CAPITULO 141 - APEGO A VIDA
Hermione olhou pela janela, curvando-se o máximo que pode, e viu Duram lá embaixo, aflito, olhando em volta. Angustiada sobre o que teria que fazer, apanhou a lamparina e colocou no bolso do avental de couro macio que ainda vestia.
Uniu os dois lençóis com um poderoso nó. Rezava para aquele nó agüentar o bastante para que pudesse descer até o telhadinho. Amarrou o lençol num buraco entre a janela e a parede, e rezou novamente para que agüentasse seu peso.
Uma queda seria fatal no seu estado. Não mais fatal que o machado de Margarite ou as mãos de Malfoy.
Criando coragem, tentou sentar na beirinha da janela. Era impossível passar por ali. Exasperada, e a beira das lágrimas de frustração, ela tentou novamente. Ergueu uma das pernas o máximo que pode e ficou entalada.
Oh, droga. Fez uma nova tentativa, se encolhendo de tal modo que achou que sufocaria. Metade do seu corpo saiu. Respirou fundo, colhendo ar.
Agarrou no lençol e começou a soltar o corpo.
Seu peso a fez cair contra a casa, só por milagre não se chocou contra a parede. Deus estava ao seu lado, pensou. O tecido era instável em suas mãos e esquecendo os perigos e os medos, foi descendo. No meio do caminho ouviu o som de um rasgo e soltou o lençol antes de atingir a segurança de um chão sólido sob seus pés. Caiu sentada sobre o telhadinho.
Levou um segundo para confirmar que não estava machucada.
A dor embaixo da barriga havia crescido e se acentuado nas últimas horas, e ela estava quase se habituando a ela, dadas as circunstâncias.
Se estivesse em casa, há essa hora Juanita teria lhe preparado um banho relaxante e preparado tudo para um possível parto.
Lembrar de Juanita trouxe lágrimas aos seus olhos.
Moveu-se cuidadosa, se arrastando no telhadinho, pois não tinha a agilidade de Duran. E muito menos seu corpo lhe permitia grandes movimentos.
Desesperada, se perguntou como poderia descer por ali.
A viga era de madeira e estava podre. E era tão lisa quanto pau de sebo! Olhou para baixo e viu Duran erguer os braços em sua direção como quem assegura que a irá segurar se cair.
Nunca daria conta de seu peso todo. Mas que alternativa tinha? Conseguira passara para janela e descer, não conseguira? Estava a meio caminho da liberdade!
Impulsionada pelo desejo de proteger seu filho, Hermione se arriscou. Desajeitada e consciente que era um salto no escuro, começou a descer. Sua barriga era impossível de conciliar com a descida. Meio de lado, meio agarrada, completamente insegura começou a escorregar.
-Santo Deus! – ela sussurrou, sufocando o grito quando caiu em alta velocidade.
Caiu em cima de algo macio e caiu sentada. Olhou em volta e se apressou a sair de cima do ‘algo macio’. Duran havia amortecido a queda.
-Eu consegui – ela disse baixinho.
Não teve tempo para comemorar. Ouviram um grito de fúria vindo da casa.
-Eles descobriram – ela concretizou, a conclusão obvia.
-Vamos correr para o mato – O menino que havia levantado, segurou sua mão e ajudou-a a correr em direção ao bosque, de intensa mata.
Hermione não podia correr. De modo algum. Podia descer janelas e escorregar por vigas soltas, mas correr estava além das suas forças...
Forçando o corpo ao máximo, descobriu que era em vão quando os passos atrás deles ficaram cada vez mais próximos.
-Não vamos conseguir! – ela desesperou-se.
-Por ali! – Duran incentivou, sempre olhando para trás – Siga por ali!
-Não me deixe sozinha! – ela parou em pânico quando o menino seguia para outro lado.
-Vou fazer barulho e atraí-lo para cá. Não sabem de mim, acham que está sozinha e pensarão que sou você. Se continuar nessa direção vai chegar em casa em um dia, ou menos que isso.
Ele tinha razão.
-Não posso ficar sozinha – ela implorou, olhando para trás quando o som de vozes pode ser ouvida.
Contrariando sua lógica e toda sua razão, seguiu pelo lado indicado pelo menino e rezou para que ele não fosse apanhado.
O mato fechado impedia que se locomovesse com facilidade, sua roupa enganchando em troncos, galhos e arbustos. Mas por outro lado, dificultaria que a vissem, pois o anoitecer caia rapidamente.
Poderia ascender a lamparina, mas atrairia atenção sobre ela. Aliviada por não ouvir passos atrás de si, esperou por um instante, esperando, talvez que Duran a encontrasse.
Como o silêncio seguia alem do som arfante de sua respiração, ela desistiu de esperar.
Andando novamente, foi obrigada a parar quando a dor ficou mais forte.
Apoiada em uma árvore, ela sentiu o corpo dobrar pela pressão da dor. Uma facada que percorria seu ventre de dentro para fora.
Mordeu os lábios para sufocar o grito de dor. Escorregou no chão e se ajoelhou, ficando assim por vários minutos. Não havia como levantar. Cega pela dor, esperou que seu corpo voltasse a relaxar.
Uma eternidade depois, ou meros segundos, não sabia, a dor foi embora, como se nunca houvesse provado de sua intensidade. Suas pernas trêmulas sustentaram seu peso, e ela seguiu andando a passos lentos até sentir-se mais segura de que a dor não voltaria.
Era um caminho difícil e longo, e precisaria andar rápido se quisesse vencer a distância entre sua casa e o lugar onde ficara aprisionada. Precisava estar segura para ter seu filho e precisava que encontrassem o menino de Juanita, pois nunca se perdoaria se ele morresse!
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Malfoy jogou o menino no chão. Ele estava desmaiado depois de ter apanhado bastante por tentar derrubar um homem com o dobro do seu tamanho.
-Onde ela está?
Margarite gritou assim que pôs os olhos sobre ele. Já estava nervoso, e seus gritos apenas aumentaram seu nervoso.
-Fugiu!
-Como? Fugiu? Não conseguiu encontrar uma mulher grávida? – ela não acreditou – Será que não serve para nada nessa sua inútil vida?!
-O garoto ajudou-a a fugir? Não vê? Como isso foi acontecer?
Ele andava pelo pequeno espaço da casa, a fúria obrigando-o a quebrar vários objetos em seu caminho.
-É inacreditável! Malfoy, seu inútil! – ela seguiu acusando – essa mulher é o demônio! Não foi o que disseram? Que podia se livrar de qualquer um? Está aí a prova!
-Evaporou mato a dentro – ele disse desacorçoado – Evaporou!
-Menos mal, ao menos há de morrer. Não vai conseguir seguir por muito tempo. Com sorte, morre antes do amanhecer!
-Está louca? – Malfoy agarrou-a pelos braços, sacudindo-a – Está falando da minha mulher!
-Não! – Margarite rebelou-se, os lábios vermelhos e graúdos sorrindo com desdém - Estou falando da mulher de outro homem! De uma mulher que não o quis! Ouça Malfoy – ela tentou acariciar seu braço e acalmá-lo – Perdemos. É fato. Resta-nos sair dessa situação. Vamos esperar. Em um ou dois dias ficaremos sabendo de sua morte. Então, partiremos para o interior. Uma cidade longe o bastante para não imaginarem que poderemos nos refugiar ali! Em um ou dois anos, voltaremos a Londres! Draco...
-Cale a boca! Eu não vou a lugar alguém sem Hermione!
Em sua fúria, jogou Margarite no chão. Ela se apoiou nas mãos e limpou o sangue do rosto. Havia batido a face com toda força contra o chão podre. Biltre!
-Vá atrás dela! Morra tentando recuperar uma mulher que não é sua! Seu bastardo! – ela gritou, levantando e se afastando dele.
Se Malfoy pretendia se destruir, ela não o acompanharia!
-Não sei o que deu na minha cabeça para me aliar a você! Um homem sem escrúpulos! Sem honra!
-Fala de mim? - ele riu, furioso – Olhe para você! Seus atos são atos de uma mulher sem vergonha e sem caráter! De quem foi à idéia de seqüestrar uma mulher a beira do parto?!
-Minha! Mas há uma diferença entre nós dois, Malfoy – ela ficou a centímetros dele, soando muito clara e coesa – Eu o faço por dinheiro. Pego, e vou embora. Você não. Mente. Inventa um sentimento que não existe! A tortura que essa mulher está passando se deve ao seu egoísmo! Em minhas mãos, estaria morta e pronto!
-Grande coisa. – ele fingiu não ter ouvido, sua atenção voltada para uma presa mais fácil.
Deveras, não tinha coragem de enfrentar um oponente a sua altura. Agarrando o menino pela camisa, ergueu do chão, encarando seus olhos em busca de respostas:
-Onde ela está? – sacudiu o menino, que nada respondeu – Responda, moleque! Onde está Hermione?!
Duran manteve a boca fechada, mesmo quando Malfoy passou a acertá-lo com poderosos chutes.
-Não vê que o menino é mudo? – Margarite ironizou – É perca de tempo e energia! Deixe-a morrer! É muito melhor para nós! Não haverá acusação formal se não encontrarem o corpo! Pense!
Malfoy ignorou-a. Seguiu batendo no menino até fazê-lo desmaiar novamente.
Malfoy parou, arfado pelo esforço de espancá-lo. Sentia-se melhor. Agora precisava decidir como faria para recuperar a sua Hermione.
Sua mente tentava achar uma saída, procurando uma solução prática. Não era um homem que pudesse se aventurar mata a dentro. não conhecia aqueles caminhos e era bem possível que se perdesse também.
Furioso, acertou um murro na mesa, ouvindo o som da madeira podre quebrar sob seu punho.
O som não foi maior, porém, que o som da porta sendo arrombada.
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As horas sobre o cavalo deveriam ter acabado com sua resistência, mas Adolph mal se sentia cansado. Havia lamentado o caminho que escolhera, ao notar o erro. Não havia nada naquela direção a não ser mato.
Pretendia voltar, a admitir o erro de julgamento quando avistara fumaça. Era um indício de que havia uma casa, ou uma fogueira, e nos dois casos, apenas humanos poderiam ser responsáveis.
O galope do cavalo poderia ser cansado, depois tantas horas de trote, mas contrariando a lógica física, ele seguiu rapidamente pela clareira em direção ao mato fechado.
Adolph precisava corrigir seu grande erro. Deveria estar cuidando da segurança de Hermione Wesley, e não flertando e desencaminhando uma mãe de família! Por sua ausência e imaturidade, e, sobretudo ingratidão, tanto sua doce patroa estava correndo risco de vida, como seu filho.
Um filho que jamais tivera a oportunidade de saber que existia. De qualquer modo, não teria feito diferença. Fora vendido por seu dono, e como escravo não teria alternativa a não ser partir. Ficar, seria colocar em risco a vida da mulher que amava, e com certeza condenar seu filho a escravidão, visto que muitos filhos de escravos eram tomados por seus donos.
Graças à vida, que em parte, lhe fora generosa, havia sido libertado. Alforriado, seguira mundo a fora tentando encontrar trabalho e uma parada.
Não houvera muitas oportunidades em sua vida para o amor. Várias mulheres, mas nenhuma grande paixão desde que se apartara da jovem que conhecera naquele bordel, tantos anos atrás. Julgava que ela não lembrasse mais dele.
Estava errado, e agora essa mulher não poderia ser dele. Tinha um bom casamento e como homem, podia ver claramente que Suarez era a segurança que ela merecia. Nenhum deles era mais uma criança cheia de sonhos.
Havia um casebre no meio das árvores. Adolph apeou do cavalo e o prendeu em uma árvore. Com a arma em punhos marchou decidido em sua direção.
Outro homem ponderaria as opções, ele, no entanto, não faria isso. Precisaria ser um homem de letras como seu patrão ou um menino inteligente como Duran vinha se tornando, para elaborar planos eficazes.
Ele conhecia apenas a força bruta. Invadir e resgatar. Era isso que conhecia, e passara sua vida toda fazendo isso, enquanto defendia seus donos, e posteriormente seus patrões.
Sem meias palavras. Em frente à porta, ele ergueu a perna e chutou a velha porta do casebre.
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O frio perturbava sua caminhada lenta. Suor corria em sua face, mas ela não parou. Continuou enquanto ainda tinha forças. Sentia que em breve teria que parar definitivamente.
Assustada, novamente procurou uma árvore para se apoiar quando outra onda de dor a correu. Dessa vez estava prevenida, e ajoelhou-se no chão segurando-se firmemente, para não cair e ao mesmo tempo ter algo para apertar enquanto a descarga de dor endurecia cada célula do seu corpo e trasbordava por seus poros em gemidos agoniados e suor excessivo.
Era a quinta vez que precisava parar. Estava andando a umas três ou quatro horas.
A dor vinha e ia embora em passos longos o bastante para acreditar que teria tempo de chegar em casa. Ou ao menos, estar perto o bastante para ser encontrada.
Tinha certeza que estariam procurando por ela. Rony, pensou, em meio a dor.
Ele deveria estar em pânico. Assustava-se com o menor gemido dela, e agora deveria estar contando as horas, imaginando-a tendo seu filho nas mãos de Malfoy.
Sempre sensível a possibilidade de vê-la sofrer, imaginou sua expressão se a visse agora, se contorcendo, toda suja, suada e num estado lamentável.
Queria tanto que ele estivesse ali para segurar sua mão nesse momento. Segurá-la, e ajudá-la a se erguer e recomeçar a andar. Sua força seria o bastante para empurrá-la na direção certa.
Mas ele não estava ali.
Estava sozinha. Passada a dor, vinha o cansaço, com o qual lutava, na esperança de poder seguir. Queria voltar para casa.
Essa idéia martelava em sua mente.
Voltar para casa.
Por um momento, desistiu de lutar e ficou no chão, agüentando o frio da noite, sem saber que não se passara tanto tempo quanto acreditava, e estava longe de ser noite alta. A mata fechada encobria o céu e seus olhos nublados de lágrimas não distinguiam muito a realidade da fantasia.
Sua casa.
Recostou o ombro contra o tronco da árvore, e abraçou a barriga, pendido desculpas ao filho. Queria embalá-lo e protegê-lo, mas não podia fazer nada além de andar.
Queria sua mãe ao seu lado, ajudando-a a se tornar mãe. Queria Juanita dizendo-lhe como fazer isso e, sobretudo, queria os braços de Rony em volta de si, dizendo em seu ouvido que tudo ficaria bem.
Nada ficaria bem, disse a si mesma.
Enquanto estivesse caída naquele chão nada ficaria bem. Criando forças, levantou-se e puxou ar antes de recomeçar a andar. Uma das mãos segurava a barriga por baixo, pois ela pesava mais a cada passo e tinha a nítida e desesperadora impressão que o bebê havia se movido e descido muito, e por isso sua barriga estava tão baixa.
Precisava seguir. Não podia desistir agora. A cada passo se aproximava mais e mais de casa.
Hermione seguiu mais uma meia hora por entre as árvores, até chegar próxima a um vale de grama mais fina e árvores mais altas. Quase chorou de alivio. Conhecia aquele caminho, era um atalho que Gina e ela usavam para brincar longe de casa e ainda assim chegarem na hora certa para o almoço e fugirem das surras!
Deus ouvia suas preces.
-Só mais um pouquinho, bebê. Só mais um pouquinho e estaremos em casa...
Sua voz soou tão tremula e chorosa que ela não se reconheceu. Usava a mão livre para ir se apoiando nas árvores maiores e não correr o risco de escorregar caso voltasse a dor.
Foi num desses momentos com a mão erguida em direção a um tronco que ela sentiu um toque muito suave na palma. Um pingo de água.
Sua face ergueu-se para cima instintivamente.
Começava a chover.
Beta: Definitivamente Marja, você é cruel!!! To preocupada com o Duran, qnd o Adolph chega, sacanagem, q raiva deu, ele teria salvo ela!!!
Autora: não vou comentar esses capítulos ainda. Só quando terminar a seqüência é que falo deles...
Gente, as inscrições acabam hoje a meia noite para o concurso da capa da fic!
Bjs