CAPITULO 136 – PEDRAS NO CAMINHO DA FELICIDADE
Havia alguma razão escusa para tanto interesse de Mathias na cidade. Hermione começava a suspeitar que tivesse algum interesse na recatada Lily, quando viu seus sonhos de casá-los ruírem.
Um buchicho, nada além de uma fofoca entre Juanita e Gina, numa tarde ao acaso. Estava na sala, tentando terminar um bordado quando decidira esticar as pernas.
As vozes na cozinha a atraíram.
-Tem certeza? Será um baque e tanto para Hermione – Juanita sussurrava contrariada.
-Sim, eu sei. Não tenho coragem de contar-lhe! – Gina disse em tom desesperado – Rony me disse que tentará abrir os olhos de Mathias. Mas sabe como são os homens apaixonados... Tão tolos!
-Nem me diga – Juanita suspirou – O que importa é que ela não deve saber.
Sua vontade era invadir a cozinha e arrancar delas o grande segredo sobre seu irmão, mas preferiu não confrontá-las e correr o risco de ouvir mentiras deslavadas.
Mathias estava na fazenda, numa visita, para auxiliar os homens na árdua tarefa de trocar as ferraduras de alguns cavalos. Era experiente nisso. Inclusive falava muito sobre a ausência de uma boa ferroaria por aquelas bandas.
Secretamente, ela guardava o desejo de que vivesse próximo a ela, assim como desejava de todo coração que Harry ficasse uma longa temporada com Gina, vizinho a eles.
Foi sua sorte, vê-lo sozinho na saleta analisando alguns dados financeiros. Tendo o cunhado tão solicito, Rony delicadamente se livrara daquele fardo de fazer contas.
-Muito trabalho, Harry?
Assustou-o, mas não o suficiente para que se ultrajasse.
-O bastante para me manter ocupado – ele reclamou, deixando o livro e olhando para ela com afeição – É impressão minha, ou a cada vez que a vejo sua barriga está maior?
Era uma brincadeira com um fundo de verdade.
-Não sei o que acontece. Juanita diz que vou explodir – ela riu. – Harry... – procurou coragem – Tenho um pedido a lhe fazer, mas não tenho coragem para tanto.
-Um pedido? – intrigado ele espantou-se quando ela encostou a porta, para não serem ouvidos.
-É um pedido que me constrange. Não deveria falar desse modo ou influenciá-lo. Sinto-me horrível por saber que não terá coragem de negar meu pedido, por um ser um homem tão bom!
Por um segundo o coração de Harry saltou dentro do peito.
Os olhos castanhos, a pele macia, os cabelos encaracolados e sedosos... Ainda mexiam com ele. Uma parte sua, uma estranha parte sua, ainda sentia-se invadido pela sua voz sedutora.
-Peça. Se foi um pedido justo, ficarei feliz em atendê-la – cruzou os braços, observando-a ficar diante de sua mesa, ou melhor a mesa de Rony, e mexer nervosamente no tinteiro e na pena, como se estivesse organizando-os.
-É sobre Gina. – esclareceu, e pensou ter visto um vislumbre de decepção em sua face. Logo afastou esse pensamento infame – Ela está de poucos meses, mas em breve, estará maior que eu... Quando esse dia chegar, é homem, não poderá entender a exatidão do que digo, mas tente acreditar... Tudo que ela sente vai mudar. Seu corpo, seus pensamentos. Tudo. Será outra pessoa por poucos meses e ouso dizer, que depois que o bebe nascer, ela ficará ainda mais carente de atenção e cuidado. E não me refiro a empregados. Refiro-me a família. A mãe. Sinto muita falta da minha mãe nesse momento – infelizmente, sentia-se próxima a chorar. Era sua terrível verdade. Chorosa.
Rony vivia caçoando dela por conta disso.
-Estou querendo dizer... É um homem rico. Pode se afastar um tempo de Londres. Ao menos até a criança nascer e ela estar segura.
-É esse o seu pedido? Que fiquemos até depois do nascimento da nossa criança?
-Sim. Tenho certeza que Gina lhe pediria o mesmo se não...
-Se não o que? Às vezes não compreendo Ginerva – foi sincero.
-Ela o ama. E tem medo de decepcioná-lo. Oh, Harry... – sentou-se na poltrona em frente à mesa de carvalho e seus olhos brilhavam – Precisava ter visto Gina quando se ausentou de Londres! Tão mudada! Cuidou da casa com pulso de ferro! Tão confiante. Sua insegurança se deve a não querer causar-lhe arrependimento com esse casamento, entende?
-Não posso fazê-la amadurecer, Hermione, e nem sei se quero – ele sorriu com mágoa no olhar – quando cheguei à fazenda Wesley, estava completamente desesperado. Não imagina meu medo dela ter se perdido no caminho, ou de algum homem ter se encantado com sua beleza e a roubado e mim. Então, os Wesleys me trataram como eu merecia. Me mostraram a carta de Rony contando que ela estava bem, sobre a proteção do irmão. Achei que o mundo tivesse virado de cabeça para baixo. E não compreendo esse sentimento. Gina é infantil às vezes, e me faz sorrir. Não quero mudá-la. Há algo de triste em amadurecer cedo demais.
-Sim, tem razão – os dois dividiram um olhar cúmplice – Apenas me prometa que ficará aqui, e poderei ajudá-la nesse momento, e Molly poderá ampará-la. Por favor, Harry! Gina não vai pedir! Não quer desagradá-lo, e eu não pediria se não estivesse completamente fora do eixo!
-É tão difícil assim? – ele olhou para sua barriga – Carregar um filho?
-Deus dá a mulher o dom de conceber, pois homem algum agüentaria um minuto! – foi sincera – É tudo tão confuso, as emoções tão fortes, tão... Intensas. Eu amo essa criança, e amo o mundo onde ela vai nascer, apenas por saber que ela estará nele. Não tem lógica.
-Não, não tem. Quanto ao seu pedido – ele piscou algumas vezes antes de responder – Não poso prometer não ter que voltar a Londres. Mas ficaremos até nosso filho nascer.
-Harry, desde a primeira vez que o vi, soube que era um homem de ouro! – ela não quis chorar, por isso levantou-se – Posso contar a ela?
-Deve – ele garantiu.
Do outro lado da porta, Gina desgrudou o ouvido da porta e se afastou de volta para a cozinha. Não havia resistido ao impulso ciumento de ouvir o que conversavam, quando avistou Hermione entrando na mesma sala onde Harry estava.
Corada, fingia ajudar Juanita a cortar o pão para os empregados quando Hermione apareceu.
-Pedi a Harry que fiquem até o nascimento do seu filho - ela disse séria – mas não preciso lhe dizer isso, estava ouvindo atrás da porta.
-Não fiz por mal. – ela não pode olhar para Hermione.
-Tem razão, fez por ciúmes. O que é ridículo, mas não vou brigar com você, estou feliz demais para brigar.
-Eu sempre soube que a vida de Harry era em Londres – Gina explicou complacente e conformada.
-Sim, e Harry sempre soube que é jovem, e imatura. É claro que quer sua mãe ao seu lado nesse momento. Eu também gostaria de ter a minha...
O silêncio ficou entre elas, interrompido por Adolph que apareceu na porta dos fundos.
-Com licença – ele tinha os olhos baixos, e não olhou para ninguém diretamente – Poderia falar um instante com a senhora?
-Não - ela se negou – Sei que quer ir embora, e me recuso a ouvir – Hermione havia decidido isso outro dia quando ouvira Juanita chorar escondida. – Se quer e precisa ir, vá de uma vez. Não me peça para dispensá-lo, sou egoísta demais para fazer isso.
Humilde, ele não disse mais nada, apenas foi embora. Gina notou quando Hermione olhou para ela pedindo silenciosamente que saísse e a deixasse a sós com Juanita.
-Eu sinto muito – ela disse quando as duas ficaram sozinhas – Juanita, eu não sabia.
-Não – ela ergueu uma das mãos pedindo que se calasse – Não vamos falar disso!
-Sim, nós vamos. Não pode simplesmente fingir que...
-Cale-se Hermione – ela exigiu – Não sabe nada da vida. Tem coisas que é melhor esquecer e continuar vivendo! – os pratos foram batidos com tanta força dentro da bacia onde os lavava que o barulho ecoou pela cozinha.
Juanita os abandonou, imóvel, as mãos nos quadris. Estava em seu limite. Não era a primeira vez que a flagrava com os olhos cheios de lágrimas.
-Ele foi vendido – ela disse de repente – Quando o procurei para contar que carregava um filho, descobri que havia sido vendido. Sabe o que é isso? – olhou para ela com tanta dor que a comoveu – O amor da minha vida. Estava perdido para mim. Fechei meu coração, Hermione. Endureci meu coração. Tive meus filhos e tudo que me importa é criá-los. Fui fraca, aos poucos baixei a guarda para Suarez. Ele ocupa um lugar no meu coração. Um lugar tão grande, tão embrenhado em minha alma que morro só de pensar em deixá-lo. – ela soluçou sem notar que chorava – Mas Adolph... Sempre foi amor. Sempre foi paixão. Eu o vejo e quero voltar a ser novinha e cheia de sonhos. Quero ter minha juventude de volta. Quero ter os mesmo sonhos e a mesma capacidade de enlouquecer. Mas não posso. Olhe para mim, Hermione – ela mandou e ela olhou – Estou envelhecendo. Meus filhos crescendo. Um dia serei só, eles terão sua vida e preciso ter um companheiro. Não um grande amor. Um companheiro.
-Adolph não a deixou por querer – ela achou que esse fato fazia toda a diferença.
-Mas não muda o que aconteceu. Não muda o sofrimento. Hermione, sua caridade fez desse homem alguém digno. Não posso criar meus filhos contando que isso se repetirá. – maneou a cabeça vigorosamente - Se ele quer ir embora, deixe- o ir. Por favor, deixe-o ir.
-Suarez sabe...?
Juanita riu quase com desespero.
-Ele não é cego. Suarez é pacato, mas você não tem idéia de tudo que esse homem já viveu. Sua história preencheria todas as páginas de todos os livros que estão em estante adorada, Hermione! Bastou um olhar e ele sabia!
-Falou disso com você? – preocupada, pensou nas conseqüências materiais.
-Não falou de amor. Ele apenas disse “é ele não é? ’. Eu acenei com cabeça e Suarez não voltou a me procurar como mulher desde então. Três semanas, Hermione. Muito tempo para um homem ficar sem mulher. Acho... – pareceu que uma onda de choro fosse dominá-la, mas segurou – que espera que eu me decida sobre o que sinto.
-E o que sente?
-Sinto minha vida destruída – ela sentou em uma cadeira destroçada - Vida ingrata. Vida ingrata e desgraçada! – enxugou o rosto no avental. – vida de desgraça!
-Duran sabe que ele é seu pai? – afastou a vontade de chorar por ela e tocou seu ombro solidariamente.
-Ele sempre soube. Sabia o nome do pai e sabia como era fisicamente, tenho uma velha foto comigo.
-Mas ele não disse nada! – exasperou-se.
-Para que? – ela sorriu entre as lágrimas. Lágrimas duras. – Os irmãos precisam comer, Hermione.
-E se ele pudesse...
-Cuidar deles? Não. Falei com Adolph. – notou sua surpresa e sorriu – Todas nós, mulheres, enlouquecemos uma vez ou outra... – ela sorriu triste – Foi claro. Não tem condições para criá-los. Mas sabe o que dói? Eu vi em seu olhar, que havia mais. Ele me amou. A menina pura de alma, que tinha o corpo usado por homens sem rostos para ela. Mas não sabe se pode amar essa mulher que me transformei. E eu, não sei se posso amar o homem que ele se transformou.
-Não sei o que dizer – ela foi sincera – Não quero que ele vá embora, me sinto protegida com ele cuidando da minha segurança. Por outro lado, me corta o coração fazê-la sofrer.
-Certas coisas na vida não têm solução – ela se recompôs e levantou-se, perto de Hermione mediu sua barriga, correndo as mãos por toda a circunferência – Tem toda a razão em querer mantê-lo aqui. Não deixe minhas mágoas a cegarem. – um profundo suspiro e ela voltou a ser a Juanita de sempre – Essa noite, seduzirei meu homem para que ele saiba da minha decisão. Sinto-me feliz com essa decisão.
-Não minta, Juanita – ela segurou o choro, emocionada por ela.
-Eu não minto. É uma felicidade diferente.
-Eu não sei se conseguiria ser forte como você está sendo. – teve que dizer.
-É claro que conseguiria. Quando essa criança estiver nos seus braços, nada ficará entre você e o sorriso dela.
Hermione concordou, pois estava coberta de razão.
-Pronto. – Juanita até conseguiu sorrir – Este assunto morreu aqui. Preparei a comida de Suarez e de seu marido. Eles vão ficar no celeiro enquanto seu irmão cuida dos cavalos. Leve para eles. Espiche as pernas, precisa fortalecê-las para o parto.
Ela estremeceu ao pensar no parto.
Apanhou os pratos arrumados com panos protegendo, e saiu procurando por Anna. Ela estava cuidando das galinhas, corada e assustada, pois não tinha muito hábito de lidar com animais.
Apressou-se a ajudá-la com os pratos, enquanto seguiam para o celeiro.
As duas entraram sorrateiras, enquanto os três homens conversavam.
-Acredite, ela fez isso e muito mais – Rony disse com um tom de ódio inigualável na voz – Graças a essa bruxa quase fui preso!
-Não posso crer nisso, é tão bonita. Tão... – Mathias corou enquanto lidava com um dos cavalos, colocando-lhe a ferradura – Só tive uma namorada em minha vida e me casei com ela. Talvez não tenha capacidade para julgar as mulheres como deveria. Achei-a incrivelmente doce. E sincera.
-E talvez seja. É possível que Lilá esteja apaixonada por você – Rony deu de ombros.
-Porque a chama de Lilá? Seu nome não é Lavander? – ele deu uma martelada poderosa, prendendo uma das ferraduras.
-Lilá é um apelido usado por seu clientes – ele explicou, notando sua surpresa – imagine que não houvesse lhe contado que é cortesã.
-Disse que foi... enganada por um homem em Londres e então, o conheceu. Apaixonou-se. Não posso culpar uma mulher por se apaixonar.
-Ela gostava da vida de cortesã, até perder quem a sustentasse por conta da gravidez.
-Não me disse nada disso. Fez-me juras de amor. - Mathias parecia inconformado – A conheci no hotel. Estamos no mesmo corredor... Ouvi criança chorar e ofereci ajuda. Porque não me contou a verdade? Depois da morte de minha mulher nunca mais olhei para outra.
-Não faz sentido para mim. – Rony concordou – Não tem o perfil de Lilá. Talvez ela tenha se apaixonado de verdade – Rony pareceu surpreso com a própria conclusão.
Mathias não respondeu nada. Ergueu o olhar a notou a irmã. Ela deixou os pratos sobre uma mesa velha que apoiava algumas ferramentas e não disse nada antes de sair de lá.
Rony a seguiu.
-Hermione! – segurou seu braço, fazendo-a parar.
-Meu irmão apaixonado por aquela mulher? – seu horror o compadeceu.
-Ele tinha interesse nela. Apenas isso.
-Interesse? Que desgraça é essa de todos os homens da minha vida terem que passar pela cama dessa mulher?
-Não exagere, Hermione. É só um caso sem importância. – tentou acalmá-la.
-Sempre é sem importância! Espero Wesley, que não tenha a mesma idéia que ele!
-Não me acuse. Estava aconselhando-o a afastar-se dessa a tempo. Então, controle seu gênio e não me acuse do que não fiz!
-Ora, me deixe em paz! – soltou-se dele, uma vez mais, e se afastou a passos duros.
-Era só um tolo interesse, Hermione! – ainda tentou defender o cunhado.
Sabia que tinha ouvido suas palavras, embora não respondesse. Havia parado de andar e o fitava com rancor.
-Pois volte lá dentro, e diga a ele, que essa mulher desejou minha morte. Diga a ele que acordo no meio da noite ouvindo seus gritos, suas pragas! Diga isso a ele! Que tenho pesadelos desde que ela me amaldiçoou! Talvez isso mine seu interesse!
Com raiva escapou dele, marchando para dentro de casa.
AUTORA: SORRY, ATRASOU POR BURRICE MINHA, MAS TÁ AÍ.
AMANHA EU TENHO O DIA CHEIO, TAVEZ NAO POSTE. SE POSTAR VAI SER A NOITE, DEPOIS DAS DEZ, OK?
BJS