Quinta, 5 de outubro.
Mais um dia começava para a jovem Weasley. Pichi já acordara a todos no dormitório com toda sua barulheira, Sati e Ravenis já haviam expulsado a coruja escandalosa janela afora, e Ginevra saía do banheiro a tempo de ser acertada em cheio por um travesseiro.
Eu ainda mato essas duas.
“Foi mal, Gina! Era pra acertar nessa maldita do seu lado.” desculpou-se Sati, uma das únicas japonesinha da Grifinória. “Nossa, se arrumou rápido hoje! E tá bonita! Vai encontrar alguém no café, por acaso?”
“Deixa de besteira, Sa. Eu, me encontrando com alguém? Há, desde quando?”
“E por que não? Nós ficamos sabendo que você já recebeu oito convites para Hogsmeade, e nenhum desses oito eram de Longbotom! Tá sobrando bruxo, heim?”
Oito? Desde quando eu recebi oito convites? Pelo que eu sei foram só dois, e um deles foi sim de Longbottom...
“Ravenis, não enche, vai.” Ginevra pediu, mas quando uma das meninas calou a boca, a outra começou a falar.
“E você ainda recusou todos! Será que você é boba? Ou está esperando um convite que talvez nunca venha?”
Outch. Certas coisas doem ouvir.
“Não estou esperando o convite de Harry.”
“Então porque não aceita os outros?” Ravenis e Sati perguntaram ao mesmo tempo, como se houvessem combinado.
A pergunta acabou deixando Gina sem resposta. Se não esperava algum convite em especial, como dizia, porque não aceitou nenhum dos convites? Storms não era nem um pouco feio! Ao contrário, era até bonitos demais, pelo menos assim ela achava. Não escutara nada de ruim do garoto durante todo aquele tempo, e com o que ouvira, podia concluir que era um lufano comportado.
Eu estou esperando esse maldito convite. Ele nunca vai vir. Não estou esperando esse convite estúpido.
“Talvez eu tenha aceitado algum, quem disse que eu dei um fora em todos?” teve que inventar alguma desculpa para suas colegas não ficarem pensando que ela ainda gostava do rapaz com a cicatriz na testa. Só Merlin sabe o quanto elas lhe importunam por causa disso. “Mas agora, infelizmente, o máximo que vai acontecer é Longbotom sentar perto de mim.”
E quer saber, eu estou cansando de tudo isso, de mendigar por um amor que nunca vai ser meu. Estou cansada de querer um pouco da atenção dele. Eu vou parar, que Merlin marque isso! Até o fim do mês, eu arranjo alguém!
Com esse pensamento fixo, a jovem desceu para tomar o café.
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Draco tomara um rápido café naquela manhã. Sentado ao lado de Pansy, ele tentava fazer a menina desgrudar de seu braço para pelo menos poder comer alguma coisa antes de rumar para o corujal. As tentativas, como sempre, eram frustradas. Cinco minutos depois o loiro se preocupava mais em não deixar a namorada achar o pergaminho escondido dentro de sua camisa em vez de tira-la de seu braço.
Merlin, que castigo... Eu AINDA não fui tão mal para merecer essa punição!
“ Mas hoje está frio, Draquinho!”
“ Pansy, eu não quero você me abraçando! Quantas vezes eu vou ter que repetir isso hoje?”
“Mas todos os namorados se abraçam no frio!” ela o olhou esperançosa, esperando que ele não voltasse a sair do abraço dela. Não aconteceu.
“Bem, talvez nós não sejamos iguais aos outros namorados.” O bruxo livrou seu braço das garras da loira, levantando-se sem acabar de comer.
Se não tivesse saído com tanta pressa do Salão Principal, teria visto sua ruivinha entrando com um cachecol amarelo e vermelho enrolado em volta do pescoço. Mas não podia dar-se o luxo de andar devagar, ou sua dita namorada voltaria a lhe infernizar a vida. E também, se demorasse demais talvez não conseguisse mandar a coruja a tempo. Tinha seus motivos para querer que a Weasley a recebesse ainda no café.
Então, subiu rápido pelas escadas que davam ao corujal. Chegando no topo, foi automaticamente em direção a sua coruja, porém quando a viu lembrou-se de como sua coruja era normal. Não, Sin passava longe de ser uma coruja normal. Entre as aves existentes em Hogwarts, ela era uma das poucas que se destacavam. Toda a Sonserina sabia quem era o dono da coruja estranhamente esverdeada, inclusive Pansy.
Ou seja, se Sin for entregar a maldita carta tanto a Weasley quanto eu vamos estar com sérios problemas. Não acredito que vou ser obrigado a usar uma destas aves estupidamente sem graça.
Acabou indo até as corujas pertencentes à escola. Sem muita opção, escolheu uma marrom adulta, prendendo o pergaminho em sua pata direita. Pôde ouvir um piado indignado vindo da ave esverdeada, e virou-se a tempo para ver esta sair voando raivosa pela janela.
Uma coruja temperamental. Ótimo, simplesmente ótimo.
Esperou até a coruja voltar, o que não demorou muito, e deu um pedaço de maçã pelo trabalho do bicho. Ginevra provavelmente tinha recebido a carta antes do início das aulas, como ele planejava. Agora ainda faltavam pouco mais de dez minutos para o primeiro sinal, de acordo com o relógio que ali havia. Se tivesse certeza de que Pansy não estaria mais no Salão Principal, teria voltado para lá e terminado de tomar seu café. Mas não queria arriscar, durante o dia seria obrigado a atura-la na aula de Feitiços e Poções. Se ele podia ficar sem vê-la até lá, então tinha que aproveitar.
Talvez devesse acabar com ela, como Flint sugeriu. Olhar pra ela já faz horrores com meu humor, ter que ficar ao lado dela, não dá mais nem pra descrever o sentimento! Mas então, se não for a Parkinson, vai ser outra no meu pé.
Lembrou que sua primeira aula era História da Magia quando seu estômago roncou pela segunda vez. Ele poderia muito bem matar essa aula e fazer uma visitinha aos elfos domésticos da escola.
Saiu do corujal só quando ouviu o primeiro sinal bater. Estava com um pressentimento de que esquecera de fazer alguma coisa, mas deixou o presságio de lado e rumou para a cozinha do enorme castelo.
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Na enorme mesa, Ginevra sentou-se ao lado de Hermione, que infelizmente estava ao lado de Neville. A ruiva tentou ignorar o fato e começou uma conversa com a amiga, tentando esconder sua irritação com os olhares que Longbotom lhe lançava.
Eu nem mesmo sou amiga dele. Nem quero ser. Se Hermione sugerir novamente que eu aceite o maldito convite desse bruxo, logo na frente dele, eu acabo com ela. Quieta Mione, quieta!
“ Fiquei sabendo que você recebeu um convite de Storms, Gi! Ta podendo você, heim?”
Isso Mione, fale de outros garotos, garota esperta!
“Foi só um convite, Mi.” Disse, um sorriso nos lábios.
“ Lilá disse que ele também lhe mandou flores! É verdade?”
“Flores? Acho que já estão falando demais.” Colocou um dos biscoitos de chocolate na boca.
“ Ah, claro. E você aceitou o convite dele? De Aeon?”
“Eu não gosto de lufanos, quem me conhece sabe disso.” Gina teve que conter o riso quando olhou para a cara de “vou fingir que não ouvi isso” feita pela bruxa mais velha.
“ Você é louca. Que bruxa normal negaria um convite por causa disso?”
“E quem disse que eu sou normal?”
Hermione se limitou em balançar a cabeça, voltando a atenção para seus biscoitos de avelã. Ginevra sorriu, contente ao ver o desespero estampado na cara de Neville. Não que a jovem gostasse de vê-lo mal, ela não possuía a má índole sonserina, apenas não queria ficar dando falsas esperanças ao grifinório atrapalhado.
“ Gina, sem querer ser chata, mas você está doente?” Mione perguntou, terminando de tomar seu suco de abóbora. Quando Gina perguntou o porquê da pergunta, a outra bruxa apontou para o cachecol. “Sabe, não está tão frio assim para isso. Se você não está se sentindo bem, eu te levo até a enfermaria.”
“ Bem," Ginevra tentou achar rápido alguma desculpa e acabou falando a primeira coisa que lhe deu na cabeça. “Eu tenho frio no pescoço.” E no momento em que aquilo saiu de sua boca, viu o quanto tinha soado totalmente ridículo.
“Ano passado você não tinha frio no pescoço.” quem se intrometeu foi Neville, mas o olhar que recebeu da ruiva foi o bastante para faze-lo voltar a ficar de boca fechada.
“ É sério, Mi. Com todas essas mudanças súbitas, o clima tá meio doido! E de manhã é sempre mais frio. Depois quando esquentar mais eu tiro o cachecol.” Deu um sorriso amarelo, apenas sentindo-se mais idiota.
“Tá Gina. Você não tem que se explicar tanto, foi só uma pergunta.”
Ginevra logo se sentiu muito idiota com a resposta dada pela amiga. Tinha ficado tão na cara que ela estava mentindo, e era tudo culpa daquele sonserino maldito!
O que tinha dado naquele garoto ontem? Por um instante pensara aquilo tudo ter sido alguma trama estúpida do seu irmão para assusta-la, para talvez ela voltar a sua aparência de antes. Rony sabia ser muito chato quando ele queria. Mas depois, lembrou que nunca, durante toda a sua existência, ela chegaria a ver algum acordo entre um Weasley e um Malfoy, ou pelo menos entre Rony e Draco. Ou seja, aquela hipótese estava descartada. Aqueles garotos seriam do contra até a morte.
Aquele furão maldito mordeu meu pescoço por livre e espontânea vontade? E eu ainda deixei? Eu deixei? Claro que eu não deixei! Eu arranquei metade do couro cabeludo daquele sonserino ridículo! Mas eu demorei meio minuto para fazer isso. Não! Argh!
“Já ia esquecendo. Gin, eu queria perguntar uma coisa.” Hermione falou, e ambas olharam para Longbotom, que prestava atenção na conversa.
“ Neville, será que você se incomodaria em nos dar licença por um instante?” a ruiva mais ordenou do que pediu, mastigando seu biscoito visivelmente irritada.
Apenas quando o rapaz foi sentar-se perto de Simas que Hermione voltou a falar.
“É sobre o Rony.”
“O que tem o meu irmão? Você falou com ele?” Ginevra recebeu um não como resposta. “Disse que conversaria com ele na quarta!”
“Eu disse que tentaria!”
“E o que te impediu de fazer isso?”
“O fato dele não querer falar comigo!” isso conseguiu surpreender a bruxa. “Desde terça-feira à tarde ele está estranho. Quando Harry chegou com ele para estudarmos, Rony não estava com uma cara de muitos amigos, mas eu nem falei nada. Podia ter se incomodado, alguma coisa assim. Então na quarta ele continuou assim, no café, durante as aulas... Eu perguntei para Harry se Rony tinha alguma coisa, mas ele disse que não sabia de nada. Então eu fui ver o treino dos garotos, para finalmente tentar falar com o Ron, e ele me mandou embora!
“Te mandou embora?”
“Disse que estava ocupado demais para falar comigo.”
“Mi, ele estava no meio de um treino.”
“O treino já tinha acabado!”
“Bem, se você espera que eu saiba o que ele tem, perdeu seu tempo. Não falo com ele desde segunda.” Tomou um gole de café, seus olhos vagando pela mesa lufa-lufa. “E também não faço idéia do que possa ser! Conhecendo bem o Rony, sabe-se que ele fica irritado com quase tudo. Pode ser qualquer coisa! Tente falar com ele hoje. Talvez o humor dele esteja melhor.“ por um instante, uma idéia passou pela cabeça da ruiva. “Tem alguma chance dele já saber...?”
“Você acha?”
“Não se desespere, ainda. Tente falar com ele outra vez hoje.”
Voltaram a atenção para seus pratos. Neville, vendo isso, não tardou a voltar para o lugar de antes.
Com o retorno do rapaz, a ruiva resolveu acabar logo de comer para poder sair rápido dali. Tirou a última torrada de seu prato, e bem a tempo. Se tivesse deixado para retira-la segundos depois, a cobertura cremosa de chocolate que havia sobre esta e que ela tanto amava teria sido completamente arruinada pelo pergaminho abandonado por uma coruja.
Uma carta? Pra mim? Os dias se tornam cada vez mais bizarros na minha pequena vidinha.
“Carta de amor, é Gin?” parece que Hermione não conseguiu evitar aquele comentário.
“Não enche, Mi. Deve ser do papai, brigando comigo por ter mudado um pouco. Não existem homens mais superprotetores do que os da família Weasley, você sabe.”
“Pelo que você fala, posso imaginar. Mas, sem querer ser chata, essa letra não parece muito a do seu pai.” A grifinória comentou quando a ruiva desenrolou o pergaminho.
E realmente não parecia, Ginevra foi obrigada a admitir. Era uma letra bem refinada, típica das famílias tradicionais ricas do mundo mágico. Agora, quem teria lhe mandado a carta?
“Mi, quantos minutos para a primeira aula?” não poderia ler aquilo ali em paz. Não sem seu irmão e pelo menos mais 5 pessoas ao redor dela.
“Mais de dez, por que?”
“É que eu esqueci de fazer uma coisinha. Se você encontrar com a Sati, você diz que eu deixei as folhas de camomila que ela pediu dentro do baú dela?”
“ Claro. Mas,“
“Obrigada! A gente se encontra no almoço, tchau!”
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Trancada num dos banheiros femininos, encostada numa das quatro paredes do cubículo, a ruiva desenrolava mais uma ver o pergaminho. Respirou aliviada quando viu que novamente nada saíra do pedaço de papel. Estava limpo, sem feitiços, um pedaço de papel normal, até agora. Porém, quando pensou não poder tomar mais nenhum susto com aquilo estava muito enganada.
Ela esperava um “olá, vamos tomar um chá?”, ou um “podemos sair no sábado, te pago uma cerveja amanteigada!”. Ela definitivamente não esperava aquilo.
“Ginevra
Tenho vivido por um longo tempo dependente de ninguém, comprometido com ninguém, preocupado com ninguém exceto comigo mesmo. Durante todas estas estações vazias de minha vida, considerava ter o mundo e verdadeiramente acreditava viver de modo irrestrito. Então, sua imagem passou a existir diante de meus olhos, e repentinamente, vi estar enganado por todos estes anos.
Minha vida não é tudo aquilo que eu pensava ser. Em fato, ela carece de várias coisas, sobretudo de amor. Agora, descobri esse amor e com ele a única pessoa que pode dar algum sentido a minha miserável existência.
Você é esta pessoa, e eu, sem nem mesmo perceber, me apaixonei. Honestamente, nunca pensei que existiria uma ocasião na qual eu usaria estas palavras. Entretanto, hoje elas vêm sem esforço e com enorme sinceridade. Serei eternamente grato a você por me mostrar o quão vazios eram meus dias.
Até o momento certo, desejo que me mantenhas em seu pensamento, assim como tu nunca deixas o meu.
Com amor
D.V.”
Estava boquiaberta ao final da carta, completamente sem reação. Até chegou a se beliscar para certificar-se de que aquilo era real, e ficou ainda mais pasma quando sentiu a dor. Era uma carta romântica! Há, só podia ser uma piada, os bruxos de hoje não escreviam mais esse tipo de coisa, escreviam? Não que ela estivesse reclamando, mas... era estranho!
Primeiro convites, agora cartas de amor anônimas... É... é perfeito. Só que de um jeito estranho, e incomum! O que mais vão me dar agora, dragõezinhos de pelúcia?
O dragão! Eu esqueci de mandar o maldito dragão!
Malfoy acabara de lembrar, no meio da aula de Transfigurações, o que havia deixado de fazer naquela manhã.
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