CAPITULO 101 – A PRIMEIRA RUSGA
A noite foi solitária.
Hermione acordou sozinha na imensa cama de colchão de penas. Porque será que tudo em Londres era feito com penas? Travesseiros, chapéus, colchões...
Suas costas doíam, e seus pés estavam inchados.
Isso não se comparava com a irritação dentro dela. A três noites, Ronald Wesley não dormia em casa.
Entendera a primeira noite, ainda na casa de Harry. Chegara muito tarde, junto a Harry depois de muitas hotas conversando com o tal juiz que os ajudaria. Nada mais justo que pegar no sono em uma poltrona e não se lembrar de subir e se dedicar ao lado de sua mulher!
Na segunda noite, já na casa deles, depois do enfadante e estranho jantar junto à família Lovegood, composta apenas de pai e filha, havia aparecido com uma desculpa sobre precisar falar com urgência com alguém que somente poderia atendê-lo à noite.
E o mesmo se repetira na noite seguinte.
Não que sentisse falta dele na cama, não mesmo. A essa altura queria mais é que morresse e a deixasse em paz!
Aquele cretino brincava com seus sentimentos! Achava que era tola para não saber que estava metido em algum cabaré de cortesãs!
Com raiva, afastou as cobertas e levantou-se. Bocejou asperamente, achando delicioso o arzinho frio da manhã. O sol brilhava lá fora, indicando um longo dia ensolarado e talvez, calorento.
Separava o que vestiria quando ouviu a suave batidinha na porta.
-Entre Anna!
Todas as manhãs a menina achava que deveria vesti-la. Na primeira vez achara estranho e quase morrera de rir, mas agora, estava achando bem agradável ter ajuda para prender os cabelos e abotoar o vestido.
-Bom dia Sra.Wesley. – ela entrou sorrindo, resplandecendo como sempre.
Não importava o quanto pedisse, ela não conseguia chamá-la pelo primeiro nome. Dizia que eram muitos anos cuidando da casa de outras senhoras, e tinha pegado o hábito de chamá-las respeitosamente.
-Bom dia Anna – sorriu-lhe agradecida diante da bacia com água fresca.
-A Srta. Lovegood esteve aqui mais cedo, disse que não poderia esperar que acordasse, pois tinha uma aula no Rosie Nell. Mas viria mais tarde. Deixou algumas roupas para a senhora.
-Roupas? – lavou o rosto e secava-o com uma toalha.
-Sim, disse que notou que quase não tem roupas apropriadas para Londres, e como ela não usa as dela, por que nunca se lembra de usá-las, achou que seria agradável emprestá-las. Devo mandar de volta?
Hermione ficou pensativa. Deveria declinar, mas era uma oferta sincera. Rony se esquecera dela e de que precisaria de roupas novas, então, porque não aceitar a bondade de alguém que não tinha malicia?
Luna era assustadora a primeira vista, mas era também tranqüilizadora a longo tempo. Não era apegada a excesso de mesuras, ou de cumprimentos tolos, muito menos falava pomposamente.
-Não. Vou aceitar sua oferta. Anna, você pode colocar uma panela no fogo com leite? Vou fazer uma torta para presentear os Lovegood!
-A senhora sabe fazer tortas? – perguntou surpresa.
-Sim, você não sabe?
-Não – disse decepcionada – Mas ajudo a Sra.Lammer nos domingos a preparar as tortas da casa de chás – disse orgulhosa de si mesma.
-Roxanne Lammer? – lembrou-se desse nome e do panfleto que recebera - é dona de uma casa de chás?
-Sim. A maior e mais bonita da cidade.
-Me conte sobre ela, e lhe ensinarei a fazer tortas Anna! – brincou para ganhar seu sorriso.
Anna seguiu lhe contando sobre a vida dessa intrigante mulher, e Hermione a incentivava a continuar falando. Depois de vestida, Hermione disse a Anna:
-Desça e tranque as portas Anna. Peça a Duran para colocar algum móvel bem pesado contra as portas da frente e dos fundos.
-Mas, Sra.Wesley?
-Apenas faça o que eu pedi Anna – sorriu-lhe.
Estar em Londres e ter admitido que se casaria com ele em uma Igreja, e principalmente, que não o repudiava, não a fazia ser outra pessoa, e se Ronald Wesley não sabia disso, ficaria sabendo hoje!
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O trinco girou, mas a porta não abriu. Rony disse algo a Harry, e tirou a chave do bolso, se perguntando se Hermione haveria saído sem ele.
Tinha certeza que o trinco estava solto, mas a porta não cedeu um centímetro sequer.
-Talvez tenha emperrado – Harry sugeriu, exausto da noite insone.
-Talvez – ele disse desconfiado.
Os dois seguiram para os fundos da casa, e o mesmo se repetiu. Voltando a porta da frente, ele bateu com força por vários minutos, até que Anna aparecesse numa das janelas do segundo andar, ela olhou para baixo e desapareceu no instante seguinte.
Achou que finalmente abriria a porta, mas nada aconteceu. Olhou para a janela e gritou a plenos pulmões que Anna abrisse a porta.
Novamente, alguém apareceu na janela.
Hermione fitou a imagem do seu marido lá embaixo olhando para ela com indagação.
-Hermione! O que há de errado com a porta? – ele gritou irritado, tentando forçá-la novamente.
-Não há nada de errado com a porta – ela respondeu num tom que não enganava.
-Está me impedindo de entrar em casa? – ele deduziu furioso.
-Nem ao menos cogitei que quisesse entrar em sua casa! – ela ironizou – Porque não volta para o lugar onde tem passado suas noites?
Com essas palavras, fechou a janela.
-Disse a ela onde estava passando a noite? – Harry perguntou com cuidado, pois ele parecia prestes a explodir de ira.
-É claro que não! Como contar a Hermione que a assassina de toda sua família fugiu e tentou matar o conde?
-Ao menos deveria ter inventado uma boa desculpa. – ele apontou para a janela. – é melhor ir até em casa para tomar o desjejum e pensar em como vai resolver esse problema com Hermione.
-Não. Em algum momento ela terá que sair – disse petulante, sentando-se num degrau da escadinha que desceu da porta em direção ao jardim.
-Se é assim que vai ser, preciso ir. Sua irmã é mais compreensiva, mesmo assim, sei que está irritada com meus sumiços.
Despediu-se de Harry e observou-o partir em sua carruagem.
Desde sua chegada a Londres, estivera cheio de idéias sobre mostrar a cidade a Hermione, apresentá-la a amigos e conhecidos, resolver o problema que os fizeram irem até ali.
Mas uma visita ao conde o alertara da situação que vivia. Atacado pela prisioneira, ele convalescia de cama, e mantinha seus homens na busca de sua ex-mulher. Como genro, tomara para si a incumbência de ajudar a coordenar as buscas, visto que o conde era um homem solitário e não tinha um homem de confiança desde que seu secretário fora demitido por ter compactuado com os planos de sua louca mulher.
Não era, portanto, um assunto que pudesse contar a Hermione.
Furioso consigo mesmo por não ter previsto que sua simples explicação sobre precisar resolver um ‘negocio’ não seria suficiente para tirar qualquer idéia errada de sua cabeça, esperou.
Uma hora teria que sair.
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-Sra.Wesley! Sra.Wesley...! – Anna disse com voz frágil – seu marido continua sentado no mesmo lugar.
-Deixe-me ver – ela afastou a cortina e espiou. A menina tinha razão.
Eram duas da tarde e Rony continuava sentado no mesmo lugar.
E se ela estivesse errada? Coitado.
Mas e se estivesse certa? Soltou a cortina e olhou para a empregada exasperada.
-Quero que lave o chão Anna – ela pediu subitamente.
-Mas eu lavei ontem...
-Lave de novo – mandou – e quando terminar traga a balde de água suja aqui em cima para mim.
Talvez suspeitando de suas intenções, a menina obedeceu.
Voltando a janela, Hermione olhou para o homem que continuava sentado. Ele parecia irrequieto e furioso.
Cínico, queria ver se fosse ela a passar três noites dormindo fora de casa!
Anna demorou uma meia hora para terminar a limpeza. Quando subiu as escadas, encontrou Hermione no mesmo lugar, os braços fortemente cruzados.
-Aqui está.
Hermione abriu mais a janela e apanhou o balde. Apoiou-o no encostou e virou-o sem dó ou piedade.
Primeiro ouviu o gemido de surpresa e então um grito furioso. Depois, afastando o balde, curvou-se sobre a janela vendo o estrago.
Molhado pela água suja e fétida, Rony havia levantado e olhava para cima, diretamente para ela, com surpresa e incredulidade.
-Se não abrir essa porta eu juro que vou arrombá-la! – ele gritou ao recobrar a fala.
Algumas poucas pessoas que passavam pela rua, pararam para olhar o que se passava.
A única resposta de Hermione foi fechar a janela na sua cara, ignorando-o. Era óbvio que não poderia mantê-lo preso na rua para sempre! Aquela era sua casa, mesmo assim, sentia-se reconfortada dando-lhe uma lição.
Talvez ela também fosse cínica, pois lá no fundo sabia que Rony não estivera com outra mulher. Era apegado demais a ela para isso. A menos, claro, que estar novamente em Londres houvesse extinguido com todo o amor e desejo que sentia por ela.
Inquieta com essa possibilidade apanhou um livro e sentou-se para ler numa poltrona ao lado da cama. Anna arrumava as roupas num belo baú que havia aos pés da cama, e ainda era possível sentir o cheiro de pão quente recém tirado do forno que empesteara toda a casa.
Humilhado, Rony levou um minuto para digerir o torpor que o fazia suar de nervoso. Aquela bruxa! Imundo pela água, ele saiu da frente da casa. Não poderia fazer mais uma cena e atrair atenção desnecessária. Estava em Londres para se salvar e não arruinar sua vida de vez!
Furioso, observou a parte de trás da cozinha onde havia uma janela aberta. Cheiro de pão quente inundava todo o pequeno jardim dos fundos, onde haviam ervas plantadas e algumas flores mal cuidadas. Seu estômago quase traiu sua sede de vingança!
Sentindo as entranhas se revirarem só de pensar no momento em que poria suas mãos sobre Hermione e provavelmente estrangularia seu lindo pescoçinho, ele subiu naquela pequena e estreita janela, e pulou para dentro da cozinha, se perguntando como não pensara nisso antes.
Subiu as escadas correndo, ansioso por ouvir seus gritos de perdão.
Hermione estava tão entretida com a leitura que se esqueceu de Rony e de Anna. A menina saiu do quarto e arregalou os olhos no meio da escada ao ver o patrão subindo furioso e encharcado, se encolheu para que passasse, com receio pela patroa.
Hermione estava entretida, mas parou de ler por um instante, pois na trama a mocinha do romance se perguntava como seria depois que seu bebê nascesse. Hermione se perguntou o mesmo.
Haveriam fraudas sujas, mamadeiras e muito choro e noites em claro. Mas e o resto? Ela sentiria esse amor incondicional que as mães dizem sentir? Sabia apenas que sentia uma sensação de proteção tão forte que a impedia de fazer as atividades que sempre executava. Hoje mesmo, deixara Anna amassar o pão apesar de saber que era perfeitamente capaz disso.
Tinha receio de perder o bebê. E esse receio cresceria e viraria esse amor incondicional a que as mães se referem? Será? Será que Rony sentia o mesmo que ela, ou seria indiferente como muitos homens eram?
Pensando nisso deixou o livro no encosto da cadeira e tocou sobre o ventre sentindo o contorno de sua barriga. Estava cada dia mais inchada, e se fosse sincera admitiria que aquele inchaço era mais que isso.
Seu rosto havia arredondado um pouco, assim como seus seios estavam mais cheios. O que antes era apenas uma curva arredondada abaixo do umbigo, agora era uma dilatação visível quando despia as roupas.
Ficou acariciando seu bebê, esperando que ele pudesse sentir o bem estar que a mantinha naquele estado de pura elevação ao pensar que seria mãe.
Rony irrompeu no quarto com a velocidade e a brutalidade de um homem furioso. Pretendia gritar com Hermione até que ela entendesse a repercussão de seus atos, fazendo-a engolir aquele seu maldito orgulho. Mas parou ao vê-la tão calma, serena e dedicada ao filho.
A fera dentro de si se acalmou vendo-a acariciar o bebê em sua barriga.
Quando o notou Hermione ficou com a respiração suspensa.
Era hora da briga e da discussão, mas ele não disse nada. Não gritou e não brigou.
-O conde me pediu ajuda. Seu secretário foi demitido e o conde esta convalescendo. Como genro, pediu que o ajudasse. Não quis preocupá-la. – ele disse sem saber por que estava se desculpando com a mulher que o trancara do lado de fora de casa e tivera a audácia de jogar água suja sobre ele.
-O conde está bem? – havia uma ruga de preocupação em sua testa.
-Sim, foi apenas uma queda da escada. Nada demais. É um homem muito rico, tem muitos cuidados. Agora está melhor e pode receber visitas.
Era estúpido ficar ali a sua frente, ignorando o próprio estado.
Hermione levantou-se um pouco insegura e limpou a garganta antes de dizer:
-Vou preparar seu banho.
Quando ela tencionou passar por ele, como se nada houvesse acontecido, Rony segurou seu braço. Hermione ficou exatamente ao seu lado, no sentido contrário, olhando diretamente para seus olhos azuis.
Havia rancor ali.
-Espera sair dessa situação intacta? - ele perguntou rouco, pois ela estava tão perfumada e pueril, que o fez arder de desejo.
-Não... Por isso pretendo lhe dar banho.
Não ousou retê-la mais tempo. Soltou-a imediatamente, não era uma rejeição, mas sim, em um mudo incentivo para que não demorasse a preparar esse banho.
Hermione desceu as escadas com as pernas bambas, e na cozinha a pálida Anna a esperava.
-Prepare água para o banho de Rony – ela disse com voz tensa.
Soltou o ar que prendera na ânsia de fugir de uma briga. Uma das mãos pressionou o próprio estômago, sentindo o ar escapar enquanto ela ria.
Bem, dessa vez escapara.
Das próximas vezes, era melhor perguntar antes de agir!
AUTORA: o problema vem no próximo capitulo. Tanta calmaria, só pode ser o céu se armando para chuva! Heheh....
Tô passando aqui correndo, tinha um monte para falar, mas não dá tempo!
Beijos.