CAPITULO 83 – AS CHAGAS DO AMOR
-Pagou em nome de Ronald? – a voz de Hermione não enganava.
-Sim, pareceu ser a atitude mais acertada – ele respondeu sem compreender sua fúria.
-E porque não em meu nome se sou a única herdeira por direito?
-Confesso que não pensei nisso na hora. Pareceu-me o mais acertado, pois Rony tem conhecimento nesses tramites legais. – ele engoliu em seco, envergonhado – Não pretendia causar um ultraje...
-Não mesmo? Pagou uma dívida que não lhe dizia respeito! – Rony respondeu extremamente ultrajado – Me humilhou Harry.
-Como? Desde quando querer o bem de um amigo é causar humilhação?
-Quem me dera ser humilhado dessa forma – George interrompeu, numa tentativa de acalmar os ânimos – Entendemos seu gesto Harry. Qualquer um aqui faria o mesmo se tivesse condições. Com exceção de Percy, claro, que não tem coração.
Era uma clara provocação, que Percy ignorou.
-Como efetuou o pagamento Harry? – Percy perguntou, sendo mais prático – Preciso estar preparado, pois se não encaminhar os documentos corretamente Ford lhe passará uma rasteira!
-Sei disso. Tomei o cuidado de transferir uma quantia significativa de Londres para cá, quando estive com Rony na cidade. É o suficiente para comprar a fazenda dos Gueen e quitar a hipoteca. Acreditem, fiz o que fiz motivado por apenas um sentimento. O de ver meu melhor amigo e sua mulher em segurança. Esse dinheiro para mim não significa nada. Envergonho-me dizer, mas é primeira vez em minha vida que fiz uma compra que não tivesse razões fúteis. Agora, além de amigo, e única companhia que tive em minha vida toda, é também meu cunhado. Se não pode aceitar, pense em sua irmã. E no gosto que é para ela lhe presentear.
-Não vou aceitar. – ele disse decidido.
-Prefere ter sua família na rua? – Arthur perguntou, acima das vozes de todos.
Rony sentiu-se o pior e menor dos homens fitando seu pai. É claro que não poderia tirar a fazenda de Hermione. Que não poderia ver seu filho nascer sem um teto.
Humilhado, não pode encarar Harry.
Era o amor de Harry que falava mais alto. Seu amor por Hermione. Como poderia um homem suportar tal fato?
-Tão logo fique provado que a certidão de casamento de Lilá é falsa, o negocio poderá ser desfeito – Percy argumentou.
-Não. – Harry sentiu vontade de sumir – eu paguei a hipoteca. Isso não tem ligação com a investigação de bigamia.
-Porque todos estão tão furiosos? – Gina perguntou incrédula – é o dia mais feliz da minha vida! Harry é meu marido! Como prova de seu amor, ajudou meu irmão! O que há de mais nisso? O dinheiro não lhe faz falta!
-Como acha que me sinto recebendo algo tão valioso que não poderei retribuir? - Rony perguntou com um gosto amargo na boca.
-Mas Rony, você me entregou sua irmã. Jamais poderei lhe retribuir tal fato. O dinheiro não é nada.
Harry era sincero, mesmo assim, Hermione estava incerta sobre aceitar o presente.
Se Rony se negasse a aceitar, teria que concordar com ele.
Fechou os olhos pensando nesse absurdo que passara em sua mente! Meu Deus, desde quando Rony decidia por sua vida? Desde quando a vontade e orgulho de um marido era mais importante que sua fazenda?
-Pague a hipoteca para Harry – Hermione disse, atraindo a atenção sobre si – Para ele não faz diferença, então, não se importará de receber parcelado. Muda o credor, mas a dívida é a mesma, e seu orgulho continua intacto.
-É necessário falar de dinheiro justamente agora? – havia decepção na expressão de Gina – Eu me casei... É errado querer que todos fiquem felizes?
-É claro que não! – Hermione sorriu incerta sobre se aproximar – Parabéns Gina; sei que serão muito felizes!
Gina não pareceu ter incertezas, e se jogou em seus braços, num abraço de amizade e irmandade.
-Não teve uma festa – Hermione disse com pesar, pois sabia o quanto era importante para a amiga – Nem a sua cerimônia no religioso!
-Ah, mas isso é o de menos! Fisguei um milionário! – ela riu, e Harry teve que sorrir, pois Gina era uma criança de empolgação e felicidade. – Quem sabe, quando Harry voltar de Londres, possamos nos casar na mesma cerimônia? O que acham? Um casamento duplo?
Sua empolgação não atingiu nem Hermione, nem Rony.
Refreando uma resposta rude, ela se afastou, com medo de estragar a alegria de Gina.
-Devem estar famintos! Porque não voltamos a jantar? – Hermione sugeriu, cansada e ansiosa, para ver todos alimentados e indo embora!
Tinha muita coisa em sua mente, mas seu corpo se recusava a assimilar tudo. Cansada, ela voltou à cozinha e separou mais pratos, achando que estava com os olhos embaçados pela fumaça que escapava do fogão.
Achou que colocava um dos pratos sobre a mesa, e mal ouviu o som de algo caindo e quebrando.
Seus olhos não viram nada, nem sentiu dor ao cair no chão.
Então, o mundo desapareceu e tudo ficou escuro.
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-Eu já lhes disse mais de mil vezes! Não devem criar tensões e agitação em volta de Hermione! Percy deveria ter contado de Lilá em particular e vocês dois, Gina e Harry, não deveriam ter fugido para se casar e deixado esses homens loucos e nervosos! Pobrezinha, Hermione esteve nervosa o dia todo! Se houvesse caído um centímetro mais a frente, teria batido a cabeça na beirada da mesa! Nesse momento, quedas podem ser fatais para ela e oh, ela está acordando!
A voz de Molly lhe vinha muito distante, e ela quis pedir que não parasse de falar por sua causa.
-Como está se sentindo, minha filha? – perguntou, abrindo um pouco o seu vestido, independente dos olhares masculinos, afrouxando o tecido para que pudesse respirar, quando ela tocou o corpete do vestido, sentindo-se sufocada pelo tecido estreito.
-Sinto uma dor horrível... – ela disse um pouco zonza, tocando sobre o ventre.
-Uma dor? – Molly empalideceu – É a primeira vez que sente isso?
-Já senti outras vezes, mas nunca tão forte... - choramingou sem notar, quando tentou mover-se e a dor a sufocou.
-Saiam! – Molly empurrou os filhos – Gui ajude a levar Hermione para o quarto!
Seu semblante carregado anunciou que era hora dos filhos se calarem. Gui a carregou do sofá ao quarto e a depositou na cama. Sem se importar com as outras pessoas, ela se dobrou sobre a cama, achando que morreria, tamanha era a dor.
-Vá chamar Juanita, e mande alguém buscar Aporah! Rápido! – ela mandou assustada ao notar que tinha febre. – Vá Guilherme!
Culpado por ter provocado a cunhada, ele saiu correndo, sem dar ouvidos as perguntas de Rony, este entrou no quarto enquanto sua mãe despia Hermione.
-Chame sua irmã para me ajudar – Molly disse sem dar ouvidos as suas perguntas.
-Hermione não está bem? Não é apenas um enjôo? – havia pavor em sua face.
-Espere lá fora – Molly exigiu visivelmente nervosa - Apenas espere lá fora, Rony!
-Mas mãe, eu quero saber!
-Hermione está com febre e deve ter ficado assim o dia todo sem que notássemos...
-Hermione nunca reclama de dor. – ele contou olhando para a mulher, praticamente desmaiada na cama.
-Há marcas de sangue em suas pernas. Com toda a agitação, não deve ter percebido que sangrava – ela disse séria – Sangramento não é bom sinal.
-O bebê? – ele empalideceu.
-Hermione está perdendo o bebê. Agora, saia e me deixe cuidar dela – havia doçura em sua voz para ludibriar o filho e livrar-se dele.
Atordoado, Rony voltou à sala.
-Como ela está? – Harry perguntou preocupado.
-Está perdendo meu filho – respondeu, caindo sobre o sofá, esquecido do ferimento.
-É minha culpa – Harry disse desolado – Não deveria ter fugido com Ginerva. Hermione é tão ligada a Gina, deveria saber que se preocuparia... - Harry estava tão pálido que parecia prestes a cair a qualquer momento.
-Se importa que eu perca meu filho? – havia um pouco de surpresa em Rony.
-Estarei perdendo meu afilhado, suponho – Harry disse sincero – Me fazia feliz a idéia de uma criança em minha vida... O filho de meu melhor amigo, seria uma criança muito bem vinda. – lamentou.
-Sem o filho, Hermione estará livre – Rony testando terreno, talvez querendo que ele se entregasse.
-Por certo, haverá outros meninos depois desse – Harry disse convicto, ignorando a insinuação– Muitas mulheres perdem os primeiros filhos, mas isso não quer dizer que não terão outros. Pense nisso Rony.
Rony nada respondeu. Tinha a convicção que Harry ficaria feliz em não ter a gravidez como barreira entre ele e Hermione, e estava desconcertado com sua tristeza.
-Não pensemos no pior – aconselhou Arthur, apenado do filho – Molly entende muito de gravidez, e Hermione é uma mulher forte. Talvez ela segure a criança.
Sua certeza não foi retribuída por Rony. Hermione era muito frágil, mas não diria isso ao pai. Os sintomas da gravidez, os enjôos e as tonturas, a deixaram muito fraca nos últimos tempos, e seu corpo vinha passando por constantes tensões.
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Cerca de uma hora depois, a bela Aporah chegou, acompanhada de seu marido, carregando uma cesta de ervas. Ela entrou calada, direito para o quarto de Hermione.
Seu marido trocou poucas palavras, esperando em um canto com o chapéu nas mãos. Era um belo índio, e Gina sempre continha suspiros quando o via. Tinha os cabelos muito longos, na cintura, lisos e negros como a noite, assim como seus profundos olhos. Eram olhos estreitos e puxados, num rosto quadrado e anguloso, a pele queimada, marrom como a terra depois do plantio.
Seu corpo era magro, mas era possível ver os músculos. Era baixo, bem mais que os homens de sua família, mas sua presença compensava, e o tornava um homem gigantesco.
-Não tem nada para fazer na cozinha? – Harry lhe perguntou ao notar que prestava muita atenção ao homem.
-Não, mamãe pediu que ficasse aqui e esperasse ser chamada – respondeu calmamente.
Havia trocado o vestido molhado e sujo por outro limpo. Cheirava a água limpa, pois se lavara rapidamente.
Seus irmãos tinham ido embora, pois a noite caia rapidamente e a chuva não dava trégua. Apenas Guilherme esperava, culpado demais para negar sua ajuda.
-Prefiro que espere na cozinha – Harry insistiu olhando para ela com desconfianças.
Notando a conversa, Rony maneou a cabeça ao ver Harry com ciúmes. Observando os dois, podia ver o que Hermione queria dizer com Harry estar apaixonado por Gina. Mas paixão não é amor.
Um poderoso cheiro de ervas tomou conta da casa, e Rony levantou-se nervoso, tentando entrar no quarto, sendo escorraçado por Molly.
-Eu vou dormir agora – ela disse cansada – Seu pai e eu, não temos mais idade para uma noite insone, além disso, amanhã precisarei estar de pé, para ajudar a cuidar de Hermione. Juanita ficará com elas.
-O que sua empregada está fazendo?
-Aporah conhece muito sobre ervas, seu povo é muito sábio. Ela disse que pode fazer com que Hermione segure a criança. Para nós, só resta esperar.
-Mas eu quero ficou ao lado da minha mulher – ele tentou ver o que se passava dentro do quarto, mas ela não deixou – Estou preocupado, quero saber o que está acontecendo!
- Aporah sabe o que faz – ela disse severa – Se quer sua mulher e seu filho sãos e salvos, sente-se e espere. Ou melhor, deite e duma, está pálido e está se recuperando. Gui pode ficar acordado e cuidar de tudo.
-Não, eu quero...
-Não discuta comigo – ela mandou – Arrume um quarto para mim e seu pai, e que seja longe do quarto onde Gina e Harry dormirão. Seu pai é ciumento. Sorte que minha filha já teve sua primeira noite, ou seria deveras constrangedor! - ela disse notando sua surpresa – Acha que não saberia?
-Achei estar fazendo o certo. – ele explicou - Sinto por não ter evitado...
-Não sinta. Gina fez o que precisava para segurar Harry. E graças a Deus, conseguiu um bom casamento!
-Fala como se o houvesse seduzido! Gina é só uma menina! – surpreendeu-se.
-Acha mesmo que não o seduziu? Ou Hermione não o seduz o tempo todo? Nós mulheres fazemos isso, filho. – ela fez um carinho na face surpresa do filho – Não devem notar, mas estão sendo seduzidos a cada segundo. – sorriu-lhe. – Arthur, meu amor, está tarde. – ela dirigiu-se a sala.
De repente, Rony viu mais nos gestos da mãe do que maternidade. Viu o modo doce como ela olhava para o marido, e o toque em seu ombro ser mais que delicadeza feminina. Sua mãe era um exemplar perfeito de feminilidade.
Esperta, doce e sedutora.
Todas as mulheres são assim, supôs. Eles apenas eram cegos demais para notar o quanto se deixavam encantar por seus gestos e sorrisos.
-Sua mãe tem razão – Harry se manifestou - Ficarei acordado e...
-Harry! – Gina chamou assombrada – Gui é perfeitamente capaz de cuidar de tudo! Afinal, passou todo o dia destratando Hermione!
-Sei disso – Gui disse entre dentes, de cabeça baixa.
-Preciso de ajuda com as escadas – Rony lamentou, mas estava dolorido e sentia vertigem.
-Não poderia dormir no quarto ao lado de Hermione? – Gina perguntou com tato – O segundo andar não é tão grande para tantas pessoas...
Estava apavorada com a idéia de fazer amor num quarto ao lado do quarto dos pais e do irmão. Tinha seus pudores afinal!
Cansado de conversar, ele seguiu para o quarto, caindo na cama com um gemido de dor e descontentamento.
No quarto ao lado sua mulher perdia seu filho.
E essa dor era maior que qualquer dor física.
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Hermione não sabia o que estava acontecendo. Estava num estado semi consciente e chegou a se desesperar ao ver um rosto estranho diante de si. Sentiu alguém segurar sua mão com carinho e sussurrar para que não se preocupasse. Era a voz de Juanita, e ela relaxou por alguns instantes.
Tempo suficiente para lembrar-se do rosto desconhecido e notar um cheiro extremamente doce no quarto.
Estava deitada na cama, vestindo a camisola fina, os cabelos espalhados no travesseiro. Sentia um peso sobre o ventre, e olhando para baixo reconheceu algumas pedras sobre sua barriga.
Em seus braços tinha uma substância estranha, a causa do cheiro doce, como um ungüento passado sobre a pele. Nas pernas, a mesma coisa, por isso a camisola estava sungada até os meios de suas coxas.
-Juanita... – sussurrou a voz presa.
-Tudo bem Hermione. Essa mulher é Aporah. Ela sabe como cuidar de alguém doente. Deu-lhe alguns chás que fizeram o sangramento parar, e agora está fazendo um ritual, que acredita poder trazer suas forças de volta – ela olhou para índia, concentrada em seus mantras.
-Porque estou doente? – Hermione engoliu com dificuldade.
Juanita apertou sua mão com mais força, incerta sobre contar. Era a melhor hora, precisava saber.
Olhou para Aporah que parou o que fazia para olhar para Juanita.
-A alma não está pronta para a verdade – a índia disse com voz forte e suave, como uma pena ao vento – E as forças não voltarão se tiver medo.
Juanita olhou para Hermione em dúvida.
-Do que ela está falando? – ela perguntou, sentindo uma ardência no corpo, como se estivesse em chamas.
-São enigmas de índio, não tente entender sua cultura, vamos respeitar apenas. Aporah salvou sua vida.
-Eu devo ter alguma doença, ou não teria perecido... – insistiu.
-Existem doenças que não se conhece Hermione – Juanita acalmou-a – Não se preocupe, está quase curada.
-Eu... Sinto tanto sono... - lutou para manter-se acordada – Rony...
-Está no quarto ao lado, dormindo. Ele também precisa se curar – explicou para deixá-la mais tranqüila. – Descanse. Quando voltar a acordar, estará curada.
-Eu quero vê-lo... – ela disse começando a delirar.
Juanita assistiu Aporah passar as mãos por seu rosto, sentindo a febre e molhando um pano em uma confusão de ervas, que esfregou em sua pele febril.
-... Quero vê-lo...
Seguiu delirando por vários minutos, até se acalmar. Aporah disse-lhe algo, e Juanita assentiu, antes de sair do quarto.
Na segunda batida, Rony abriu a porta, insone e preocupado.
-Não deve falar, ou perguntar nada. Apenas fique ao seu lado, para que Hermione se aquiete – disse apressada.
-Ela está bem? E o bebê? – seu nervoso o fez tão vermelho que parecia prestes a explodir.
-Está segurando a criança. Mas está com febre e agitada. Ficará feliz em saber que chama por você. – sabia que isso o faria muito feliz.
-A única que coisa que me fará feliz é que fique boa – ele contrariou, seguindo Juanita.
Ao entrar no quarto quis fazer mil perguntas, mas se calou.
Sentou ao seu lado na cama, e segurou sua mão.
-Estou aqui Hermione. Não tenha medo de nada, estou aqui para te proteger. A você e ao nosso filho.
Quase imediatamente foi recriminado por Aporah, e não falou mais sobre a criança.
Por uma longa noite, zelou pelo sono agitado, e observou calado aquela mulher tão diferente e tão sábia cuidar das duas pessoas mais importantes de sua vida. Sua mulher e seu filho.
AUTORA: Eu jogo a Hermione para cá... eu jogo a Hermione para lá...se a pobrezinha saísse do papel ia me caçar com uma foice...hehe...