Deixaram o hotel pouco tempo depois. Ao saírem do elevador, os dois deram as mãos e colocram os óculos escuros. Chegando ao restaurante Adler, Draco fez o pedido e depois se retirou.
- Vou ao toalete. – disse.
- Só não demore, a comida pode chegar e você não estará aqui. Vai acabar esfriando. – disse Ginny fingindo ‘preocupação’.
O loiro não deu atenção e continuou andando, deixando-a sozinha. Ginny esfregava as mãos uma na outra, nervosa.
- O que uma moça tão bonita faz aqui sozinha? – perguntou um rapaz ocupando o lugar de Draco.
Ginny o encarou, mas nada disse. Fingindo não tê-lo visto, olhou ansiosamente para o banheiro masculino. Voltou-se para o rapaz.
- Não estou sozinha. Você está aí, não é? – fez desafiadoramente.
- Não sabe como gosto de mulheres difíceis. – murmurou. – Tanner, Tanner Hurt.
- Tanner... – ela repetiu e bebeu um gole de vinho branco.
Inesperadamente, o homem se levantou e a puxou pelo braço, fazendo levantar e os dois ficarem de costas para os toaletes.
- Venha comigo, ruivinha. Você vai ser um bom brinquedo... – disse, empurrando-a para fora do restaurante, mas Ginny conseguiu resistir.
- Me larga, seu marginal! – disse a ruiva conseguindo desvencilhar-se dos braços do homem, dando-lhe um soco no estômago, mas o homem se recuperou rápido e a pegou.
- Calminha, meu bem. Está tudo bem...
- Se afaste dela! – disse uma voz vinda de trás. Pela primeira vez, Ginny tinha que agradecer por Malfoy estar presente. Suspirou aliviada.
- E por que deveria? – perguntou o tal Tanner. – Será que não percebe que está atrapalhando?
- Atrapalhando? Não creio que esteja atrapalhando. E se o que você quer com ela é o que imagino, está perdendo seu tempo, ela nunca o faria.
- O que te leva a ter tanta certeza disso? – perguntou o homem em polonês.
- Será que não notou que ela é casada? – fez Draco, também em polonês.
- Isso não me impede de... – insinuou o homem sorrindo de forma tola.
- Acontece, meu caro, que ela é minha esposa! – disse Draco, colocando as mãos nos bolsos. – E não querendo ser grosseiro, mas já sendo, se afaste dela ou terei que tomar medidas nada amigáveis. – o homem se afastou, olhando, raivoso, para o loiro. – E cuidado. Da próxima vez não serei tão passivo.
Sem que o casal percebesse, o homem fez que ia sair, mas voltou por trás da ruiva e a beijou a força. Draco, imediatamente se virou para ele, arrancando Ginny de seus braços.
- Saia daqui, ele não vai desistir fácil. – pediu Draco.
Ginny correu para o toalete feminino e parou de frente para uma pia, examinando-se no espelho. Estava nervosa e incrédula, suava frio. Uma sensação um tanto quanto estranha tomou seu corpo. Nunca agradecera tanto por um Malfoy estar com ela. Imaginava o que teria acontecido se ele não estivesse ali naquele momento.
- Com licença, querida, mas é que acho que você deveria vir aqui um instante.
Ginny saiu rapidamente, sem entender muita coisa. A senhora que a chamara, estava levando-a até a mesa onde estava minutos atrás. E a ruiva deparou-se com uma cena que nunca imaginara: Draco Malfoy estava no chão, atracado com o outro homem. Os dois pareciam não medir esforços para espancar o outro da maneira mais dolorosa possível. Ela segurou o suposto marido e o puxou, tirando-o de cima do outro.
- Draco, pára... Pára! Não vale a pena. – ela pediu, colocando-se entre os dois homens e encarando o loiro, que estava com a boca sangrando e o corte que seu anel fizera dois dias antes, aberto novamente. – Você está ferido, é melhor esquecer isso. – ela o fez sentar-se e notou o olhar fuzilante que ele lançava ao outro. Virou-se para ‘Tanner’. – E o senhor, Sr. Tanner Hurt, se é que esse é o seu nome, por favor, suma daqui e nos deixe em paz.
- Eu só estava fazendo o meu trabalho, dona. – ele disse, saindo e olhando, vez ou outra, para o casal.
- Obrigada. – agradeceu sem jeito, agachando-se ao lado de Draco e recebendo uma caixa de primeiros socorros da senhora que a chamara. Passou a cuidar dos ferimentos que o loiro havia conseguido durante a briga, afinal, aquilo tudo era culpa dela. – Eu nunca pensei que agradeceria por você estar aqui, mas... Obrigada!
- Você tem idéia do que aquele homem ia fazer com você? – perguntou ele, ainda perplexo com sua atitude.
- Ele disse que me faria seu... brinquedo. – disse Ginny baixando os olhos por um instante e depois olhando-o atentamente enquanto limpava o sangue com água oxigenada. O loiro soltou um gemido de dor. – Desculpe ter feito você passar por isso.
- Eu faria isso por qualquer pessoa, Ginny. – ele disse sério.
Parecia difícil acreditar que aquelas palavras estavam mesmo saindo da boca de Draco Malfoy. Mas ele a salvara, provara que não era tão ruim como aparentava. Mesmo assim, ela se negava a aceitar aquilo, principalmente depois de tudo que ele dissera a ela em todos aqueles anos, o que fizera com sua família, esnobando-os. O rancor falava mais alto.
Depois do almoço, retornaram ao hotel, onde Ginny fez com que o homem se acomodasse e descansasse. Estava dividida entre o que ele fizera por ela e tudo o que fizera com ela. Foram anos de inimizade, anos de desaforos, de brigas e desentendimentos. Aquela era apenas uma trégua, tinha certeza disso. Mas ainda se perguntara o porquê de ele ter feito tudo o que fizera naquele restaurante.
O livro em seu colo, completamente esquecido, jazia aberto, enquanto ela olhava as páginas, mas nada absorvia. Perguntas e pensamentos absurdos martelavam em sua cabeça. Olhou para a a cama, onde ele estava deitado, uma aparência cansada e carente, olhando para a varanda, fixamente.
“Ciúmes?”, ele se perguntou. A confusão de Ginny se espelhava nele e isso era absolutamente indiscutível. Ele estava longe, os pensamentos ocupados sempre pelo rosto dela. A conclusão parecia distante e a consternação crescente.
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Faziam o possível para esquecer tudo que acontecera durante aquela missão. Separariam-se naquele mesmo dia e tudo voltaria a ser como antes. No período que passaram juntos, eles aprenderam muita coisa um com o outro e a principal coisa: suportarem-se. Embora as brigas estivessem presentes, eles aprenderam segurar a barra e manter uma relação quase amigável. Aos poucos as discussões foram se tornando cada vez mais escassas, mas não extintas.
Duas pessoas completamente diferentes, duas vidas completamente distintas, talvez até... Opostas. Seria possível que do ‘suportar’ poderia surgir uma amizade? Seria possível que pessoas inimigas desde que se entendiam por gente, conseguissem mudar o rumo de uma história tão antiga? A oposição Weasley vs. Malfoy vinha desde os seus avós e bisavós. Mas por quê?
Um caminho como aquele não levava a lugar nenhum. São coisas que nunca descobririam, coisas que seus pais não poderiam explicar. Restava tentar descobrir o passado, como tudo aquilo começara. Se temos que começar por algum lugar, que seja pelo início.
- Bom, acho que hoje a gente pode voltar ao antes. – disse Ginny.
- Ao antes sem esse depois. – concluiu o outro.
O silêncio, bem vindo, tomou conta de todo o quarto de hotel, onde eles arrumavam suas malas para retornar à Inglaterra.
- Você sabe como foi que toda essa briga entre nossas famílias começou? – perguntou Ginny, quebrando o silêncio.
Draco deu de ombros e balançou a cabeça negativamente.
- Não. Talvez porque as classes são diferentes... – sugeriu ele, prevendo a reação da outra.
Ginny pegou um travesseiro e jogou nele, que se abaixou, desviando-se do ‘ataque’.
- Eu ainda gostaria de saber o porquê de brigarmos tanto. – ela disse. – Já notou que não sabemos nem ao menos o motivo de tantas discussões? São anos e anos brigando e ao menos sei por quê.
Draco pareceu refletir um momento. Ela estava certa. Não sabia de onde vinha todo o seu ódio pelos Weasley e por Harry Potter. Apenas fora criado para odiá-los, sem argumentações.
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Eles estavam entrando no avião de volta para Londres naquele exato momento. Ainda fingiam ser um casal. Uma experiência como aquela ficaria para a história. Entendidos? Não, ainda não. As coisas iam muito além da inimizade que tinham. Aquele com certeza era um jogo, eles só não sabiam as regras e nem o objetivo.
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