CAPITULO 104 – BEM ME QUER, MAL ME QUER
Rony não entraria naquele quarto por nada no mundo. O som de vozes femininas era infernal, e os risos demais para ele e sua irritação crescente. Há poucos minutos, o conde lhe informara que Hermione estava em um quarto, que seria seu quarto sempre que o visitasse, e recebia algumas jovens que cuidariam de providenciar um toalete completo para ela.
Ele não ouvia a voz da mulher, muito menos seu riso, e saber que não se divertia era um alento. Andava pisando em ovos, tendo pesadelos com o dia que Hermione alegaria não querer mais acompanhá-lo de volta, preferindo a vida de Londres.
-Gosto desse tecido.
Ele ouviu sua voz um pouco irritada, e então, escutou uma resposta que o fez conter a respiração, sabendo que a jovem ouviria algo bem desagradável a seguir:
-Querida, não pode usar vermelho. É casada, jovem, e espera um filho. Essa cor é para uma senhora, ou para uma cortesã. Preferem que pensem que não tem dignidade para escolher seus vestidos?
-Prefiro que pensem que sou capaz de escolher o que gosto – ela respondeu azeda.
-Seu marido não aprovará que use tal cor! – a moça insistiu.
Achando que Hermione poderia fazer a moça começar a chorar a qualquer momento, bateu levemente na porta antes de entrar.
As vozes e os risos pararam. Rony entrou, e o silêncio se manteve. Havia quatro jovens que exibiam vestidos e tecidos, e outros adornos.
-Minha esposa deve ser atendida em todos os seus desejos – ele disse calmamente, quase as hipnotizando com sua voz e sua postura – se não é moda usar vermelho, passará a ser daqui por diante, pois a filha do conde pode usar o que desejar, e todas as moças devem respeitar sua vontade.
As moças engoliram seus comentários ásperos e olharam para Hermione com uma inveja que ela não pode compreender. Sentada na cama, com vários vestidos a sua volta, estava abatida e cansada. A tarde toda nessa função de escolher roupas havia acabado com seus nervos, sua paciência e seu bem estar.
-Os melhores tons para sua pele são o marrom, o bege e algo alaranjado. – uma delas seguiu dizendo e mostrando as cores – deve usar muitos babados no busto, para esconder a falta deles e...
-Odeio essas cores – ela disse irritada – quero branco e...
-Branco? Oh querida! – a jovem riu tão futilmente que arrepiou Rony. – com seu tom de pele, irá parecer uma das escravas que trabalham no mercado! É bom não realçar esse traço desagradável...
-Não a nada de errado com minha cor. Não sou pálida, só isso. Quero vermelho, verde, amarelo e rosa. Gostei muito desse tom... – ela respondeu separando os tecidos que desejava.
-Salmão – Rony disse de seu canto esquecido por elas – Não se esqueça do lilás. Gosto de vê-la usando lilás.
-E o que mais devo escolher? Penas? – mostrou a ele um chapeuzinho adornado por lindas penas.
-Não. São muito exageradas – sorriu, entendendo seu joguinho. Não era provocação, era apenas um modo de ser orientada sobre o que deveria escolher, sem parecer ridícula diante da sociedade, e também, não trair seus gostos – prefira chapéus pequenos, que não escondam seus cabelos. Presilhas simples, pois não quero que use coques sofisticados, gosto de seus cabelos soltos – ignorou o som indignado de uma das costureiras – não compre sapatos desconfortáveis apenas pelos enfeites. Não esta acostumada a eles, acabará com bolhas e calos.
-Uma senhora deve usar espartilho – a jovem interrompeu, querendo se fazer notar – Um bom espartilho para lhe moldar a silhueta...
-Estou grávida, não posso usar isso – ela olhou com verdadeiro horror para a peça que lembrava um instrumento de tortura – Além disso, não quero babados nos vestidos. Quero modelos simples, sem exageros.
-Mas o modelo que esta usando é muito simples! – uma das costureiras disse em pânico – Próprio para uma filha de pastor ou talvez, de um professor. Não a filha de um conde!
-Porque as senhoritas não deixam os tecidos e os vestidos, Hermione escolherá com calma em outra oportunidade. Está cansada – ele disse se erguendo de seu posto de observador para salvá-la desse momento sufocante.
-Não é preciso. Elas já sabem do meu gosto. – Hermione segurou uma capa de veludo entre os dedos – Devo ficar com essa capa esposo?
Havia em seus olhos um mudo pedido de socorro.
-Sim, e deve ficar com mais duas capas, e alguns desses xales – ele orientou, pois era conhecedor das roupas femininas, pois sempre admirara profundamente o bom gosto de uma mulher bem vestida. – meias quentes, e alguns guarda-chuvas. Não é necessário que compre maquiagens – ele apontou a delicada caixa com amostras de maquiagens – Gosto de sua pele como é, e não quero que a estrague sua expressão fácil natural. Mas não me importo se quiser escolher alguns perfumes.
-Preciso de algo suave. Sinto enjôo com os perfumes que me trouxeram – contou a ele, sentindo-se completamente sozinha naquelas escolhas complicadas.
-Existem perfumarias maravilhosas que podemos lhe mostrar Sra.Wesley – uma das jovens, ruiva e bonita, com o rosto redondo e malicioso, levantou-se com uma camisola nas mãos, aproximando de Rony – Será de seu agrado, senhor?
Ele olhou para a jovem tão próxima, com o olhar de inconfundível malícia, e tomou a peça de suas mãos.
-Sim, é do meu agrado. – disse devolvendo-a para as mãos da sorridente jovem.
Hermione sentiu como se levasse um tapa. Aquela jovem sorridente, bonita e bem cuidada era do seu agrado. Agora que estava em Londres, sentia desejo por aquela jovem, assim como sentiria por tantas outras que cruzassem seu caminho.
-Estou cansada, não quero escolher mais nada – disse indiferente, por dentro ardendo de ciúme.
-Ah, não pode deixar de olhar as luvas, as meias, as fitas...
-Quero todas – ela elevou a voz para calar os protestos das jovens – todas! Pronto. Podem ir agora!
Seu tom soou como uma ordem, e as quatro saíram rapidamente.
-Cuidado, Hermione, até o fim da estação será conhecida por sua arrogância – ele caçoou.
-Não era minha intenção ser arrogante. Queria apenas ficar só – confessou humilde.
-Ficar só tem sido um luxo que não temos tido ultimamente – Rony admitiu sentando-se ao seu lado na cama, e olhando seu rosto corar – Sinto falta da fazenda – confessou – você sente falta da nossa vida na fazenda?
O orgulho a impediu de confessar que não sentia tanta falta da fazenda como sentia dele. De sua presença, de seus braços a sua volta, de seus beijos... De seu simples olhar, procurando por ela onde quer que estivesse!
-Sinto falta da calmaria – preferiu a diplomacia a bater de frente com ele.
-Sinto falta dos momentos de sinceridade de antes – ele contou, fazendo-a olhar para ele sem compreender – Estar grávida e temerosa, não deve impedi-la de dizer o que sente; fazer-me saber o que a incomoda. Diga de uma vez por que está tão irritada. Tínhamos uma trégua, estávamos nos entendendo. – ele exigiu.
-Infelizmente temos noções diferentes de entendimento – ela disse amarga.
-Mesmo? Posso saber exatamente qual foi meu crime? – perguntou, começando a sentir que explodiria a qualquer momento, tomaria aquela pequena diabinha pelos ombros, sacudindo-a até colocar juiz em sua linda cabeçinha!
-Nenhum. – respondeu com falsa calma – Ficaremos para o jantar? Meu pai mandou preparar deliciosos pratos para nós... – mudou drasticamente de assunto.
Seria humilhação demais admitir que sentia falta dele. Mesmo estando ao seu lado!
-Jantaremos com o conde – ele disse depois de um longo olhar preocupado. – Ele deseja abordar um assunto com você, mas achou melhor que a preparasse primeiro – disse seriamente, mas com algo de riso nos olhos – não quero enganá-la, então, vou direto ao ponto. – quando Hermione estava quase sem ar de curiosidade, temor e receio, disse – Haverá um baile em sua homenagem em três dias.
-Um... Um o que? – sentiu que empalidecia pensando a frente, nas implicações desse fato.
-Baile – repetiu, estendendo uma das mãos para segurá-la pela cintura, mesmo estando sentada, parecia prestes a desmaiar.
-E porque haveria um baile em minha homenagem? – segurou em seu braço, sem notar o tom desamparado da própria voz.
-Hermione, você é única sabia disso? – sorriu ternamente – Não parece saber que é a única filha do homem mais rico de Londres. O poder e prestígio do conde se estende por muitos outros lugares, e apresentar sua filha é o mesmo que apresentar sua sucessora. Um dia Hermione, tudo isso lhe pertencerá.
-Eu não quero nada! – um fulgor a dominou – Não saberia o que fazer com tantos... Recursos.
-Sempre haverá um administrador, não se preocupe, além do mais, o conde é jovem e tem boa saúde, viverá muitos anos para que possam recuperar o tempo perdido – afagou seu rosto, notando sua surpresa com o carinho – Hermione, me diga se está infeliz.
-Não há razões para estar infeliz – ela argumentou, se afastando dele. Levantou-se e arrumou a saia, detestando ter que se afastar, mas achando mais seguro do que seguir o impulso quase incontrolável de agarrar-se ao seu pescoço e implorar seus carinhos!
Era vergonhoso sentir-se dependente de um homem. Um homem que poderia deixá-la a qualquer momento, disse a si mesma, e que era bem provável que estivesse prestar a fazer isso.
-Não quero participar de nenhum baile. Sei que o conde vai entender...
-Hermione, não faça isso, não tire desse homem o pouco de orgulho que ainda lhe sobrou na vida.
Rony estava de frente a ela, em poucos passos segurava seu rosto, acariciando-a com tanta ternura que ela sentiu que todas as suas aflições eram infundadas!
-Apresentá-la a sociedade é um gesto de puro orgulho, pois mostrará ao mundo o quando a deseja em sua vida, e o quanto lhe quer bem. Negando-lhe esse capricho, estará rejeitando sua afeição. Não acha que ele já sofreu muito tendo perdido o grande amor de sua vida, sua mãe?
-Sou capaz de suportar um baile? – perguntou a ele, na esperança de ser encorajada – nunca fui a um baile. Jamais em minha vida estive em algum tipo de festa. Não sei me portar, e não sei como as outras pessoas devem se portar! – argumentou, sentindo-se encurralada.
-Deve se portar com o mesmo ar nobre que sempre ostentou. Apenas não deve se deixar irritar e enfurecer por qualquer comentário, ou se isso acontecer, não deve deixar que transpareça. Deve sorrir o máximo possível, e deixar que as pessoas a olhem até sanar sua curiosidade.
-Haverá comentários mordazes a meu respeito – assumiu, envergonhada.
-Porque diz isso? – estranhou.
-Não tenho a beleza das outras jovens. Nem o refinamento. Meu casamento é suspeito de fraude, e estou grávida sem ter me casado com a benção de Deus. Sou ilegítima, e estou sendo apresentada a corte com anos de atraso! Não acha o bastante para que falem de mim?
-Não se esqueça de acrescentar a sua lista o fato horrível de ser casada com um advogadozinho, pobre, ambicioso, que sempre viveu a sombra de seu amigo rico. – sorriu para acalmar seus medos – Não esqueça que também sou alvo desses falatórios. Haverá outras fofocas Hermione, como o apressado casamento de Harry Potter com uma moça desconhecida, coincidentemente minha irmã caçula. Dirão que ele a desonrou e o forcei a se redimir, o que não é de todo errado – piscou para ela – Lilá espalhou por todos os salões antes de sua partida que iria atrás de mim, e que deveria retratar sua honra, muitos se perguntarão onde ela está, e se dei um fim nela e na criança. Como vê, este ano oferecemos um banquete para os abutres que adoram uma boa maledicência!
-Como pode zombar de todas as tristezas de nossa vida? - Perguntou entre um suspiro de resignação.
-Zombo porque nada disso verdadeiramente importa. Apenas eu sei o que se passa em meu coração e o que está em minha mente.
-E o que está em seu coração? – perguntou antes que pudesse conter a própria língua e o desejo de perguntar-lhe.
-Está em meu coração o desejo ardente de... – olhou profundamente em seus olhos, achando ter visto neles o mesmo desejo que havia nele, e o mesmo ardor de ser correspondido -... Voltar a provar de seus deliciosos doces. – terminou num gracejo, beijando suas mãos, com a carícia delicada de um homem que toma todo cuidado possível para não subjugar sua mulher. – Devemos descer e aproveitar da companhia do conde.
Hermione sentiu-se rejeitada novamente.
-Preciso lavar o rosto e... - engoliu em seco, sentindo-se frágil demais. Sua boca estava seca e seus olhos úmidos. Detestava o modo como vinha sentindo-se em relação a ele.
-Entendo, foram muitas horas de tortura – ele apontou alguns vestidos sobre a cama, sorrindo enquanto saia e fechava a porta atrás de si.
Hermione sentou-se na cama, alarmada pelos sentimentos que a corroíam.
Aquele homem a fazia fraca, e detestava sentir-se desse modo!
Tinha que ser forte! Não podia curvar-se diante da apatia de ser deixada de lado pelo homem que... Apreciava. A palavra amor estourou dentro de sua cabeça, mas ela rejeitou, sentindo-se mais forte ao recorrer à raiva e deixar o carinho de lado.
Se Rony não a queria e preferia Londres e as moças aprumadas e fúteis, ela estava pouco se importando!
Beta: Estava pouco se importando mesmo???
Autora: esses capítulos são fundamentais para os que estão vindo. A partir do 108 o ritmo volta a ser mais intenso, com acontecimentos mais concretos.