CAPITULO 139 -COMO NUNCA
A fazenda Gueen finalmente estava habitável e de acordo com o gosto refinado de Harry, e eles puderam se mudar. Hermione estava na frente de casa, acenando para eles, com um misto de dois sentimentos contraditórios. Felicidade por ver Gina tão feliz indo para sua nova vida, e tristeza por não ter sua melhor amiga perto dela.
Hermione usava um vestido de tecido grosso, feito por Juanita há uma semana atrás, era o único que acomodava sua barriga com aconchego e naturalidade, permitindo que se movesse e sentisse o conforto de estar arrumada. Usava um avental de couro macio sobre o vestido, um que Adolph fizera para ela, usando a pele que sobrara de um novilho que eles sacrificaram há três semanas, para comemorar o casamento de Duran.
Adolph era um achado. Bom com facas. Bom com armas. Forte. Sabia lidar com couro. Era ótimo com ferraduras.
E confiável.
-É melhor entrar, Hermione – Juanita chamou da porta.
Ela sorriu e concordou.
O vento tinha aumentado, e seus cabelos estavam revoltos. Faltava menos de uma semana para o parto, e Juanita a mantinha em um casulo.
Confiando em seus cuidados, ela deixou-se levar para o quarto, onde Ruanzito tirava uma soneca. Adorava cuidar do menino, mas agora, as portas do parto, sua carência havia aumentado.
E só Deus entenderia porque a filha de Lilá dormia em sua cama, ao lado do menino. Precisava de uma criança por perto. Precisava segurar uma criança. Estava ansiosa demais.
O conde havia se apegado a menina, pois estavam no mesmo hotel, e Elly parecia encantada por ter uma criança perto. Começava a recuperar suas lembranças, mas nada que mudasse o passado. Nada que mudasse o amor que havia entre eles dois.
A primeira vez que o conde trouxera a menina numa visita, Hermione sentira-se traída, até descobrir que a pobrezinha não havia sido batizada até o conde fazê-lo. Era padrinho daquela menina, mas não compactuava com sua mãe.
Uma mãe que a abandonava trancada no quarto de hotel, e pelo visto, retornara a vida de cortesã quando o tolo do Mathias não estava por perto.
Como poderia culpar o conde de se apegar a uma criancinha tão bonitinha e afetuosa?
Suspirou e deitou-se um pouco, querendo descansar. Depois de alguns minutos adormeceu. Vinha sentindo muito sono. Juanita conferiu se estava bem e dormindo e voltou para a cozinha.
-Vou buscar uma coisa e já volto - Juanita disse para Anna que amassava pão.
Ser sua escrava particular estava cansando a bondosa Anna, que só fazia trabalhar. E havia o detalhe nada discreto de dormir separada do marido. Duran dormia com os irmãos e ela dormia na casa, no quarto vago ao lado da patroa. Desculpas, haviam milhares, mas o rancor a compeliu a responder:
-O senhor Suarez está no celeiro. O vi agorinha a pouco.
Juanita parou de se ajeitar e olhou para a nora com ódio mortal; aquela demônia sabia de seus encontros clandestinos com Adolph. Sua vontade era cortar a língua dessa fedelha. Conteve as palavras ásperas e a vontade de torcer seu pescoçinho alvo e magrinho e fez a única coisa digna:
-Vá cuidar de Hermione. Termino aqui.
-Não precisa – Anna piscou, querendo agradá-la a todo custo – Estou terminando. Porque a senhora não descansa?
-Não tente me agradar, menina! Paparicos não vão me fazer gostar de você!- Alertou, irritada.
-Eu sei disso – Anna disse envergonhada e baixinho, olhando para o pão.
Juanita deixou-a, fervendo por dentro.
Era madura o bastante para saber que estava acabando com o casamento do filho. Separara o casal. E torturava a menina. E tudo por não conseguir administrar o ciúme que sentia do filho. O medo de vê-lo sofrer.
Suarez estava no celeiro e não poderia ver Adolph escondido. Eles se viam, e às vezes ele a beijava. Em momentos de pouca lucidez deixava-o beijá-la. Então, o juízo voltava e ela sentia-se culpada.
Desgraça de vida, pensou ao passar pelos homens que trabalhavam. Um deles lhe disse que Suarez havia seguido em direção a fazenda dos Wesleys, por conta de um problema na cerca daquele lado. E que o patrão havia ido junto.
Mais animada, quase correu para o bendito celeiro.
Dentro de casa, Anna terminou de amassar o pão e colocou nas formas e então no forno. Que Deus a perdoasse, mas bem que sua sogra podia cair e bater a cabeça. Não precisava morrer, mas podia ficar em como por vários anos...
Anna fez o sinal da cruz e pedir perdão pelos próprios pensamentos. Ouviu o som de passos, e certa que era a patroa que acordara sorriu e se apresou para o quarto.
-Sra. Hermione? Gostaria que eu preparasse seu banho?
A resposta veio da sala, na forma de uma forte pancada em sua nuca. Ana escorregou para o chão, e ficou ali, imóvel. Havia sangue a sua volta.
Hermione acordou com um barulho a sua volta. Seus olhos fitaram as crianças que dormiam ao seu lado, e tentou se mexer quando sentiu o hálito quente em sua face. No mesmo instante em que olhou para quem estava tão perto teve os lábios cobertos por uma mão pesada.
-Quietinha – o homem disse com voz sorridente e pastosa – Quietinha, não vou te machucar, minha deusa de fogo. Apenas fique quietinha.
Hermione arregalou os olhos ao reconhecer o homem. Pânico correu em suas veias ao ter a arma apontada para seu rosto.
-Eu não a machucaria - ele disse carinhoso – Mas posso dar um jeito nesses dois do mesmo modo que fiz com sua empregadinha...
Hermione pensou em Anna. Que Deus a protegesse desse homem.
-Vamos levantar e vai me acompanhar quietinha, ouviu? Não me obrigue a atirar na sua barriga.
Não precisou falar duas vezes. Ele soltou sua boca, mas a arma era suficiente para calar seus gritos. Não podia correr. Não podia gritar. Em outros tempos arrancaria seus olhos, mas hoje, tinha que pensar em seu filho.
-Vamos dar um passeio, meu sonho – ele seguiu falando, enquanto andavam para a porta.
Andaram pela casa apressadamente. Ela abafou um grito quando viu Anna no chão. Teria se abaixado e ajudado, mas ele agarrou seu braço segurando-a com tanta força que temeu ter quebrado um osso.
Eles seguiram até a porta dos fundos. Adolph deveria estar ali. Algum dos homens de Rony deveria estar ali!
-Não se preocupe, dei um jeito nos infelizes que deveriam estar cuidando de você. Nada poderá nos afastar agora. Em breve estaremos livres de tudo que ousa nos separar.
Ela não respondeu. Esperava algo acontecer. Algo tinha que acontecer.
Eles saíram da casa e não havia ninguém nas redondezas. As galinhas cacarejaram assustadas quando os dois cruzaram o caminho entre elas, em direção a cerca que delimitava as terras.
Aquele caminho não era muito usado, mas era um atalho para a estrada.
Quase não podia acompanhar seus passos rápidos, apoiando as mãos embaixo da barriga, rezando para não tropeçar. Tinha que achar um jeito para escapar. Precisava fugir.
-Nem pense nisso – ele disse em seu ouvido. – Eu a mato aqui mesmo. Está me entendendo?
Ela não disse nada, apenas continuou andando. Quando chegaram a um grupo de árvores, ela pensou ter visto um movimento próximo a eles. Era um pé. Alguém se escondia, e se escondia muito bem entre as árvores.
Se apegando a esperança de alguém ter visto, continuou andando. Fizeram a volta pelas árvores e ela tropeçou ao ver a estrada. Havia uma charrete apoiada contra uma árvore, e uma mulher conduzindo-a.
Desesperada, olhou em volta procurando um meio de se salvar. Sua única salvação era se alguém a visse. Mas como se fazer notar sem atrair sua ira.
-Nem pense nisso. – ele voltou a sussurrar em seu ouvido – Não estou brincando. Não vai querer que eu prove, não é?
O cano da arma colocado contra suas costas gelou até sua alma. Placidamente seguiu o caminho junto dele.
Na charrete a mulher olhou para eles impaciente, e Hermione foi empurrada para que subisse. Desajeitada, conseguiu depois de algumas tentativas.
A charrete sacudiu quando foi empurrada para trás, no fim do banco. Ela não viu, muito menos Malfoy, que não foram os únicos a subirem na charrete. Embaixo dela, entre as rodas, Duran se agarrou a madeira, resistindo ao pó da estrada de terra e ao medo.
Não havia tempo de chamar ajuda.
Então, ele seria a ajuda.
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Juanita correu de volta para casa quando ouviu o som de pessoas se aproximando. Hoje, havia trocado alguns beijos. Isso tinha que acabar. Ela ousou o choro de Ruanzito ainda no pátio.
Será que Anna era surda ou não servia nem pra acalmar uma criança? Irritada, entrou em casa e foi para o quarto. A menina daquela cortesã ainda dormia, mas Ruanzito estava aos prantos. Ela acalmou-o, estranhando ver a cama vazia e os sapatos de Hermione no chão.
Ela acalmou o menino por algum tempo gritando pelo nome de Anna. Que garoto mais irritante! Com o menino no colo, foi atrás dela. Nada de Anna na cozinha. Seguiu para sala, e seus pés bateram em algo. Olhou para o chão, como quem olha para um estorvo, achando que poderia ser algum brinquedo esquecido no chão e que Anna não se dera ao trabalho de recolher.
Amaldiçoando a menina em pensamento pelo relaxo, e já preparando previamente o discurso de xingamento, arregalou os olhos ao ver a menina banhada em sangue. Paralisada pelo susto, olhou em volta e então percebeu que a ausência de Hermione não era coincidência.
Com o filho nos braços, Juanita saiu correndo aos gritos.
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Rony voltou para casa ao ser avisado por um dos empregados que havia acontecido alguma coisa. Pensou se tratar de algum acidente de algum trabalhador. Isso até ver Juanita aos prantos na cozinha.
-O que aconteceu?
-Mataram a menina. Anna... Hermione não está mais aqui.
Direta e sem rodeios.
Ele entrou correndo em casa, e avistou a menina no chão, banhada em sangue. Suarez vinha logo atrás dele. Haviam dois empregados que moviam a menina e a tiravam do chão. Rony notou que seus olhos tremulavam, como se estivesse acordando.
-Anna? – ele a chamou, quando eles a colocaram no sofá – Anna!
-Senhor... – ela sussurrou, a dor tão forte que não pode abrir os olhos.
-Onde está Hermione? – teve ímpetos de sacudir a moça, mas ela tinha uma ferida feia na cabeça – Onde ela está?
-Não sei... Alguém... Oh... – a dor a calou.
-alguém esteve aqui? Alguém a atacou? É isso? – sabia que gritava.
-Sim... Um homem... Eu pude vê-lo... Ou posso ter sonhado. Eu não sei... – ela fechou os olhos lutando para não desmaiar novamente.
-Diga como ele é. Diga alguma coisa! – exigiu, lutando contra a vontade de arrancar dela cada palavra – Era alguém conhecido?
Anna começou a chorar. Ele fitou a expressão desamparada da jovem e segurou seu rosto para que olhasse para ele.
-Diga de uma vez!
-Foi o homem que me desonrou... Que matou minha mãe - ela chorou ainda mais.
Rony achou que estivesse mesmo sonhando ou delirando pela pancada. Não havia a menor possibilidade de esse homem ter ago a ver com eles.
-Oh, pobre senhora, se caiu em suas mãos... – ela chorou ainda mais.
Juanita que estava de pé olhando para eles, se aproximou da moça e segurou sua mão. Dando-lhe o apoio que precisava.
-Diga o nome – ela pediu suave.
Anna parou de chorar e piscou, fazia tanto tempo que não tinha uma mãe para segurar sua mão...
-Malfoy... – a palavra saiu sussurrada e amedrontada e ela voltou a desmaiar pouco depois.
-Patrão? – Suarez chamou quando o notou tenso e imóvel – O que vamos fazer?
-Reúna os homens. Mande um a fazenda do meu pai, preciso de todos os meus irmãos. Mande que vá a cidade também e traga do conde e as autoridades. E reúna o resto, vamos procurar imediatamente.
-Não faz mais que uma hora desde que vi Hermione pela última vez – Juanita disse condoída. Se ao menos estivesse ali quando aconteceu...
-Onde está Adolph? Porque não estava aqui quando precisamos dele?
A culpa cresceu em Juanita. Mas não disse nada.
Eles estavam prestes a sair da casa quando ele surgiu correndo.
-Dois dos homens estão mortos. – ele disse sem fôlego – Segui a trilha de uma carroça. Foi para o sul.
Alivio caiu sobre Juanita ao constatar que o fato de saber essas informações o livraria de um interrogativo mais apurado.
Amava Hermione como uma filha, mas tinha medo de perder o lar e o marido que a mantinha. Com uma sensação de perda horrível, olhou para a menina quase morta no sofá.
Onde estaria Duran?
Essa pergunta explodiu em sua mente.
Jesus! Onde estava seu filho?
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A carroça havia parado há alguns minutos. Arrancada de sobre ela, Hermione foi obrigada a acompanhá-los para dentro de uma casa velha e em ruínas. Era a casa de uma viúva, que morrera a mais de vinte anos. Nem era nascida na época.
Era uma casa que apenas quem vivia pelos matos, brincava de esconde e esconde por toda aquela região poderia conhecer. Rezando para que dessem por sua falta o mais rápido possível, entrou e olhou para aquela elegante mulher.
-Olhe para ela – a mulher disse – É um gato, querida. E têm sete vidas – ela se aproximou e correu uma das mais por seu rosto – e estou disposta a acabar com cada um delas. – seu sorriso de lábios vermelhos bem pintados a fez se arrepiar – Me diga quantas vezes já escapou? Uma? Duas? Hum, então faltam cinto! – ela riu de uma graça que apenas ela entendia.
-Margaret – Malfoy se aproximou e afastou-a de Hermione – Sabe muito bem que Hermione é nosso trunfo.
-Sim, mas a vontade de vê-la morta supera qualquer lucidez – ela respondeu com um carinho em Malfoy – Leve-a para o segundo andar, deixei um cômodo preparado. O quarto de uma rainha, para nossa princesa.
Malfoy obedeceu. Agarrou-a pelo braço e obrigou-a a subir os degraus apodrecidos. Com medo de cair seguiu os passos duros, tremendo da cabeça aos pés.
O quarto tinha uma janela com todos os seus vidros conservados. No entanto não fechavam. Uma cama sem pés, caindo no chão, com um colchão velho e fedorento, adornava o centro do quarto. Não havia cobertas ou cadeiras. Hermione foi largada ali.
Nervosa, achou por bem estar sentada ou deitada. Não se daria ao luxo de desmaiar.
-Não é o lugar em que desejaria colocá-la – ele disse com nojo, olhando em volta. – Trarei um cobertor e algo para comer e beber. Vê? Cuido bem de você.
-O que vocês querem comigo? Essa mulher... Ela quer me matar!
-Não, não quer mais - ele respondeu, se aproximando e se agachando diante dela. – Os planos mudaram. Não serve de nada morta.
-Não? – parte de alívio a tomou.
-Seu pai deu entrada na anulação do casamento. Margaret não tem direito a nada com sua morte.
-Então... Porque estou aqui? O que esperaram conseguir com isso? – agarrou seu casaco, obrigando-o a olhar em seus olhos – Me diga!
-O conde pagará o que for para tê-la de volta, Hermione.
-Dinheiro? Esperam conseguir dinheiro?
-Não apenas isso... - Acariciou seu rosto. Tomada pelo nojo, não se afastou com medo de sua reação. – Acha que somos tão burros a ponto de achar que ele nos daria dinheiro tão fácil? Não... Nós esperamos. Dois... – ele desceu a mão e correu sobre sua barriga -... Pelo preço de um.
-Eu... Eu... Não entendo.
-É muito simples. – ele respondeu malicioso – Em dias esse bastardo nasce. É o tempo que precisamos para a anulação do seu casamento. Muito providencial um juiz com o poder do Digory ter vindo nessa viagem, jamais poderia supor o quanto é útil.
-Porque anular meu casamento? O que isso o beneficiará?
Malfoy riu e ergueu o corpo, olhando-a do alto de sua imponência de algoz e nada respondeu. Hermione levantou-se no momento em que ele saiu e tencionou infantilmente abrir a porta.
Obviamente estava trancada. O desespero a fez andar para a janela. Havia uma sacada logo abaixo, mesmo assim era alto demais. Com raiva constatou que nem se deram ao trabalho de cobrir a janela com tabuas. Seria impossível para ela pular por ali e descer.
Em outros tempos era o que faria. Mas naquele momento, seria impossível.
Olhando em volta, o desamparo a dominou. O que eles tinham em mente?
Não poderia ficar muito tempo naquele lugar!
Juanita vinha contando os dias, certa que o bebê não passava daquela semana que se iniciara!
Sentindo a pernas falsearem pela emoção, se acomodou sobre o colchão velho e rezou.
Como nunca em sua vida, ela rezou para ser encontrada a tempo.