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14. A volta


Fic: In Aeternum


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Capítulo 14-A volta


Memórias do sexto ano:


(trechos de: Rowling J.K- Harry Potter e o Príncipe Mestiço, tradução de Lia Wyler- Rio de Janeiro: Rocco).


- Hermione Granger-


Por mais que Hermione tentasse pensar que havia ainda algum tempo para ficar ao lado de Rony na Toca, quando se deu conta, estava com seu malão de Hogwarts flutuando próximo aos seus pés, de mãos dadas com Rony, caminhando para longe da casa que a abrigara tantas e tantas vezes, até alcançarem a distância necessária para que pudessem aparatar até a estação. Harry e Gina acabavam de desaparecer em pleno ar na frente deles. Hermione apertou a mão de Rony fortemente, querendo que ele entendesse o sentimento que estava se passando com ela.


Ela se virou e deu uma última olhada na casa. Rony sorriu para ela, ela sorriu de volta e com um leve aperto na mão dela, o ruivo sinalizou que era ora de ir. Hermione focou seu pensamento no local mais próximo à estação, onde não poderiam ser vistos por trouxas e conseguiriam achar o caminho facilmente para a passagem para a plataforma. O Sr. Weasley explicara com calma o local, mesmo assim, Hermione tremeu só de pensar que Rony talvez ainda tivesse algum problema com aparatação. Não havia sido apenas um episódio que o garoto deixara um pedaço para trás, e mesmo que o nome dele e de Harry estivesse, assim como o de Hermione, na lista de pessoas autorizadas para aparatar, ela ainda tinha medo. Não havia achado uma boa idéia essa autorização do Ministério para que os dois aparatassem sem realizarem o teste, no caso de Rony, pela segunda vez. Mas aparentemente, a sociedade bruxa ainda se sentia muito em dívida com o trio.


Quando se encontraram com Harry e Gina, caminharam a pouca distância restante até a passagem para a plataforma.


Hermione riu consigo mesma quando atravessou a parede sólida, de mãos dadas com o ruivo. Seria tão maravilhoso se estivessem prestes a realizar aquela viagem tradicional de trem juntos!


Rony colocou o cesto de Bichento no chão, com um aceno de varinha. Hermione o imitou, descansando seu malão.


Harry e Gina já estavam mais afastados, Hermione não sabia o que pensar, nem como agir. Sabia que Gina provavelmente estava mais acostumada à distância do que ela.


Mirou os olhos azuis de Rony. O garoto parecia muito sério.


Hermione abraçou o garoto fortemente, enquanto as mãos de Rony já estavam em seus cabelos.


- Você está feliz?


A pergunta do garoto a pegou desprevenida. Ela se afastou um pouco e o olhou.


- Estou dividida. Certamente será muito bom voltar...


Rony sorriu. Deveria estar pensando, como ela, na viagem tranqüila que a esperava, atravessando campos e visualizando rios pelas janelas do trem. Depois, o tradicional banquete e a cerimônia de seleção, a rotina das aulas, o conforto da sala comunal. Na cabeça de Hermione, todas essas cenas ainda não se encaixavam com a Hogwarts praticamente destruída, que estava sendo aos poucos reerguida.


-...mas não sei como será...sem você e Harry por lá.


Hermione lutava para segurar o choro. Rony, agora sorrindo, passou a mão pelo rosto da garota, de um modo delicado.


- Estarei lá antes que você sinta minha falta. Hogwarts não ficará muitos dias sem a presença de seus heróis.


Hermione riu, sentindo que lágrimas poderiam escapar de seus olhos a qualquer momento. Sabia que Rony e Harry iriam visitar a escola frequentemente, a própria professora McGonagall fizera questão de convidá-los. O fato é que poder imaginar como seria o retorno de todos eles juntos, tornava tudo mais difícil.


- Vou sentir sua falta...- Rony agora estava sério.


- Eu também...todos os dias...


Hermione sabia que iria sofrer, mas não conseguia imaginar a situação em si. Talvez apenas quando estivesse lá, saberia quantificar a dor de não ter Rony todo o tempo ao seu lado.


Quando ela e Gina se aproximaram do trem procurando pelas janelas uma cabina vazia, Harry veio até ela e a surpreendeu com um abraço forte.


Quando o garoto se afastou, seus olhos verdes não escondiam a emoção do momento.


- É estranho não voltar...


Hermione segurou o braço do amigo, a outra mão entrelaçada na de Rony. O ruivo não parecia tão emocionado como Harry, mas colocou a mão no ombro do amigo, expressando que o sentimento era compartilhado.


Hermione olhou rapidamente a sua volta e viu diversas pessoas conhecidas, mas não queria aqueles rostos em sua memória agora. Queria gravar aquela cena: Rony, Harry e ela juntos, parados naquela plataforma que havia visto tantas de suas histórias.


Hermione sentia as lágrimas quentes percorrendo seu rosto. Gina saíra do trem avisando que colocara toda a bagagem delas em uma cabine junto com Luna e se surpreendera ao encontrar aquela cena típica de um filme de drama.


Abraçou Harry, deixando Hermione livre para se virar para Rony. Afundou o rosto em seu peito. Apenas eles podiam entender como aquela cena era dolorosa, e ao mesmo tempo feliz. Ter uma Hogwarts para voltar era um fato feliz, principalmente depois de tudo que acontecera e quase destruíra a escola. A garota se perguntou se Rony e Harry não estavam com um arrependimento, se não estavam pesando em voltar atrás na decisão que haviam tomado.


Porém, havia tristeza nas despedidas finais, mas não arrependimento. E Hermione sabia muito bem o porquê. Por mais que Hogwarts tivesse sido uma casa, um local de muitas alegrias compartilhadas, ambos- Rony e Harry- queriam muito mais do que simples notas obtidas no último ano, muito mais do que uma cerimônia de formatura no salão principal. Queriam partir logo para a ação, queriam mudar o mundo que havia sobrevivido à guerra.


Hermione havia pensado que aquele momento seria mais fácil, pensara até que não choraria, que seria forte. Mas não estava sendo tão fácil soltar o abraço, afastar o rosto do peito de Rony.


O garoto também tinha lágrimas nos olhos quando beijou os lábios de Hermione delicadamente. Hermione permaneceu com os olhos fechados, tentando controlar as emoções.


- Mande uma coruja assim que chegar.- a voz trêmula de Rony fez ela ficar mais calma.


Mas ao mesmo tempo que ela sussurrava no ouvido dele "eu te amo", Hermione era tomada por uma certeza de que tudo daria certo. Passariam mais tempo separados, mas se amavam e era isso que importava. O que mais doía era saber que podiam ter aproveitado essa rotina nos anos que haviam se passado, mas como a própria Hermione pensara uma vez, talvez o romance não desse certo, ou pelas brigas constantes, ou talvez porque o relacionamento deles precisava desse amadurecimento do momento presente.


Hermione abraçou Harry mais uma vez, enquanto Gina implicava com o irmão. Logo, ambas estavam dentro do trem, acenando para os garotos, que pareciam desolados parados do lado de fora, era como se o trem não pudesse partir sem aquela dupla, que vivera tantas aventuras resguardados pelas paredes do lendário castelo. Foi com um aperto muito forte no peito, que Hermione viu as figuras dos dois sumirem quando o trem ganhou velocidade.


Ela se virou para as companheiras de cabine. Luna tinha os olhos postos nela, parecia cheia de perguntas.


- Deve ser estranho pra você...- a voz aérea da garota não irritou Hermione, pelo contrário.


- Muito.- Hermione sorriu para a garota.- É como se algo estivesse faltando...deixar os dois para trás...não sei como Hogwarts será agora...


Ao ouvir as palavras saírem de sua própria boca, Hermione foi tomada por uma forte vontade de cair no choro novamente.


Gina, percebendo a sensibilidade da amiga, apressou-se em continuar a conversa.


- Calma, Mione. Sei o que você está sentindo. Mas você realmente acha que aqueles dois vão passar muito tempo longe de Hogwarts? Aposto que serão visitas constantes, até McGonagall decidir desfazer o convite.


A ruiva sorriu e Hermione sorriu de volta. As duas sabiam que a vontade delas era que os garotos estivessem lá o maior tempo possível, mas não queria conversar aquilo na frente de Luna.


Antes que Hermione pudesse desviar os olhos para a paisagem que aparecia na janela, um barulho alto anunciou que a porta da cabine delas estava se abrindo.


- Uou!- a garota que falou tinha a voz muito fina, não deveria estar em nenhuma série avançada.- É ela mesmo!


Repentinamente, várias outras garotas de diferentes alturas estavam paradas na frente da cabine das garotas. Hermione percebeu Gina se encolher levemente no banco.


- Ah- Hermione falou sem graça.- Posso ajudá-las?


Elas se olharam, assustadas e boquiabertas. Uma menina com os cabelos muito escuros e lisos, adiantou-se a frente do grupo.


- Hermione? Hermione Granger?- ela arriscou um passo.- É você mesmo?


Hermione sentiu o estômago afundar. Ah, não. Então a fama começaria assim, tão rápido. Ela pensou que seria mais tranqüilo, não imaginou aquela cena de caça ao ator de cinema que aquelas garotas estavam pretendendo formar.


- Sim, sou eu.


A garota engoliu em seco. Não lembrava de nenhum daqueles rostos, talvez fossem calouras quando Hermione cursara seu sexto ano da escola e agora haviam crescido, impedindo ela de lembrar quem eram.


- É realmente ela! Só de pensar que minha mãe não queria que eu voltasse esse ano...- alguma das garotas que estava mais para trás falara, esganiçada.


Todo o grupo permaneceu olhando as integrantes da cabine. Hermione sentiu-se péssima, será que fora assim que Harry se sentira em seu primeiro ano?


- N-nós só q-queríamos- a garota de cabelos escuros falava novamente, o rosto muito corado.- que v-você soubesse que admiramos m-muito o que você fez pelo mundo bruxo..ao lado do P-Potter.


Quando ela finalizou, Hermione pôde escutar muito ruídos de aprovação das outras, que respiravam rapidamente. Percebeu que seu corpo estava colado no encosto, tamanho era o receio que tinha com o que poderia acontecer, ainda assustada.


- Nossa, obrigada!- Hermione passou a mão pelos cabelos, nervosa. Analisando que as garotas ainda tinham vestes neutras, questionou.- De que casa vocês são?


Seguiram-se gritinhos após a indagação, e uma movimentação estranha começou. Hermione corou violentamente, eram apenas crianças afinal.


- Eu sou da Corvinal! E o pessoal de lá sempre fala que você deveria ser uma de nós!- antes que a garota mais alta do grupo terminasse de falar, outra já tentava roubar a atenção.


- Eu sou da Grifinória, Hermione! Você lembra de mim?- a garotinha sacudia suas tranças castanhas, tamanha era sua empolgação.- Você já era monitora quando eu comecei a escola!


-Ah, eu...- Hermione tentou raciocinar, lembrar se talvez repreendera alguma vez a menina, mas mais vozes começavam a alcançar seus ouvidos.


- Eu sou da Lufa-lufa!


- Também sou Grifinória, senhorita Granger! Mas fui selecionada ano passado então...


- Corvinal também!


- Ah, fiquem quietas um pouco!- a voz de Gina surpreendeu a todas. Até Hermione olhou para a garota, incrédula.- Desse jeito não conseguiremos entender ninguém!


Parecia que o fã clube reparara apenas naquele instante quem eram as outras ocupantes da cabine.


- Weasley?- Hermione pôde discernir que alguém tentava cochichar para não ser ouvido.


- Que foi que você disse?- Gina já estava sentada mais reta, tentando descobrir quem tentava indagar se ela era uma Weasley.


- Ah, d-desculpe...- a garotinha das tranças adiantou-se.- Você é Gina Weasley?


Hermione percebeu na hora a surpresa de Gina. A garota havia estudado o ano anterior, e as garotinhas pareciam surpresas e até mesmo indignadas de não terem reparado em Gina antes.


- Ah, eu sabia! Sempre via você com o pessoal da Grifinória!


- Gina? Gina Weasley? É ela mesmo?


- A namorada do Potter!


- Não pode ser! Me disseram que ela jogava muito bem quadribol!


Não era mais possível saber quem falava. Gina parecia ter ficado seriamente ofendida com o fato de estarem duvidando de suas habilidades no quadribol e já abria a boca para falar, quando Hermione decidiu acabar com a bagunça.


- Meninas, meninas!- falou mais alto.- Com licença, mas acho que vocês estão tumultuando um pouco as coisas.


Hermione não sabia se o mais estranho era serem aquelas celebridades instantâneas, sendo que muitas pessoas em Hogwarts haviam convivido durante muito tempo com elas, para só agora perceberem que existiam. Ou talvez o fato de todos dirigirem-se à Harry como Potter soava mais estranho ainda, tornava tudo tão real. O fato de estar sendo observada de perto, por muitos olhinhos curiosos, não estava ajudando seu raciocínio.


Com um pouco mais de paciência, Hermione conseguiu tirar todas da porta da cabine e liberar o corredor que estava trancado devido a movimentação das garotinhas. Elas saíram se despedindo alegremente, não pareciam acreditar que Hermione havia mesmo conversado com elas. Algumas abanavam quando passaram novamente pela cabine, Hermione desconfiou seriamente que estavam caminhando de lá para cá, apenas para poder espiá-las.


- Acho que com toda essa bagunça, vai ser difícil ter sossego.- Hermione riu, soltando Bichento na cabine para que o gato pudesse se espreguiçar. – E eu que achei que esse seria o ano mais tranqüilo em Hogwarts.


- Ah, isso é o que você pensa.- Gina apontava para fora da cabine. Hermione, por um momento delirante, achou que as garotas estariam de volta. Mas o que Gina apontava era realmente, a maior novidade de Hogwarts.


A escola, que passara o último ano com a disciplina Artes das Trevas no currículo, agora precisava de um novo professor para que as aulas de Defesa pudessem voltar. Casualmente, era ele que estava parado ali, olhando intrigado para as ocupantes da cabine. Hermione quase teve pena dele, era tão jovem para assumir um cargo que havia sofrido imensuráveis perdas e situações de má sorte, porém, pensou ela, provavelmente o feitiço que diziam estar na vaga deveria ter sumido juntamente com seu criador.


Ele piscou uma, duas vezes, depois se decidiu por arriscar. Aproximou-se da cabine e arrastou a porta, para se fazer ser ouvido.


- Olá!


Quando ele entrou, Hermione percebeu uma movimentação estranha por parte de suas amigas. Todas haviam ficado incrivelmente tensas, o bruxo parecia emanar uma aura que intimidava, despertava um instinto de ter cuidado.


- Sou Egeo Gareth. Responsável pela disciplina de Defesa contra a Artes das Trevas. Tudo bem com vocês?


Elas responderam com um aceno de cabeça. Hermione pareceu achar sua voz.


- Tudo bem. E com o senhor, professor Gareth?


- Ah, não precisa me chamar de senhor.- ele sorriu e Hermione percebeu que algumas leves rugas se formavam no canto de seus olhos: talvez não fosse tão jovem assim.- Você é Hermione Granger?


Hermione afirmou, nervosa. Não iria se acostumar nunca àquela fama.




Deveriam estar quase chegando. Havia uma movimentação no trem que dava certeza a Hermione de que faltava muito pouco agora. A conversa com o professor ainda pairava na cabeça da garota. Ele parecia saber tudo que Rony, Harry e ela tinham feito para conseguir manter-se tanto tempo escondidos e quase sempre, a salvo. Mas o professor parecia deslocado, não parecia pertencer à Hogwarts, talvez porque começaria a dar aula apenas naquele período, talvez por não possuir muito cabelos brancos ainda. Hermione riu pensando em como seria quando Neville fosse professor, sua ambição desde que se descobrira bom em Herbologia.


Agora, Luna, Gina e ela estavam terminando de organizar tudo que haviam esparramado pela cabine. Bichento já estava seguro dentro de seu cesto.


- Ele é engraçado, esse novo professor.- Luna olhou para as garotas enquanto falava.- E fez questão de dizer que pertenceu à Corvinal.


Hermione pensou naquilo que a garota falara. Realmente, o professor fizera questão de incluir Luna na conversa, dizendo que havia sido da mesma casa que ela.


- Você acha que ele queria só aquilo mesmo?- Gina sacudiu os cabelos, terminando de ajeitar as vestes de Hogwarts sobre o corpo.- Saber se iríamos freqüentar as aulas dele?


Hermione deu de ombros.


- Por que mais ele viria até aqui?- a garota falou para Gina.


- Hum, talvez para obter informações sobre a Guerra, para vender para algum jornalista.- Gina colocou a bolsa no ombro, cruzando os braços e dando a Hermione um olhar inquisidor.- Ou talvez para ganhar a sua confiança.


- Minha confiança?- Hermione ajeitou todos os seus pertences, ainda olhando para Gina.


- Mione, acho melhor você tomar cuidado com as pessoas que se aproximarem de você, nesse momento. Toda essa fama, toda essa empolgação não trará necessariamente coisas boas.- Gina tinha um olhar muito parecido com o de Rony quando disse isso, Hermione sentiu o rosto corar.


- Sei disso, mas ele é um professor! Não deve apenas estar querendo fofocas para mandar para o Profeta Diário ou alguma revista como aquela Semanário das Bru-


- Eu sei, Mione.- Gina a interrompeu. Olhou para fora da cabine para ter certeza de que ninguém estava escutando.- Sei que para você, a imagem de professores são pessoas boas que querem ajudar, mas...


- Você acha que ele...?


- Não acho normal um professor vir até a nossa cabine indagando coisas sobre a guerra.- Gina olhou para Luna, mas a garota parecia mais interessada nos cadarços de seus sapatos do que na conversa das duas.- Você-sabe-quem está acabado, já foi. Mas nunca se sabe que tipo de mal há por aí.


Hermione não estava entendendo onde Gina queria chegar.


- Que tipo de mal?


- Ter a história de vocês contada de uma forma diferente, ofensiva. Não conseguir um emprego no Ministério porque durante muito tempo você foi contra a instituição...


Hermione ficou calada, de boca aberta, se dando conta de tudo que Gina estava falando. Ela tinha aquela determinação inerente a todos os Weasley, mas talvez por ter sido criada com tantos garotos ela criara aquela armadura que a protegia de qualquer coisa.


- Isso está saindo da sua cabeça, Gina?


- Bem...- a ruiva corou um pouco.- Harry e eu andamos conversando sobre isso...ele concorda comigo...começamos a nos dar conta de que muitas pessoas parecem estar se aproximando cada vez mais de nós.


- E-e eu estava pensando, durante todo esse tempo, em sempre ter cautela.- Hermione teve que se sentar.- Inclusive com toda essa história do emprego no Ministério...


O trem estava diminuindo a velocidade rapidamente. As garotas observaram um grupo de monitores da Lufa-lufa passarem pela cabine deles, correndo para organizar a descida do trem, para que não ficasse tudo a cargo de Hagrid, provavelmente.


-Obrigada, Gina.- Hermione falou, enquanto se levantavam e agrupavam todas as suas coisas.- Você tem razão. Tenho que cuidar essa minha mania de venerar os professores.


Ambas riram. Hermione sentiu-se mais pesada, diferente, e não tinha a ver com o fato de estar carregada para sair da cabine do trem. Era uma espécie de maturidade, algo completamente novo. Ela sempre achara que certas coisas tinham regras, como professores de Hogwarts serem aliados de Dumbledore, ou livros estarem sempre certos. Mas Dumbledore não estava mais lá, estava? Além do mais o próprio Quirrel havia provado como podiam acontecer coisas pavorosas devido a um membro da equipe mal escolhido. E os livros? Ao lembrar do livro de Defesa Contra a Arte das Trevas de Umbridge Hermione sentiu o estômago revirar: já havia recebido diversas provas de que nem tudo que ela acreditava ser verdade, era realmente fidedigno.


Luna, Gina e Hermione saíram da cabine o mais rápido que puderam, descendo do trem assim que ele parou na plataforma.


Hermione estava procurando Hagrid, queria ser rápida para achar uma carruagem vaga para que não precisasse encarar o fã clube animado novamente.


- Sabe, Hermione...- a voz etérea de Luna quase a assustou, a garota estava calada há muito tempo.- Gina tem razão. Quando admiramos muito a capa de um livro podemos nos enganar facilmente e ficarmos surpresos com seu verdadeiro conteúdo.


Hermione não respondeu, não conseguiu achar palavras. Luna, como sempre a surpreendia. E isso valia tanto para o lado positivo, quanto para o negativo. Fleur, que ela sempre julgara por ser muito bonita, na verdade era uma pessoa maravilhosa com um bom coração. Snape, que após algum tempo fizera parte de suas desconfianças, havia agido durante todo aquele tempo apenas por amor à Lílian.


- Mione!- a voz rude e alta de Hagrid lhe tirou de seus pensamentos. Ela correu até o gigante e o abraçou brevemente.


- Como você está, Hagrid?


- Bem, muito bem! E você?- ele falou com a voz cuidadosa, deveria saber como era difícil para Hermione voltar sozinha para Hogwarts.


- Estou ótima!- ela olhou para os lados. Gina abanou para Hagrid, estava indo em direção a rua de Hogsmeade e fez sinal para Hermione de que conseguira uma carruagem.


- Espero vocês para uma xícara de chá assim que tiverem um período livre.


- OK, então Hagrid! Muito obrigada!


Hermione correu em direção a Gina e Luna, desvencilhando-se dos alunos do primeiro ano que se aproximavam de Hagrid.


Quando chegou a carruagem, onde Gina com uma cara estranha e Luna, com seu semblante normalmente como se estivesse sempre surpresa, guardavam seus pertences, Hermione parou, observando o que era aquilo.


Claro que ela ficara sabendo, após seu terceiro ano em Hogwarts que as carruagens não andavam sozinhas, sabia que Harry podia ver os Testrálios, assim como Luna e outros colegas. Surpreendeu-se, mesmo assim, com a aparência daqueles animais que remotamente lembravam cavalos. Contornou a carruagem e subiu nela, sem conseguir tirar os olhos dos animais.


- Você está vendo?- Gina olhou nervosa para Hermione.


- Sim!- ela respondeu olhando para a garota, as duas se entenderam com aquele olhar.


Obviamente, após todas as batalhas e aventuras que haviam passado no ano anterior, ela certamente teria visto a morte de alguém. Mas pensar daquela forma era tão horrível, quase cruel. Hermione desviou o olhar do Testrálio próximo, e acomodou todas as suas coisas.


Luna sorria para o nada. Gina encolheu-se no banco enquanto a carruagem partia. Hermione sentiu-se vazia, desorientada. Já estava começando a perceber a diferença de não ter Rony nem Harry ao seu lado na tradicional ida ao castelo, para o começo do período letivo.


Logo que a carruagem ganhou velocidade e Hermione conseguiu desviar sua atenção dos estranhos cavalos alados, o vento frio bateu em seu rosto, parecia querer acordá-la para a nova realidade. Ela precisava estar recuperada, precisava chegar bem em Hogwarts. No outro dia teria aula, voltaria a rotina de estudos.


Luna tinha o olhar perdido no alto, a frente delas. Hermione se virou para entender o que ela estava olhando, e apertou o braço de Gina para ter certeza de que a garota veria o mesmo que ela.


Hogwarts estava lá. Mas estava tão diferente... Pareciam ainda faltar pedaços, as janelas pareciam estar num ângulo diferente.


- Acho que eles reconstruíram da melhor maneira, não é?- Gina parecia mais calma, quando olhou para o castelo que surgia aos poucos.


Hermione não quis olhar. Obviamente que estava diferente, mas na cabeça da garota formava-se um desejo muito forte de que os professores conseguissem fazer tudo voltar a ser como era, com alguns feitiços e encantamentos.


Felizmente, quando desceram da carruagem, encontraram tudo como deveria ser. Hermione sentiu um frio na barriga quando colocou seu malão e Bichento na fila de outras bagagens que seriam levadas ao dormitório: era seu último ano em Hogwarts, era a última vez que assistiria a Seleção. Tudo seria tão diferente, tão especial, porque agora ela sabia de que nunca mais teria tudo aquilo novamente.


O medo de perder, a consciência de que eram seus últimos meses naquele lugar, fizeram Hermione caminhar trêmula ao lado das garotas. Parecia alheia a tudo quando se separaram de Luna, que foi cumprimentar seus conhecidos na mesa da Corvinal. Ela e Gina sentaram-se na mesa da Grifinória e Hermione deixou seus olhos varrerem o salão, sentindo uma sensação muito forte de nostalgia.


Ali, tudo estava como deveria estar. O teto encantado, as milhares de velas flutuando sobre suas cabeças, as quatro mesas dispostas, a mesa dos professores sendo ocupada aos poucos. Da última vez que estivera naquele salão, havia sido em um momento crítico do pós guerra, vendo todos os corpos de pessoas queridas que haviam deixado o convívio deles para sempre.


Agora, ela podia observar como tudo parecia alegre. Piscou os olhos uma, duas vezes para ter certeza de que estava enxergando com clareza. Tinha que estar!


Apesar de ter visto, algumas vezes, os alunos das turmas sentarem-se em mesas diferentes das suas casas para conversarem, o padrão seguido era cada casa sentar em sua respectiva mesa. Agora, não havia mais padrão. Não havia ordem nenhuma! Ela e Gina haviam sentado ali por hábito, mas observaram que para onde olhassem haviam alunos de todas as casas sentados em qualquer lugar. Inclusive, Hermione assustou-se ao reparar- a mesa da Sonserina estava tingida de diversas cores. Justo Sonserina, que sempre fazia questão de manter entre seus alunos apenas aqueles que possuíam linhagem sanguínea bruxa!


Hermione sorriu e virou-se para Gina, que parecia estar observando o salão principal também.


- Muito melhor assim, não é?- a ruiva olhou para Hermione.


Luna voltou e se sentou ao lado delas, direcionando uma conversa animada sobre as disciplinas que ela e Gina iriam poder cursar juntas. Quando perceberam, o salão estava cheio e a porta havia sido fechada. Todos silenciaram e aguardaram durante longos minutos.


Hermione olhou para a mesa dos professores: McGonagall estava lá, ocupando a cadeira que pertencera a Dumbledore. Então quem estaria com os alunos do primeiro ano, aguardando a seleção?


A porta se abriu e a professora Sprout veio à frente do grupo de calouros, carregando um banquinho pequeno e um chapéu. Hermione percebeu que o chapéu estava mudado, certamente não teria sobrevivido intacto ao fogo que quase o destruíra por completo no ano passado. Sorriu ao se dar conta de que McGonagall, ou talvez Flitwick haviam concertado o objeto que durante anos havia selecionado os alunos para suas casas.


O silêncio parecia palpável, todos pareciam curiosos para saber o que viria a seguir. Hermione observou rostos conhecidos em todas as mesas, as pessoas pareciam diferentes, ou talvez fossem seus olhos.


A professora Sprout posicionou os alunos próximos ao banquinho, mas McGonagall não se levantou para falar nada. Provavelmente a seleção seria primeiro, o discurso após.


O chapéu moveu-se, abrindo o rasgo que imitava uma boca, e começou a cantar.


Durante muitos anos me puseram


Eu suas cabeças, muitas vezes ocas


Para que eu os colocasse


Na casa do seu coração


Agora, fiquem atentos


Pois eu fujo à seleção


E peço para que cuidem


De seus aliados e daqueles que amam


Pois só assim alcançarão


Suas vontades e objetivos


Pois ninguém caminha sozinho


Nem sozinho pode ficar


Então as casas que eu os coloco agora


Serão apenas para lhes abrigar


Não esqueçam que antes de mais nada


Todos aqui são companheiros


Então caminhem com passos seguros


E busquem verdadeiras amizades


Pois apenas quando se tem um amigo


É que se enfrenta o que está por vir


Se conhecimento é o que buscas


E gostas da pesquisa e dos questionamentos


Na Corvinal encontrarás uma família


Que auxiliará na busca por seus intentos


Mas se a aventura é o que lhe chama


E a coragem é seu maior valor


Sob o teto de Grifinória dormirás


E lá grandes amizades formarás


Se a busca pelos teus objetivos


É o mais forte dentro de si


Na Sonserina encontrará abrigo


E tua ambição será tua espada


Se seu coração é puro e leve


Na Lufa-lufa passarás a morar


Onde a sinceridade e o companheirismo


Caminham juntos


Não esqueçam, porém


Que nosso mundo foi salvo


Por aqueles que acreditaram


No verdadeiro significado da busca incansável


Pela paz e união


E vivemos agora seguros


Sob esse teto estrelado


E lembremos sempre, caros alunos


Que a força persiste, enquanto houverem


Pessoas capazes de lutar


Os aplausos pareciam vir de todas as paredes, de cada parte daquele salão. Mal o chapéu parou de cantar, todos estavam de pé. Hermione queria lembrar de cada palavra para contar a Rony e Harry,mas sabia que elas lhe fugiriam. O chapéu sempre mantinha algumas características na sua música inicial: mas nunca dava soluções, respostas prontas. Sempre deixava algo a refletir.


A professora Sprout começou a chamar a lista de nomes e Hermione se sentou, sentindo o estômago roncar. Enquanto via os pequenos alunos serem selecionados, cuidava pelo canto do olho o grupo de meninas alvoroçadas da viagem no trem. Elas olhavam ansiosas para Hermione, sentavam-se todas juntas na mesa da Lufa-lufa agora.


Hermione concentrou-se na seleção, triste em ver que parecia haver um número menor de alunos para serem selecionados. Será que os pais não queria que os filhos fossem para Hogwarts? Preferiam esperar o tempo acalmar as coisas para terem certeza de que tudo ficaria bem?


Hermione olhou para o teto estrelado, enquanto a voz da professora Sprout continuava a leitura da lista (Dwell, Sarah!). Queria escrever logo para Rony, desabafar tudo aquilo que estava se acumulando dentro dela.


Flashback


Antes de iniciar o sexto ano em Hogwarts, o trio migrou para a Toca, onde passaram diversos dias antes de terem que voltar a rotina de estudos. Hermione chegara à Toca levemente ansiosa, após o transporte assistido por parte da Ordem, realizado quase da mesma maneira que quando ela fora para a Sede. Dessa vez, porém, os pais de Hermione pareciam tão incrédulos que a filha fosse sumir novamente, tão cedo, que pouparam o sermão e assistiram quase calados a despedida da filha. Hermione insistira em explicar os diversos motivos de porque era melhor ela permanecer hospedada na casa dos Weasley, como era mais seguro que permanecesse ao lado dos amigos. E óbvio, como queria permanecer na Toca até que tivesse que retornar à escola. A Sra. Granger não contestou quando ouviu Hermione falar que iria para a casa de Rony, reprimira um sorriso e parecia ter entendido tudo sem que a filha colocasse em palavras.


Após o pequeno tempo de convívio com os pais, lá estava ela na porta da casa que a abrigara em outras férias, talvez mais felizes. Pelo menos até aquele momento, não havia a sensação estranha da recente morte de Sirius pairando no ar, nem o medo de que a Sede da Ordem e sua localização secreta estivesse correndo perigo. Hermione sentia um peso incômodo no estômago ao pensar em Harry, na casa dos tios, provavelmente envolto por uma névoa de depressão, ansioso para se reunir com os amigos e poder sentir realmente, que haviam pessoas no mundo que compreendiam suas angústias.


A Sra. Weasley esperava Hermione espiando pela janela da cozinha. Quando abriu a porta para recebê-la, Hermione escutou um estalo atrás de si que indicavam que o Sr. Weasley já estava aparatando para o trabalho, após ver que ela estava em segurança.


- Mione!- apesar da visão da matriarca dos Weasley ainda ocupar a porta da casa, foi a voz de Gina que Hermione escutou primeiramente.


Logo, a garota apareceu correndo em direção à recém chegada.


- Gina!- Hermione foi em direção a porta, pendendo para o lado devido ao peso de toda a bagagem.


Gina pareceu congelar por um instante, antes de alcançar Hermione. Ficou fitando o ar e bufou impacientemente.


- Nunca vou me acostumar com isso...- fez um sinal de impaciência com a voz.- Desculpe, Mione, mas papai quer que a gente siga rigorosamente as medidas de cautela impostas pelo Ministério...


- Do que você...?


- Ah Gina, francamente! Acabei de ver seu pai aparatar para o trabalho! Obviamente não estamos diante de nenhum comensal de morte disfarçado!


Molly atravessou a frente da filha e acenou com a varinha para que as coisas de Hermione flutuassem até a casa.


- Vamos querida, venha tomar um chá!


- Sra. Weasley, o que foi que Gina...?- Hermione procurou o olhar da amiga, que a encarava de modo estranho.


- Arthur quer que tenhamos todo o cuidado possível, principalmente com você e Harry aqui em casa e acredita que se seguirmos tudo que o Ministério diz estaremos seguros...além do mais...


- Além do mais os tempos são outros, mas já sabemos disso!- Gina já desmanchara o rosto de falsa desconfiança de que Hermione fosse uma comensal disfarçada, e abraçava a amiga, um sorriso radiante.- Finalmente você chegou!


Hermione sorriu de volta, apressando-se para entrar na cozinha. Jogou-se na primeira cadeira que viu.


- Eu li algumas informações no Profeta Diário, sobre maneiras de prevenir um ataque, como se defender de prováveis emboscadas, mas não esperava que a população estivesse levando realmente a sério...


- E ninguém realmente está.- Gina sentou-se ao lado dela.- Mas papai insiste para que tenhamos o maior cuidado possível. Quer dar o exemplo, sabe...


A Sra. Weasley já colocava algumas guloseimas na mesa. Mesmo que ainda tivesse com seu café da manhã pesando no estômago, Hermione aceitou educadamente a xícara de café colocada diante de si.


- Como estão seus pais, Hermione?- a Sra. Weasley perguntou, despreocupadamente.


- Estão bem. Um pouco surpresos por eu estar novamente saindo de casa tão cedo...


- Oh, é verdade. Eles devem achar que você passa muito mais tempo conosco.- o rosto de Molly Weasley parecia paralisado de uma culpa que não deveria sentir.


- Ah, não! Não há problema algum, Sra. Weasley!- Hermione apressou-se em dizer.- Eles sabem que gosto de passar as férias aqui! Sabem que eu estou segura...


- Bom, isso já é bastante coisa. Eles podem ficar tranqüilos! Se você não se importar eu envio uma coruja para eles, explicando que todas as medidas estão sendo tomadas para que vocês tenham completa segurança, inclusive para voltar à escola!


Hermione não respondeu, ocupou-se em beber o chá e afirmar brevemente com a cabeça, visivelmente sem graça com os cuidados excessivos de Molly.


- Você e Harry são como se fossem da família.- Molly havia se aproximado de Hermione, pousado a mão em seu ombro e baixado o tom de voz para que a garota se sentisse à vontade.- Fico muito feliz de tê-los aqui.


- Muito obrigada, Sra. Weasley!- Hermione sentia o rosto extremamente corado enquanto agradecia com sinceridade.


Logo, Molly já saíra da cozinha fazendo toda a bagagem de Hermione flutuar atrás de si. Bichento fora a única parte que sobrara, e agora se encontrava solto, ronronando embaixo da mesa, ansioso para que a dona lembrasse que ele estava ali.


- Como está o seu irmão?- Hermione falou, tentando parecer distraída, enquanto segurava o gato.


Gina fez uma cara de descrença misturada com aversão quando escutou Hermione falar de Rony daquela maneira.


- Rony está bem! Você pôde chamá-lo pelo nome, a propósito...


Hermione virou rapidamente o rosto em direção à amiga, um semblante de absoluta raiva querendo se formar.


- Calma, Mione!- Gina afastou o corpo instintivamente.- Só queria...bom...as coisas continuam...ahn...estranhas? Entre vocês dois?


Hermione tentava se concentrar no pêlo alaranjado do gato, mas até aquilo lembrava Rony de alguma maneira.


- Faz algum tempo que...- ela parou, aparentemente não querendo colocar aquele assunto em pauta com Gina.- Ah, esquece...


Gina aproximou-se mais da amiga, os olhos ansiosos.


- Por favor, Hermione! O que está acontecendo com vocês dois?


Hermione olhou curiosa para a garota.


- Por que essa curiosidade repentina? Você sabe tudo sobre...- ela parou, tentando escolher as palavras.-...você sabe como é o seu irmão...


Ela se decidiu por tentar desviar o que quer que Gina estivesse querendo saber. Parecia haver maiores questionamentos na pergunta da garota. Hermione tinha certeza de que a amizade delas passava por cima da maioria dos constrangimentos dessas perguntas sobre garotos, principalmente após todos os desabafos sobre o Baile de Inverno.


- Eu sei que meu irmão é um cabeça dura, provavelmente o Weasley mais teimoso...mas não é disso que estou falando.


Bichento pulou do colo de Hermione, não lhe dando escapatória a não ser olhar para a amiga.


- Recentemente, aconteceu alguma coisa? Vocês brigaram feio ou algo assim?


Hermione ficou paralisada. Por aquela, ela não esperava.


- Por que...?


- Ele está diferente, só por isso. Quer dizer, ele reage diferente quando falo de você...- Gina deu de ombros, alcançando um biscoito de um pacote de cima da mesa.


Hermione pareceu achar aquela conversa repentinamente muito interessante. Sentiu um calor subir pelo seu corpo, a imaginação trabalhando rapidamente, querendo acompanhar os batimentos de seu coração. Será que após todas as discussões, até conversas, Rony havia parado para pensar em tudo que acontecera?


- Antigamente, ele não tinha problema nenhum em tocar no seu nome. Não acho que ele realmente tenha agora...- Gina parecia estar reprimindo uma risada.- Mas fica extremamente formal quando falo de você.


Hermione permaneceu calada, encarando a amiga.


- Eu achei que você faria essa expressão. Então, nada de mais aconteceu?


- Gina- Hermione falou baixinho.- você sabe tudo o que aconteceu!


- Hum,certo...você está querendo dizer sobre a última cena de ciúmes que ele fez por você estar escrevendo uma carta ao Vítor? Ou a cara de tapado que ele ficou após um simples beijo no rosto que você deu a ele antes daquele jogo de quadribol?


Hermione abria e fechava a boca, incapaz de conter o que a falava. Gina parecia estar realmente se divertindo.


-...ou ele ter lhe dado um perfume realmente delicado no último Natal, enquanto ele presenteou o resto da família, incluindo a mim na categoria, com alguma coisa típica de quem nem se prestou a pensar no que comprar?- a garota literalmente ria.


- Gina!- o rosto de Hermione estava muito vermelho, mas ela não escondia o sorriso. Era bom saber que e amiga prestara atenção em seus desabafos. E principalmente, era bom saber que ela não era a única a valorizar todos aqueles acontecimentos.


- Eu achei que você podia ter esquecido de me contar algo, considerando que ele está todo estranho. Talvez um segundo beijo, mais ousado que o segundo e...- Gina falava muito baixo, um sorriso maroto tipicamente Weasley em seu rosto.


- Claro que não!- Hermione sabia que não deveria se sentir tão afobada com uma acusação de algo que não acontecera.- Nada disso, Gina.


Gina deu de ombros.


- Ok, então. Que emocionante.- debochou.- Achei realmente que vocês dois evoluiriam alguma coisa depois de toda essa novela.- a garota esboçou um beicinho.


- Só porque você tem um livro de histórias amorosas para contar, não significa que eu precise ter também!- Hermione riu. Largando a xícara de chá vazia em cima de mesa.


- Mas você tem o capítulo Krum!- Gina riu.


- Shh!- Hermione censurou a amiga antes que ela fosse longe de mais.- Fale mais alto da próxima vez, quem sabe o vampiro do sótão escute você...


- Espero que seu humor melhore, Mione.- Gina se levantou e ajudou a amiga a arrumar a mesa.


Hermione sentiu como se uma pequena luz se acendesse dentro de sua cabeça. Gina estava tão interessada em assuntos amorosos, que obviamente haveria algo de novo que ela queria contar.


- Como vão as coisas com você, Gina? Você só me bombardeou de perguntas desde que cheguei...é sua vez de falar.


Gina se virou sorridente para a amiga, aquela havia sido a deixa para que ela pudesse falar.


- Dino já me escreveu três vezes desde que cheguei!


- Isso é ótimo!- Hermione tentou reagir à altura da novidade da amiga.


- Mas Rony está querendo acabar com meu sossego, insiste em saber o que realmente está acontecendo entre Dino e eu!


- Você precisa relevar isso, Gina...seu irmão pode ser bastante insensível mesmo sem se esforçar.


Mal Hermione terminou de pronunciar a última palavra e observar a reação de Gina, divertindo-se com o comentário, passos anunciaram que mais alguém estava na cozinha.


- Obrigado pelo comentário, Hermione.- a voz tão conhecida por ela chegou ao seus ouvidos.


Hermione se virou bruscamente, esquecendo por um segundo onde estava. Ouviu a risadinha de Gina as suas costas e teve apenas a breve noção de que a garota estava saindo da cozinha, deixando os dois em uma situação constrangedora.


Rony tinha os dois braços cruzados firmemente no peito. Encarava a garota com um rosto que misturava a descrença pelo que havia escutado e a surpresa por ver a amiga na Toca tão cedo.


- Conversa interessante, essa que você e minha irmã estavam tendo.


Ele passou pela garota, a cara emburrada, fazendo Hermione sentir o sangue praticamente congelar nas veias. O que exatamente ele escutara?


- Quando foi que chegou?- Rony virou-se para ela, enquanto tomava um copo de suco de abóbora.


- A-agora mesmo...só estava...


Não fora desse jeito que imaginara o encontro com Rony, tão cedo quando há pouco tempo atrás haviam se despedido na plataforma. Como sempre, os acontecimentos na sua vida que envolviam Rony a pegavam desprevenida: eles nunca eram o que ela esperava que fossem.


- Posso saber por que eu recebi gratuitamente o adjetivo insensível no meio de uma conversa entre você e Gina?


Ele havia se sentado de frente para Hermione, que permanecia em pé, paralisada, aos poucos sentindo o alívio percorrer seu corpo ao se dar conta de que ele não escutara a parte da conversa de que haviam falado dele.


- Gina estava me falando que você não está sendo realmente um irmão compreensível...


- Sei exatamente o que vocês duas estavam conversando!- ele estreitou os olhos para a garota, enquanto Hermione sentava-se muito desconfortável na beirada da cadeira ocupada por ela anteriormente.- E caso você não saiba, Mione, Gina está tentando realmente tirar qualquer um do sério...primeiro aquele tal Miguel, agora Dino!


- Qual é o problema?- Hermione revirou os olhos, tentando controlar a respiração, feliz de ver Rony canalizar a conversa para outro lado, esquecendo o fato de Hermione tê-lo ofendido.


- Ela vai perder a conta desse jeito!- Rony parecia furioso, parecia estar desabafando algo muito mais complexo.


Hermione ficou concentrando-se em tudo que estava acontecendo dentro dela. Pensou, com calma, em como retomar uma conversa menos estressante.


- Rony...esqueça a vida amorosa de Gina por um segundo, está bem?- ela tentou falar com calma, mas pareceu que estava se dirigindo a uma criança de quatro anos de idade.


Rony a olhou ansioso, parecia querer adivinhar o que vinha a seguir.


- Você tem falado com o Harry?- ela perguntou, antes que ele pudesse ter um acesso de raiva.


O rosto de Rony, que parecia querer esboçar um sorriso, desmanchou.


Hermione sabia que fazia pouco tempo que haviam se separado, mas gostaria de saber como o amigo estava lidando com tudo.


- Hum...logo ele estará aqui, Mione. Ele deve estar bem, não se preocupe...


- Como você acha que você estaria lidando com uma situação dessas? Com toda a história do Sirius e...?


Rony pareceu impaciente, repentinamente.


- Acho que ele não vai demorar para vir para cá, e poderemos conversar com ele. Saber o que está se passando na cabeça de Harry. Papai falou que não irá demorar muito...


- Ótimo. Fiquei realmente preocupada. Sirius era a única família que tinha lhe restado...


Rony afirmou com a cabeça. Ele e Hermione não parecia ter muitos assuntos pendentes, pelo menos nenhum que quisessem trazer à tona.


Ouviram-se vozes muito alteradas no andar de cima. Hermione girou a cabeça instintivamente em direção ao barulho. Rony revirou os olhos, descrente.


- Não acredito que mamãe está tendo outro ataque!


- Ataque?- Hermione olhou assustada para o ruivo.


- Ah, é verdade! Você já subiu?- ele pareceu surpreso, os olhos arregalados, como se lembrasse repentinamente de algo que deveria falar para a amiga.


- Não! Rony o que...?


Antes que Hermione pudesse terminar de falar, passos apressados chegaram à cozinha, enquanto outra pessoa descia pelas escadas fazendo um barulho praticamente ensurdecedor.


- Se você não gosta da maneira que ela arruma, então não desconte em mim!- Gina parecia realmente enfurecida, e estava controlando todos os nervos para não ser mais mal educada com a mãe.


- Gina, ela é visita! Não custa você...


As duas pararam de falar quando uma terceira pessoa entrou no local. Molly e Gina pareciam constrangidas, torcendo para que a recém chegada não tivesse ouvido a discussão. Pelo sorriso que tinha estampado no rosto, não ouvira nenhuma palavra sequer, o que Hermione pareceu achar impossível, já que as duas estavam falando muito alto.


- Todos já estam acorrrdados!Se eu soubesse já terrria descido para ajudarr!


Mesmo que o cenário fosse diferente, mesmo que Hermione se sentisse tão em casa na Toca como no seu próprio lar, não pôde deixar de sentir um desconforto repentino se apossar dela, quando viu Fleur entrar na cozinha. Sentiu-se repentinamente desarrumada, despenteada, com roupas simples demais. Sabia que não era verdade, sabia que estava apenas sentindo-se insegura devido ao fato da chegada da garota.


Ainda sem entender, ela procurou por uma explicação no olhar de Rony, mas ele desviava o rosto, muito vermelho, querendo evitar que Hermione lhe bombardeasse de perguntas mentais.




- Então Fleur está aqui desde quando?- Hermione ajeitava lentamente suas coisas no quarto de Gina, enquanto a garota ficava sentada observando, o pé balançando impacientemente.


- Tempo suficiente para me tirar do sério. E a mamãe também.- Gina encarou a amiga e se levantou com um salto, indo ajudá-la com a arrumação.- Achei que meu irmão tivesse contado algo para você...em carta ou algo assim.


- Não! Acabamos de voltar de Hogwarts e...- Hermione deixou seu pensamento trilhar um caminho desconhecido, querendo associar porque Rony não lhe dissera logo que Fleur estava na Toca.


- Imagino que agora Gui vai querer ela sempre por aqui...inclusive após o casamento. Ele certamente vai querer que ela se sinta em casa.- Gina fez uma careta, finalizando sua parte na organização, colocando a cesta de Bichento em um canto do quarto.


Rony abriu a porta bruscamente, sem anunciar sua chegada. Hermione quase pulou tamanha sua surpresa, mas Gina começou a discutir com o garoto dando tempo para que ela se recuperasse.


- Está fugindo Roniquinho?- ela analisou o rosto vermelho do irmão.- A Fleuma deixa você nada a vontade, não é?


- Não é nada disso, Gina!- ele mirou Hermione.- Já terminou?


Hermione largou a roupa que tinha em mãos e olhou para Rony, querendo entender o por quê de ele ter vindo até ali.


O garoto entrou no quarto e se sentou na cama da irmã, que olhou com uma expressão de surpresa, a naturalidade com a invasão de seu quarto.


- Perguntei para mamãe. Harry virá em poucos dias e...- ele desviou os olhos de Hermione e encarou Gina, que agora parecia contente com o rumo da conversa.


Ele abaixou os olhos, mostrando para a irmã que não queria que ela ouvisse aquela conversa.


- Eu sei quando não sou bem vinda em uma conversa. Só não esperava ser chutada para fora do meu quarto.- ela cruzou os braços, pregando o pé no chão. Ela obviamente demonstraria resistência a sair dali.


Hermione se levantou e mirou Gina, pedindo desculpas com o olhar. Ela foi em direção a porta do quarto, ainda se comunicando com Gina sem utilizar palavras, querendo que a amiga entendesse que falaria qualquer coisa importante para ela, independente da autorização de seu irmão.


Rony seguiu Hermione, enquanto Gina bufava zangada de dentro do quarto. Hermione fechou a porta assim que Rony passou.


- E depois você não quer ser chamado de insensível, Ronald!- ele estava merecendo as ofensas que iria ouvir.- Será que você não poderia ter falado isso para mim em outra hora? Sem deixar completamente explícito que não queria que Gina ouvisse?


Rony começou a subir a escada em direção a seu quarto, Hermione seguiu ele pisando duro, querendo que o garoto a escutasse.


- Você mesma fez questão de falar para mim que ela não gosta mais do Harry!- ele entrou no quarto e analisou a expressão de surpresa no rosto da amiga.- Bom, não daquele jeito...


Hermione ficou parada na soleira da porta, sentindo-se repentinamente envergonhada de entrar no quarto do ruivo. Sentiu-se mais idiota ainda por saber que aquela situação estava a deixando desconfortável, considerando que sempre entrara naquele quarto.


- Por que ela ficaria zangada então? Eu queria falar para você, já que você havia perguntado sobre o Harry...- Rony abaixou o tom de voz, olhando para ela.


- Você sabe que independente disso eu vou contar para ela, não sabe? Sua irmã é minha amiga.


As orelhas de Rony ficaram vermelhas. Ele desviou o olhar.


- Só queria que você soubesse que está tudo certo para a chegada de Harry. Mamãe deixou escapar que quem irá buscar ele será Dumbledore.- Rony colocou um pouco mais de suspense na voz do que era necessário.


- Dumbledore?- Hermione esqueceu por um momento da situação de estar sozinha com Rony, entrou no quarto rapidamente aproximando-se dele.


- Ronald Weasley-


Rony pareceu ficar levemente incomodado com a aproximação repentina. Inclinou o rosto para trás.


- É-é...


- Então deve ser algo relacionado à Profecia! Só pode ser!- Hermione começou a caminhar em círculos pelo quarto, e Rony sabia que ela estava fazendo vários cálculos mentais pensando nas situações mais prováveis.- Ele e Harry provavelmente irão investigar mais a fundo, pesquisar formas de entender perfeitamente o que significava aquela esfera do departamento dos Mistérios...


- Ele contou para você o que dizia a Profecia?- Rony girou o corpo em direção à garota.


- Ele contou algo a você?- Hermione acusou com o olhar o amigo.


Rony não soube o que responder. Por que passara por sua cabeça que talvez a amiga soubesse mais do que ele?


- Não! Mas pensei que talvez...


- Dumbledore deve confiar mesmo no potencial de Harry para levá-lo assim, para uma missão...- Hermione continou a falar, parecendo esquecer da interrupção do amigo.


- Haarmainee!- a voz forçada de Fleur pareceu sobressaltar a garota. Rony instintivamente moveu-se mais para o fundo do quarto, querendo evitar que Fleur colocasse os olhos nele.


Hermione franziu o rosto, obviamente contrariada por ter que atender ao chamado da garota, que nem sequer sabia pronunciar seu nome corretamente.


- Sim?- ela saiu do quarto de Rony.


- Ah, estava me perguntand onde você estava! Molly querr que você e Ginevra encontrrrem ela no jardim.


Fleur sorriu com sinceridade para Hermione e depois se virou, descendo as escadas, os longos cabelos prateados sempre impecáveis sacudindo.


Rony surgiu por detrás de Hermione, cuidando para ter certeza de que a garota já se fora.


- Ela já desceu, Ronald.- Hermione suspirou, sem nem se virar, parecia ter certeza do comportamento dele.


- Ah, e-eu, é que...- ele gaguejou.


- Vou ver o que sua mãe quer.- ela já estava descendo as escadas. Rony a seguiu.


- Por favor não se ofenda, Mione...mamãe provavelmente só quer que você e Gina fiquem lá com ela para que a Fleuma- digo, a Fleur não possa ficar muito tempo ao redor dela.


- Com certeza vou ir lá ajudar sua mãe. Eu sei como a Fleuma pode ser desagradável como quer.- ela parou bruscamente, fazendo com que Rony quase caísse no meio das escadas.- Ainda não acredito que seu irmão se apaixonou por ela!


Rony sabia que ela estava falando muito mais com ela mesma do que com ele. Mesmo assim, sentiu-se envergonhado com o rumo que o assunto tomava.


- Essas coisas não se escolhe...não é?


Hermione ficou parada, ainda de costas para ele. Ele queria ver a expressão dela, saber o que ela realmente estava pensando.


Ela sacudiu a cabeça e correu para finalizar a descida das escadas. Rony esticou a mão, como se fosse chamá-la para saber se ela e Gina queriam ajuda no jardim. O jeito de Hermione foi o que fez ele parar. Ela não se virou mais para ele após aquele comentário espontâneo que ele fizera sobre sentimentos, e a última visão que ele teve foi dela atravessando a porta para a cozinha, passando a mão nervosamente pelos cabelos. Ele torcia para que por detrás do nervosismo, houvesse um sorriso tímido nos lábios da garota.




Harry parecia bastante confortável atirado no sofá. Rony lhe passou uma segunda garrafa de cerveja amanteigada e se sentou ao lado do amigo.


Ir embora da estação naquele dia, perdendo o trem de vista e sabendo que Hermione voltaria a rotina sozinha, havia lhe dado um aperto no peito. Porém, logo a correria de ajeitar tudo no pequeno apartamento de seu irmão havia roubado seus pensamentos e Rony reparou que, quando ocupava sua cabeça com algo, sentia-se menos triste por estar longe da namorada.


Harry bebia a cerveja olhando para o centro da sala. Pareceu tomar coragem para falar algo.


- Onde está o Jorge?


- No banho.- Rony olhou para o amigo.- O que você acha de enquanto isso decidirmos o que iremos jantar?


A barriga de Rony roncava alto e Harry riu. Rony sabia que era estranho para o amigo não estar de volta a casa dos Dursley, parecia levemente perdido. Ele mesmo estava confuso: achou que toda a arrumação do apartamento seria rápida, que dormiria na Toca naquele dia, mas agora estava tão cansado que estava pensando seriamente em dormir ali mesmo, no quarto que pertencera a Fred e que havia sido completamente reformado naquela tarde. Rony sentia-se satisfeito de saber que poderia contar a Hermione que aprendera diversos feitiços úteis para a arrumação doméstica.


- Hum...o que você estava pensando?- Harry franziu a sobrancelha, talvez tentando se lembrar do que havia visto na dispensa.


Rony perguntava-se a mesma coisa. Não haveria o suficiente para os três, haveria? Além do mais, nunca fora um bom cozinheiro.


- Não sei. Vamos dar uma olhada no que temos aqui.


Rony levantou-se no momento que Jorge entrava na sala, vestido com um moletom velho e calças jeans surradas.


- Roniquinho na cozinha? Perigo!- o garoto riu, Rony sentiu as orelhas queimarem.


- Precisamos comer alguma coisa, não é?


- Claro que sim, irmãozinho. Mas não pense que vou me arriscar desse jeito e comer algo que você cozinhe.- Jorge já estava abaixado procurando algo no balcão da cozinha, os cabelos ruivos pingando água.- Se eu quiser uma aventura como essa, posso pular de pára-quedas ou algo do gênero.


Rony deixou a vergonha de lado, a fome falando mais alto.


- Então que solução você tem?


Harry já estava de pé, próximo aos irmãos. Jorge tinha um livro grosso nas mãos, que Rony não reconheceu. Podia ver que tinha páginas coloridas, algumas amarelas. Jorge colocou sobre o balcão e começou a folhear.


- Nos primeiros meses quase passamos fome aqui.- Jorge riu.- Fred insistiu em tentar alguns feitiços culinários, mas desistiu bem em tempo!


Rony olhou para Harry, que também parecia surpreso em ouvir Jorge falar com tamanha naturalidade do irmão. Ele parou por um momento, parecia perdido em pensamentos. Rony não queria que ele começasse a chorar, nem que ficasse sentimental.


No começo, os gêmeos haviam ficado no pequeno apartamento em cima de sua loja, no próprio Beco Diagonal, mas com o tempo, resolveram arranjar um lugar maior, e não no local de trabalho, para que pudessem espairecer e ficar um pouco longe da movimentação das lojas. Logo após isso, a guerra ocorrera então Rony sabia que os gêmeos haviam aproveitado apenas alguns meses naquele lugar, o que talvez tornaria a adaptação de Jorge mais fácil.


- E...? O que vocês fizeram?- Rony falou, tirando o irmão de seus pensamentos.


Harry postou-se ao lado de Jorge, rindo consigo mesmo.


- Uma lista telefônica?- o garoto falou rindo tanto, que seus óculos quase escorregaram pelo nariz.


- Pode rir.- Jorge falou, percorrendo com o dedo uma página que lhe parecera interessante.- Nossas vizinhas aqui de cima sempre vinham até aqui, com desculpas esfarrapadas de que queriam açúcar ou algo assim emprestado. Claro, nunca tínhamos nada.


Rony ainda não entendia do que eles estavam falando.


- Elas nos sugeriram então, que deveríamos comprar um telefone, sabe, e fazer um bom uso dos vários serviços de tele-entrega disponíveis.- O ruivo riu e Harry o acompanhou.


Rony ficou boquiaberto.


- Do que é que vocês estão falando?


Jorge apontou um aparelho escuro, do lado da bancada. Rony sentiu o estômago despencar: lembrava-se claramente de ter tentado se comunicar com Harry, em uma de suas férias, com um telefone. A experiência, é claro, não havia sido bem sucedida.


- Então vocês aprenderam a viver como trouxas?- Harry falou empolgado.- Mesmo estando tão próximo do Beco Diagonal? Você está me dizendo que sabe lidar com dinheiro trouxa também?


- Claro que sim.- Jorge tentou fingir que estava ofendido.- Assim sobrava muito tempo para que conversássemos com nossas vizinhas.


Os dois riram e Rony tentou rir também, imaginando se as vizinhas sabiam o quão diferentes eles eram, e se sabiam o que havia acontecido com Fred.


Jorge já estava discando, indagando Harry sobre o que ele gostaria de comer. Rony tentou opinar, mas os dois pareceram achar uma boa idéia deixá-lo de fora da escolha. Felizmente,quando a comida chegou, Rony percebeu que eles não haviam esquecido dele.


Sentaram-se a pequena mesa na cozinha apertada e começaram a abrir as embalagens. Harry parecia tão incerto em relação àquilo quanto Rony. Certamente os Dursley jamais permitiriam que ele pedisse algo bom para comer, muito menos lhe dariam dinheiro para tal.


Em pouco tempo, o barulho de latas de refrigerante sendo abertas e pratos batendo contra a mesa tomaram o local. Rony comia rápido, surpreso por estar gostando tanto de comida e bebida de trouxas. Jorge começara a narrar os diferentes tipos de restaurante que já haviam conhecido, e Harry tentava interagir, porém seu histórico de conhecimento de grande cidade era parecido com o de Rony.


Logo, eles estavam cheios de comida e sonolentos. Rony estava jogado no sofá da sala, Harry jogara-se no tapete, e tinha um olhar curioso.


- Não é meio suspeito, corujas voarem para cá em plena luz do dia?- ele olhou para Jorge.- Quero dizer, como iremos nos comunicar?


- Ah, não se preocupe.- Jorge terminava de lavar a louça com um aceno da varinha.- Normalmente as cartas vão para a Loja, poderemos verificar assim que chegarmos lá.


Rony fez uma anotação mental para ir a loja no outro dia, verificar se Hermione já teria lhe escrito algo, mesmo que eles ainda não fossem voltar com o comércio naquele momento.


- E vocês iriam se surpreender se soubessem o número de bruxos que mora nesse prédio!- Jorge riu, indo para a sala para se juntar a eles.- Claro que a maioria das famílias bruxas prefere povoados mais pacatos, afastados da cidade. Mas alguns precisam morar por aqui, no meio da cidade onde tudo acontece.- Jorge piscou para eles.


Rony tentou se ajeitar no sofá, mas sentia-se pesado e com sono.


- E como você sabe que há mais bruxos aqui?


- Tem um velinho que mora no térreo que passava sempre em frente a nossa loja no Beco Diagonal. Mas ficou com medo de que estivesse me confundindo, e demorou um tempo para conversar comigo.- Jorge virou o resto de seu refrigerante, olhando para os lados, talvez em busca de uma cerveja amanteigada.- Ele puxou um papo meio neutro, alegando que tinha ido buscar seu Profeta Diário no Beco novamente, pois infelizmente não podia recebê-lo em casa.


- Achei que poderíamos usar nossas corujas!- Rony falou, preocupado.


- E podem! Mas de vez em quando. Não abusem.- Jorge recolheu as garrafas vazias com um aceno de varinha e acenou para que fossem para a cozinha.- O melhor é mandarem qualquer correspondência da Loja. Chama menos a atenção.


Rony afirmou com a cabeça, para que Jorge soubesse que ele entendia. Sabia que há algum tempo atrás, o fato de várias corujas voarem durante o dia havia causado alguns problemas para o Ministério. Ali, numa rua movimentada, todo cuidado era pouco.


Rony desviou a atenção da conversa, sentindo seu corpo ficar cada vez mais entorpecido. O tempo passava e o fato de estar com Harry e Jorge não estava acalmando a ansiedade que se formava dentro dele. Ele achou que conseguiria ficar distraído, concentrar-se na diversão de morar como um trouxa.


Jorge tinha ido em direção ao quarto, resmungando que terminaria de arrumar algumas roupas jogadas. Rony mirou Harry, que parecia estar incrivelmente concentrado fitando o nada.


- Harry?


O garoto o olhou. Rony sentiu o peso da situação de morarem sozinhos. Era quase como se estivessem de volta a viagem pela busca das Horcruxes, Harry tinha o rosto cansado e ele sabia que ele também não deveria ter a aparência melhor. Obviamente ambos estavam se sentindo da mesma maneira, perdidos.


- Sim?


Rony tomou fôlego, encarou os próprios pés evitando encarar o amigo naquela hora.


- Sei que é muito cedo, mas não seria uma surpresa se não fosse tão repentino...


Harry aguardou, os olhos azuis visivelmente curiosos por detrás dos óculos.


- O que você acha de fazermos uma visita a Hogwarts? Ainda essa semana?


Harry sentou-se mais ereto no sofá, um sorriso quase infantil em seus lábios. Rony não gostava de pensar que o interesse do amigo era em ver Gina. Afinal, ele sabia que ele próprio pensava muito mais em ver o rosto surpreso de Hermione do que as paredes do saudoso castelo.


Os dois tinham o rosto com a expressão parecida. Pareciam estar prestes a ingressar em uma nova aventura. A sensação de fazerem algo inesperado lembrava a infância, onde muitas vezes haviam feito coisas impensadas, sem se importar com o que os professores iriam falar.


Harry respondeu, antes que Rony pudesse começar com seus argumentos.


- Quando você estava pensando em ir?


A decisão ficou subentendida, a discussão da melhor data se perdeu para que fosse logo discutida. Uma risada espontânea se seguiu, os dois amigos se entenderam. Rony sentiu-se eufórico só de imaginar o rosto de Hermione quando ele aparecesse em Hogwarts logo na primeira semana.


Jorge voltou à sala naquele momento, e as novas conversas agora tinham um tom mais alegre e natural. O humor de Rony provavelmente se manteria assim, enquanto ele tivesse algo por que esperar. E estar com Hermione, saber que ela estava na sua vida para sempre, lhe dava motivos suficientes para se sentir completo.


Capítulo 14-A volta


Memórias do sexto ano:


(trechos de: Rowling J.K- Harry Potter e o Príncipe Mestiço, tradução de Lia Wyler- Rio de Janeiro: Rocco).


- Hermione Granger-


Por mais que Hermione tentasse pensar que havia ainda algum tempo para ficar ao lado de Rony na Toca, quando se deu conta, estava com seu malão de Hogwarts flutuando próximo aos seus pés, de mãos dadas com Rony, caminhando para longe da casa que a abrigara tantas e tantas vezes, até alcançarem a distância necessária para que pudessem aparatar até a estação. Harry e Gina acabavam de desaparecer em pleno ar na frente deles. Hermione apertou a mão de Rony fortemente, querendo que ele entendesse o sentimento que estava se passando com ela.


Ela se virou e deu uma última olhada na casa. Rony sorriu para ela, ela sorriu de volta e com um leve aperto na mão dela, o ruivo sinalizou que era ora de ir. Hermione focou seu pensamento no local mais próximo à estação, onde não poderiam ser vistos por trouxas e conseguiriam achar o caminho facilmente para a passagem para a plataforma. O Sr. Weasley explicara com calma o local, mesmo assim, Hermione tremeu só de pensar que Rony talvez ainda tivesse algum problema com aparatação. Não havia sido apenas um episódio que o garoto deixara um pedaço para trás, e mesmo que o nome dele e de Harry estivesse, assim como o de Hermione, na lista de pessoas autorizadas para aparatar, ela ainda tinha medo. Não havia achado uma boa idéia essa autorização do Ministério para que os dois aparatassem sem realizarem o teste, no caso de Rony, pela segunda vez. Mas aparentemente, a sociedade bruxa ainda se sentia muito em dívida com o trio.


Quando se encontraram com Harry e Gina, caminharam a pouca distância restante até a passagem para a plataforma.


Hermione riu consigo mesma quando atravessou a parede sólida, de mãos dadas com o ruivo. Seria tão maravilhoso se estivessem prestes a realizar aquela viagem tradicional de trem juntos!


Rony colocou o cesto de Bichento no chão, com um aceno de varinha. Hermione o imitou, descansando seu malão.


Harry e Gina já estavam mais afastados, Hermione não sabia o que pensar, nem como agir. Sabia que Gina provavelmente estava mais acostumada à distância do que ela.


Mirou os olhos azuis de Rony. O garoto parecia muito sério.


Hermione abraçou o garoto fortemente, enquanto as mãos de Rony já estavam em seus cabelos.


- Você está feliz?


A pergunta do garoto a pegou desprevenida. Ela se afastou um pouco e o olhou.


- Estou dividida. Certamente será muito bom voltar...


Rony sorriu. Deveria estar pensando, como ela, na viagem tranqüila que a esperava, atravessando campos e visualizando rios pelas janelas do trem. Depois, o tradicional banquete e a cerimônia de seleção, a rotina das aulas, o conforto da sala comunal. Na cabeça de Hermione, todas essas cenas ainda não se encaixavam com a Hogwarts praticamente destruída, que estava sendo aos poucos reerguida.


-...mas não sei como será...sem você e Harry por lá.


Hermione lutava para segurar o choro. Rony, agora sorrindo, passou a mão pelo rosto da garota, de um modo delicado.


- Estarei lá antes que você sinta minha falta. Hogwarts não ficará muitos dias sem a presença de seus heróis.


Hermione riu, sentindo que lágrimas poderiam escapar de seus olhos a qualquer momento. Sabia que Rony e Harry iriam visitar a escola frequentemente, a própria professora McGonagall fizera questão de convidá-los. O fato é que poder imaginar como seria o retorno de todos eles juntos, tornava tudo mais difícil.


- Vou sentir sua falta...- Rony agora estava sério.


- Eu também...todos os dias...


Hermione sabia que iria sofrer, mas não conseguia imaginar a situação em si. Talvez apenas quando estivesse lá, saberia quantificar a dor de não ter Rony todo o tempo ao seu lado.


Quando ela e Gina se aproximaram do trem procurando pelas janelas uma cabina vazia, Harry veio até ela e a surpreendeu com um abraço forte.


Quando o garoto se afastou, seus olhos verdes não escondiam a emoção do momento.


- É estranho não voltar...


Hermione segurou o braço do amigo, a outra mão entrelaçada na de Rony. O ruivo não parecia tão emocionado como Harry, mas colocou a mão no ombro do amigo, expressando que o sentimento era compartilhado.


Hermione olhou rapidamente a sua volta e viu diversas pessoas conhecidas, mas não queria aqueles rostos em sua memória agora. Queria gravar aquela cena: Rony, Harry e ela juntos, parados naquela plataforma que havia visto tantas de suas histórias.


Hermione sentia as lágrimas quentes percorrendo seu rosto. Gina saíra do trem avisando que colocara toda a bagagem delas em uma cabine junto com Luna e se surpreendera ao encontrar aquela cena típica de um filme de drama.


Abraçou Harry, deixando Hermione livre para se virar para Rony. Afundou o rosto em seu peito. Apenas eles podiam entender como aquela cena era dolorosa, e ao mesmo tempo feliz. Ter uma Hogwarts para voltar era um fato feliz, principalmente depois de tudo que acontecera e quase destruíra a escola. A garota se perguntou se Rony e Harry não estavam com um arrependimento, se não estavam pesando em voltar atrás na decisão que haviam tomado.


Porém, havia tristeza nas despedidas finais, mas não arrependimento. E Hermione sabia muito bem o porquê. Por mais que Hogwarts tivesse sido uma casa, um local de muitas alegrias compartilhadas, ambos- Rony e Harry- queriam muito mais do que simples notas obtidas no último ano, muito mais do que uma cerimônia de formatura no salão principal. Queriam partir logo para a ação, queriam mudar o mundo que havia sobrevivido à guerra.


Hermione havia pensado que aquele momento seria mais fácil, pensara até que não choraria, que seria forte. Mas não estava sendo tão fácil soltar o abraço, afastar o rosto do peito de Rony.


O garoto também tinha lágrimas nos olhos quando beijou os lábios de Hermione delicadamente. Hermione permaneceu com os olhos fechados, tentando controlar as emoções.


- Mande uma coruja assim que chegar.- a voz trêmula de Rony fez ela ficar mais calma.


Mas ao mesmo tempo que ela sussurrava no ouvido dele "eu te amo", Hermione era tomada por uma certeza de que tudo daria certo. Passariam mais tempo separados, mas se amavam e era isso que importava. O que mais doía era saber que podiam ter aproveitado essa rotina nos anos que haviam se passado, mas como a própria Hermione pensara uma vez, talvez o romance não desse certo, ou pelas brigas constantes, ou talvez porque o relacionamento deles precisava desse amadurecimento do momento presente.


Hermione abraçou Harry mais uma vez, enquanto Gina implicava com o irmão. Logo, ambas estavam dentro do trem, acenando para os garotos, que pareciam desolados parados do lado de fora, era como se o trem não pudesse partir sem aquela dupla, que vivera tantas aventuras resguardados pelas paredes do lendário castelo. Foi com um aperto muito forte no peito, que Hermione viu as figuras dos dois sumirem quando o trem ganhou velocidade.


Ela se virou para as companheiras de cabine. Luna tinha os olhos postos nela, parecia cheia de perguntas.


- Deve ser estranho pra você...- a voz aérea da garota não irritou Hermione, pelo contrário.


- Muito.- Hermione sorriu para a garota.- É como se algo estivesse faltando...deixar os dois para trás...não sei como Hogwarts será agora...


Ao ouvir as palavras saírem de sua própria boca, Hermione foi tomada por uma forte vontade de cair no choro novamente.


Gina, percebendo a sensibilidade da amiga, apressou-se em continuar a conversa.


- Calma, Mione. Sei o que você está sentindo. Mas você realmente acha que aqueles dois vão passar muito tempo longe de Hogwarts? Aposto que serão visitas constantes, até McGonagall decidir desfazer o convite.


A ruiva sorriu e Hermione sorriu de volta. As duas sabiam que a vontade delas era que os garotos estivessem lá o maior tempo possível, mas não queria conversar aquilo na frente de Luna.


Antes que Hermione pudesse desviar os olhos para a paisagem que aparecia na janela, um barulho alto anunciou que a porta da cabine delas estava se abrindo.


- Uou!- a garota que falou tinha a voz muito fina, não deveria estar em nenhuma série avançada.- É ela mesmo!


Repentinamente, várias outras garotas de diferentes alturas estavam paradas na frente da cabine das garotas. Hermione percebeu Gina se encolher levemente no banco.


- Ah- Hermione falou sem graça.- Posso ajudá-las?


Elas se olharam, assustadas e boquiabertas. Uma menina com os cabelos muito escuros e lisos, adiantou-se a frente do grupo.


- Hermione? Hermione Granger?- ela arriscou um passo.- É você mesmo?


Hermione sentiu o estômago afundar. Ah, não. Então a fama começaria assim, tão rápido. Ela pensou que seria mais tranqüilo, não imaginou aquela cena de caça ao ator de cinema que aquelas garotas estavam pretendendo formar.


- Sim, sou eu.


A garota engoliu em seco. Não lembrava de nenhum daqueles rostos, talvez fossem calouras quando Hermione cursara seu sexto ano da escola e agora haviam crescido, impedindo ela de lembrar quem eram.


- É realmente ela! Só de pensar que minha mãe não queria que eu voltasse esse ano...- alguma das garotas que estava mais para trás falara, esganiçada.


Todo o grupo permaneceu olhando as integrantes da cabine. Hermione sentiu-se péssima, será que fora assim que Harry se sentira em seu primeiro ano?


- N-nós só q-queríamos- a garota de cabelos escuros falava novamente, o rosto muito corado.- que v-você soubesse que admiramos m-muito o que você fez pelo mundo bruxo..ao lado do P-Potter.


Quando ela finalizou, Hermione pôde escutar muito ruídos de aprovação das outras, que respiravam rapidamente. Percebeu que seu corpo estava colado no encosto, tamanho era o receio que tinha com o que poderia acontecer, ainda assustada.


- Nossa, obrigada!- Hermione passou a mão pelos cabelos, nervosa. Analisando que as garotas ainda tinham vestes neutras, questionou.- De que casa vocês são?


Seguiram-se gritinhos após a indagação, e uma movimentação estranha começou. Hermione corou violentamente, eram apenas crianças afinal.


- Eu sou da Corvinal! E o pessoal de lá sempre fala que você deveria ser uma de nós!- antes que a garota mais alta do grupo terminasse de falar, outra já tentava roubar a atenção.


- Eu sou da Grifinória, Hermione! Você lembra de mim?- a garotinha sacudia suas tranças castanhas, tamanha era sua empolgação.- Você já era monitora quando eu comecei a escola!


-Ah, eu...- Hermione tentou raciocinar, lembrar se talvez repreendera alguma vez a menina, mas mais vozes começavam a alcançar seus ouvidos.


- Eu sou da Lufa-lufa!


- Também sou Grifinória, senhorita Granger! Mas fui selecionada ano passado então...


- Corvinal também!


- Ah, fiquem quietas um pouco!- a voz de Gina surpreendeu a todas. Até Hermione olhou para a garota, incrédula.- Desse jeito não conseguiremos entender ninguém!


Parecia que o fã clube reparara apenas naquele instante quem eram as outras ocupantes da cabine.


- Weasley?- Hermione pôde discernir que alguém tentava cochichar para não ser ouvido.


- Que foi que você disse?- Gina já estava sentada mais reta, tentando descobrir quem tentava indagar se ela era uma Weasley.


- Ah, d-desculpe...- a garotinha das tranças adiantou-se.- Você é Gina Weasley?


Hermione percebeu na hora a surpresa de Gina. A garota havia estudado o ano anterior, e as garotinhas pareciam surpresas e até mesmo indignadas de não terem reparado em Gina antes.


- Ah, eu sabia! Sempre via você com o pessoal da Grifinória!


- Gina? Gina Weasley? É ela mesmo?


- A namorada do Potter!


- Não pode ser! Me disseram que ela jogava muito bem quadribol!


Não era mais possível saber quem falava. Gina parecia ter ficado seriamente ofendida com o fato de estarem duvidando de suas habilidades no quadribol e já abria a boca para falar, quando Hermione decidiu acabar com a bagunça.


- Meninas, meninas!- falou mais alto.- Com licença, mas acho que vocês estão tumultuando um pouco as coisas.


Hermione não sabia se o mais estranho era serem aquelas celebridades instantâneas, sendo que muitas pessoas em Hogwarts haviam convivido durante muito tempo com elas, para só agora perceberem que existiam. Ou talvez o fato de todos dirigirem-se à Harry como Potter soava mais estranho ainda, tornava tudo tão real. O fato de estar sendo observada de perto, por muitos olhinhos curiosos, não estava ajudando seu raciocínio.


Com um pouco mais de paciência, Hermione conseguiu tirar todas da porta da cabine e liberar o corredor que estava trancado devido a movimentação das garotinhas. Elas saíram se despedindo alegremente, não pareciam acreditar que Hermione havia mesmo conversado com elas. Algumas abanavam quando passaram novamente pela cabine, Hermione desconfiou seriamente que estavam caminhando de lá para cá, apenas para poder espiá-las.


- Acho que com toda essa bagunça, vai ser difícil ter sossego.- Hermione riu, soltando Bichento na cabine para que o gato pudesse se espreguiçar. – E eu que achei que esse seria o ano mais tranqüilo em Hogwarts.


- Ah, isso é o que você pensa.- Gina apontava para fora da cabine. Hermione, por um momento delirante, achou que as garotas estariam de volta. Mas o que Gina apontava era realmente, a maior novidade de Hogwarts.


A escola, que passara o último ano com a disciplina Artes das Trevas no currículo, agora precisava de um novo professor para que as aulas de Defesa pudessem voltar. Casualmente, era ele que estava parado ali, olhando intrigado para as ocupantes da cabine. Hermione quase teve pena dele, era tão jovem para assumir um cargo que havia sofrido imensuráveis perdas e situações de má sorte, porém, pensou ela, provavelmente o feitiço que diziam estar na vaga deveria ter sumido juntamente com seu criador.


Ele piscou uma, duas vezes, depois se decidiu por arriscar. Aproximou-se da cabine e arrastou a porta, para se fazer ser ouvido.


- Olá!


Quando ele entrou, Hermione percebeu uma movimentação estranha por parte de suas amigas. Todas haviam ficado incrivelmente tensas, o bruxo parecia emanar uma aura que intimidava, despertava um instinto de ter cuidado.


- Sou Egeo Gareth. Responsável pela disciplina de Defesa contra a Artes das Trevas. Tudo bem com vocês?


Elas responderam com um aceno de cabeça. Hermione pareceu achar sua voz.


- Tudo bem. E com o senhor, professor Gareth?


- Ah, não precisa me chamar de senhor.- ele sorriu e Hermione percebeu que algumas leves rugas se formavam no canto de seus olhos: talvez não fosse tão jovem assim.- Você é Hermione Granger?


Hermione afirmou, nervosa. Não iria se acostumar nunca àquela fama.




Deveriam estar quase chegando. Havia uma movimentação no trem que dava certeza a Hermione de que faltava muito pouco agora. A conversa com o professor ainda pairava na cabeça da garota. Ele parecia saber tudo que Rony, Harry e ela tinham feito para conseguir manter-se tanto tempo escondidos e quase sempre, a salvo. Mas o professor parecia deslocado, não parecia pertencer à Hogwarts, talvez porque começaria a dar aula apenas naquele período, talvez por não possuir muito cabelos brancos ainda. Hermione riu pensando em como seria quando Neville fosse professor, sua ambição desde que se descobrira bom em Herbologia.


Agora, Luna, Gina e ela estavam terminando de organizar tudo que haviam esparramado pela cabine. Bichento já estava seguro dentro de seu cesto.


- Ele é engraçado, esse novo professor.- Luna olhou para as garotas enquanto falava.- E fez questão de dizer que pertenceu à Corvinal.


Hermione pensou naquilo que a garota falara. Realmente, o professor fizera questão de incluir Luna na conversa, dizendo que havia sido da mesma casa que ela.


- Você acha que ele queria só aquilo mesmo?- Gina sacudiu os cabelos, terminando de ajeitar as vestes de Hogwarts sobre o corpo.- Saber se iríamos freqüentar as aulas dele?


Hermione deu de ombros.


- Por que mais ele viria até aqui?- a garota falou para Gina.


- Hum, talvez para obter informações sobre a Guerra, para vender para algum jornalista.- Gina colocou a bolsa no ombro, cruzando os braços e dando a Hermione um olhar inquisidor.- Ou talvez para ganhar a sua confiança.


- Minha confiança?- Hermione ajeitou todos os seus pertences, ainda olhando para Gina.


- Mione, acho melhor você tomar cuidado com as pessoas que se aproximarem de você, nesse momento. Toda essa fama, toda essa empolgação não trará necessariamente coisas boas.- Gina tinha um olhar muito parecido com o de Rony quando disse isso, Hermione sentiu o rosto corar.


- Sei disso, mas ele é um professor! Não deve apenas estar querendo fofocas para mandar para o Profeta Diário ou alguma revista como aquela Semanário das Bru-


- Eu sei, Mione.- Gina a interrompeu. Olhou para fora da cabine para ter certeza de que ninguém estava escutando.- Sei que para você, a imagem de professores são pessoas boas que querem ajudar, mas...


- Você acha que ele...?


- Não acho normal um professor vir até a nossa cabine indagando coisas sobre a guerra.- Gina olhou para Luna, mas a garota parecia mais interessada nos cadarços de seus sapatos do que na conversa das duas.- Você-sabe-quem está acabado, já foi. Mas nunca se sabe que tipo de mal há por aí.


Hermione não estava entendendo onde Gina queria chegar.


- Que tipo de mal?


- Ter a história de vocês contada de uma forma diferente, ofensiva. Não conseguir um emprego no Ministério porque durante muito tempo você foi contra a instituição...


Hermione ficou calada, de boca aberta, se dando conta de tudo que Gina estava falando. Ela tinha aquela determinação inerente a todos os Weasley, mas talvez por ter sido criada com tantos garotos ela criara aquela armadura que a protegia de qualquer coisa.


- Isso está saindo da sua cabeça, Gina?


- Bem...- a ruiva corou um pouco.- Harry e eu andamos conversando sobre isso...ele concorda comigo...começamos a nos dar conta de que muitas pessoas parecem estar se aproximando cada vez mais de nós.


- E-e eu estava pensando, durante todo esse tempo, em sempre ter cautela.- Hermione teve que se sentar.- Inclusive com toda essa história do emprego no Ministério...


O trem estava diminuindo a velocidade rapidamente. As garotas observaram um grupo de monitores da Lufa-lufa passarem pela cabine deles, correndo para organizar a descida do trem, para que não ficasse tudo a cargo de Hagrid, provavelmente.


-Obrigada, Gina.- Hermione falou, enquanto se levantavam e agrupavam todas as suas coisas.- Você tem razão. Tenho que cuidar essa minha mania de venerar os professores.


Ambas riram. Hermione sentiu-se mais pesada, diferente, e não tinha a ver com o fato de estar carregada para sair da cabine do trem. Era uma espécie de maturidade, algo completamente novo. Ela sempre achara que certas coisas tinham regras, como professores de Hogwarts serem aliados de Dumbledore, ou livros estarem sempre certos. Mas Dumbledore não estava mais lá, estava? Além do mais o próprio Quirrel havia provado como podiam acontecer coisas pavorosas devido a um membro da equipe mal escolhido. E os livros? Ao lembrar do livro de Defesa Contra a Arte das Trevas de Umbridge Hermione sentiu o estômago revirar: já havia recebido diversas provas de que nem tudo que ela acreditava ser verdade, era realmente fidedigno.


Luna, Gina e Hermione saíram da cabine o mais rápido que puderam, descendo do trem assim que ele parou na plataforma.


Hermione estava procurando Hagrid, queria ser rápida para achar uma carruagem vaga para que não precisasse encarar o fã clube animado novamente.


- Sabe, Hermione...- a voz etérea de Luna quase a assustou, a garota estava calada há muito tempo.- Gina tem razão. Quando admiramos muito a capa de um livro podemos nos enganar facilmente e ficarmos surpresos com seu verdadeiro conteúdo.


Hermione não respondeu, não conseguiu achar palavras. Luna, como sempre a surpreendia. E isso valia tanto para o lado positivo, quanto para o negativo. Fleur, que ela sempre julgara por ser muito bonita, na verdade era uma pessoa maravilhosa com um bom coração. Snape, que após algum tempo fizera parte de suas desconfianças, havia agido durante todo aquele tempo apenas por amor à Lílian.


- Mione!- a voz rude e alta de Hagrid lhe tirou de seus pensamentos. Ela correu até o gigante e o abraçou brevemente.


- Como você está, Hagrid?


- Bem, muito bem! E você?- ele falou com a voz cuidadosa, deveria saber como era difícil para Hermione voltar sozinha para Hogwarts.


- Estou ótima!- ela olhou para os lados. Gina abanou para Hagrid, estava indo em direção a rua de Hogsmeade e fez sinal para Hermione de que conseguira uma carruagem.


- Espero vocês para uma xícara de chá assim que tiverem um período livre.


- OK, então Hagrid! Muito obrigada!


Hermione correu em direção a Gina e Luna, desvencilhando-se dos alunos do primeiro ano que se aproximavam de Hagrid.


Quando chegou a carruagem, onde Gina com uma cara estranha e Luna, com seu semblante normalmente como se estivesse sempre surpresa, guardavam seus pertences, Hermione parou, observando o que era aquilo.


Claro que ela ficara sabendo, após seu terceiro ano em Hogwarts que as carruagens não andavam sozinhas, sabia que Harry podia ver os Testrálios, assim como Luna e outros colegas. Surpreendeu-se, mesmo assim, com a aparência daqueles animais que remotamente lembravam cavalos. Contornou a carruagem e subiu nela, sem conseguir tirar os olhos dos animais.


- Você está vendo?- Gina olhou nervosa para Hermione.


- Sim!- ela respondeu olhando para a garota, as duas se entenderam com aquele olhar.


Obviamente, após todas as batalhas e aventuras que haviam passado no ano anterior, ela certamente teria visto a morte de alguém. Mas pensar daquela forma era tão horrível, quase cruel. Hermione desviou o olhar do Testrálio próximo, e acomodou todas as suas coisas.


Luna sorria para o nada. Gina encolheu-se no banco enquanto a carruagem partia. Hermione sentiu-se vazia, desorientada. Já estava começando a perceber a diferença de não ter Rony nem Harry ao seu lado na tradicional ida ao castelo, para o começo do período letivo.


Logo que a carruagem ganhou velocidade e Hermione conseguiu desviar sua atenção dos estranhos cavalos alados, o vento frio bateu em seu rosto, parecia querer acordá-la para a nova realidade. Ela precisava estar recuperada, precisava chegar bem em Hogwarts. No outro dia teria aula, voltaria a rotina de estudos.


Luna tinha o olhar perdido no alto, a frente delas. Hermione se virou para entender o que ela estava olhando, e apertou o braço de Gina para ter certeza de que a garota veria o mesmo que ela.


Hogwarts estava lá. Mas estava tão diferente... Pareciam ainda faltar pedaços, as janelas pareciam estar num ângulo diferente.


- Acho que eles reconstruíram da melhor maneira, não é?- Gina parecia mais calma, quando olhou para o castelo que surgia aos poucos.


Hermione não quis olhar. Obviamente que estava diferente, mas na cabeça da garota formava-se um desejo muito forte de que os professores conseguissem fazer tudo voltar a ser como era, com alguns feitiços e encantamentos.


Felizmente, quando desceram da carruagem, encontraram tudo como deveria ser. Hermione sentiu um frio na barriga quando colocou seu malão e Bichento na fila de outras bagagens que seriam levadas ao dormitório: era seu último ano em Hogwarts, era a última vez que assistiria a Seleção. Tudo seria tão diferente, tão especial, porque agora ela sabia de que nunca mais teria tudo aquilo novamente.


O medo de perder, a consciência de que eram seus últimos meses naquele lugar, fizeram Hermione caminhar trêmula ao lado das garotas. Parecia alheia a tudo quando se separaram de Luna, que foi cumprimentar seus conhecidos na mesa da Corvinal. Ela e Gina sentaram-se na mesa da Grifinória e Hermione deixou seus olhos varrerem o salão, sentindo uma sensação muito forte de nostalgia.


Ali, tudo estava como deveria estar. O teto encantado, as milhares de velas flutuando sobre suas cabeças, as quatro mesas dispostas, a mesa dos professores sendo ocupada aos poucos. Da última vez que estivera naquele salão, havia sido em um momento crítico do pós guerra, vendo todos os corpos de pessoas queridas que haviam deixado o convívio deles para sempre.


Agora, ela podia observar como tudo parecia alegre. Piscou os olhos uma, duas vezes para ter certeza de que estava enxergando com clareza. Tinha que estar!


Apesar de ter visto, algumas vezes, os alunos das turmas sentarem-se em mesas diferentes das suas casas para conversarem, o padrão seguido era cada casa sentar em sua respectiva mesa. Agora, não havia mais padrão. Não havia ordem nenhuma! Ela e Gina haviam sentado ali por hábito, mas observaram que para onde olhassem haviam alunos de todas as casas sentados em qualquer lugar. Inclusive, Hermione assustou-se ao reparar- a mesa da Sonserina estava tingida de diversas cores. Justo Sonserina, que sempre fazia questão de manter entre seus alunos apenas aqueles que possuíam linhagem sanguínea bruxa!


Hermione sorriu e virou-se para Gina, que parecia estar observando o salão principal também.


- Muito melhor assim, não é?- a ruiva olhou para Hermione.


Luna voltou e se sentou ao lado delas, direcionando uma conversa animada sobre as disciplinas que ela e Gina iriam poder cursar juntas. Quando perceberam, o salão estava cheio e a porta havia sido fechada. Todos silenciaram e aguardaram durante longos minutos.


Hermione olhou para a mesa dos professores: McGonagall estava lá, ocupando a cadeira que pertencera a Dumbledore. Então quem estaria com os alunos do primeiro ano, aguardando a seleção?


A porta se abriu e a professora Sprout veio à frente do grupo de calouros, carregando um banquinho pequeno e um chapéu. Hermione percebeu que o chapéu estava mudado, certamente não teria sobrevivido intacto ao fogo que quase o destruíra por completo no ano passado. Sorriu ao se dar conta de que McGonagall, ou talvez Flitwick haviam concertado o objeto que durante anos havia selecionado os alunos para suas casas.


O silêncio parecia palpável, todos pareciam curiosos para saber o que viria a seguir. Hermione observou rostos conhecidos em todas as mesas, as pessoas pareciam diferentes, ou talvez fossem seus olhos.


A professora Sprout posicionou os alunos próximos ao banquinho, mas McGonagall não se levantou para falar nada. Provavelmente a seleção seria primeiro, o discurso após.


O chapéu moveu-se, abrindo o rasgo que imitava uma boca, e começou a cantar.


Durante muitos anos me puseram


Eu suas cabeças, muitas vezes ocas


Para que eu os colocasse


Na casa do seu coração


Agora, fiquem atentos


Pois eu fujo à seleção


E peço para que cuidem


De seus aliados e daqueles que amam


Pois só assim alcançarão


Suas vontades e objetivos


Pois ninguém caminha sozinho


Nem sozinho pode ficar


Então as casas que eu os coloco agora


Serão apenas para lhes abrigar


Não esqueçam que antes de mais nada


Todos aqui são companheiros


Então caminhem com passos seguros


E busquem verdadeiras amizades


Pois apenas quando se tem um amigo


É que se enfrenta o que está por vir


Se conhecimento é o que buscas


E gostas da pesquisa e dos questionamentos


Na Corvinal encontrarás uma família


Que auxiliará na busca por seus intentos


Mas se a aventura é o que lhe chama


E a coragem é seu maior valor


Sob o teto de Grifinória dormirás


E lá grandes amizades formarás


Se a busca pelos teus objetivos


É o mais forte dentro de si


Na Sonserina encontrará abrigo


E tua ambição será tua espada


Se seu coração é puro e leve


Na Lufa-lufa passarás a morar


Onde a sinceridade e o companheirismo


Caminham juntos


Não esqueçam, porém


Que nosso mundo foi salvo


Por aqueles que acreditaram


No verdadeiro significado da busca incansável


Pela paz e união


E vivemos agora seguros


Sob esse teto estrelado


E lembremos sempre, caros alunos


Que a força persiste, enquanto houverem


Pessoas capazes de lutar


Os aplausos pareciam vir de todas as paredes, de cada parte daquele salão. Mal o chapéu parou de cantar, todos estavam de pé. Hermione queria lembrar de cada palavra para contar a Rony e Harry,mas sabia que elas lhe fugiriam. O chapéu sempre mantinha algumas características na sua música inicial: mas nunca dava soluções, respostas prontas. Sempre deixava algo a refletir.


A professora Sprout começou a chamar a lista de nomes e Hermione se sentou, sentindo o estômago roncar. Enquanto via os pequenos alunos serem selecionados, cuidava pelo canto do olho o grupo de meninas alvoroçadas da viagem no trem. Elas olhavam ansiosas para Hermione, sentavam-se todas juntas na mesa da Lufa-lufa agora.


Hermione concentrou-se na seleção, triste em ver que parecia haver um número menor de alunos para serem selecionados. Será que os pais não queria que os filhos fossem para Hogwarts? Preferiam esperar o tempo acalmar as coisas para terem certeza de que tudo ficaria bem?


Hermione olhou para o teto estrelado, enquanto a voz da professora Sprout continuava a leitura da lista (Dwell, Sarah!). Queria escrever logo para Rony, desabafar tudo aquilo que estava se acumulando dentro dela.


Flashback


Antes de iniciar o sexto ano em Hogwarts, o trio migrou para a Toca, onde passaram diversos dias antes de terem que voltar a rotina de estudos. Hermione chegara à Toca levemente ansiosa, após o transporte assistido por parte da Ordem, realizado quase da mesma maneira que quando ela fora para a Sede. Dessa vez, porém, os pais de Hermione pareciam tão incrédulos que a filha fosse sumir novamente, tão cedo, que pouparam o sermão e assistiram quase calados a despedida da filha. Hermione insistira em explicar os diversos motivos de porque era melhor ela permanecer hospedada na casa dos Weasley, como era mais seguro que permanecesse ao lado dos amigos. E óbvio, como queria permanecer na Toca até que tivesse que retornar à escola. A Sra. Granger não contestou quando ouviu Hermione falar que iria para a casa de Rony, reprimira um sorriso e parecia ter entendido tudo sem que a filha colocasse em palavras.


Após o pequeno tempo de convívio com os pais, lá estava ela na porta da casa que a abrigara em outras férias, talvez mais felizes. Pelo menos até aquele momento, não havia a sensação estranha da recente morte de Sirius pairando no ar, nem o medo de que a Sede da Ordem e sua localização secreta estivesse correndo perigo. Hermione sentia um peso incômodo no estômago ao pensar em Harry, na casa dos tios, provavelmente envolto por uma névoa de depressão, ansioso para se reunir com os amigos e poder sentir realmente, que haviam pessoas no mundo que compreendiam suas angústias.


A Sra. Weasley esperava Hermione espiando pela janela da cozinha. Quando abriu a porta para recebê-la, Hermione escutou um estalo atrás de si que indicavam que o Sr. Weasley já estava aparatando para o trabalho, após ver que ela estava em segurança.


- Mione!- apesar da visão da matriarca dos Weasley ainda ocupar a porta da casa, foi a voz de Gina que Hermione escutou primeiramente.


Logo, a garota apareceu correndo em direção à recém chegada.


- Gina!- Hermione foi em direção a porta, pendendo para o lado devido ao peso de toda a bagagem.


Gina pareceu congelar por um instante, antes de alcançar Hermione. Ficou fitando o ar e bufou impacientemente.


- Nunca vou me acostumar com isso...- fez um sinal de impaciência com a voz.- Desculpe, Mione, mas papai quer que a gente siga rigorosamente as medidas de cautela impostas pelo Ministério...


- Do que você...?


- Ah Gina, francamente! Acabei de ver seu pai aparatar para o trabalho! Obviamente não estamos diante de nenhum comensal de morte disfarçado!


Molly atravessou a frente da filha e acenou com a varinha para que as coisas de Hermione flutuassem até a casa.


- Vamos querida, venha tomar um chá!


- Sra. Weasley, o que foi que Gina...?- Hermione procurou o olhar da amiga, que a encarava de modo estranho.


- Arthur quer que tenhamos todo o cuidado possível, principalmente com você e Harry aqui em casa e acredita que se seguirmos tudo que o Ministério diz estaremos seguros...além do mais...


- Além do mais os tempos são outros, mas já sabemos disso!- Gina já desmanchara o rosto de falsa desconfiança de que Hermione fosse uma comensal disfarçada, e abraçava a amiga, um sorriso radiante.- Finalmente você chegou!


Hermione sorriu de volta, apressando-se para entrar na cozinha. Jogou-se na primeira cadeira que viu.


- Eu li algumas informações no Profeta Diário, sobre maneiras de prevenir um ataque, como se defender de prováveis emboscadas, mas não esperava que a população estivesse levando realmente a sério...


- E ninguém realmente está.- Gina sentou-se ao lado dela.- Mas papai insiste para que tenhamos o maior cuidado possível. Quer dar o exemplo, sabe...


A Sra. Weasley já colocava algumas guloseimas na mesa. Mesmo que ainda tivesse com seu café da manhã pesando no estômago, Hermione aceitou educadamente a xícara de café colocada diante de si.


- Como estão seus pais, Hermione?- a Sra. Weasley perguntou, despreocupadamente.


- Estão bem. Um pouco surpresos por eu estar novamente saindo de casa tão cedo...


- Oh, é verdade. Eles devem achar que você passa muito mais tempo conosco.- o rosto de Molly Weasley parecia paralisado de uma culpa que não deveria sentir.


- Ah, não! Não há problema algum, Sra. Weasley!- Hermione apressou-se em dizer.- Eles sabem que gosto de passar as férias aqui! Sabem que eu estou segura...


- Bom, isso já é bastante coisa. Eles podem ficar tranqüilos! Se você não se importar eu envio uma coruja para eles, explicando que todas as medidas estão sendo tomadas para que vocês tenham completa segurança, inclusive para voltar à escola!


Hermione não respondeu, ocupou-se em beber o chá e afirmar brevemente com a cabeça, visivelmente sem graça com os cuidados excessivos de Molly.


- Você e Harry são como se fossem da família.- Molly havia se aproximado de Hermione, pousado a mão em seu ombro e baixado o tom de voz para que a garota se sentisse à vontade.- Fico muito feliz de tê-los aqui.


- Muito obrigada, Sra. Weasley!- Hermione sentia o rosto extremamente corado enquanto agradecia com sinceridade.


Logo, Molly já saíra da cozinha fazendo toda a bagagem de Hermione flutuar atrás de si. Bichento fora a única parte que sobrara, e agora se encontrava solto, ronronando embaixo da mesa, ansioso para que a dona lembrasse que ele estava ali.


- Como está o seu irmão?- Hermione falou, tentando parecer distraída, enquanto segurava o gato.


Gina fez uma cara de descrença misturada com aversão quando escutou Hermione falar de Rony daquela maneira.


- Rony está bem! Você pôde chamá-lo pelo nome, a propósito...


Hermione virou rapidamente o rosto em direção à amiga, um semblante de absoluta raiva querendo se formar.


- Calma, Mione!- Gina afastou o corpo instintivamente.- Só queria...bom...as coisas continuam...ahn...estranhas? Entre vocês dois?


Hermione tentava se concentrar no pêlo alaranjado do gato, mas até aquilo lembrava Rony de alguma maneira.


- Faz algum tempo que...- ela parou, aparentemente não querendo colocar aquele assunto em pauta com Gina.- Ah, esquece...


Gina aproximou-se mais da amiga, os olhos ansiosos.


- Por favor, Hermione! O que está acontecendo com vocês dois?


Hermione olhou curiosa para a garota.


- Por que essa curiosidade repentina? Você sabe tudo sobre...- ela parou, tentando escolher as palavras.-...você sabe como é o seu irmão...


Ela se decidiu por tentar desviar o que quer que Gina estivesse querendo saber. Parecia haver maiores questionamentos na pergunta da garota. Hermione tinha certeza de que a amizade delas passava por cima da maioria dos constrangimentos dessas perguntas sobre garotos, principalmente após todos os desabafos sobre o Baile de Inverno.


- Eu sei que meu irmão é um cabeça dura, provavelmente o Weasley mais teimoso...mas não é disso que estou falando.


Bichento pulou do colo de Hermione, não lhe dando escapatória a não ser olhar para a amiga.


- Recentemente, aconteceu alguma coisa? Vocês brigaram feio ou algo assim?


Hermione ficou paralisada. Por aquela, ela não esperava.


- Por que...?


- Ele está diferente, só por isso. Quer dizer, ele reage diferente quando falo de você...- Gina deu de ombros, alcançando um biscoito de um pacote de cima da mesa.


Hermione pareceu achar aquela conversa repentinamente muito interessante. Sentiu um calor subir pelo seu corpo, a imaginação trabalhando rapidamente, querendo acompanhar os batimentos de seu coração. Será que após todas as discussões, até conversas, Rony havia parado para pensar em tudo que acontecera?


- Antigamente, ele não tinha problema nenhum em tocar no seu nome. Não acho que ele realmente tenha agora...- Gina parecia estar reprimindo uma risada.- Mas fica extremamente formal quando falo de você.


Hermione permaneceu calada, encarando a amiga.


- Eu achei que você faria essa expressão. Então, nada de mais aconteceu?


- Gina- Hermione falou baixinho.- você sabe tudo o que aconteceu!


- Hum,certo...você está querendo dizer sobre a última cena de ciúmes que ele fez por você estar escrevendo uma carta ao Vítor? Ou a cara de tapado que ele ficou após um simples beijo no rosto que você deu a ele antes daquele jogo de quadribol?


Hermione abria e fechava a boca, incapaz de conter o que a falava. Gina parecia estar realmente se divertindo.


-...ou ele ter lhe dado um perfume realmente delicado no último Natal, enquanto ele presenteou o resto da família, incluindo a mim na categoria, com alguma coisa típica de quem nem se prestou a pensar no que comprar?- a garota literalmente ria.


- Gina!- o rosto de Hermione estava muito vermelho, mas ela não escondia o sorriso. Era bom saber que e amiga prestara atenção em seus desabafos. E principalmente, era bom saber que ela não era a única a valorizar todos aqueles acontecimentos.


- Eu achei que você podia ter esquecido de me contar algo, considerando que ele está todo estranho. Talvez um segundo beijo, mais ousado que o segundo e...- Gina falava muito baixo, um sorriso maroto tipicamente Weasley em seu rosto.


- Claro que não!- Hermione sabia que não deveria se sentir tão afobada com uma acusação de algo que não acontecera.- Nada disso, Gina.


Gina deu de ombros.


- Ok, então. Que emocionante.- debochou.- Achei realmente que vocês dois evoluiriam alguma coisa depois de toda essa novela.- a garota esboçou um beicinho.


- Só porque você tem um livro de histórias amorosas para contar, não significa que eu precise ter também!- Hermione riu. Largando a xícara de chá vazia em cima de mesa.


- Mas você tem o capítulo Krum!- Gina riu.


- Shh!- Hermione censurou a amiga antes que ela fosse longe de mais.- Fale mais alto da próxima vez, quem sabe o vampiro do sótão escute você...


- Espero que seu humor melhore, Mione.- Gina se levantou e ajudou a amiga a arrumar a mesa.


Hermione sentiu como se uma pequena luz se acendesse dentro de sua cabeça. Gina estava tão interessada em assuntos amorosos, que obviamente haveria algo de novo que ela queria contar.


- Como vão as coisas com você, Gina? Você só me bombardeou de perguntas desde que cheguei...é sua vez de falar.


Gina se virou sorridente para a amiga, aquela havia sido a deixa para que ela pudesse falar.


- Dino já me escreveu três vezes desde que cheguei!


- Isso é ótimo!- Hermione tentou reagir à altura da novidade da amiga.


- Mas Rony está querendo acabar com meu sossego, insiste em saber o que realmente está acontecendo entre Dino e eu!


- Você precisa relevar isso, Gina...seu irmão pode ser bastante insensível mesmo sem se esforçar.


Mal Hermione terminou de pronunciar a última palavra e observar a reação de Gina, divertindo-se com o comentário, passos anunciaram que mais alguém estava na cozinha.


- Obrigado pelo comentário, Hermione.- a voz tão conhecida por ela chegou ao seus ouvidos.


Hermione se virou bruscamente, esquecendo por um segundo onde estava. Ouviu a risadinha de Gina as suas costas e teve apenas a breve noção de que a garota estava saindo da cozinha, deixando os dois em uma situação constrangedora.


Rony tinha os dois braços cruzados firmemente no peito. Encarava a garota com um rosto que misturava a descrença pelo que havia escutado e a surpresa por ver a amiga na Toca tão cedo.


- Conversa interessante, essa que você e minha irmã estavam tendo.


Ele passou pela garota, a cara emburrada, fazendo Hermione sentir o sangue praticamente congelar nas veias. O que exatamente ele escutara?


- Quando foi que chegou?- Rony virou-se para ela, enquanto tomava um copo de suco de abóbora.


- A-agora mesmo...só estava...


Não fora desse jeito que imaginara o encontro com Rony, tão cedo quando há pouco tempo atrás haviam se despedido na plataforma. Como sempre, os acontecimentos na sua vida que envolviam Rony a pegavam desprevenida: eles nunca eram o que ela esperava que fossem.


- Posso saber por que eu recebi gratuitamente o adjetivo insensível no meio de uma conversa entre você e Gina?


Ele havia se sentado de frente para Hermione, que permanecia em pé, paralisada, aos poucos sentindo o alívio percorrer seu corpo ao se dar conta de que ele não escutara a parte da conversa de que haviam falado dele.


- Gina estava me falando que você não está sendo realmente um irmão compreensível...


- Sei exatamente o que vocês duas estavam conversando!- ele estreitou os olhos para a garota, enquanto Hermione sentava-se muito desconfortável na beirada da cadeira ocupada por ela anteriormente.- E caso você não saiba, Mione, Gina está tentando realmente tirar qualquer um do sério...primeiro aquele tal Miguel, agora Dino!


- Qual é o problema?- Hermione revirou os olhos, tentando controlar a respiração, feliz de ver Rony canalizar a conversa para outro lado, esquecendo o fato de Hermione tê-lo ofendido.


- Ela vai perder a conta desse jeito!- Rony parecia furioso, parecia estar desabafando algo muito mais complexo.


Hermione ficou concentrando-se em tudo que estava acontecendo dentro dela. Pensou, com calma, em como retomar uma conversa menos estressante.


- Rony...esqueça a vida amorosa de Gina por um segundo, está bem?- ela tentou falar com calma, mas pareceu que estava se dirigindo a uma criança de quatro anos de idade.


Rony a olhou ansioso, parecia querer adivinhar o que vinha a seguir.


- Você tem falado com o Harry?- ela perguntou, antes que ele pudesse ter um acesso de raiva.


O rosto de Rony, que parecia querer esboçar um sorriso, desmanchou.


Hermione sabia que fazia pouco tempo que haviam se separado, mas gostaria de saber como o amigo estava lidando com tudo.


- Hum...logo ele estará aqui, Mione. Ele deve estar bem, não se preocupe...


- Como você acha que você estaria lidando com uma situação dessas? Com toda a história do Sirius e...?


Rony pareceu impaciente, repentinamente.


- Acho que ele não vai demorar para vir para cá, e poderemos conversar com ele. Saber o que está se passando na cabeça de Harry. Papai falou que não irá demorar muito...


- Ótimo. Fiquei realmente preocupada. Sirius era a única família que tinha lhe restado...


Rony afirmou com a cabeça. Ele e Hermione não parecia ter muitos assuntos pendentes, pelo menos nenhum que quisessem trazer à tona.


Ouviram-se vozes muito alteradas no andar de cima. Hermione girou a cabeça instintivamente em direção ao barulho. Rony revirou os olhos, descrente.


- Não acredito que mamãe está tendo outro ataque!


- Ataque?- Hermione olhou assustada para o ruivo.


- Ah, é verdade! Você já subiu?- ele pareceu surpreso, os olhos arregalados, como se lembrasse repentinamente de algo que deveria falar para a amiga.


- Não! Rony o que...?


Antes que Hermione pudesse terminar de falar, passos apressados chegaram à cozinha, enquanto outra pessoa descia pelas escadas fazendo um barulho praticamente ensurdecedor.


- Se você não gosta da maneira que ela arruma, então não desconte em mim!- Gina parecia realmente enfurecida, e estava controlando todos os nervos para não ser mais mal educada com a mãe.


- Gina, ela é visita! Não custa você...


As duas pararam de falar quando uma terceira pessoa entrou no local. Molly e Gina pareciam constrangidas, torcendo para que a recém chegada não tivesse ouvido a discussão. Pelo sorriso que tinha estampado no rosto, não ouvira nenhuma palavra sequer, o que Hermione pareceu achar impossível, já que as duas estavam falando muito alto.


- Todos já estam acorrrdados!Se eu soubesse já terrria descido para ajudarr!


Mesmo que o cenário fosse diferente, mesmo que Hermione se sentisse tão em casa na Toca como no seu próprio lar, não pôde deixar de sentir um desconforto repentino se apossar dela, quando viu Fleur entrar na cozinha. Sentiu-se repentinamente desarrumada, despenteada, com roupas simples demais. Sabia que não era verdade, sabia que estava apenas sentindo-se insegura devido ao fato da chegada da garota.


Ainda sem entender, ela procurou por uma explicação no olhar de Rony, mas ele desviava o rosto, muito vermelho, querendo evitar que Hermione lhe bombardeasse de perguntas mentais.




- Então Fleur está aqui desde quando?- Hermione ajeitava lentamente suas coisas no quarto de Gina, enquanto a garota ficava sentada observando, o pé balançando impacientemente.


- Tempo suficiente para me tirar do sério. E a mamãe também.- Gina encarou a amiga e se levantou com um salto, indo ajudá-la com a arrumação.- Achei que meu irmão tivesse contado algo para você...em carta ou algo assim.


- Não! Acabamos de voltar de Hogwarts e...- Hermione deixou seu pensamento trilhar um caminho desconhecido, querendo associar porque Rony não lhe dissera logo que Fleur estava na Toca.


- Imagino que agora Gui vai querer ela sempre por aqui...inclusive após o casamento. Ele certamente vai querer que ela se sinta em casa.- Gina fez uma careta, finalizando sua parte na organização, colocando a cesta de Bichento em um canto do quarto.


Rony abriu a porta bruscamente, sem anunciar sua chegada. Hermione quase pulou tamanha sua surpresa, mas Gina começou a discutir com o garoto dando tempo para que ela se recuperasse.


- Está fugindo Roniquinho?- ela analisou o rosto vermelho do irmão.- A Fleuma deixa você nada a vontade, não é?


- Não é nada disso, Gina!- ele mirou Hermione.- Já terminou?


Hermione largou a roupa que tinha em mãos e olhou para Rony, querendo entender o por quê de ele ter vindo até ali.


O garoto entrou no quarto e se sentou na cama da irmã, que olhou com uma expressão de surpresa, a naturalidade com a invasão de seu quarto.


- Perguntei para mamãe. Harry virá em poucos dias e...- ele desviou os olhos de Hermione e encarou Gina, que agora parecia contente com o rumo da conversa.


Ele abaixou os olhos, mostrando para a irmã que não queria que ela ouvisse aquela conversa.


- Eu sei quando não sou bem vinda em uma conversa. Só não esperava ser chutada para fora do meu quarto.- ela cruzou os braços, pregando o pé no chão. Ela obviamente demonstraria resistência a sair dali.


Hermione se levantou e mirou Gina, pedindo desculpas com o olhar. Ela foi em direção a porta do quarto, ainda se comunicando com Gina sem utilizar palavras, querendo que a amiga entendesse que falaria qualquer coisa importante para ela, independente da autorização de seu irmão.


Rony seguiu Hermione, enquanto Gina bufava zangada de dentro do quarto. Hermione fechou a porta assim que Rony passou.


- E depois você não quer ser chamado de insensível, Ronald!- ele estava merecendo as ofensas que iria ouvir.- Será que você não poderia ter falado isso para mim em outra hora? Sem deixar completamente explícito que não queria que Gina ouvisse?


Rony começou a subir a escada em direção a seu quarto, Hermione seguiu ele pisando duro, querendo que o garoto a escutasse.


- Você mesma fez questão de falar para mim que ela não gosta mais do Harry!- ele entrou no quarto e analisou a expressão de surpresa no rosto da amiga.- Bom, não daquele jeito...


Hermione ficou parada na soleira da porta, sentindo-se repentinamente envergonhada de entrar no quarto do ruivo. Sentiu-se mais idiota ainda por saber que aquela situação estava a deixando desconfortável, considerando que sempre entrara naquele quarto.


- Por que ela ficaria zangada então? Eu queria falar para você, já que você havia perguntado sobre o Harry...- Rony abaixou o tom de voz, olhando para ela.


- Você sabe que independente disso eu vou contar para ela, não sabe? Sua irmã é minha amiga.


As orelhas de Rony ficaram vermelhas. Ele desviou o olhar.


- Só queria que você soubesse que está tudo certo para a chegada de Harry. Mamãe deixou escapar que quem irá buscar ele será Dumbledore.- Rony colocou um pouco mais de suspense na voz do que era necessário.


- Dumbledore?- Hermione esqueceu por um momento da situação de estar sozinha com Rony, entrou no quarto rapidamente aproximando-se dele.


- Ronald Weasley-


Rony pareceu ficar levemente incomodado com a aproximação repentina. Inclinou o rosto para trás.


- É-é...


- Então deve ser algo relacionado à Profecia! Só pode ser!- Hermione começou a caminhar em círculos pelo quarto, e Rony sabia que ela estava fazendo vários cálculos mentais pensando nas situações mais prováveis.- Ele e Harry provavelmente irão investigar mais a fundo, pesquisar formas de entender perfeitamente o que significava aquela esfera do departamento dos Mistérios...


- Ele contou para você o que dizia a Profecia?- Rony girou o corpo em direção à garota.


- Ele contou algo a você?- Hermione acusou com o olhar o amigo.


Rony não soube o que responder. Por que passara por sua cabeça que talvez a amiga soubesse mais do que ele?


- Não! Mas pensei que talvez...


- Dumbledore deve confiar mesmo no potencial de Harry para levá-lo assim, para uma missão...- Hermione continou a falar, parecendo esquecer da interrupção do amigo.


- Haarmainee!- a voz forçada de Fleur pareceu sobressaltar a garota. Rony instintivamente moveu-se mais para o fundo do quarto, querendo evitar que Fleur colocasse os olhos nele.


Hermione franziu o rosto, obviamente contrariada por ter que atender ao chamado da garota, que nem sequer sabia pronunciar seu nome corretamente.


- Sim?- ela saiu do quarto de Rony.


- Ah, estava me perguntand onde você estava! Molly querr que você e Ginevra encontrrrem ela no jardim.


Fleur sorriu com sinceridade para Hermione e depois se virou, descendo as escadas, os longos cabelos prateados sempre impecáveis sacudindo.


Rony surgiu por detrás de Hermione, cuidando para ter certeza de que a garota já se fora.


- Ela já desceu, Ronald.- Hermione suspirou, sem nem se virar, parecia ter certeza do comportamento dele.


- Ah, e-eu, é que...- ele gaguejou.


- Vou ver o que sua mãe quer.- ela já estava descendo as escadas. Rony a seguiu.


- Por favor não se ofenda, Mione...mamãe provavelmente só quer que você e Gina fiquem lá com ela para que a Fleuma- digo, a Fleur não possa ficar muito tempo ao redor dela.


- Com certeza vou ir lá ajudar sua mãe. Eu sei como a Fleuma pode ser desagradável como quer.- ela parou bruscamente, fazendo com que Rony quase caísse no meio das escadas.- Ainda não acredito que seu irmão se apaixonou por ela!


Rony sabia que ela estava falando muito mais com ela mesma do que com ele. Mesmo assim, sentiu-se envergonhado com o rumo que o assunto tomava.


- Essas coisas não se escolhe...não é?


Hermione ficou parada, ainda de costas para ele. Ele queria ver a expressão dela, saber o que ela realmente estava pensando.


Ela sacudiu a cabeça e correu para finalizar a descida das escadas. Rony esticou a mão, como se fosse chamá-la para saber se ela e Gina queriam ajuda no jardim. O jeito de Hermione foi o que fez ele parar. Ela não se virou mais para ele após aquele comentário espontâneo que ele fizera sobre sentimentos, e a última visão que ele teve foi dela atravessando a porta para a cozinha, passando a mão nervosamente pelos cabelos. Ele torcia para que por detrás do nervosismo, houvesse um sorriso tímido nos lábios da garota.




Harry parecia bastante confortável atirado no sofá. Rony lhe passou uma segunda garrafa de cerveja amanteigada e se sentou ao lado do amigo.


Ir embora da estação naquele dia, perdendo o trem de vista e sabendo que Hermione voltaria a rotina sozinha, havia lhe dado um aperto no peito. Porém, logo a correria de ajeitar tudo no pequeno apartamento de seu irmão havia roubado seus pensamentos e Rony reparou que, quando ocupava sua cabeça com algo, sentia-se menos triste por estar longe da namorada.


Harry bebia a cerveja olhando para o centro da sala. Pareceu tomar coragem para falar algo.


- Onde está o Jorge?


- No banho.- Rony olhou para o amigo.- O que você acha de enquanto isso decidirmos o que iremos jantar?


A barriga de Rony roncava alto e Harry riu. Rony sabia que era estranho para o amigo não estar de volta a casa dos Dursley, parecia levemente perdido. Ele mesmo estava confuso: achou que toda a arrumação do apartamento seria rápida, que dormiria na Toca naquele dia, mas agora estava tão cansado que estava pensando seriamente em dormir ali mesmo, no quarto que pertencera a Fred e que havia sido completamente reformado naquela tarde. Rony sentia-se satisfeito de saber que poderia contar a Hermione que aprendera diversos feitiços úteis para a arrumação doméstica.


- Hum...o que você estava pensando?- Harry franziu a sobrancelha, talvez tentando se lembrar do que havia visto na dispensa.


Rony perguntava-se a mesma coisa. Não haveria o suficiente para os três, haveria? Além do mais, nunca fora um bom cozinheiro.


- Não sei. Vamos dar uma olhada no que temos aqui.


Rony levantou-se no momento que Jorge entrava na sala, vestido com um moletom velho e calças jeans surradas.


- Roniquinho na cozinha? Perigo!- o garoto riu, Rony sentiu as orelhas queimarem.


- Precisamos comer alguma coisa, não é?


- Claro que sim, irmãozinho. Mas não pense que vou me arriscar desse jeito e comer algo que você cozinhe.- Jorge já estava abaixado procurando algo no balcão da cozinha, os cabelos ruivos pingando água.- Se eu quiser uma aventura como essa, posso pular de pára-quedas ou algo do gênero.


Rony deixou a vergonha de lado, a fome falando mais alto.


- Então que solução você tem?


Harry já estava de pé, próximo aos irmãos. Jorge tinha um livro grosso nas mãos, que Rony não reconheceu. Podia ver que tinha páginas coloridas, algumas amarelas. Jorge colocou sobre o balcão e começou a folhear.


- Nos primeiros meses quase passamos fome aqui.- Jorge riu.- Fred insistiu em tentar alguns feitiços culinários, mas desistiu bem em tempo!


Rony olhou para Harry, que também parecia surpreso em ouvir Jorge falar com tamanha naturalidade do irmão. Ele parou por um momento, parecia perdido em pensamentos. Rony não queria que ele começasse a chorar, nem que ficasse sentimental.


No começo, os gêmeos haviam ficado no pequeno apartamento em cima de sua loja, no próprio Beco Diagonal, mas com o tempo, resolveram arranjar um lugar maior, e não no local de trabalho, para que pudessem espairecer e ficar um pouco longe da movimentação das lojas. Logo após isso, a guerra ocorrera então Rony sabia que os gêmeos haviam aproveitado apenas alguns meses naquele lugar, o que talvez tornaria a adaptação de Jorge mais fácil.


- E...? O que vocês fizeram?- Rony falou, tirando o irmão de seus pensamentos.


Harry postou-se ao lado de Jorge, rindo consigo mesmo.


- Uma lista telefônica?- o garoto falou rindo tanto, que seus óculos quase escorregaram pelo nariz.


- Pode rir.- Jorge falou, percorrendo com o dedo uma página que lhe parecera interessante.- Nossas vizinhas aqui de cima sempre vinham até aqui, com desculpas esfarrapadas de que queriam açúcar ou algo assim emprestado. Claro, nunca tínhamos nada.


Rony ainda não entendia do que eles estavam falando.


- Elas nos sugeriram então, que deveríamos comprar um telefone, sabe, e fazer um bom uso dos vários serviços de tele-entrega disponíveis.- O ruivo riu e Harry o acompanhou.


Rony ficou boquiaberto.


- Do que é que vocês estão falando?


Jorge apontou um aparelho escuro, do lado da bancada. Rony sentiu o estômago despencar: lembrava-se claramente de ter tentado se comunicar com Harry, em uma de suas férias, com um telefone. A experiência, é claro, não havia sido bem sucedida.


- Então vocês aprenderam a viver como trouxas?- Harry falou empolgado.- Mesmo estando tão próximo do Beco Diagonal? Você está me dizendo que sabe lidar com dinheiro trouxa também?


- Claro que sim.- Jorge tentou fingir que estava ofendido.- Assim sobrava muito tempo para que conversássemos com nossas vizinhas.


Os dois riram e Rony tentou rir também, imaginando se as vizinhas sabiam o quão diferentes eles eram, e se sabiam o que havia acontecido com Fred.


Jorge já estava discando, indagando Harry sobre o que ele gostaria de comer. Rony tentou opinar, mas os dois pareceram achar uma boa idéia deixá-lo de fora da escolha. Felizmente,quando a comida chegou, Rony percebeu que eles não haviam esquecido dele.


Sentaram-se a pequena mesa na cozinha apertada e começaram a abrir as embalagens. Harry parecia tão incerto em relação àquilo quanto Rony. Certamente os Dursley jamais permitiriam que ele pedisse algo bom para comer, muito menos lhe dariam dinheiro para tal.


Em pouco tempo, o barulho de latas de refrigerante sendo abertas e pratos batendo contra a mesa tomaram o local. Rony comia rápido, surpreso por estar gostando tanto de comida e bebida de trouxas. Jorge começara a narrar os diferentes tipos de restaurante que já haviam conhecido, e Harry tentava interagir, porém seu histórico de conhecimento de grande cidade era parecido com o de Rony.


Logo, eles estavam cheios de comida e sonolentos. Rony estava jogado no sofá da sala, Harry jogara-se no tapete, e tinha um olhar curioso.


- Não é meio suspeito, corujas voarem para cá em plena luz do dia?- ele olhou para Jorge.- Quero dizer, como iremos nos comunicar?


- Ah, não se preocupe.- Jorge terminava de lavar a louça com um aceno da varinha.- Normalmente as cartas vão para a Loja, poderemos verificar assim que chegarmos lá.


Rony fez uma anotação mental para ir a loja no outro dia, verificar se Hermione já teria lhe escrito algo, mesmo que eles ainda não fossem voltar com o comércio naquele momento.


- E vocês iriam se surpreender se soubessem o número de bruxos que mora nesse prédio!- Jorge riu, indo para a sala para se juntar a eles.- Claro que a maioria das famílias bruxas prefere povoados mais pacatos, afastados da cidade. Mas alguns precisam morar por aqui, no meio da cidade onde tudo acontece.- Jorge piscou para eles.


Rony tentou se ajeitar no sofá, mas sentia-se pesado e com sono.


- E como você sabe que há mais bruxos aqui?


- Tem um velinho que mora no térreo que passava sempre em frente a nossa loja no Beco Diagonal. Mas ficou com medo de que estivesse me confundindo, e demorou um tempo para conversar comigo.- Jorge virou o resto de seu refrigerante, olhando para os lados, talvez em busca de uma cerveja amanteigada.- Ele puxou um papo meio neutro, alegando que tinha ido buscar seu Profeta Diário no Beco novamente, pois infelizmente não podia recebê-lo em casa.


- Achei que poderíamos usar nossas corujas!- Rony falou, preocupado.


- E podem! Mas de vez em quando. Não abusem.- Jorge recolheu as garrafas vazias com um aceno de varinha e acenou para que fossem para a cozinha.- O melhor é mandarem qualquer correspondência da Loja. Chama menos a atenção.


Rony afirmou com a cabeça, para que Jorge soubesse que ele entendia. Sabia que há algum tempo atrás, o fato de várias corujas voarem durante o dia havia causado alguns problemas para o Ministério. Ali, numa rua movimentada, todo cuidado era pouco.


Rony desviou a atenção da conversa, sentindo seu corpo ficar cada vez mais entorpecido. O tempo passava e o fato de estar com Harry e Jorge não estava acalmando a ansiedade que se formava dentro dele. Ele achou que conseguiria ficar distraído, concentrar-se na diversão de morar como um trouxa.


Jorge tinha ido em direção ao quarto, resmungando que terminaria de arrumar algumas roupas jogadas. Rony mirou Harry, que parecia estar incrivelmente concentrado fitando o nada.


- Harry?


O garoto o olhou. Rony sentiu o peso da situação de morarem sozinhos. Era quase como se estivessem de volta a viagem pela busca das Horcruxes, Harry tinha o rosto cansado e ele sabia que ele também não deveria ter a aparência melhor. Obviamente ambos estavam se sentindo da mesma maneira, perdidos.


- Sim?


Rony tomou fôlego, encarou os próprios pés evitando encarar o amigo naquela hora.


- Sei que é muito cedo, mas não seria uma surpresa se não fosse tão repentino...


Harry aguardou, os olhos azuis visivelmente curiosos por detrás dos óculos.


- O que você acha de fazermos uma visita a Hogwarts? Ainda essa semana?


Harry sentou-se mais ereto no sofá, um sorriso quase infantil em seus lábios. Rony não gostava de pensar que o interesse do amigo era em ver Gina. Afinal, ele sabia que ele próprio pensava muito mais em ver o rosto surpreso de Hermione do que as paredes do saudoso castelo.


Os dois tinham o rosto com a expressão parecida. Pareciam estar prestes a ingressar em uma nova aventura. A sensação de fazerem algo inesperado lembrava a infância, onde muitas vezes haviam feito coisas impensadas, sem se importar com o que os professores iriam falar.


Harry respondeu, antes que Rony pudesse começar com seus argumentos.


- Quando você estava pensando em ir?


A decisão ficou subentendida, a discussão da melhor data se perdeu para que fosse logo discutida. Uma risada espontânea se seguiu, os dois amigos se entenderam. Rony sentiu-se eufórico só de imaginar o rosto de Hermione quando ele aparecesse em Hogwarts logo na primeira semana.


Jorge voltou à sala naquele momento, e as novas conversas agora tinham um tom mais alegre e natural. O humor de Rony provavelmente se manteria assim, enquanto ele tivesse algo por que esperar. E estar com Hermione, saber que ela estava na sua vida para sempre, lhe dava motivos suficientes para se sentir completo.

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