Agosto de 2003. Faltavam poucos dias para o seu aniversário. Ela completaria seus vinte e dois anos no próximo dia onze. Trabalhava no Ministério da Magia há três anos, sem contar o ano que estagiara enquanto cursava a escola de aurores. Muita coisa havia mudado nos últimos cinco anos. Saíra da casa de seus pais e foi procurar a sua independência, comprando um pequeno apartamento em Londres, onde vivia desde que começara a trabalhar. Ela, sendo uma mulher linda e cobiçada, estava solteira por opção.
Eram cerca das seis e meia da manhã. Lá fora o sol iluminava as ruas, pouco movimentadas devido a hora; aquele seria mais um dia de verão escaldante. Ela se levantou e entrou no banheiro, fazendo toda a higiene matinal e tomando seu banho. Vestiu-se, colocando uma saia social preta na altura dos joelhos bem justa, com uma camisa branca de mangas compridas e botões, deixando os três superiores abertos, um blazer feminino e um sapato social de salto, também pretos. Os cabelos, antes compridos, agora iam até os ombros e estavam soltos.
Passou no segundo e último quarto da casa, o qual fizera de gabinete, e pegou um grosso fichário preto. Depois foi até a sala, deixando o fichário e sua bolsa sobre a mesa. Na cozinha, nenhum movimento, tudo parecia estar exatamente como deixara na noite anterior.
“Dalila ainda não chegou”, pensou.
Abriu a geladeira e pegou a jarra de suco, a geléia e o queijo. Em um dos armários, pegou o pote de torradas, pondo-os na pequena mesa do aposento. Sentou-se e postou-se a tomar seu café da manhã. Não demorou muito para que o cheiro do pão fresco invadisse o apartamento e ela escutasse a porta bater, além dos ruídos de passos rápidos.
- Bom dia! – disse Dalila, a sua secretária, que trazia um pacote de pão.
- Bom dia, Dalila. – respondeu, colocando uma torrada na boca.
- Espero que não se incomode por não ter me encontrado aqui. – Dalila voltara-se para ela. – Eu cheguei há alguns minutos e como você ainda não havia saído do quarto, resolvi descer e comprar os pães logo cedo.
- Não se preocupe.
Ela havia mesmo pedido à secretária que a chamasse por ‘você’ e não por ‘senhorita’. Dalila era mais do que apenas uma secretária ou serviçal; era também uma amiga. Era atenciosa e preocupada, estava sempre à sua disposição, para tudo o que precisasse.
Terminou de tomar o café da manhã e levantou-se rapidamente, indo ao banheiro e escovando os dentes. Voltou à sala, pegou a bolsa e o fichário que deixara ali, despediu-se da moça e saiu. Morava no quarto e último andar do prédio. Chamou o elevador e esperou. Quando estava entrando na grande caixa de aço, Dalila apareceu à porta.
- O ministro quer vê-la assim que chegar ao Ministério. – avisou.
- Obrigada! – agradeceu e viu a porta do elevador se fechar.
Aparatou. Em uma fração de segundo, ela se encontrava no iluminado átrio do Ministério da Magia, onde muitos outros bruxos aparatavam e andavam rapidamente até os seus escritórios, para mais um longo dia de trabalho. Seguiu para a sala do ministro e parou de chofre quando viu um homem loiro entrar pelo mesmo corredor que levava ao seu destino. Sem se abalar, continuou seguindo e parou à porta do gabinete de Rufo Scrimgeor, ao lado do outro auror.
Tudo o que ela não queria era olhar para a cara dele. Seu dia estava ótimo até o presente momento, estava.
- Bom dia, Weasley! – disse o homem sem olhá-la, mas com um ar zombeteiro na voz.
- Péssimo dia, Malfoy! Você conseguiu estragá-lo antes mesmo de começar. – ela retrucou, também sem olhá-lo.
- Oras, Weasley! Sua mamãe gorducha não ensinou que deve ser educada? – alfinetou, fitando-a com um sorriso satisfeito nos lábios.
- Minha mãe me ensinou a ser educada, mas não ousaria despediçar da minha boa educação com você, seu filhote de serpente albina! – respondeu Ginny com veemência. Bateu à porta de carvalho. – O que faz aqui?
- O mesmo que você, com toda certeza. – ele respondeu sonsamente.
Ginny ergueu as sobrancelhas desafiadoramente, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, a porta se abriu e eles puderam visualizar o ministro sentado à sua mesa.
- Bom dia! – cumprimentou se levantando.
- Bom dia, Sr. Ministro. – disseram os dois em uníssono.
- Muito bem, sentem-se, por favor. – pediu o velho. Os dois ocuparam as duas cadeiras vazias em frente a mesa do ministro. – Os chamo aqui para lhes entregar a próxima missão – começou o homem, sentando-se novamente. –, que está devidamente explicada nos documentos contidos nestes envelopes. – estendeu para eles dois envelopes pardos. – Vocês irão trabalhar juntos e embarcarão na próxima quinta-feira para a Polônia, onde será realizada a missão.
- Nós? Juntos? – repetiu Ginny com um sorriso incrédulo. – Está de brincadeira, não é?
O ministro a olhou sério, mas Draco também se manifestou.
- Senhor, nós não podemos trabalhar juntos! A missão seria um completo fiasco e...
- Esqueçam os desentendimentos do passado! Deixem-no onde está. – disse Scrimgeor seriamente alteando a voz.
Os dois calaram-se imediatamente, mas após a reunião, saíram resmungando.
- Não sabe o desprazer que terei em compartilhar meus preciosos dias com você. – disse Ginny contendo a raiva.
- Acredite, Weasley... Eu sei perfeitamente! – disse o loiro erguendo uma das sobrancelhas.
- Pois só de olhar nesta sua cara branca de fantasma, me dá nojo! – retrucou a ruiva. – E se me dá licença, tenho coisas bem melhores a fazer do que ficar aqui trocando elogios com você.
Ela se virou para ir embora, mas ele disparou:
- Como quiser, Weasley pobretona!
Automaticamente, ela se virou e deu-lhe um forte tapa, fazendo um corte superficial pouco abaixo do olho esquerdo, causado pelo anel que usava. Sorriu satisfeita e virou-se novamente, seguindo para o Departamento de Aurores. Não se deu o trabalho de abrir o envelope que recebera do ministro, mas anotou mentalmente, para se lembrar de matar Harry Potter assim que este retornasse de sua missão.
Ao chegar no seu departamento, cumprimentou a todos brevemente e seguiu diretamente para o seu escritório. Entrou e jogou a bolsa e o fichário pesado que segurava em uma cadeira qualquer, depois deixando-se cair em sua própria cadeira. Ficou pensando por alguns instantes na missão mais inconveniente que recebera em seus anos trabalhando ali. Finalmente, tomando coragem para abrir o envelope, pegou-o. Preparava-se e abria com extrema cautela, como se estivesse desarmando uma bomba que explodiria em poucos segundos.
Ao terminar de ler, sua expressão misturava incredulidade e horror. Ela não podia acreditar em uma só palavra daquela missão. Quando ela ia sair para reclamar com o ministro ou até mesmo com Hermione, que assumia o cargo de Chefe do Departamento de Aurores quando Harry estava fora, a porta se abriu quase acertando-a. Era Malfoy, provavelmente tinha lido as instruções e viera zombar dela, ou talvez reclamar mais um pouco.
Ginny revirou os olhos e suspirou antes que ele pudesse se mover.
- O que quer, Malfoy? – perguntou tentando se controlar ao máximo.
- Se você queria sair comigo ou até mesmo se aproximar, não era preciso pedir ao Potter para planejar uma missão para isso... Era só falar! – disse ele dando um sorriso prepotente. – Eu sei que eu sou irresistível, mas...
- Malfoy, corta essa! Eu nunca, nunca iria sair com uma pessoa como você. Não faço a mínima questão da sua presença e se quiser melhorar um pouco a sua fama, deixe de ser convencido! – disse Ginny sem pesar palavras. – Ah, e só para você saber... Casados apenas durante a missão, e distância ao extremo, entendeu bem?
- Olha só... Como se eu pensasse em cogitar a idéia de me aproximar de uma pessoa como você! Um Malfoy e uma Weasley? É absolutamente ridículo, um absurdo!
- Bom, se você já terminou, faça-me o favor de se retirar. Eu estou ocupada! – Ginny se virou e sentou-se na sua mesa, sem dar atenção ao loiro que a observava boquiaberto com sua atitude.
- E posso saber onde você ia, se estava tão ocupada? – fez, irritadiço.
- E desde quando eu tenho que dar satisfações da minha vida a você? – disparou sem olhá-lo, ainda folheando nos pergaminhos que estavam em suas mãos.
Ele tentou balbuciar algo, mas as palavras pareciam lhe escapar. Ela, definitivamente, era uma mulher séria e mudara bastante nos últimos anos. Estava mais adulta e difícil de se contornar, mais séria e autêntica, mais firme e confiante, mais bonita e atraente, e, principalmente, mais superior. Era difícil aceitar que aquela menina ruiva que conhecera anos atrás, havia crescido e se transformado em uma mulher linda e atraente, com notável inteligência, ágil e eficaz. Mas para ele, ela ainda era uma Weasley...
Ela estava observando-o há alguns segundos e notara a confusão do loiro.
- Olha aqui, Malfoy. Nós estamos numa mesma situação, uma situação comum e desagradável, mas não podemos nos dar o luxo de criticar, afinal, é o nosso trabalho e sabemos que todos precisam trabalhar juntos. – ela tentava ser realista, mesmo que não aceitasse totalmente as próprias palavras. – Vá e não precisaremos nos ver até que a missão comece, assim não discutiremos e nem perderemos nosso tempo um com o outro.
Embora ele não quisesse aceitar que a ruiva estava certa, tinha que concordar que era o melhor a ser feito e que ela estava com sóbria razão. Novamente sem palavras, ele deixou a sala da mulher, que balançou a cabeça negativamente antes de voltar a atenção para os relatórios.
Ao final do dia, estava exausta e tudo o que queria era voltar para casa, tomar um longo banho relaxante e deitar em sua cama. Deixou o escritório mais cedo, levando o fichário preto novamente para casa. Cansada e com dor de cabeça, resultado de mais um dia cheio, onde os problemas pareciam vir à tona.
Quando chegou em casa, Dalila já não estava mais. Ela foi até a geladeira e bebeu um copo de leite antes de ir para seu quarto. Não iria dormir ainda, talvez ligasse a TV e assistisse a algum programa, tanto nos canais trouxas como nos três únicos canais bruxos existentes.
Agora ela rezava para que a quinta-feira demorasse a chegar. Faltavam apenas três dias e aquilo parecia a ela relativamente muito pouco, principalmente sendo esta, uma missão indesejada.
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