são seus beijos que me proporcionam.” – o cérebro de Hermione resmungou assim que ela sentiu Rony fazendo círculos suaves nas costas dela com as pontas dos dedos enquanto acariciava sua língua com a dele.

Depois que recebera a carta de Hogwarts, muita coisa havia mudado para a garota. Muitos fatos haviam acontecido. Escapara de um Trasgo, virara pedra, voltara no tempo, morrera e vivera novamente. Coisas fantásticas. Mas nada era tão fantástico quanto esse momento com Rony.

Isso, seu coração não hesitava em dizer.

*****



Quase uma hora, diversos abraços e muitos beijos de tirar o fôlego depois, Rony e Hermione entravam novamente no Salão Principal, de mãos dadas. Ambos estavam radiantes e com sorrisos idiotas idênticos estampados no rosto. Hermione tinha tentado reajeitar seu cabelo como dera, mas os cachos perfeitos do começo da noite pareceram ter se despedido em definitivo. Rony estava despenteado também, mas seu gorro de “Peter Pan” (agora meio sujo por ter ficado tanto tempo negligentemente esquecido na areia aos pés dos garotos) ocultava um pouco a bagunça dos fios vermelhos. O casal deu uma volta pelo lugar à procura de Harry e Gina, mas não avistaram nenhum dos dois.

-Onde será que eles se meteram? – indagou Rony olhando ao redor mais uma vez para qualquer sinal do amigo e da irmã. – Será que já foram embora?

-Talvez eles tenham apenas se acertado, Rony.
– Hermione sorriu e o ruivo se derreteu.

-Você tem razão, talvez eles tenham apenas- EI! – ele exclamou no meio da oração. – Mas se eles tiverem se acertado isso quer dizer que eles estão...

-Talvez “tomando um ar” lá fora, Rony.
– a menina lhe deu um olhar e um sorriso instruído.

-Oh, não, eu não quero nem imaginar o Harry “tomando um ar” com minha irmãzinha! – o ruivo fez careta. – Mas eu posso imaginar perfeitamente a cena de Rony Weasley “tomando um ar” com Hermione Granger... O que você acha? – indagou a abraçando e beijando-lhe a bochecha.

-Seu bobo. – ela riu corando fracamente.

-Você... você fica linda quando sorri assim. – disse o ruivo repentinamente sério.

-Assim como?

-Assim.
– ele encolheu os ombros. – Solta, alegre, de uma maneira tão... tão... tão Hermione. – Rony acariciou seu rosto e a puxou para um beijo, mas Hermione colocou uma mão sobre o peito do garoto.

-Aqui não. – sussurrou ela. – Está cheio de gente nos olhando.

-Eu não me importo.
– Rony fez um gesto de desdém com a mão. – Eu quero mais é que todos vejam como a minha namorada é- - ele parou de supetão e Hermione notou as pontas de suas orelhas se avermelharem. – Eu quero dizer...

-Rony.
– chamou Hermione o fitando amorosamente. – Não há nada errado em você me chamar assim.

-Não?
– ele pareceu aliviado.

-Não. – ela sorriu e depois falou com mais seriedade: – Me perdoe, Ron. Me perdoe se eu tive medo de amar você. Tudo vai mudar agora.

-Você quer dizer que vai ser minha... minha namorada?
– o ruivo perguntou esperançoso acariciando a bochecha dela com uma mão enquanto a outra descansava ao redor de sua cintura.

-Rony! – Hermione falou em tom de protesto. – Você tem alguma dúvida de que você é tudo o que eu quero?

O rosto sardento do garoto se iluminou e um sorriso mau brincou em seus lábios. De longe, ele pôde ver que Terêncio Boot tinha os olhos compridos na direção dos dois.

-Eu acho que vou querer confirmar isso mais uma vez, Mione. – disse Rony com firmeza e antes que Hermione pudesse expressar qualquer reação, ele enfiou os dedos que antes seguravam suas bochechas em seus cabelos e a puxou para um beijo.

A menina ainda tentou protestar, mas quando sentiu os lábios de Rony sobre os seus uma vez mais e o cheiro gostoso da respiração quente dele, ela não pôde fazer nada a não ser se entregar completamente ao momento e responder ao beijo com a mesma paixão. Afinal, ela sempre gostava de fazer tudo com perfeição e beijar Rony Weasley, seu amigo, seu namorado, o único amor de sua vida, não seria uma exceção.

Todos os olhos no Salão Principal repentinamente pareciam grudados em Rony e Hermione, lá de pé sobre o tapete vermelho, abraçados e se beijando como se as vidas deles dependessem disso. Os dois melhores amigos de Harry Potter. A monitora mais rigorosa de Hogwarts, a provável futura Monitora-Chefe, agarrada ao goleiro da Grifinória, que às vezes eles chamavam de “Rei”. Duas pessoas tão diferentes, mas que sempre andaram juntas. E não por causa de Harry, como muitos poderiam pensar. Mas por causa dos desejos do destino que há muito já tinha decidido que os caminhos deles estariam entrelaçados e que Rony seria de Hermione e Hermione seria de Rony no final das contas. Para sempre. Como nos contos de fada. E isso era o certo.

-Ron... – ela murmurou vermelha e ofegante assim que o beijo terminou e seus olhos se abriram para se encontrarem.

-Agora não tenho mais nenhuma dúvida, Mione. – confirmou o ruivo sorridente. – Mas mesmo assim vou querer estar confirmando isso sempre.

-Todo mundo está olhando para nós.
– Hermione disse com um risinho nervoso e culpado.

-Inclusive o Boot. – ele falou vitorioso e passou um braço ao redor do ombro dela possessivamente, atirando um olhar desafiador a Terêncio, que parecia chocado em uma fantasia de marinheiro ridícula na opinião de Rony.

-Você está me fazendo de troféu, Ronald Weasley? – falou a garota tentando soar brava.

-Não, eu apenas quero que o Boot, o Adam, o Krum, o Greg, a escola inteira e o mundo todo saibam que você é a MINHA garota. Que tudo o que Ronald Weasley tem NÃO é porcaria e que a primeira namorada dele é a bruxa mais brilhante que já existiu.

Hermione corou e sorriu, mas ergueu uma sobrancelha ao namorado:

-PRIMEIRA namorada? – ela perguntou. – Não seria ÚNICA? Você está planejando ter mais algumas depois de mim?

Rony fingiu pensar e ganhou um tapa no braço.

-Bem... – disse ele divertido. – Agora que eu já tive a melhor, eu não acho que posso me conformar com qualquer coisa menos.

Ele lhe plantou um beijinho rápido nos lábios e os dois se abraçaram apertado, sentindo aquela felicidade há tanto tempo desejada invadindo-os finalmente. Mas então Hermione se afastou:

-Olha eles lá! – falou ela apontando para um ponto atrás de Rony e o garoto se virou para ver Harry e Gina sentados em uma mesinha a um canto, alheios a tudo que estava acontecendo em volta, já que estavam envolvidos um no outro, ou melhor, no beijo que estavam compartilhando.

-Parece que eles se acertaram. – comentou Hermione feliz.

-Até demais para o meu gosto! – exclamou Rony, mas Hermione sabia que ele não estava aborrecido de verdade. – O Harry está praticamente ENGOLINDO a minha irmã!

Os dois caminharam de mãos dadas até a mesa de Harry e Gina. Rony pigarreou alto assim que eles se aproximaram, fazendo o casal se separar para olhar:

-Até que enfim. – disse Gina sorrindo ao vê-los. – Pensamos que vocês fossem ficar desaparecidos pelo resto da noite.

-Vocês não pareciam realmente estar sentindo a nossa falta.
– zombou Hermione com um sorriso instruído.

-Nem vocês, se o estado do seu cabelo e do gorro do Rony forem algum indicativo, Mione. – retrucou Gina no mesmo tom. – Ou vocês acham que nós não assistimos o espetáculo que o salão inteiro parou para ver?

Hermione corou loucamente e as orelhas de Rony queimaram, fazendo Harry e Gina darem risada.

-Venha, Mione. – disse a ruiva ficando de pé e agarrando a amiga pela mão. – Vamos até a mesa de bebidas, eu estou com sede.

-Não.
– falou Rony balançando a cabeça.

-Ah, Rony, eu juro que te trago ela inteirinha de volta, ok?

-Não é isso, Gina, acontece que esse é o nosso papel.
– disse Rony convicto. – Harry, o que você ainda está fazendo sentado? Vamos buscar bebidas para as damas!

Harry se levantou num salto e Gina encarou o irmão, abobada:

-Hermione, quando foi que você transformou meu irmão num cavalheiro? – ela murmurou meio chocada. Rony lhe deu um olhar de advertência e após dar um selinho nos lábios de Hermione, partiu junto de Harry na direção da mesa de bebidas.

-Eu estou feliz por vocês. – falou Gina com sinceridade a Hermione quando as duas se sentaram à mesinha redonda.

-Eu também. – Hermione disse radiante. – Por nós e por vocês. Eu estava preocupada com sua briga com o Harry.

-Não foi nada de mais.
– a ruiva contou. – Ciúmes bobos... E além disso, as brigas até apimentam um pouco a relação. Fazer as pazes é a melhor parte. – ela sorriu cupavelmente.

-Eu sei. – riu Hermione.

-É claro que você sabe, você e o Rony são como cão e gato!

-Gato e rato, eu diria.
– disse Hermione se lembrando da fatídica briga dos dois no terceiro ano, por causa de Bichento e Perebas.

As duas meninas ficaram em silêncio por alguns instantes, até que Gina falou:

-Seja bem vinda à família, Mione.

E isso fez Hermione se lembrar de algo outra vez:

-Gina, - disse ela – você se lembra daquele dia em que você me disse que nós duas somos amigas porque um Weasley sempre reconhece o outro?

A ruiva pareceu surpresa, mas acenou afirmativamente: - Sim, mas o que tem isso?

-Bem,
- Hermione encolheu os ombros – não foi a primeira vez que me disseram algo do tipo.

-Não?
– estranhou Gina. – E quem mais disse? O Harry?

-Não, o Chapéu Seletor.

-O que?
– a menina pareceu bastante confusa.

-Quando eu coloquei o Chapéu Seletor na cabeça, Gina, aos meus onze anos, a primeira coisa que eu o ouvi sussurrando dentro da minha mente foi isso. Ele falou: “Ahá! Outra Weasley!”

-Eu não acredito nisso.
– Gina balançou a cabeça, impressionada. – E o que você fez? Por que você nunca contou nada disso antes?

-Na ocasião eu não entendi muito bem.
– contou Hermione. – Eu me lembro de dizer a ele, apenas com minha cabeça, claro, que o meu sobrenome era Granger e que ele estava enganado.

-E o que ele disse?
– a ruiva encarou a amiga em ávida expectativa.

-Dessa frase eu me lembro perfeitamente. – respondeu Hermione pensativa. – Ele suspirou dentro de minha mente e disse: “Eu pensei que você fosse inteligente e estava a ponto de te mandar para a Corvinal, mas depois desse comentário e vendo que seu destino já está traçado, sei perfeitamente qual é o lugar para você.” E então ele gritou “Grifinória” para a escola inteira ouvir.

-Hermione...
– Gina sussurrou chocada. – Isso é INCRÍVEL! Então você sempre soube que você e meu irmão...

-Meu coração sim, mas minha mente lógica nunca me deixou acreditar.
– ela encolheu os ombros novamente e observou Harry e Rony se aproximarem, cada um trazendo duas garrafas de cerveja amanteigada e sorrisos felizes iguais.

-Aqui, damas. – brincou Harry colocando as garrafas sobre a mesa, se sentando ao lado de Gina e a beijando amorosamente. Rony deu muxoxo com a cena e também se sentou. Hermione sorriu a ele com seu coração latejando de felicidade e apertou com força a estrelinha de diamante que pendia de seu pescoço.

-Ron, - ela sussurrou de forma que apenas ele a ouvisse – a Madame Louise me contou tudo. Tudo sobre o colar e o pingente.

-Contou?
– ele observou com seus olhos azuis brilhando.

-Sim. – confirmou Hermione olhando de volta com a mesma intensidade. – E eu sou a bruxa mais feliz desse mundo por saber que seu sentimento por mim foi capaz de transformar o que era para ser no máximo um cristal em diamante.

-Mione,
- Rony murmurou meio rouco – meu sentimento por você seria capaz de transformar não apenas uma estrela, mas todos os cristais que cobrem essas paredes em diamante. Eu... Eu te amo, Hermione.

Ela o olhou por olhos marejados, sentindo seu coração explodir:

-Eu também te amo, Rony.

Ele a beijou no rosto, no queixo, no pescoço e a envolveu num abraço tão perfeito, diferente de todos os outros que eles já haviam compartilhado. Eles estavam se entregando nesse abraço, colocando seus corações e suas vidas numa bandeja e oferecendo-os um ao outro, sem receio, sem insegurança. Apenas com amor.

Hermione sorriu e por cima do ombro de Rony ela pôde ver Harry e Gina envoltos em outro beijo. Ela não pôde deixar de pensar que num futuro não muito distante, todos os quatro pertenceriam a uma só família. E o Chapéu Seletor, com toda a certeza estava certo.

E no final das contas, a amizade entre o quarteto não atrapalhou em nada. Harry continuaria amigo de Gina e Hermione de Rony. Porque talvez o melhor amor fosse esse: o vindo de uma amizade. Uma amizade que pega fogo.

*****



N/A: Primeiro parabéns a todo mundo que conseguiu ler as 62 páginas de Word desse capítulo gigante...

Esse capítulo é dedicado especialmente para minha amigalhes Aline Oellers, à madrinha da fic Val e como prometi, é dedicado também a todas as meninas que acertaram as fantasias do Rony e da Hermione lá no tópico da comunidade no Orkut:Letícia Wons, Aline, Marina e Leilane.

Um agradecimento especial à Alulip, com seus e-mails sempre impagáveis sobre os capítulos, às meninas que agitam o tópico gigante lá na comunidade (P-S originais Bety e Poli, Dai, Mithya, Anna Júlia, Marina e Alininha, claro), à Giana que deixou um comentário gigante lindo, à Bruxinha Mione que foi a recordista no número de comentários nesse capítulo e a todos ainda não citados que comentaram nesse capítulo passado: Miss.Grangerr, Morgana Black, Ana Paula Cordeiro, Memalyne, Ana Teles, Bruna(Brunette), Bruxinha Gina, Brine, Mila Mayara, JenigD, Ma Simões, Angel Weasley, Fabíola Monteiro, suzi-mel, Mariana Nolasco, *Ginny*, Bella Rosa, Bruna Perazolo, Larissinha, LILIT, Pottex, ananda granger weasley, carina granger, Luciana Alves, Magna, Giulia, Lara, Natasha e Carol, belle_look, Fabiana Potter, Xufi Weasley, Talita Franceschini, Mione. Granger. Weasley., Mariana Vieira, Karla, hermione granger, Lê Moreno, Lucas, Kakau, Patoloko, Brenda, JuLiAnA_PoTTeR, Marina Barrocas, juane valentim Miranda, Mandi Weasley, Tiago F. M., McGonagall, luciana Souza.

Um super beijo também a todos os integrantes da comunidade no Orkut e a todos que lêem e não comentam ou que não comentaram no capítulo passado.

A música usada no baile foi a Magic Works, da trilha sonora de Cálice de Fogo.

Então vou me despedindo... Agora só nos resta um pequeno capítulo 34, que será o final e a fic estará terminada. Fico até emocionada de pensar...

Beijos e fiquem com Deus!








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Comentários: 3

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Enviado por Andréa Martins da Silva em 10/11/2013

A música "Magic Works" foi a cereja do bolo. E que bolo maravilhoso! Parabéns, mais uma vez. Você completou o que faltou nos livros de J.K., e o fez com maestria. Um abraço e obrigada pelos momentos de magia, suspense, terror, amizade e amor que você me nos proporcionou.

Nota: 5

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Enviado por Lana Silva em 10/03/2012

Ameiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii lindo, lindo lindo *---------------------------*
 

Nota: 5

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Enviado por Karolline Weasley em 25/07/2011

lindo demais parabens pela sua fic ADOREII bjinhoss fofaa =****

Nota: 5

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