CAPITULO 81 – A CIRANDA DA VIDA
Três dias depois, a chuva caia do céu como se jamais fosse parar. O céu estava negro, uma tempestade como poucas vezes Hermione vira em sua vida. Ela olhou para Gina sentada no sofá, com a expressão desanimada.
Tentou animá-la, mas era claro que mentia.
Seria impossível para o padre vir realizar a cerimônia.
Vestindo o horrível vestido de noiva que sua mãe fizera há um ano, ela segurava um ramalhete de flores do campo. Tinha na cabeça a presilha que Rony dera a Hermione e que enfeitava seus cabelos.
Todos os seus irmãos com exceção de Percy estavam presentes.
Rony estava sentado ao seu lado, e segurou sua mão, quando notou que ela poderia chorar de decepção a qualquer momento.
Embora seus irmãos não entendessem a razão de tanta pressa no casamento a ponto de não esperarem a cerimônia na Igreja, estavam ansiosos em verem a irmã caçula casada com um homem como Harry, de posses e prestigio.
Harry olhava para a noiva de coração partido. Gina dizia que não queria aquele casamento, mas havia um brilho de lágrimas em seus olhos azuis que o fazia sangrar por dentro.
Cansado de esperar, e ansioso para colocar finalmente a aliança em seu dedo, apanhou o chapéu que usava para o trabalho e que estava se tornando cada vez mais familiar e finalmente avisou:
-Vou a cidade buscar o padre!
Molly pareceu aliviada, e Hermione sabia que sua sogra era esperta demais para não entender a razão de tanta presa. E tão esperta, que não tocava no assunto para não causar uma desordem na família.
-É um temporal Harry – Fred disse de seu canto – Nada fará o Padre Maken sair da sacristia com essa chuva!
-Não importa! Eu o trago amarrado se for necessário! – ele disse ansioso para se casar, ansioso para se redimir, ansioso para fazer amor com Gina sem ser às escuras!
-Não será necessário Harry – Hermione se aproximou, entregando a ele um guarda chuvas – Prometa uma contribuição para as reformas da Igreja e ele se dará por convencido.
Sua inteligência sempre surpreendia, e Hermione se afastou, pois os demais irmãos de Rony eram burros e brutos demais para entender uma amizade inofensiva.
Harry saiu da casa e Rony estendeu a mão em sua direção. Para não armar uma cena diante da família dele, ela aceitou seu toque e até sentou-se ao seu lado.
-Não fale comigo, Wesley - ela resmungou antes que ele dissesse alguma coisa.
Rony não conteve o riso. Carlinhos, sempre despojado e compreensivo, riu para ele, e Rony explicou malicioso, no intuito de irritá-la ainda mais:
-Tomei liberdades com Hermione quando estava alta pela bebida, e agora ela não me perdoa.
-Eu não acredito que esteja dizendo isso ao seu irmão! – soltou-se furiosa.
Havia três dias que não o perdoava.
Lembrava-se claramente daquela indigna manhã! Havia acordado, e tentado se mexer, quando sua cabeça dera sinais de uma ressaca. Dolorida, ergueu a cabeça apenas o suficiente para vê-lo.
Conferiu se estava bem, se a ferida não sangrava, se ele respirava e não aparentava febre.
Então, notou que seu pijama estava descido até o meio das coxas, e que havia uma expressão muito satisfeita em sua face. Olhando para si mesma, odiou o que viu.
Deitada, uma das pernas dobradas em um ângulo muito revelador, completamente despida, com uma viscosidade inconfundível que havia secado, e retesava contra sua pele íntima quando tentou se mover...
Indignada, havia constatado o inevitável. Havia bebido apenas um copo de Uísque, uma inocente dose, porém mais que o suficiente para que ele abusasse de seu corpo!
Flashes do ato inundaram sua mente, até a lembrança de ter desmaiado.
Filho da mãe!
Havia saído da cama e vestido a camisola, segurando a cabeça que latejava enquanto ia para a cozinha.
Era uma mulher vingativa, sempre fora.
Desde pequenininha era assim. Se o seu irmão lhe dava um chute, ela lhe devolvia dois.
Sem pensar muito no que fazia, esperou Juanita sair atrás de um de seus filhos para se aproximar e apanhar uma faca de sobre a pia da cozinha. Ela estivera cortando carne e estava suja de sangue.
Melhor ainda! Sorrateira, visto que não queria chamar atenção, entrou no quarto, vestiu-se, e penteou os cabelos e então, calculadamente, colocou a faca sobre a cama, pertinho dele, depois de esfregá-la com cuidado nos lençóis.
Satisfeita, saíra do quarto atrás de algo para a dor de cabeça.
Meia hora depois quando conversava com Gina e Juanita na cozinha, lamentando a ressaca, ouvira o grito.
Um grito típico de maricas. Pânico completo. Sorrindo, dissera para que não se importassem, não era nada. Então, outro grito a fez rir:
-HERMIONE!
Apenas rira e levantara, atendendo ao seu chamado.
A primeira coisa que viu foi um homem muitíssimo pálido. A segunda era a faca nas mãos dele. Mãos que tremiam levemente.
-O que foi? Porque os gritos? – sorriu inocente.
-Sua...! Como teve coragem? Quase me matou de susto! – ele parecia um tanto roxo e ela quase gargalhou – Outro dia, avisou que usaria uma faca para... Deus me livre, me capar! E olha isso aqui...! – apontou a faca ensangüentada.
-Fico feliz em saber que ouve as coisas que digo, apesar de ignorá-las – se fez de boba, olhando para ele com doçura – mas ainda não sei a que se refere.
-Armou para que eu achasse que... - ele passou uma das mãos no rosto, assustado até os ossos – conseguiu. Fiquei apavorado achando que tinha me capado! Levei um segundo para perceber que não, mas já era tarde. Meu coração quase abandonou meu corpo!
-Mesmo? Pois deve fazer companhia ao seu juízo, que também o abandonou faz tempo! – deixou a postura inocente, se aproximou e arrancou a faca de suas mãos – Dessa vez, foi um susto! Da próxima...
-O que? Vai se privar do que tanto ama? - ele provocou, mesmo que ainda estivesse pálido.
-Abusou de mim! Estava indefesa e abusou de mim! – defendeu-se.
-Abusei? Hermione! É minha esposa! Estávamos fazendo sexo consentido! Você apagou e eu...
-Você o que? Teve a consideração de parar? Ou pelo menos me acordar?
-Desculpe se me descontrolo com você a ponto de esquecer o que é certo ou errado! – jogou em sua cara.
-Como posso confiar em um homem que abusa de mim?
Não havia raiva verdadeira, era apenas ultraje.
Ele sabia, mas não podia fazer nada.
-Como posso confiar em uma mulher que me assusta desse modo? – ele revidou.
-Não é uma surpresa que eu não o queira! – ela ofendeu com um olhar irônico.
-Me recuso a discutir sobre meus direitos de marido! – revidou, passado o susto, vinha à raiva.
-Acredita ter direitos sobre mim? – ela poderia facilmente ter rido. Gargalhado.
Não o fez apenas porque Gina abriu a porta do quarto. Tinha certeza, escutava atrás da porta, depois de algumas explicações esfarrapadas, cada um seguiu seu caminho.
E a partir daquela manhã ambos estavam numa guerra muda, que não ouve e não fala. Trocavam farpas. Olhares raivosos e insinuações. Mas no final, não deixavam de estar próximos.
O que era engraçado, pois quando se conheceram passavam o maior tempo possível afastados!
-Acaso ainda não domou sua esposa meu irmão? – de seu canto, Gui provocou.
Hermione soltou um risinho irônico e Gui se dirigiu totalmente a ela:
-Acha que disse algo engraçado?
-Não, mas pensava onde estará sua esposa a essa hora. Alguma razão para não trazê-la no casamento de sua irmã?
Era como colocar o dedo dentro de uma ferida profundamente dolorosa. Fler, a mulher de Gui era arrogante e não tolerava qualquer forma de vida que não fosse luxuosa. Vivia reclamando e resmungando da casa em que vivia e falando mal dos outros.
Nunca colocaria os pés numa casa simples, por mais que estivessem crescendo e melhorando os móveis e a casa. Fler era superior.
-Uma pergunta pertinente, meu irmão – Rony instigou, gostando de ver Gui corar de raiva – Não se importe com Hermione, somos dois homens que se perderam por mulheres voluntariosas!
Ambos riam dela! Enfurecida, Hermione marchou para a cozinha, achando que se ficasse mais um minuto naquela sala cometeria assassinato.
-Não seja cruel meu filho - Arthur interferiu, achando graça – Hermione está grávida, Guilherme. Merece consideração.
-E por acaso Rony sabe quem é o pai dessa criança? - ele disse, parecendo arrependido no instante seguinte a própria frase.
Arthur levantou-se com a imponência que um patriarca tem em sua família e segurou o filho pela lapela do blazer.
-Seu irmão não merece que fale desse modo de sua mulher dentro de sua casa! Acaso viu ou sabe algo sobre Hermione que não saibamos?
-Não – ele respondeu humilde.
-Acaso tem algo a nos dizer que levante duvida sobre a moral de Hermione? Sobre sua fidelidade?
-Não, pai – ele respondeu de cabeça baixa.
-Sendo assim, não blasfeme contra sua família novamente, ou todos poderão falar de sua mulher também!
Rony achou ter visto algo entre pai e filho, como se Arthur soubesse algo sobre Fler que pudesse humilhar Gui.
E Rony não duvidava. Fler era arrogante demais para ser uma dócil esposa.
-Não é necessário que me defenda meu pai – Rony assumiu a dianteira – Sei a mulher que tenho. – sorriu de uma doce lembrança – Se algum homem, inclusive eu, conseguir alguma coisa com Hermione sem esforço, bem, ele será um homem de fibra e terei que admirá-lo!
Fred e George foram os únicos capazes de rirem de sua piada.
-Hermione não é uma mulher fácil de conviver – seu sorriso mudou – mas é a melhor e mais honesta companheira que um homem pode ter. Estou feliz com o filho que terei, e sei que ela ficará feliz quando souber. Então, se alegre por mim, irmão.
-Uma mulher que não sabe que está grávida? – Fred brincou – gostaria de ter conhecido algumas iguais a esta...
Era uma franca piada, e todos riram, o clima tenso sendo quebrado pelo som de pessoas se aproximando.
-Harry está de volta tão rápido? – Gina perguntou surpresa, e quando Harry entrou acompanhado de Percy, ela ficou assustada – Deus! Não digam que o padre está morto!
O padre Maken era bem velhinho, beirando os noventa anos, se não mais que isso, e vivia rogando a todos os cantos do mundo que sua hora estava chegando.
Com a sorte de Gina, não duvidava nada que morreria as portas de celebrar seu casamento!
-Encontrei Percy no caminho – Harry tranqüilizou-a – ele traz noticias da cidade.
Pela tensão de Harry era possível notar que o assunto era sério.
Hermione voltou à sala e ficou próxima a Molly, curiosa.
Percy segurava o chapéu nas mãos, e olhou para Hermione incerto sobre o que dizer.
-O que aconteceu? Alguma coisa com o padre Maken? – Arthur se preocupou.
-O Padre pede desculpas, mas a idade o impede de enfrentar a tempestade. Pede que remarquem a cerimônia... – ele soltou o ar, tenso, olhando o tempo todo para Hermione – Há uma confusão no fórum. Tentei aplacar a situação, mas não pude. É certo que receberá uma intimação em breve Rony. Não gostaria de ser o portador dessa má noticia, mas... Não há outro meio.
-Uma intimação? – Rony levantou-se, segurando sobre a ferida que cicatrizada a olhos vistos, mesmo assim causava dor – E porque seria intimado?
-Uma intimação do juiz, para que se explique, e é bem provável que o Ford o chame para uma longa conversa...
-E o que posso ter feito para que isso aconteça? - ele parecia tão incrédulo que Percy limpou a garganta, olhando novamente para Hermione.
-Por certo ainda não sabem que a Srta.Lavander Brown esteve com o juiz essa tarde...
A expressão de Rony dizia claramente o que ele pensava. Esperava por isso!
-Se o problema é Lilá não devo me preocupar. Não devo nada a ela! – sorriu, aliviado
-Ela alega que deve. Ronald, a situação é mais séria que apenas uma cortesã histérica. Ela alega, e trouxe documentos que provam que você... - olhou novamente para Hermione, talvez temendo que ela pulasse sobre ele ou algo parecido.
De braços cruzados, ela esperava intrigada e com um pressentimento horrível no peito.
-... Que você se uniu a ela em matrimônio em Londres.
Um pesado silêncio caiu sobre todos. Rony estava em dúvidas sobre ter ouvido direito. Hermione sentiu como se não houvesse entendido o sentido exato das palavras.
-São documentos aparentemente verdadeiros – Percy continuou – é impossível alegar legalidade dos documentos sem uma contraprova, mas... Até ser desfeito o mal entendido, o Sr.Ford pretende... Estou fazendo uma suposição, mas acredito que ele vá pedir a desocupação da fazenda e o leilão imediato.
-Que documentos ela apresentou? – Harry perguntou ao notar que Rony estava completamente mudo de surpresa.
-Uma certidão de casamento lavrada num cartório em Londres e assinada pelo juiz de paz daquela comarca.
-Isso não quer dizer nada – Harry lembrou – Toda certidão deve ser registrada, e haverá uma similar no cartório de origem. Basta trazermos uma declaração de que não há casamento algum!
-Sim, mas levará tempo – Rony disse pensativo – aquele filho da mãe do juiz está ansioso para me casar com sua filha. E o banqueiro em por as mãos na fazenda. Não vão esperar! Eu deveria saber que Lilá teria uma carta na manga! – com ódio de si mesmo olhou para Hermione.
Ela não teve uma reação de ódio ou um acesso de cólera.
Abatida, saiu da sala, se refugiando no quarto.
Era ao fim.
Como prevera desde o inicio.
Perderia a fazenda, perderia Rony e tudo que amava.
Talvez fosse seu destino.
Ser só.
Autora: e lá vai a paz pelo ralo....Viram como fui boazinha, coloquei até um pouco de humor antes da facada final. Beijos!
P.S: não esqueçam de agradecer a Mi, a beta, pois ela fez o maior esforço para me mandar o capitulo a tempo. Valeu, menina.