CAPITULO 92 – POR TRÁS DO ÓDIO
O primeiro trem partia antes do amanhecer. A carruagem do conde trouxe-nos num silêncio mortal. A carroça, trazia as malas. Guilherme e os irmãos seguiam-nos de perto, talvez temendo que Juiz ficasse sabendo e tentasse impedi-los.
Faltavam poucos minutos para o trem partir, quando Hermione notou que o menino Duran parecia muito nervoso, e carregava uma pequena trouxa.
Notando o interesse, o menino pigarreou ao dizer, sentindo-se muito importante:
-O patrão disse que devo ir para cuidar de sua segurança.
Hermione não respondeu. Sentiu o choro preso na garganta. Concordou, e o menino sentiu-se ainda mais importante. Ia vigiá-la em Londres.
Ao seu lado, esperando pelo trem, Gina não se continha de entusiasmo. Nem mesmo sentia ciúmes, de ver Harry segurando firmemente no braço de Hermione.
Ordens de Rony, que não podia se aproximar dela sem causar uma nova guerra. Fora um verdadeiro inferno convencê-la a vestir-se para a viagem e quando vira as malas prontas, Hermione apenas fechara a expressão em uma mascara de ódio.
Antes de deixarem a fazenda, no entanto, ela quase desmoronou quando Juanita se aproximou em um momento de distração de Gina e Harry e lhe entregou um embrulho.
-Guarde com você, mas não faça nenhuma besteira. Ouviu?
Era sua arma, a mesma que Rony escondera no dia anterior. Ela não agradeceu, mas Juanita a conhecia bem demais para precisar dizer. Bastava olhar em seus olhos.
-Lembre-se: quanto mais nervosa, mais agressivo será a criança. – ela fizera o sinal da cruz diante de sua testa como sua mãe teria feito, num pedido de proteção – Se enjoar no trem, fique deitada e feche os olhos, diminuí o mal estar pelo movimento do trem. – recomendou.
Afastando essa lembrança, olhou para Duran seriamente:
-Sua mãe concordou?
-A mãe sabe que é o melhor para mim, e o pai queria que eu viesse – disse orgulhoso – um homem tem que ser homem desde cedo!
-tolice. Tem só treze anos! -ela lembrou-o.
-Catorze na semana que vem – o menino revidou e Hermione ergueu o queixo em sinal de que não aprovava sua petulância. Duran fingiu não notar e se afastou para ajudar a guardar as malas no trem.
-Será uma linda viagem, Hermione – Gina tentou melhorar seu humor – Por favor, sorria.
-Como posso rir de minha desgraça? – ela perguntou.
-Está cuidando do seu marido, e por conseqüência de seu filho, e de si mesma. Não seja tão má! – Gina insistiu.
-Espero que nunca em vida lhe tirem tudo que ama. – Hermione disse muito magoada – mas se um dia acontecer, entenderá por que não posso sorrir!
Virou-se, após soltar-se do aperto suave de Harry, virando-se para o outro lado, para que não vissem suas lágrimas.
O som do apito do trem avisou-lhe que em poucos minutos estaria partindo. Era o primeiro dos três apitos que avisavam a partida. Sentiu algo sufocar sua garganta e temeu cair no pranto, ao lembrar-se que não se despedira de sua mãe e de Ann, e seu pai. Mesmo que desiludida, tinha muito amor pelo homem que a criara. Nem mesmo uma flor tivera oportunidade de levar ao cemitério antes de partir.
Harry e Gina conversavam baixo, para não causar-lhe maior comoção quando Hermione notou que era observada. Uma moça, atrás de uma pilastra, segurando sua sombrinha chamativa, espreitava.
-Aquela não é Suzan? – foi Gina quem perguntou, com uma pitada de desespero na voz – Oh, Deus, Rony não conseguira fugir a tempo!
-Não é uma fuga – Harry lembrou-a – enquanto não foi intimado, não é uma fuga. O trem parte em alguns minutos, não há o que temer. – tranqüilizou-a.
-A menos que tenha enviado seu cocheiro para avisar o juiz a mais tempo. Onde está seu amigo? – Hermione se recusava a pronunciar o nome de Rony desde que ousara trancafiá-la como um animal.
-Deveria estar despachando as malas, mas não o vejo mais – Harry disse preocupado, olhando em volta.
-Harry, procure-o. Pode ter sido levado! Só Deus sabe do que o juiz é capaz para casar sua horrível filha!
Harry pareceu em duvida se era boa idéia deixar Hermione sozinha com Gina, temendo que ela fugisse. Ao se decidir e se afastar em direção aos carregadores, Hermione olhou para as mãos de Gina.
-Guarde sua pulseira e seu anel em sua bolsa – mandou sem tirar os olhos de Gina, enquanto tirava as próprias luvas e guardava.
-O que pretende fazer? – havia medo em Gina.
Conhecia Hermione a tempo bastante para saber que aquele olhar era perigoso.
-Eu disse, e ninguém me houve. Diplomacia não funciona com algumas pessoas!
-Hermione? – tocou seu braço em sinal de cuidado, e pedido de prudência.
-Lembra-se do filho dos Gueen? Quando nos importunava e éramos apenas crianças de seis anos. Lembra do que fizemos? – perguntou maquiavélica.
-Hermione...- seu tom agora era de puro prazer, ao olhar para Suzan e se afastar de Hermione.
Suzan não tinha medo de Gina, bem pelo contrario. Ficou encantada quando Gina abordou-a, para conversarem sobre como Gina ajudaria a atrasar o irmão para que ele ficasse e pudesse ser apanhado.
Tão encantada que a seguiu até os fundos da estação.
Há muitos anos, quando não tinham mais que seis anos, Hermione e Gina decidiram que precisavam se livrar do filho mais novo dos Gueen. Ele tinha nove anos, era mais alto e grande, e implicava com as duas, inclusive impedindo-as de brincar no lago.
Os pais das duas não levaram em consideração por serem apenas meninas e crianças. Então, numa tarde de outono, arquitetaram um elaborado plano para que o menino nunca mais as importunasse.
Gina o engabelara, com sua conversa mansa, e olhar doce, levando-o até o lago. Brincariam de esconde-esconde. Hermione os esperava atrás de um árvore e o acertara na cabeça com um galho de árvore. Depois, elas o amarraram em um tronco de arvore e foram embora.
Uma noite inteira amarrado no bosque e o menino aprendera a lição. Jamais voltara a se aproximar de uma das duas.
Hermione esperou que estivessem onde precisava, e se aproximou.
Suzan imediatamente arregalou os olhos e tentou se afastar, mas Gina barrou sua passagem.
-Porque está aqui?
-Eu os vi na cidade. – ela contou assustada – Achei que o seu pai conde estivesse indo embora! Mas vejo, que me enganei! Estão fugindo!
-Fugindo não! – Gina corrigiu-a – Somos livres para viajarmos!
-E para onde vão? – ela perguntou batendo o pé no chão, enraivecida.
-Mandou avisar seu pai? – Hermione interrompeu a conversa, contendo a fura.
-O que você acha? – Suzan ironizou – Em alguns minutos estarão aqui! E Rony não será apartado de mim!
-Apartado de você? – nem Gina acreditava no que ouvia.
-Não se impressione, Gina, isso é o que acontece quando uma mulher não encontra um marido. Fica desesperada! – sem tirar os olhos de cima de Suzan, entregou sua bolsa a Gina e esse simples gesto, fez Suzan dar um passo para trás.
-O que pretende fazer, sua louca? – ela olhou em volta, notando o quanto estavam longe, sem serem vistas pelos transeuntes.
-Acha que seu pai consegue chegar antes do terceiro apito? – perguntou ao ouvir a segunda chamada do trem.
-Não posso deixar o homem da minha vida ir embora! – Suzan alterou-se, a beira das lágrimas – Não é homem para você! Merece alguém melhor! Alguém educado! Fino! Alguém como eu! Sua...sua coisa sem graça! Feia! Estúpida!
-Acontece, que Rony não vai casar com você – ela disse ficando a centímetros de Suzan – Sabe porque?
-Por quê? – Suzan perguntou sarcástica.
-Porque mortas não casam! – ela gritou, empurrando Suzan contra a parede do terminal.
-Meu Deus!- Suzan Gritou, quando caiu.
Hermione revirou os olhos. Será que não agüentava um empurrãozinho de nada?
-Não pode me bater! – ela gritou no chão, chorando.
-Não estou te batendo! – Hermione curvou-se e agarrou seus cachos feitos artificialmente, estragando seu penteado ao fazê-la levantar-se, pelos cabelos. – Estou te dando um aviso.
-ME SOLTE! – Ela chorava de dor, e Gina olhou para Hermione, que não parecia muito interessada em soltar seus cabelos.
Com um doloroso puxão, ela soltou-a.
-Faremos uma longa viagem, e quando voltar, espero que esteja casada. Caso contrario, arrumo um meio de casá-la com o primeiro indigente que saltar desse trem! Está me ouvindo?
-Não pode fazer isso! -ela riu sadicamente, alisando a cabeça, em dor.
-Um pai conde pode conseguir muito mais que um pai juiz. Não esqueça disso! Estou tendo que deixar tudo que amo para trás por sua causa! Juro que não terei dó, de alguém que me faz tanto mal! Está entendendo?
-Louca, é isso que é! Uma louca! – Suzan chorou desesperadamente, de medo que pudesse ter como cumprir suas ameaças – Eu o amo! Quero esse homem para mim! Se preciso for, entro nesse trem e parto com ele no seu lugar! Vê, meu amor não tem pudor! Porque não fica e me deixa ir em seu lugar?
Gina olhou para Hermione para constatar se estava considerando essa possibilidade ou não. Ficar era tudo que sonhava!
-E fazê-la feliz? – Hermione riu irônica, apanhando a bolsa das mãos de Gina – Prefiro apodrecer ao lado de Ronald, apenas pelo prazer de vê-la infeliz!
Com essas palavras, virou as costas e se afastou com Gina correndo atrás dela. Havia soado o terceiro aviso, e se não corressem não chegariam a tempo.
Harry estava desesperado, olhando em volta, tentando achá-las. Rony gritava alguma coisa acima do som do motor do trem, que estava a segundos de partir.
Quando as avistou, ele gritou um palavrão, correndo para agarrar o braço de Hermione com toda sua raiva e força.
Hermione nem tentou soltar-se, e foi arrastada para dentro do trem. As pessoas olhavam, e humilhada, espezinhada e magoada, foi empurrada para um acento, rente a janela. Ele sentou-se ao seu lado, e logo Harry e Gina sentaram-se a frente dos dois.
Ele estava vermelho e arfante. Olhava para longe, se recusando a olhar para ela.
Ninguém ousou dizer nada.
Hermione olhou pela janela, sem ver nada a sua volta. Sentia a dor de ser submetida aos desejos alheios.
Rony, sentia a dor de quase tê-la perdido. Achara que tinha fugido. Que o abandonara. Quis pedir desculpas pelo modo que a agarrou e arrastou, pelo modo como a trancara no dia anterior, mas não tinha condições. Não agora, com tantas emoções conflitantes dentro de si.
O trem finalmente deu partida e quando se movimentou, Gina agarrou a mão de Harry sorrindo para ele, feliz e a beira das lagrimas. Era doloroso se afastar dos pais e dos irmãos, mas era também um momento feliz. Conheceria Londres e a vida do marido.
Quando a estação ficou para trás, Hermione finalmente entendeu que não tinha volta. Com o coração quebrado, tocou o vidro da janela, que estava quente pelo sol escaldante.
Sua vida ficava para trás.
Não iria chorar. Ordenou-se que não chorasse.
Não o reconhecia mais como marido e dava graças a Deus por não ter lhe dito que o queria.
Agora, mais que nunca, odiava Ronald Wesley.
No meio da madrugada chegaram à primeira parada. O trem parou na estação e todos desceram. Harry alugou uma carruagem, e falou brevemente, sobre ficarem em um hotel até a manhã seguinte, quando partiriam novamente.
O próximo trem tinha acomodações próprias e seria o ultimo até Londres.
Sem falar nada, fato que se repetiu por todo aquele fatigante dia, Hermione seguiu-os. Gina estava exausta e abraça da Harry durante todo o caminho na carruagem, mas Hermione, apesar de sentir-se próxima a perder os sentidos, mantinha-se tensa e rija.
Nunca mais deixaria aquele homem colocar as mãos sobre ela!
Harry resolveu tudo rapidamente, e conseguiram dois quartos em uma estalagem. Era simples, mas tinha uma cama, e era o que importava.
Sem forças para brigar, Hermione deitou-se vestida e fechou os olhos. Queria morrer. Abatida, sentia vontade de morrer. Não fosse pelo filho em sua barriga, desejaria a morte.
Rony entrou no quarto e tirou as roupas, deitando na cama, cansado e abatido. Tudo que desejava, era abraçar Hermione e pedir perdão.
Implorar que entendesse suas razoes.
E para que?
Para mais briga? Não tinha certeza de ser capaz de suportar mais disso. Virou-se em sua direção, sorrindo ao ver o modo como estava adormecida.
Porque Hermione não podia ser mais acessível, como no dia anterior, quando lhe entregara seu corpo e seu amor de um modo tão intenso que ainda o deixava mudo e comovido de emoção e desejo?
Acariciou seus cabelos, e seu rosto, abraçando-a.
Se ao menos pudesse convencê-la da importância do seu amor. Mas como?
AUTORA: Ufa, estou indo para a fase Londres. Nossa, estou decidida a mudar tudo! Os próximos capítulos são passados dentro do trem, num artifício para desambientá-los, e tornar a aceitação da mudança de cenário mais suave.
Terá uma NC que está me preocupando um pouco.
Recadinhos especiais: Disomers, se você mandou a capa, eu não recebi. Snif...tente o email lizianesilva@hotmail,com
Mi, minha beta, cadê você? Tenho capítulos novos para mandar, mas como não sei se está podendo usar a net, estou guardando-os.
Beijos