CAPITULO 118 – CHEIRO DE AMOR NO AR
A primeira coisa que Rony viu ao voltar para casa foi Anna voltando das compras do mercado, ao lado do Ogro que o seqüestrara.
Ficou parado em frente ao portãozinho da casa, observando-os. Anna falava animadamente, enquanto ele fingia prestar atenção em seu falatório adolescente e feminino, carregando as dezenas de sacolas, como quem carrega um travesseiro de penas.
Anna o cumprimentou rapidamente, corada, e apressou-se a entrar, talvez com medo de ser interrogada sobre os recentes crimes de sua patroa. Adolph manteve-se a sua frente, talvez esperando suas ordens.
-Quanto Hermione lhe pagou para me seqüestrar? – perguntou com voz forte, esperando que se não pudesse coagi-lo com seu físico, ao menos faria com sua postura.
-Não cobrei senhor. Recebi um trabalho e terei um teto sobre minha cabeça. Não preciso de mais nada. – foi sincero.
-Imagino – ele disse olhando-o com atenção – Minha mulher não manda nessa casa, ainda preciso decidir se quero um cavalariço que receba ordens de mulheres descontroladas e nervosas.
-Tem toda razão, senhor - Adolph engoliu o orgulho, querendo se apegar aquele trabalho com unhas e dentes.
-Posso relevar esses últimos acontecimentos. Mas terá um custo. – disse pensativo – Hermione é arisca, deve ter notado, precisa de freios. Seja seu cavalariço, mas não se esqueça que sua lealdade deve ser destinada a mim. Sou eu quem pode garantir-lhe um bom emprego quando formos embora daqui – ele barganhou.
-A Sra.Wesley me convidou para ser agregado em sua fazenda – ele ponderou educadamente.
-A fazenda me pertence. Sou eu quem escolhe meus empregados. Seja leal a mim e terá uma vida tranqüila.
-Sim, senhor! - ele concordou com os olhos brilhantes.
-Notou que Hermione tem um gênio difícil. Deve saber o que significa isso em uma mulher bonita. O poder que pode ter sobre um homem.
-Deus fez as mulheres serem espertas, apenas para nos causar cabelos brancos, senhor – ele concordou.
-Vamos ver se isso vai dar certo. Desde que não me seqüestre mais, tudo ficará bem – ele achou por bem acabar com aquela estranha conversa.
Adolph seguiu para os fundos da casa, levando as compras consigo e Rony entrou em casa, ouvindo as vozes que vinham do segundo andar.
Era riso de homem. Vozes de mulheres.
Que bom saber que Hermione se divertia enquanto ele estava se recuperando de seus ataques de completa loucura!
Ingrata!
Seguindo a passos pesados até o segundo andar, observou pela porta entreaberta o que se passava.
O conde jogava baralho sentado ao redor da pequena mesa circular que ficava no canto do quarto. Ao seu lado, Gina e Luna reclamavam de seus lances nada honestos.
Da cama, Hermione ria muito, enquanto acusava o pai de ter escondido cartas embaixo do traseiro.
-Eu vi! - ela disse entre o riso.
-Não, não! Como pode ofender um cavalheiro desse modo? Quanta ofensa! – ele disse em tom de deboche, se negando a se levantar.
-Ora papai, seja corajoso e nos deixe rir de sua vergonha! - ela riu, sem notar o quanto doce era com o conde.
Mas Rony notou o modo emocionado como o homem olhou para ela.
-Vergonha. Sim, que vergonha! – ele disfarçou a emoção, lançando a ela um belo sorriso.
Rony chegou à conclusão que fora do conde que Hermione puxara a esperteza. Abriu a porta com um movimento chamativo, atraindo a atenção de todos.
Não lhe passou despercebido que Hermione estava deitada, vestindo roupas de dormir, o que indicava um mal estar ou algo parecido. Apesar de seus esforços, não pode desviar os olhos dela, principalmente quando o notou e parou de rir.
Conteve o ar, talvez assustada. Deveria ter medo! Outro marido em seu lugar lhe daria uma boa surra, ou simplesmente se livraria dela, enviando-a para outro país, para uma longa estadia em algum hospício.
Mas não ele, que era tolo o bastante para se apaixonar pela própria esposa!
-Meu genro; achei que demoraria mais algumas horas para se recompor – o conde disse sorrindo-lhe – venha me ajudar a ganhar dessas doces jovens. São lindas, mas não entendem nada de cartas!
-Oras! – Gina jogou suas cartas sobre a mesinha – o conde só fez roubar desde que começamos a jogar! A única pessoa que conseguiu vencê-lo foi Hermione, o que não é novidade, pois é perita em trapacear no jogo de cartas!
-Fico contente que todos estejam se divertindo – ele disse com amargura.
Luna ocultou um risinho quando Gina comentou algo com ela.
-Acho que minha visita chegou ao fim. Harry nem sabe que sai! Estava na saleta, cuidando de seus negócios, quando o lacaio do conde me buscou para passar a tarde com Hermione – ela levantou-se e andou até a cama, fingindo não notar que havia uma situação incomoda entre o casal – Me avise se estiver sentindo-se melhor. Ou se precisar de ajuda de qualquer natureza!
Gina se curvou para abraçá-la, e sussurrou um incentivo em seu ouvido antes de convidar Luna para descer com ela.
-Venham tomar chá amanha à tarde – Hermione convidou antes que saíssem, e as duas concordaram.
-Pelo visto, tem sido uma tarde muito agradável. – ele disse rancoroso, e o conde levantou-se.
-Não ficará para jantar? – Hermione perguntou quando ele se curvou para se despedir.
-Não. – ele apenas piscou para a filha, deixando-os sozinhos.
-Tem se divertido na minha ausência, Hermione? – ele perguntou, fechando a porta atrás de si.
-Nem tanto. Meu pai me fez companhia para me distrair, pois estava muito... Angustiada.
-É mesmo? Não posso imaginar o por que! – ele tornou a ironizar.
-Por favor, não me faça sentir pior do que estou me sentindo!
Rony estudou seu rosto quando ela baixou a cabeça, envergonhada. Suas mãos amassavam o lençol nervosamente. Seus cabelos estavam soltos, emoldurando um rosto triste. Se ao menos pudesse fazê-la sorrir... Não! O que estava pensando! Hermione era responsável por tudo que lhe acontecera!
-E como exatamente está se sentindo? – ele perguntou num tom que não deixava dúvidas sobre a repreensão.
-Me sinto como... – ela chegou a olhar para ele, mas desistiu, baixando os olhos, envergonhada -... Sinto-me como alguém que traiu a confiança de alguém que lhe quer bem. Não foi intencional. Não pensei em seus sentimentos, no medo que sentiria, ou que poderia se ferir. Na verdade, não pensei em nada além de mim mesma! Agora, penso em tudo que poderia ter dado errado! Nos malefícios que poderia ter causado! – ela maneou a cabeça, quase chorando – Deveria ter aceitado sua decisão. Era o certo. Quando penso que... Poderia ter causado uma desgraça!
-Tem razão ao dizer que a decisão era minha. – ele se aproximou, ainda sem demonstrar tendência a perdoá-la – Porque está na cama? Está doente?
-Não, a menos que a culpa seja uma doença. Nesse caso, acho que morrerei – ela disse com sinceridade, olhando finalmente em seus olhos – Tive uma pequena dor. Nada demais. Estava muito agitada, e não posso ficar nervosa! – ela empalideceu ao lembrar-se disso -... Não posso ficar nervosa. Mas insisto em me desgastar! Do jeito que ajo, acabarei matando nosso bebê!
A culpa em sua voz cortou seu coração.
-Não diga tolices – ele sentou perto dela na cama, e ergueu a mão para acariciar seu rosto, mas ela se afastou com um suave gemido, antes que as lágrimas corressem. Era a sua mão machucada. – Hermione, não chore – pediu sem saber como lidar com um choro que nem deveria existir. – Não foi nada demais, afinal. Estou com raiva, e não seria humano se não estivesse. Mas não precisa se culpar. Afinal, não aconteceu nada de tão terrível assim!
-Como não? Eu o seqüestrei! Eu o dopei! Jesus! Tem toda razão quando diz que sou louca! – ela escondeu o rosto entre as mãos, e a culpa cortou o coração de Rony.
Suas atitudes foram induzidas por suas mentiras.
Era fato.
-Hermione, me responda uma coisa – ele afastou suas mãos, para ver seu rosto.
Os olhos castanhos brilhantes de lágrimas se ergueram para ele, e o encantaram.
-Tentou impedir o duelo porque me ama?
Ela mordeu os lábios, e chegou a abrir a boca umas duas vezes para responder.
-Porque uma pessoa tenta impedir um duelo? – ela perguntou a ele, engolindo em seco. Lhe diria ‘eu te amo’, um dia. Tinha certeza disso, mas não seria agora. Não quando sentia esse medo sufocá-la – Deixaria alguém se matar por algo sem sentido? É o pai do meu bebê! É meu marido, não o escolhi, mas é meu marido.
-É por isso que evitou o duelo? Porque está acostumada a minha presença? – era uma sutil facada em seu coração.
-Sabe que não – ela disse baixinho, afastando novamente os olhos dos dele.
Era o mais perto de uma declaração de amor que receberia.
Maneou a cabeça, desconsolado.
-Hermione, o que eu faço com você? – ele disse pesaroso, começando a sorrir.
-Disse a meu pai que vou me conter daqui para frente, nem que para isso eu suba pelas paredes, juro que nunca mais farei nada impulsivo! Juro! – em sua anciã para provar o que dizia, abraçou-o espontaneamente.
-Tem certeza? Não é correto jurar em falso, Hermione – brincou, acariciando suas costas com as mãos.
-Pode me perdoar, Rony? – ergueu o rosto em sua direção, ansiosa por um sim.
-Não, mas posso relevar – afastou seus cabelos de seu rosto e beijou sua testa – Vamos os dois sermos mais controlados e calmos. E precisamos desesperadamente conversar sobre os assuntos que nos incomodam. Como por exemplo, ter um gigante conduzindo a carruagem do conde – ele traçou os contornos de seu rosto com a mão boa, e ela suspirou.
-Nunca antes me impediu de contratar quem considerasse adequado ao trabalho - era sua única defesa.
-Sim, mas não pode me criticar por investigá-lo antes de permitir que a leve de um lado para o outro, cidade a fora. Amanhã não se atreva a sair com ele.
-Rony... - fitou-o incrédulo.
-Um pedido muito pequeno depois de tudo que estou deixando para trás, Hermione. – avisou.
-Ficará me olhando desse modo para sempre? Prefiro que não me perdoe! – reclamou.
-E como estou olhando-a?
-Com decepção! – afastou-se e pretendia levantar, mas ele a segurou no mesmo lugar.
-Acho que alguém se esqueceu de sua própria resolução em não se exaltar. – sorriu-lhe. – Me faça esquecer o que você fez, Hermione. Para que eu possa confiar novamente em você – ele pediu com voz rouca.
-Mais cedo, antes do meu pai chegar, achei que estivesse sentindo o bebê – ela confidenciou, em tom baixo, um pequeno e misterioso sorriso nos lábios – mas não era nada além de gazes – ela mesma riu – mas por um segundo, achei que fosse o bebê se mexendo dentro de mim...
-Não deve demorar – ele disse com a mesma emoção no rosto – agora não demorará, para que ele se mecha. Vai me contar quando acontecer?
-Sim. É claro que vou!
-E vai me contar quando me desejar ao seu lado na cama? – provocou, esfregando a ponta do nariz na curva da sua bochecha.
-Acho que não preciso, sempre sabe quando eu... Quando eu quero. – sorriu tímida, apesar de tudo.
-Se eu não estivesse com o corpo todo mole e frouxo por causa do tônico que me deu, testaria sua teoria – ele garantiu – Agora, a única coisa que eu quero é deitar ao seu lado e dormir até o ano que vem!
-Ah, me desculpe! - ela repetiu, passando os braços por seus ombros e o abraçando novamente. – Me desculpe!
Rony enterrou o rosto em seu pescoço, aspirando seu perfume. Ao menos não fora tudo em vão afinal, ganhar um abraço seu, espontâneo, era quase mais importante que ouvi-la confessar seu amor.
Por isso correspondeu aquele abraço, deixando-se levar para o seu lado, e recostando a cabeça em seu ombro.
Sentiu seus movimentos, suas mãos delicadas abrindo seu casaco, seu colete, tirando sua camisa, suas calças, seus sapatos. Mas o resto do sono que ainda sentia foi mais forte, e ele apagou.
Hermione riu diante do homem belamente nu a sua frente. Nu em pelo, com uma ereção despontando em resposta ao seu toque, e roncando alto e furiosamente.
Tinha razão sobre conversarem mais. Adorava conversar com Rony, o único problema era que as vezes, certos assuntos causavam desconforto.
Ajoelhada sobre a cama, ela agradeceu a Deus não ter havia o maldito duelo. Outro ronco e ela gargalhou, deitando ao seu lado, aliviada e apaixonada.
Anna suspirou aliviada quando as vozes se calaram. Não era uma mexeriqueira, mas havia ficado preocupada com sua boa patroa, sempre tão generosa para com ela.
Seu marido deveria estar furioso, e por precaução, mantivera os dois ouvidos bem abertos. Não seria a primeira vez que uma senhora acabava espancada por decisão de seu marido.
Detestaria ver sua querida patroa sofrendo.
Aliviada, Anna desceu as escadas e de cabeça baixa ela cruzou com Duran. O menino tinha um caderno sobre a mesa, e tentava escrever. Parecia frustrado. Anna fingiu não notar, e seguiu seu trabalho, arrumando o jantar. Uma hora depois, ela olhou para o menino.
-Está muito difícil? – ela perguntou com medo de irritá-lo.
-Sou muito burro. A professora disse isso – ele lamentou, derrotado.
-Oh, que despropósito! Não é burro! Apenas não conhece esses assuntos. Tão pouco eu conheço... Mal pude aprender a ler e escrever. Mas sei fazer contas! Mamãe me ensinou antes de morrer! – sentiu-se importante dizendo isso.
-Eu gosto da terra. Não sei por que a patroa quer tanto que eu estude – ele não parecia desgostar de verdade do estudo, apenas estava frustrado.
-Madame Hermione, me contou que perdeu um irmão. Deve pensar em você com o mesmo carinho que tinha por ele. Não seja mal agradecido. Um dia terá um bom emprego e poderá cuidar de uma família – corou ao dizer isso.
-Será?
-Tenho certeza – disse empolgada, corando muito sempre que o menino fixava o olhar sobre ela.
-Eu... – Duran olhou para baixo, envergonhado antes de dizer – Trouxe algo para você. – ele mexeu no bolso do casaco, uma cópia das roupas que Rony usava como uniforme em seu tempo de escola, e tirou um pequeno embrulho – As meninas da minha turma vivem falando disso... Achei que gostaria.
-Gastou dinheiro comigo? Duran! Achei que estivesse economizando para enviar algum para sua mãe! – ela ficou horrorizada.
-Eu não comprei. Ajudei a fazer um trabalho, carregando as compras da minha professora outro dia, e ela me deu de presente. Disse que deveria dar para minha mãe, ou minha irmã. Mas mamãe não usaria, e não tenho irmãs – estendeu a ela.
Anna sorriu recebendo o pequeno embrulho. Abriu o papel, e cobriu os lábios com uma das mãos, os olhos cheios de lágrimas.
-É lindo. Nunca ganhei um presente antes... – era um delicado broche de prata, sem grande valor, porém muito mimoso – Vou usar para ir à Igreja todos os domingos! Obrigada! Obrigada!
Sua empolgação fez Duran rir, contente em agradá-la. Anna nem percebeu o modo como ele a olhava. Seus cabelos negros, belamente presos em sua cabeça, com a franjinha sobre os olhos amendoados. A pele clarinha como leite, tão diferente da sua. Seus quadris suaves, o balanço do seu andar...
Afastou o olhar, tentando se concentrar no estudo. Mas era impossível!
Beta: Novo casal na área!!!
Autora: estou deixando uns ganchos discretos (outros nem tão discretos assim...) para o retorno à fazenda. Mas posso esperar a hora do retorno! beijos