Para descontento de Ginny, a quinta-feira chegou mais rápido do que o imaginado. Ela agora terminava de arrumar suas malas. Já havia tomado banho, estava apenas de roupão. Dalila chegara a pouco e a ajudava. Marcara com Draco Malfoy de ele passar e pegá-la, já que não precisariam ir ao Ministério. Teriam de agir como trouxas, indo de carro até o aeroporto, onde pegariam um avião. Às nove ele estaria ali.
Não podia imaginar como seriam os dias que passariam juntos, dividindo o mesmo teto. Se o hotel não desabasse antes que eles pudessem concluir a missão, já era muito. Segundo as instruções que receberam, iriam se instalar no Hotel Rialto, em Varsóvia.
Ginny estava terminando de se aprontar quando escutou a campainha soar. “Ele é bem pontual”, pensou.
- Dalila, abre a porta para mim, por favor?! – disse, ainda no banheiro.
- Estou indo. – disse a moça, que estava fechando as malas de Ginny.
A ruiva escutou os passos apressados de Dalila e depois a porta de fechando.
- Espero que a Weasley não demore. – ela escutou ele dizer. – Não estou com muita paciência hoje.
Ótimo! Ele estava sem paciência hoje. Ela realmente merecia, não é? Não, não é. Ela já não suportava o loiro quando ele estava de bom humor, imagina só como ela estaria depois de dias ao lado dele, estando de mau humor. Seria absolutamente terrível, um completo massacre. Seria desastroso. Ela imaginava como estaria o quarto quando eles deixassem o hotel... “Acabado! Caindo aos pedaços...”, concluiu. Ela lutava contra a própria vontade de deixá-lo esperando na sala. Dalila entrou no quarto nervosa.
- Gi, acho melhor se apressar... O homem está uma fera!
- Avise que estou pronta. – disse Ginny sorrindo maliciosamente.
- Não faça o que está pensando. Ele vai matar você! – avisou Dalila.
- Calma! Eu sei o que faço e ele não ousaria tentar nada comigo. – respondeu a ruiva. – Você notou o corte abaixo do olho esquerdo?
- Não me diga que... Ginny, você está brincando com o fogo...
- Uma pessoa como ele não chega nem perto de ser quente como ‘fogo’... É um homem frio e arrogante, insuportável! E eu acho bastante prazeroso vê-lo ainda mais irritado.
- Cuidado para não se queimar. – insistiu a secretária.
- Aquela serpente albina ainda vai comer aqui – disse Ginny rindo sem dar atenção a outra. –, na minha mão...
Dalila lançou-lhe um olhar reprovador e balançou a cabeça negativamente. Ginny notou, mas simplesmente alargou ainda mais seu sorriso e pegou as malas, seguindo para a sala.
- Pensei que tinha desistido da minha presença, Weasley. – disse Draco se levantando.
- Eu já disse que a sua presença nunca me agradou e que se eu pudesse desistir, você não estaria aqui. – retrucou Ginny sem se deixar levar. Piscou para Dalila, que esboçou um pequeno sorriso. – Vamos?
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Já no hotel, a forma como se tratavam teve que mudar. Atores, era como poderiam se denominar. Algumas horas atrás se alfinetavam; na casa de Ginny, no carro, no aeroporto, no avião, no táxi... Enfim! Pessoas que fingiam tão bem, não poderiam ser consideradas nada menos que um ‘ator’. Estavam realmente parecendo um casal. Andavam abraçados por todos os cantos e a aliança no dedo anelar esquerdo completava o disfarçe perfeito, mesmo que não trocassem beijos e carícias e, sim, alfinetadas. Pelo menos quando ninguém estava por perto.
Do quarto para dentro, era quase uma guerra. Para ver quem tomava banho primeiro, para ver quem dormiria na cama, como separariam seu espaço, para ficar com o maior número de travesseiros, mesmo que não fossem necessários. Ginny estava cansada de tudo aquilo, mas sua paciência esgotou quando entrou no banheiro após o banho do loiro.
- Que bagunça é essa? – ela berrou. “Por sorte eu tomei banho primeiro...”, pensou.
- Bagunça? Que me lembre deixei tudo arrumado antes de sair...
- Por acaso alguém ensinou que se deve pendurar as toalhas, que não se deve deixar as roupas espalhadas pelo banheiro e, principalmente, que não se deixa a cueca dentro da pia assim? – ela pegou a cueca molhada de dentro da pia e mostrou a ele; estava completamente revirada.
- Na minha casa existiam empregados, Weasley. – ele disse sem tirar os olhos do livro que lia.
- Nossa! E por que será que na minha casa também há uma secretária e eu, mesmo assim, faço tudo isso?
- Porque você é uma Weasley e os Weasley são pobretões. – finalizou Draco, finalmente fitando-a.
- Você meça as suas palavras quando for falar de mim ou de minha família. Ou-eu-não-me-responsabilizo-pelos-meus-atos! – disse batendo nele com a cueca molhada a cada palavra. – Entendeu bem?
- Eu sempre soube que você não era das mais delicadas, mas pode ter certeza de que isso só confirmou o que eu já sabia. – ele provocou se levantando. Quando ela ia recomeçar a bater, o loiro simplesmente ergueu os próprios braços e a segurou.
Estavam muito próximos, tão próximos que um pequeno movimento ou inclinação para frente, acabariam com qualquer distância entre os corpos. Ginny baixou os olhos. Ele estava apenas com uma calça comprida de seda azul marinho e um roupão, entreaberto, da mesma cor e tecido, deixando seu peitoral bem trabalhado à mostra. Levantou novamente os olhos azuis e o encarou. Agora mantinham um contato visual; os cinzas nos azuis, os azuis nos cizas.
Uma batida à porta quebrou aquele silêncio e interrompeu o contato que os dois mantinham. Automaticamente, Draco soltou os braços da ruiva e sentou-se à poltrona.
- Quem é? – perguntou Ginny se aproximando da porta.
- Serviço de quarto. – respondeu uma voz.
Ginny se virou para o loiro e, o mais baixo que pôde, perguntou:
- Você pediu alguma coisa?
O loiro fez uma cara confusa e pareceu pensar. Balançou a cabeça negativamente e se levantou, postando-se atrás da porta. Fez um gesto para que a ruiva abrisse a porta e ela o fez rapidamente, ao que um homem de preto, o capuz cobrindo-lhe o rosto entrou. Mas antes que pudesse fazer qualquer outro movimento, Draco deu-lhe uma coronhada na nuca, fazendo-o cair no chão com estrondo, desacordado.
- Limpo, rápido e prático. Exatamente como eu gosto. – murmurou Ginny.
- Você gosta, é? – perguntou o loiro se aproximando, uma expressão sedutora em seu olhar.
- Não de você, do trabalho; limpo, prático e rápido. – explicou incrédula com o que acabara de ver. Saiu, apressada, do alcance do homem. Escutou um barulho estranho. – Espera aí... Que barulho é esse?
- Parece com um... relógio... – fez Draco, pensativo. – Ginny, sai daí!
Ele pulou e a afastou do homem caído no chão. Dentro da sua roupa estava uma pequena bomba e seu contador estava ligado, iria explodir a qualquer momento. Sete... Seis... Cinco...
Draco esperou mais alguns segundos e só então a jogou pela janela, observando-a explodir no ar. Virou-se para o homem caído no são e o matou.
- Avada Kedavra! – foi o que disse antes de jogá-lo de qualquer jeito em um armário ainda vazio. – Pronto.
- O que te levou a me chamar de Ginny? – ela perguntou confusa.
- Ginny? Eu não te chamei de Ginny, chamei-a de Weasley!
- Ah, claro! Ginny e Weasley são nomes tão parecidos, não é? Qualquer um pode se confundir... – ela disse sarcástica.
- Deixa de ser infantil! – ele murmurou. – Você está bem?
- Por acaso pareço morta? – ironizou.
Irritado, Draco deu as costas e voltou a sentar-se na poltrona, o livro cobrindo seu rosto. Ginny tirou o roupão de seda branco que usava, deixando à mostra a camisola que usava, também branca e de seda. Ele não deixou passar este detalhe, mas também não comentou nada.
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- Acorda! Acorda, Malfoy! – Ginny balançava ele para um lado e para o outro e berrava no seu ouvido.
- Já acordei, ok? – fez o loiro, rabugento, mas sem abrir os olhos.
- Ok. Se já está acordado, então abre os olhos! – insistiu Ginny.
Ele abriu os olhos e se sentou na cama, olhando-a. Ela estava debruçada sobre seu peito, encarando-o.
- Eu já disse que detesto que me acordem? – ele perguntou calmamente. “Mas com uma visão dessas, eu queria ser acordado todos os dias”, pensou.
- Não, e mesmo que dissesse eu não me importaria e o teria acordado da mesma forma. – ela replicou sorrindo. Ele gostava daquele jeito dela; tinha sempre uma resposta para tudo.
Num gesto carinhoso, ele colocou uma mecha de cabelos ruivos que caiu sobre os belos olhos azuis da mulher, que os fechou e sorriu serenamente. Observou todos os traços de seu rosto. Ela era realmente linda, uma mulher perfeita. “Mas é uma Weasley”, ele tentava afastar estes pensamentos.
- Vamos sair para almoçar? – ela perguntou amigavelmente. Depois de tanto tempo discutindo e brigando, era mais que normal que a rotina ficasse um tanto monótona e eles resolvessem ficar em paz por pelo menos algumas horas, além do período em que passavam dormindo.
- Almoçar?
- Bem, já passam das onze, então acho que não haja motivo para você tomar café...
- Ok. Não precisa explicar. – cortou-a.
Ela já tomara café desde cedo. Não se dera nem o trabalho de trocar de roupa. Pediu que o serviço de quarto trouxesse o café da manhã e deixou que ele dormisse, a fim de prolongar a sua paz. Cansada de não ter o que fazer, resolveu deitar novamente e dormir. Quando acordou e viu a hora, achou que precisava despertar o homem. “Pelo menos ele acordou calmo”, pensou.
Ele girou com ela, fazendo com que ela ficasse por baixo dele.
- O que você pensa que está fazendo? – perguntou num sussurro.
- Esvaindo a razão e deixando a loucura no seu lugar... – ele respondeu, beijando-lhes levemente os lábios.
- Não faça isso! – ela pediu. – É o único momento de paz que temos e você quer simplesmente acabar com ele?
- Não, estou tentando prolongá-lo à minha maneira. – ele respondeu beijando-a mais intensamente. De início ela tentou resistir, mas acabou cedendo. Recobrando a consciência, ela o afastou.
- Fique longe de mim! – avisou. – Foi uma das primeiras coisas que pedi quando recebemos a missão... Será que não percebe que não quero ser mais uma?
- Você não é mais uma... Você é única. – disse o loiro sem pensar.
- Corta essa! Para quantas você já disse isso?
“Para nenhuma”, ele pensou. “O que há comigo?”
Ele não respondeu, apenas deu-lhe um selinho e levantou, entrando no banheiro.
Os olhos de Ginny se encheram de lágrimas.
“Ele não podia estar fazendo isso comigo, não podia!”, pensou.
Quando ele saiu, ela rapidamente secou os olhos e, sem dizer uma palavra, entrou.
Sorriu ao ver que ele pendurara as toalhas que usara, secara o que molhara, as roupas estavam dentro do cesto e nem sinal da cueca. Ela se perguntava se tantos anos de brigas não haviam influenciado para algo novo, algo que ela, definitivamente, não queria.
“Só espero que isso acabe logo”, pensou antes de entrar no banho.
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