Domingo, 8 de outubro.
Início do dia. Ginevra estava deitada na cama, seu corpo semi-enrolado no cobertor cor de rosa. Vestia sua camisola, também rosa, que chegava até seus joelhos. Sempre quando a bruxa virava de lado, a camisola subia até quase o fim de suas coxas, mas ela logo a abaixava novamente. Seu cabelo, apesar de liso, estava uma completa bagunça, mas naquele momento ela não ligava nem um pouquinho para aquilo. Seus olhos castanhos entraram em contato com o relógio pela quinta vez no dia. Eram sete e quarenta.
É impossível que ainda seja tão cedo.
Esfregou os olhos com força e levantou a cabeça do travesseiro, olhando outra vez. E para sua infelicidade, ainda eram sete e quarenta.
Por que a droga do tempo insiste em não passar?? E por que a droga da poção para dormir não está fazendo efeito logo?? Droga, droga, droga, droga!! Desde quando eu sou tão resistente a um sonífero?? Desde quando cinco minutos demoram tanto para passar?? Por que a madame Pomfrey não tem mais aquele remédio?? Por que eu tenho que ter tanta cólica??
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“Sua ruiva não parece estar num bom dia hoje.” comentou Zabini, ao ver a Weasley sentando-se no lugar de sempre.
Por um momento, Draco deixou o exemplar daquele dia do Profeta Diário para dar sua total atenção a mesa grifinória. Realmente, o humor daquela pequena não parecia estar nos seus melhores dias. Ela olhava com uma certa fúria para a loira ao seu lado, que parecia se controlar para não cair na gargalhada.
“Que horas são?” ele ainda não desviara o olhar.
“Faltam cinco minutos, se é isso o que você quer saber.” o loiro escuro respondeu ao olhar o fino relógio de bolso. “Malfoy, você tem mesmo noção do que está fazendo? Com a cara que a ruiva está, é bem capaz que se ela for o centro das atenções daqui, não te dá as aulas nem se você se pintar de vermelho e amarelo.”
“Eu tenho noção. E preciso começar a marcar meu território, não é mesmo? Como você próprio disse na sexta-feira. Já está na hora de eu deixar a população masculina desse lugar avisada que a ruivinha Weasley já tem dono, já é propriedade particular.”
“Futura propriedade particular, você quer dizer.”
“Que seja. O importante é que depois de hoje, é provável que nenhuma dessas pragas se atreva a chegar perto. Afinal, que bruxo iria querer competir com o meu presente?” finalmente voltou a atenção para o jornal.
“Storms tem galeões o bastante para competir.” Draco fez cara de pouco caso. “Ele a convidou para sair, não é mesmo? Talvez ele insista. O rapaz tem fama de ser um daqueles que não desistem fácil da presa, como nós, e ele é do sétimo ano. Já imaginou se ela gosta de rapazes mais maduros?”
“A Weasley, gostando de alguém maduro? Ela gostava do Potter, por Merlin! E eu imagino que a ruivinha pensaria duas vezes antes de se envolver com alguém como Storms.” voltou a folhear o jornal. “Um minuto agora, estou certo?”
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A primeira coisa que a ruiva fez quando se sentou junto aos outros grifinórios foi enfiar a cabeça na mesa. E sentindo a dor de sua ação, ela automaticamente xingou, e muito, e bem alto. Agora, isso havia chamado a atenção dos alunos ao seu redor, já que este comportamento era bastante estranho vindo da garota. Não, não o de xingar, mas o de gritar o xingamento para os quatro cantos. Ginevra Weasley, a jovem tão, tão centrada da Grifinória, pelo menos aos domingos, com uma atitude tão agressiva, logo pela manhã.
“O que foi, nunca viram não?” ela falou/gritou num tom hostil, voltando a colocar a cabeça na mesa, cobrindo-a com as mãos.
A ruiva queria cavar um buraco e morrer naquele dia. Já havia acordado com a dor torturante, e isso fora as seis da manhã. Ficara até as sete para lembrar onde havia deixado a maldita poção para dormir, mandada por sua mãe, pois na maldita enfermaria não havia mais a maldita poção contra cólica. E quando finalmente achou e tomou a poção, esta insistia em não funcionar. Até as oito horas, a jovem ficou virando-se de um lado para o outro na cama, com aquela maldita dor. Porque a poção conseguiu demorar uma hora inteira para funcionar, e ela não fazia idéia da causa dessa demora. Nessa sua uma hora de reflexão, Gina chegou à conclusão de que estava pagando todos os pecados do resto de sua vida com aquela agonia. O pior foi que, quando a bruxa por fim pegara no sono, a coruja que dividia com o irmão, classificada como idiota por ela naquele instante, resolvera lhe acordar, entrando pela janela semi-aberta.
Naquela manhã, Pichi ficou cara a cara com a morte. E a ruiva, após expulsar a coruja estúpida do quarto e acordar suas colegas, foi quase rastejando fazer sua higiene matinal, xingando e amaldiçoando alguma coisa diferente a cada segundo.
Do que me adianta ser bruxa se eu nem consigo acabar com essas cólicas estúpidas??
Ela chegou a conclusão de que odiava aquele período do mês. E também chegou a conclusão de que todo o mundo era uma droga e merecia morrer.
“Eu falei pra você fazer a poção uma semana antes, mas você me ouve? Nããããããoooo... Agora tá aí, sofrendo, em pleno domingo! Você sabe que Madame Pomfrey nunca mantém um estoque muito grande dessa poção, afinal, é anormal para uma bruxa ter cólicas menstruais.”
“Raven, cala a boca!” Ginevra rosnou para a amiga, que daquele minuto em diante já não era mais considerada tão amiga assim. Pelo menos até o término do dia.
Ravenis Manticure era sortuda: ela simplesmente não sentia dor alguma. Bem, ela e a grande maioria das meninas bruxas que Ginevra conhecia. Infelizmente, todas as mulheres da família Weasley que ela chegou a conhecer tinham essa terrível sina: sua mãe, sua avó, suas tias, elas todas queriam subir as paredes nessa época do mês.
“Queria que você sentisse pelo menos um terço do que eu sinto! Um terço, apenas um terço já é suficiente para querer enfiar a cabeça em algum lugar só pra poder ficar inconsciente! Eu estou morrendo aqui, será que ninguém liga?”
“Tá assim porque quis!”
“Raven, deixa a Gin, coitada! Já basta que ela vai ficar com um galo imenso por ter metido a cabeça na mesa.”
Gina apenas apertou mais as mãos sobre a cabeça, agradecendo aos céus por Sati ter aparecido. Voltou a se perguntar porque levantara da cama naquele dia. Já estava com a certeza de que teria aproveitado melhor aquela primeira parte do dia sofrendo quieta com a dor, pelo menos até as duas da tarde, deitada na cama, enrolada no seu edredom. Ainda eram nove e meia. Voltou a sentir a dor chata e prometeu a si mesma que no próximo mês, a primeira coisa que faria era essa maldita poção.
Estava com a idéia fixa de voltar para seu quarto após o café, e mofar lá até segunda, quando Sati a lembrou de tudo que ela mais queria esquecer naquele dia. Tinha uma pesquisa sobre Vampiros para Defesa Contra a Arte das Trevas, uma narrativa para ser traduzida para a aula de Latim e um relatório para ser entregue na aula de Trato das Criaturas Mágicas, sobre um ser bizarro que ela nem mesmo lembrava o nome. Isso tudo e mais uma coisinha: ela tinha que falar com o irmão.
Logo hoje, quando tudo que eu mais penso é em cem maneiras diferentes de matar um bruxo...
“Foi você que mandou eu te lembrar.” Sati defendeu-se quando recebeu uma cara feia de Gina.
“Eu sei, eu sei. Deixa eu comer logo para resolver isso de uma vez.”
Pretendia começar a servir-se quando a primeira coruja entrou pela janela. E logo entrou outra, seguida de outra, e mais outra. Não demorou muito para exatamente cem corujas, todas impecavelmente brancas, entrarem no castelo, dado uma volta pelo grande salão e derrubando perto de Ginevra penas de algodão doce e cravos vermelhos. Quando aquele alvoroço que as aves causaram passou, e Gina pensou que seria impossível surpreender-se mais, uma nova coruja, desta vez completamente negra, entrou e deixou uma carta nas mãos da bruxa.
Não é preciso dizer que no fim daquilo tudo todos os olhares estavam voltados para a ruiva, que como na segunda feira passada, não sabia o que fazer com o rosto vermelho. Naquele instante ela já nem conseguia mais raciocinar direito. Não fazia idéia do que faria primeiro: se começava respondendo as perguntas feitas por Harry e Rony, que já estavam de pé ao seu lado, se mandava Ravenis e Colin pararem com as provocações e calarem a boca, ou se saia correndo dali para poder tentar obter um pouco de paz. Acabou não escolhendo nenhuma destas três opções: abriu a carta, que possuía uma caligrafia já vista por ela em algum lugar, e leu-a.
Pensei em fazer um agrado para minha futura professora. Será que te peguei num bom dia?
Espero que tenha acertado pelo menos em uma das coisas.
Se você quiser conversar: mesmo lugar de ontem, às cinco horas.
D.M.
“De quem é tudo isso, heim?” ela ouviu o irmão perguntar quando este fez menção de pegar a carta. Gina não demorou nem mais um segundo para guardar o pergaminho dentro do bolso da camisa.
Se ele pegar isso, eu vou arranjar sérios problemas! Maldito, maldito Malfoy! O que esse bruxo tem na cabeça? Meu Merlin, tinha que ser BRUXO!
“Se eu pego esse abusado que fica se aproveitando da inocência da minha irmã! Ah, ele não vive para ver outro dia!”
Com a carta já segura, Ginevra voltou sua atenção para um lugar bem improvável, a mesa sonserina, e quando seus olhos encontraram os de um certo loiro, eles estreitaram perigosamente. O olhar dele permanecia calmo, e ele mantinha um sorriso no rosto enquanto uma loira falsa, que Gina reconheceu ser Pansy Parkinson, tentava agarrar mais forte o braço dele. A ruiva apenas ficou com mais ódio com aquela tranqüilidade, e se olhares matassem, o loiro estaria mais do que morto.
“Gina, você não acha que está muito nova para ficar namorando por aí?” por mais incrível que possa parecer, aquela pergunta saíra dos lábios do famoso Potter, que estava ajudando Ronald no interrogatório. “Tem muito bruxo safado que fica se aproveitando de bruxinhas como você, sabia? Deixa eu ver essa carta! Quem é esse garoto? E quais são as intenções dele?”
“E o que você tem com isso, Potter?” num dia normal, ela teria rido da cara que o garoto fazia. Mas aquele não era um dia normal, era um dia péssimo: ela estava com cólica, com um princípio de dor de cabeça por causa de tanto barulho e com dois bruxos que não paravam de fazer questões, que já estavam a deixa-la tonta. “Por que de repente tá todo mundo se preocupando comigo? Quer dizer, todo mundo não: meu irmão, você e o Colin, Merlin, até o Colin!”
Harry olhou espantado com a reação da irmã mais nova de seu melhor amigo. Até Rony havia ficado quieto: Gina, falando com sua paixão, ou melhor, ex-paixão, daquele jeito era uma coisa que não se via todo o dia. Bem, talvez porque não era todo o dia que a jovem já estava tão exausta logo no meio da manhã.
Ignorando os dois rapazes ao seu lado, ela voltou a atenção para os cem mimos postos sobre a mesa. Pensou o que qualquer um pensaria quando seus olhos entraram em contato com tantos cravos e penas de algodão doce: o que faria com tudo aquilo?
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Horas depois, poucas pessoas permaneciam no Salão Principal. Provavelmente porque eram quatro e meia da tarde, o almoço já passara, e agora a grande maioria dos estudantes faziam as tarefas para segunda-feira. Aqueles dois grifinórios só estavam ali sentados porque milagrosamente haviam feito os relatórios e pesquisas na parte da manhã daquele dia.
“Você já está mais calmo com ela?”
“Tentando.” a bruxa o olhou como se não acreditasse. “É sério, eu tô mesmo Gin. Afinal, nós temos que ser uma equipe. Não é mesmo?”
“Isso vai passar. Eu sei que passa, mesmo que demore um pouco.” ofereceu um dos doces para o irmão, que negou. “Uma pessoa não pode controlar o coração, sabe? Seria tão fácil se pudéssemos olhar para as pessoas e dizermos: dessa eu gosto, dessa, não. Mas não dá. Você conhece uma pessoa, às vezes por meses, outras vezes por anos... pode ser até mesmo por menos de um dia! De repente, do nada, surge aquele sentimento, sem nem mesmo avisar. E quando você vê... já está completamente apaixonado.”
“Você sabia, Gin.” ela sabia do que o ruivo falava, e sem pensar, assentiu com a cabeça. Só depois percebeu o que havia feito. Esquecera de como ficava avoada quando comia esse doce. “Eu vi você falando com ela na biblioteca, terça feira à tarde. Eu ouvi.” ele olhou-a nos olhos. “ Você podia ter me contado, sabe? Se tivesse me avisado, desde o começo, eu não teria feito esse papelão.” a jovem iria desculpar-se outra vez, mas o bruxo continuou a falar. “Mas você tinha prometido pra ela. E a minha irmãzinha é uma pessoa confiável, não é mesmo? Você é uma daquelas que não conta nem sob tortura.”
“Eu estava dividida, pra falar a verdade. Mas, se eu contasse pra você,”
“Imagino, pelo que ouvi. Mas você estava fazendo pressão pra ela contar, não é mesmo?” novamente a jovem afirmou. “Essa é a minha maninha. Não sei como eu consegui ficar bravo com você.”
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Naquele dia era o loiro que jogava impacientemente pedras no lago. Sentado no mesmo tronco de ontem, sua cara estava emburrada, e piorava cada vez que olhava para a menina apaixonada ao seu lado, que insistia em segurar forte no braço quieto.
Quatro e quarenta, ou eu faço essa garota ir embora ou eu vou acabar com problemas outra vez. Isso é, se a Weasley resolver aparecer! Bem, mesmo se aquela pobretona não vier, é mais seguro tirar a Parkinson daqui de perto. A última coisa que eu quero hoje é outro escândalo como o de sexta. Um desses por mês já me bastam!
“Vai chover.” comentou Pansy, quando deixou de olhar um pouco para o namorado e observou brevemente o céu escuro. “Vamos entrar?”
“Eu gosto de chuva.”
“Mas vai estragar a minha roupa! E o meu cabelo também.” ela reclamou, fazendo bico. “Dracooo...”
“Então entre.” a bruxa pareceu olha-lo triste por um segundo, mas a tristeza foi logo substituída por irritação quando esta se levantou e saiu andando de volta para o castelo com passos pesados.
Mal se passaram cinco minutos e as primeiras gotas começaram a cair. Mais cinco minutos e a água já caía como se estivesse sendo jogada por baldes. E mais dez minutos para aquele pé d’água tornar-se uma fina garoa. Aquelas chuvas de outono eram completamente detestáveis, elas conseguiam molhar tudo em menos de um minuto e iam embora do mesmo jeito que surgiam: em questão de segundos.
Pelo menos essa água toda serviu para espantar aquela tonta.
Draco ainda permanecia sentado no tronco, molhado dos pés a cabeça, quando uma ruiva conhecida parou na sua frente. O primeiro pensamento que o rapaz teve foi que ele gostara daquelas pernas. Claro, quando olhou um pouco mais para cima e viu as pintas e o cabelo ruivo meio molhado, quis novamente se chutar por elogiar mentalmente uma Weasley.
Ele iria fazer algum comentário safado, mas quando viu que a cara da garota na sua frente não era uma das melhores, mordeu a língua. O rapaz já vira muitas bruxas furiosas, mas nenhuma esteve como esta na sua frente estava.
“O que te possuiu para fazer, mandar, TUDO AQUILO hoje de manhã?? SERÁ QUE VOCÊ NÃO PENSA GAROTO??” Malfoy bem que tentou falar alguma coisa, se defender de algum jeito, mas a ruivinha mal parava para respirar entre uma frase e outra. “DOENTE! Isso que você é, um doente! Doente, doente, doente!! Você tem pelo menos uma leve noção dos problemas que eu poderia ter arranjado?? Meu irmão é ciumento pra caramba! E ele é o que é menos estressado em relação a mim!! Bem, na verdade Ron é o segundo menos estressado... Mas você não liga, claro! Por que ligaria??”
Por um momento, houve silêncio. Apenas era ouvido o baixo barulho da chuva fina entrando em contato com a água do lago, que lentamente voltava a calmaria usual.
“Mas... eu queria, meio que, que agradecer você.” Ginevra sentou-se ao lado dele no tronco, sem se importar com o fato de que, fazendo isso, molharia uma parte de sua capa. Pela primeira vez ela pareceu não estar receosa por estar perto do garoto. “Você me fez um favor, um pequeno favor. Sem saber, mas fez.”
Draco, por um momento, a olhou totalmente bobo. Realmente, os dias ficavam cada vez mais bizarros para ele, era o segundo dia consecutivo que a ruiva lhe agradecia. Ficou tentado em perguntar o porque do segundo agradecimento, mas acabou mantendo a boca calada. Vai que, se ele perguntasse, ela ficasse furiosa novamente? Era melhor não arriscar, ele ainda estava um tanto que traumatizado com os gritos de antes.
“E...?” olhando para ela, ele claramente queria saber sobre as aulas.
“Apesar de eu ter odiado os cravos... eu dou as malditas aulas.” |