CAPITULO 95 – SEM ACREDITAR
-Juanita me alertou sobre me acalmar – ela respondeu após uma longa pausa, sentindo os olhos úmidos – Eu tento, juro que tento, mas não consigo. É mais forte que eu. Ter...ter deixado minha casa, eu não...não queria ter gritado, ou me negado a vir, mas não posso evitar!
-Isso não muda o que eu fiz – ele disse soltando suas mãos, e Hermione começou a entender que ele sentia-se culpado – Trouxe-a contra sua vontade. Tranque-a num quarto, como se não fosse minha mulher, como se fosse um animal qualquer! Arrastei-a até a estação de trem, subjuguei-a com minha vontade e como um animal, a violentei.
-Eu beijei outro homem, na sua frente – ela argumentou.
-Não é desculpa para uma violência! – ele levantou-se nervoso.
-Violência? – ficou confusa – não houve violência...
-Amarrei suas mãos, e amordacei sua boca! – ele virou-se para ela furioso consigo mesmo – A impedi de pedir ajuda, de dizer não!
-Mas eu não disse não! – ela respondeu no mesmo tom, suspirando – Todas às vezes que tenta falar comigo, o agrido. Não é de se surpreender que tenha me amarado! Teria sido agressiva outra vez! E com certeza teria gritado todos os tipos de ofensas. Não tem culpa de estar farto!
-Não estou farto – surpreendeu-se – Fui insensível a sua dor, a sua dificuldade em deixar sua casa para trás. Mas, Hermione, se eu fraquejasse, deixasse a escolha em suas mãos, não teria vindo comigo! Eu não poderia deixá-la para trás! Esses dias não tem sido fáceis para você, eu não respeitei isso. Mas não tem sido fáceis para mim também. Nunca antes me senti ameaçado. Sempre fui livre. Criado longe da minha família, sempre fui livre, mesmo com as rígidas normas da escola interna. Eu me rebelava e não acatava. Nunca antes me senti privado do direito de escolha e agora, não sei como lidar com essa situação! Se vou preso, deixo minha mulher e o filho que não nasceu, sozinhos. Tente entender minhas razões!
-Eu entendo – ela abaixou os olhos, para que ele não visse que estavam úmidos – Minha casa é a única coisa que ainda é meu. – admitiu - não tenho mais onde segurar...
-Uma casa não pode dar-lhe o retorno que espera. Não tem capacidade para te apoiar e amparar-la. Não deposite sua confiança e bem estar num local inanimado.
-E onde vou depositar minha confiança? – havia desamparo em sua voz e ele notou que lacrimejava.
-Em mim. Sou a única pessoa que pode segura-la, e você é a única pessoa que pode me segurar. –afirmou, sério.
-Seus pais, seus irmãos...
-São passado. Cresci longe, eles jamais me conheceram como sou inteiramente e jamais poderia me abrir com eles da forma como posso fazer com você. O que não muda, minha hipocrisia, ao querer que confie em um estuprador!
-Não diga isso de si mesmo! – ela repreendeu – Não foi uma violência!
-Eu a forcei! Que outro nome dá a isso? – irritou-se.
-Eu não sei! Não sou a criatura mais fácil de se lidar!- explodiu também – Porque não me ouve? Estou tentando pedir desculpas pela forma como venho agindo nos últimos dias! desculpas por ter beijado Harry, por ter agredido-o tantas vezes pude! Ora, homem irritante, vive insistindo que diga essas coisas, e quando o faço, não quer ouvir ou entender!
Rony escutou seu desabafo. Aproximou-se da cama, se inclinou em sua direção e segurou seu rosto entre as mãos:
-Te machuquei? – era um pergunta direta.
-Não – lutou para não corar.
Aquele homem precisava ser tranqüilizado, para poder continuar seguindo em frente, sem culpas.
-Seja sincera, está machucada? Não fui gentil.
-Meus pulsos estão doloridos, e meus braços também. – confessou, pois ele precisava saber para se acalmar. Corando, precisou conter a vontade de rir de vergonha ao completar – E estou ardida em algumas partes inconfessáveis.
-Feri aquilo que mais cuido – ele disse pensativo e Hermione também tocou seu rosto para fazê-lo olhar para ela.
-Não me sinto ferida – confessou novamente.
-Está confusa – ele disse pesaroso – Por isso me perdoa tão fácil.
-Não quero mais brigas, tenho que me acalmar – ela pediu – Se eu digo que não me machucou, tem que acreditar em mim.
-Porque está tão cordata? – ele desconfiou por um instante.
-Porque estou calma – ela disse, corando tanto que o deixou desconfiado. Ela segurou um sorriso ao confessar – Sempre fico assim, depois que...- fechou os olhos com força, achando que ele precisava ouvir para se acalmar - ...que sinto...tudo que sinto naquela hora que...ah...
-Depois que goza?
-Não fale isso! – repreendeu – Mamãe sempre dizia que não se deve falar nessas coisas com um homem!
-Isso não pode mais se repetir. Não posso ter esses impulsos. Sequer pensei no nosso bebê!
-Não vai mais me tocar? – havia algo de desespero em sua voz e ele quase sorriu ao notar que desejava o contrario.
-Queria ser forte e prometer isso, mas não posso. Apenas, daqui para frente, sempre pedirei sua permissão. Se disser não, será não!
Hermione mordeu o lábio, quando ele se afastou. Não era uma boa decisão aquela!
-Mas eu sempre vou dizer não – contou, com uma expressão de desagrado – Mesmo que tenha decidido, dias atrás, antes que fosse baleado, que iria convidá-lo a ser meu marido de verdade, inclusive no leito, mesmo assim, seria incapaz de dizer sim – falava muito rápido, muito nervosa – Não consigo dizer sim! Não consigo aceitar, eu não...
-Está tentando acalmar minha culpa – ele sentiu um calor delicioso no coração ao notar que se importava com ele. – Não precisa dizer essas coisas apenas para que não me culpe!
-Mas eu não estou dizendo para que não se culpe! Eu realmente...
-Não vamos discutir, lembra-se? – ele tentou sorrir – é uma decisão que preciso acatar. Jamais voltarei a possuí-la sem o seu ‘sim’.
Ótimo, pensou, Hermione. Meses pensando em como dizer a ele que o desejava em sua vida, e simplesmente, Rony não acreditava!
Contendo a vontade de mandá-lo plantar batatas, ela tentou uma garfada do macarrão agora frio, e ele sorriu ao notar sua carreta.
-Vista o penhoar – ele entregou-lhe o tecido – Vamos a um lugar!
-De camisola! Rony não posso andar pelo trem de camisola!
-Ninguém irá nos ver! E prometo, na volta, passar na cozinha e pedir ao cozinheiro que prepare algo comestível para você! O que me diz?
-Digo que é louco! – ela resmungou, levantando-se da cama, vestindo o penhoar, e fechando-o com um nó apertado na cintura. Calçou os chinelos e o seguiu, para fora da cabine...
Hermione seguiu-o pelos corredores, seguindo vagão após vagão, sempre se espreitando quando algum passageiro viesse em sentindo contrario. Estava sorrindo, dos comentários de Rony, quando chegaram ao destino final.
Ela levou um segundo para perceber que estavam no ultimo dos vagões. Olhou para os trilhos que ficavam para trás e sentiu-o atrás de si, as mãos em sua cintura.
Tentando ocultar um sorriso, virou o rosto para trás e perguntou:
-Devo me preocupar em ser atirada nos trilhos?
-Não – ele também sorriu ao responder – Desde que jure que jamais beijará outro homem, não corre o menor risco! – ele também brincou.
-Não posso fazer essa promessa – ela sorriu, afastando os longos cabelos do rosto, pois ventava e eles esvoaçavam a sua volta – Posso ter um menino, e esse menino um dia será um homem feito, e o beijarei sempre que tiver oportunidade!
-Neste caso, sua promessa não se aplica! -ele envolveu um dos braços em sua barriga e ela sentou a solidez de seu corpo contra o dela.
Despertou-lhe um desejo diferente, o incontrolável desejo de se apoiar a suspirar.
-Porque me trouxe aqui? – perguntou por fim, vencida pela curiosidade.
-Olhe bem para a paisagem que deixamos para trás – ele pediu, a voz rouca, em seu ouvido.
Hermione percebeu que estava escuro, a luz que iluminava ao redor era do próprio trem, e permitia que visse os trilhos por qual passavam rapidamente, as árvores, a terra, os arbustos e tantos outros detalhes da paisagem, que não conseguiria explicar em palavras.
-É terra, Hermione- ele seguiu dizendo – Terra, mato, arvores, um chão solido, que fica para trás. Amanhã, quando amanhecer, estaremos longe daqui, mas essa terra ainda estará aqui. E assim será por dias, meses e anos. O que não acontece com as pessoas. Elas crescem, ficam doentes, morrem. Ou não tão melodramaticamente, apenas partem, ou casam, ou se mudam. As pessoas são o que importam na vida. Sente falta dos seus pais, e sentirá falta de Juanita e seus filhos nas próximas semanas em que estivermos longe. É essa sensação que importa. Estarei com você, e a protegerei das aflições e das pessoas que tentarem magoá-la. Mas não poderei fazer isso, se me tratar como um inimigo para sempre. Não se apegue a terra, se apegue a mim. Ao filho que teremos e a vida que construiremos juntos. Será mais fácil viver e ser feliz, se fizer isso.
Calada, absorveu cada uma das suas palavras e manteve um das mãos sobre o braço que a envolvia. Rony tinha razão.
Apesar disso doía terrivelmente lembrar-se do que deixara para trás.
-Jurei que nunca deixaria Ann. E agora, ela está sozinha. Totalmente sozinha – foi seu argumento.
Rony sentiu sua dor e se odiou por não ter entrado em sua vida antes, quando era possível mudar tudo. Ter se casado e assumido a fazenda, e hoje, toda sua família estaria viva e feliz. Mas nem sempre os sonhos são capazes de mudar a realidade.
-sua irmãzinha não está sozinha. Hermione, ela está entre os anjos do céu, que é para lá que vão as meninas boas. Sua mãe deve de estar ao lado dela, cuidando e zelando por ela. Nunca mais estará sozinha, e se estivesse viva, tenho certeza, exultaria em ver sua felicidade!
Hermione não respondeu. Ficou olhando para a terra que ficava para trás. Haviam três dias que deixaram a cidade. Estavam a muitos quilômetros. Rony tinha razão em parte. A vida não para, longe ou não de casa.
-Podemos ficar um pouco aqui? – perguntou com voz tão baixa que o emocionou.
-Ficaremos o tempo que desejar.
Hermione pensou em insistir sobre o fato de serem um casal definitivamente mas disse a si mesma, para se lembrar, da acusação de Lavander Brown. Não podia acreditar tão cegamente.
Suspirou, e se recostou contra seu peito largo, sem notar que se deixava aparar totalmente.
Rony segurou-a, abraçada a si como um protetor, sentindo uma forte dor dentro de si, ao lembrar a forma como abusara dela. Tão jovem para ser tão sofrida.
Um pai explorador, que ousou brincar com seus sentimentos e seu futuro, uma mãe insegura. Um bárbaro ataque que levou a vida de sua família. Uma surra tão absurda quanto sua capacidade de estuprá-la!
Como pudera fazer isso? Era um covarde. Um arrogante covarde!
Hermione moveu-se em seus braços, ficando de frente, o rosto em seu peito, tocando-o sobre o coração. Quando ela ergueu os olhos, havia algo malicioso em sua expressão e em seu sorriso, ao dizer:
-Essa noite, não vou dizer não.
Emocionado, estreitou-a contra seu peito, erguendo-a um tanto, para sentir seu corpo colado ao seu. O vento movia seus cabelos e ele deixou-os cobrirem seu ombro, enquanto olhava em seus olhos profundamente.
Pretendia pedir perdão novamente, implorar sua compaixão, mas não falou nada, apenas desceu os lábios sobre os dela. Um beijo sereno. Um toque casto e sensível.
Um pedido de perdão não verbal.
Hermione sentiu aquele carinho, dentro de si um aperto de amor tão grande, que enlaçou seu pescoço, tentando compensar a diferença de altura, escalando em seu corpo. Abriu os lábios sobre os dele, pedindo por mais.
Um longo beijo de amor, com desejo e sedução. Um beijo de carinho e perdão.
Jamais voltaria a beijar outro homem. Não havia outro beijo tão perfeito!
Envolvente, profundo e misterioso. Seu beijo era quente e intoxicante. Envolvida, mal percebeu a razão, quando Rony se afastou. Um pigarrear atrás dos dois e uma luz irritante sobre eles.
Era o vigia do trem, com sua lanterninha irritante. Contendo um sorriso, Rony deu uma desculpa qualquer, enquanto os dois saiam apressados dali.
No meio do caminho, em um corredor qualquer, ela soltou a risada que estava presa em sua garganta, e parou-o, roubando-lhe um beijo. Um novo beijo, ou apenas a continuação do anterior. Não importava!
Ele colocou-a contra a parede e desceu as mãos por seus quadris, desejando aprofundar o contato. Ela gemeu em resposta, lembrando de mais cedo e desejando com todo seu ser voltar para aquela cama!
-Buscarei algo na cozinha para nós – ele disse arfante, desvencilhando-se dela, e levando-a para o camarote de ambos. Abriu a porta, e esperou que entrasse – Não demoro!
-Sei que não vai demorar -ela disse convencida, erguendo uma sobrancelha, além de maliciosa muito convicta de sua sedução sobre ele.
Rony quase não foi. Se não estivessem famintos e ela estivesse grávida, teria mandando o mundo as favas e entrado com ela.
Hermione deixou-o trancar a porta por fora, para que não abrisse nas curvas que o trem fazia, e despiu a camisola. Não ia precisar dela!
Sorrindo como uma boba, depois de tanta tensão, ela entrou embaixo dos lençóis, pois a temperatura era bem friazinha, e esperou.
Rony demorou cerca de quinze minutos para conseguir algo comestível. Eles tinham apenas pão e chá, mas era o suficiente. Com uma bandeja, ele entrou e fechou aporta.
Hermione sentiu-se despertar de seu cochilo, alertada pelo cheiro do chá e do pão quentinho. Sentou-se, sonolenta, e cansada e Rony parou no meio do quarto, um momento para admirá-la.
Segurando o lençol, para não mostrara nudez, os cabelos caindo sobre os ombros delicados, as mexas reluzentes e macias. Os olhos entreabertos, um suspiro adorável escapando de seus lábios ao ver a bandeja.
Sentou-se ao seu lado, entregando a ela o pão e segurando a xícara do chá, observando-a comer gulosamente. Era uma visão e tanto, depois de tanto tempo vendo-a apenas beliscando a comida. Houvera um tempo em que Hermione se satisfazia com apenas uma ou duas colheradas de sopa. Um absurdo!
Satisfeito, esperou que terminasse, e ajudou-a a deitar contra os travesseiros. Hermione enlaçou as mãos na sua camisa, nos olhos um pedido por mais. Rony beijou sua testa e acomodou-a entre os lençóis, acariciando-a por apenas alguns segundos, antes que adormecesse novamente.
O desejo queimava em seu corpo, porém não ignoraria sua necessidade por descanso e paz. Comeu um pedaço do pão, e se despiu entrando em ela, embaixo das cobertas.
Hermione o esperara livre das roupas, pronta para se entregar. Talvez agora, eles pudessem finalmente se entender e ser um casal. Quem sabe, depois de tanta desventura, pudessem encontrar a felicidade!
Sorrindo, ele ajeitou-a em seus braços e adormeceu quase imediatamente.
Autora: Tem NC no próximo!!! Hehe....
Recadinhos: Bruna, estou pensando na sua idéia. No próximo capitulo já devo ter uma idéia se dá ou não para fazer.
Beijos!!!!!!