CAPITULO 78 – DE VOLTA A VIDA
Havia um gosto ruim em sua boca. Como se houvesse mastigado algo muito amargo e seco. Rony tentou engolir saliva, mas não conseguiu. Sua boca estava completamente seca. A garganta doía a um ponto que achou que sufocaria ao abrir a boca para tentar falar.
Sem som, não havia voz. Tentou mover a cabeça, mas o pescoço estava tenso e rijo e não conseguiu. Abriu os olhos azuis sentido a dor da claridade a feri-los. Piscou rapidamente, tentando afastar a dor.
Seu corpo estava pesado, e não conseguiu se mexer.
Pânico grudou em seu coração ao lembrar-se da briga no bar. O som do tiro. O cheiro da pólvora. A dor dilacerante em seu corpo ao ser atingido.
Talvez estivesse morto.
Mas a morte não poderia ser tão clara, nem ter cheiro de rosas. O aroma impregnava o quatro. Sim, ele estava em seu quarto, em sua casa. A menos que fosse um sonho, ou o paraíso fosse feito de sonhos.
Não, ele não era tão bonzinho que pudesse ir direto ao paraíso, sem antes passar pelo purgatório! Nem tão devoto que pudesse receber por paraíso seu lar e aqueles que ama.
Só poderia ser um sonho. Um sonho realístico demais.
Rony pensou ter ouvido vozes.
Obviamente seus sonhos de paraíso não incluíam homens caipiras e sem modos que voltassem da plantação e do cuidado com os animais aos gritos, como animais furiosos.
Então, não era um sonho.
Se não estava morto, nem sonhando, então onde estava? Em casa?
Forçando o corpo a obedecer virou o rosto e olhou em volta, a porta do quarto estava aberta, o sol inundava cada centímetro, pois as janelas e as cortinas estavam abertas. Uma brisa refrescante aplacava o calor, mesmo assim, ele achou que o lençol sobre ele era demais.
A constatação de que estava vivo foi o bastante para sentir a aflição ir embora. E com a mente livre, tudo que pode pensar foi em onde estaria Hermione.
Poderia agora mesmo estar comemorando a eminente viuvez.
Quase podia vê-la, vestida de negro, como na primeira vez que a vira, segurando uma rosa vermelha diante de seu caixão. Haveria um brilho de vitória em seu olhar e ela sorriria.
Então diria algo do gênero: “Viu? Você foi antes de mim!”
Rony sentiu um arrepio ao pensar em deixar Hermione. Mesmo que a morte o levasse, não poderia deixá-la. Hermione não poderia ficar sozinha outra vez. Não era justo.
Não era honrado de sua parte quebrar todas as promessas que lhe fizera! Sentindo uma ardência no peito ao imaginar o quanto a faria sofrer, sentiu o impulso de sair daquele quarto.
Usando de toda sua força de vontade, ele se mexeu, a despeito da dor em sua barriga onde sentia a ferida.
Sentou na cama, gemendo de dor e pelo esforço. Que merda, isso doía que era o inferno!
Os olhos estavam turvos, mesmo assim ele deu impulso para levantar. Seria de um golpe só, ou não conseguiria achar forças para tentar de novo.
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-Oh meu Deus! – Hermione gritou deixando cair às toalhas limpas no chão.
Não teve tempo de pensar antes de correr e ampará-lo.
Estava chegando à porta quando avistara Rony levantando e cambaleando.
Desesperada, o segurou se colocando como uma muleta, deixando-o de pé o suficiente para sentar-se na cama, reclamando e praguejando contra a dor. Sua testa estava molhada de suor, e ela tocou sentindo a febre.
Todo o corpo forte suava a ponto de molhá-la, umedecendo suas roupas e seus cabelos pelo simples toque.
Ele colocou um dos braços em volta de sua cintura e a apertou de tal modo, escondendo o rosto em seu pescoço, que Hermione fechou os olhos para agradecer a Deus que estivesse tocando-a e estivesse vivo para isso.
-Você está aqui – ele disse baixo, a voz confusa e abafada pelos seus cabelos crespos.
-Sim, eu estou. Agora me solte – empurrou-o o mais gentil que pode, tocando sobre a ferida, onde o sangue começou a aparecer pelas ataduras – Conseguiu reabrir a ferida! - reclamou, empurrando-o de volta para os travesseiros – Deite-se!
-Hermione...
-Deite-se Ronald!
Contrariado, deitou-se e colaborou, enquanto Hermione colocava suas pernas embaixo do lençol e o dobrava na altura de sua cintura.
Notou que suas mãos pequenas tremiam. Sua face estava indiferente e passiva, mas suas mãos tremiam. Reunindo coragem para tanto esforço, segurou uma delas, mas Hermione se soltou.
-Preciso refazer o curativo. Não se mova. Não pode sangrar novamente.
Ela não ergueu o olhar para ele. Rony acompanhou seus movimentos rápidos pelo quarto, juntando tudo que precisava. Seus gestos eram comedidos e eficazes. Descobriu a ferida, limpou o sangue, passou o remédio, cobriu com gaze e voltou a passar as faixas por seu abdômen, protegendo a ferida de infecções.
-Levei um tiro – ele disse debilmente, confuso.
-Sim, você levou um tiro – ela olhou para ele e não pode sustentar o olhar.
-Harry...
-Ele está bem, não sofreu nada. Você... Está desacordado há quatro dias. Tem febre. Não pode se agitar – concluiu, tentando se afastar.
-Não te deixei sozinha – ele disse os olhos quase fechados.
-Não, não me deixou sozinha – ela respondeu, sentindo uma grande faca cravar em seu coração.
Eram longos dias sem ele. Longos dias controlando sua febre e rezando para que não houvesse infecções. Quatro longos dias sem pensar, e sem sentir. Afastara totalmente o pensamento de morte. Afastara totalmente o pensamento de amor.
Comia, dormia, e velava seu sono. O Dr.Nut havia se hospedado no segundo andar e era praticamente seu prisioneiro. O pobre homem ficara assustado quando Hermione lhe garantira que só sairia daquela casa quando Rony estivesse andando.
A força que a deixava em pé era a esperança.
Vê-lo semi-acordado, tentando levantar despedaçara seu coração. Ele estava vivo e a cada dia, mais forte.
-Precisa descansar. Tem muita febre – disse, mesmo que ele não pudesse entender.
-Sempre tenho febre junto a você... – ele sussurrou e ela sorriu.
Sim, aquele era seu Rony, que nunca perdia uma boa oportunidade.
-Pois então, se cure rápido, porque estou sensibilizada e posso acabar me deixando enganar – prometeu, sentindo uma vontade opressora de chorar. Chorar de felicidade.
-Oh, mas eu já estou curado... – ele queria mostrar a ela, mas acabou adormecendo antes que tivesse oportunidade.
Hermione soltou o ar, fraca emocionalmente. Ele acordara finalmente. Ao longo dos quatro dias estivera acordado sim, mas sempre delirando. Comia pouco, bebia pouca água. Febre, calafrios, delírios.
Testou sua temperatura, aliviada por não estar tão alta. Um banho de esponja com água bem fria ajudaria a baixar a temperatura.
Apanhou a água e uma esponja, e começou a molhar sua pele. Os braços. Os ombros. Tomou todo cuidado para não molhar as ataduras que o protegiam.
Tomava a tarefa com afinco como uma enfermeira dedicada. Ordenava-se a não pensar que era seu marido, e que estivera as portas da morte.
Terminava de esfregar uma de suas pernas, quando sentiu que era observada. Molly Wesley, visita constante sorriu-lhe.
-Deixe que eu continuo Hermione. Vá descansar um pouco – ela disse com sua voz sempre tão doce que a encantava e fazia agir como desejava.
-Rony estava desperto, tentando sair da cama. Tem febre, mas pareceu quase lúcido e...
-Vou tomar cuidado e vigiá-lo. Do jeito que meu menino é teimoso, é capaz de fugir do quarto!
Hermione concordou entregando-lhe a esponja e observando calada a mãe cuidar do filho, com tanto zelo que trouxe lágrimas aos seus olhos.
-Arrumei a cama do quarto ao lado, vá deitar-se. Sei que está enjoada. – Molly mandou com voz meiga.
Era impossível negar alguma coisa aquela mulher de gestos doces e preocupados. No corredor, passou por Gina, que apressada corria pela casa com a roupa suja embaixo do braço.
Pobre Gina, escravizada por Juanita. Felizmente, nem mesmo sua mãe a alertara do fato. Era uma boa lição para sua mente desocupada.
Entrando no quarto ao lado, ela deitou-se na cama sentindo uma grande satisfação.
Com um resmungo, soltou alguns botões do vestido, achando que estavam justos demais. Talvez estivesse inchada. O que era impensável, visto que vomitava todas as manhãs.
Suspirando, virou-se de lado sorrindo.
Rony estava vivo e se recuperando.
E quando estivesse de pé, totalmente curado, lhe contaria o grande segredo do seu coração.
Pediria que fosse seu marido em todos os sentidos.
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No sétimo dia, Rony reclamava pela quinta vez com sua mãe sobre ser tratado como um bebê quando ela surgiu.
Como uma imagem saída de seus sonhos, Hermione surgiu a sua porta, vestida de lilás.
Ele parou de comer, o que vinha ameaçando fazer se sua mãe insistisse em tratá-lo como um menino de cinco anos. Mas a razão era outra que não teimosia.
Sempre que acordava, Hermione estava deitada, vitima de enjôos e tonturas. E quando adormecia, ela estava acordada. Não tinha oportunidade de vê-la. De ouvir sua voz.
-Talvez tenha mais sorte do que eu Hermione – Molly piscou para Rony enquanto levantava e oferecia a ela o prato com mingau. – Esse menino é muito teimoso e esta decidido a não comer.
-Não me nego a comer, se for alimentado pela pessoa certa – fez um gracejo com os olhos brilhantes.
Hermione tomou o lugar de sua sogra sem dizer nada.
Algumas colheradas depois, ele segurou seu pulso, obrigando-a a olhar para ele.
-Não está feliz por me ver?
-Tenho o visto todos os dias – desconversou.
-Sabe a que me refiro. - Ele estava sério.
-Precisa comer. Logo poderá sair da cama, talvez sentar na varanda e tomar um ar mais fresco. Mas antes, precisa recuperar suas forças – mudou o assunto.
-Tirou a bala, minha mãe contou. – se recusou a comer, fazendo-a olhar para ele.
-Por favor, coma enquanto o mingau está quente – havia muita apatia nela, e isso o preocupou.
-Não quero mingau. Quero que olhe para mim e não minta!
-Deveria me sentir culpada em querer que coma e descanse? – ela ficou emburrada ao ser pressionada.
-Não, mas é culpada de salvar minha vida e depois me ignorar!
-Não o ignoro! – levantou-se - se está tão bem para brigar, então coma sozinho!
-Hermione! – ele baixou o tom, ao sentir uma fisgada onde o tiro o acertara.
-Viu? Não pode se mover e se sobressaltar! – ela reclamou, deixando a tigela e a colher de lado para olhar o ferimento mais de perto. – Afinal, o que você quer?
-Quero que fale comigo. Responda as minhas perguntas. Segure minha mão.
Sua franqueza a deixou muda.
Perturbada, sentou-se na beira da cama, mais perto do que deveria e segurou sua mão. Rony apertou seus dedos e pareceu imensamente satisfeito.
-É verdade que tirou a bala? Que controlou o sangramento até o médico chegar?
-Juanita teria feito se não estivesse nervosa – tentou desviar o assunto.
-Foi muito corajosa – ele disse olhando para ela, que não olhava para ele. Seu perfil era de uma mulher controlada, mas ele sabia muito bem como era difícil para Hermione dizer o que sentia. Expor dessa forma o quanto estava abalada. – Ficou assustada?
-Nunca havia feito isso na vida... - não queria esmorecer, mas olhou para ele – Havia muito sangue...
-Sim, havia – ele ergueu sua mão até a boca e beijou seus dedos, notando que agora seus olhos estavam fixos nele – Salvou minha vida.
-Dr. Nut...
-Você, salvou minha vida – cortou-a, deixando claro que não havia meia conversa sobre isso.
-Salvou a minha, apenas o retribui – ela tentou se soltar, referindo-se a quando fora salva da agressão, mas ele não deixou.
-Não se afaste. Preciso de você perto de mim. Quase morri Hermione.
Era verdade. Ela ficou calada, tentando não pensar nisso. Quase morrera.
Rony sentiu uma dor forte no coração ao ver o quanto ela estava frágil. Sua Hermione era sempre uma rocha. Ele a puxou para mais perto e ela se deixou levar. Desejava beijá-la e mostrar-lhe o quanto estava grato, mas não podia, pois seu corpo não estava recuperado o bastante. Por isso apenas beijou sua testa, surpreso quando ela soluçou e escondeu o rosto em seu ombro.
Surpreso e feliz em ver o quanto ela o apreciava, abraçou-a pelas costas, acariciando seus cabelos e deixando que chorasse.
Fora preciso levar um tiro e quase morrer para Hermione admitir que o quisesse bem, e embora não o fizesse com palavras, podia ler em sua expressão, em sua linguagem corporal.
Deixou-a chorar e sussurrou em seu ouvido para acalmá-la.
-Estou vivo, não chore.
-Não estou chorando!
-Não, tem razão. Não está chorando por minha causa... – disse com humor, sentindo dor ao tentar rir – Hermione olhe para mim, quero ver seus olhos.
Obediente, deixou que lesse sua alma em seus olhos, e não o rejeitou quando a beijou. Por sua própria culpa, o beijo cresceu, com Hermione beijando-o com toda sua saudade e necessidade. O vira praticamente morto e agora estava sob suas mãos, a pele quente e viril. Vivo e pulsante.
Ele gemeu quando a dor ficou insuportável e ela se afastou assustada, olhando para o ferimento.
-Não se afaste! – ele reclamou.
-Não vou me afastar – prometeu ofegante. – É melhor que coma, o mingau está esfriando – desconversou, porém sem se afastar. Estava ao seu lado na cama, sentada, enquanto ele estava recostado nos travesseiros.
-Mamãe disse que tem se sentido pior durante as manhãs – ele disso com descaso, olhando para ela com ansiedade.
-É uma dor forte. O Dr.Nut diz que é normal. Que logo passará.
-Dor forte? - ele empalideceu.
-Não é nada. – deu de ombros – Coma mais um pouco.
Mais uma colherada, e ele sorriu, estendeu uma das mãos para tocar seu ventre, sendo para ela apenas um toque de carinho e paixão, e para ele um zelo, carinho para com o filho que nasceria.
-Quero que volte para nossa cama – ele disse convicto.
-Não! – pôs o prato de lado, pois havia chegado ao fim – Posso virar a noite e esmagar seu ferimento.
-Impossível, não se mexe quando dorme – disse convicto, afinal, conhecia seu sono. – Sinto falta de companhia. As noites são longas.
-Deixe de ser fingido, nos revezamos em vigiar seu sono – protestou.
-Não é a mesma coisa. – revidou.
-Se o Doutor concordar, eu volto a dormir aqui. – avisou, tentando parecer indiferente.
-Ele disse que seu mal estar é normal? – ele perguntou ainda acarinhando sua barriga.
-Bem, sim. – deu de ombros.
Não sabia Hermione que lhe dissera isso a pedido de Molly Wesley.
-Porque Harry está cuidando da fazenda? – ele perguntou, era um assunto difícil e o incomodava.
-Porque eu mandei. Gina está cuidando dos trabalhos domésticos e Harry da administração. Nada mais justo que ajudem depois de todo mal que causaram. – foi sincera.
Havia rancor em sua voz. Por culpa de Harry ele fora atingido. Simples, não era um sentimento racional.
-Harry não tem culpa que eu seja burro o bastante para me colocar na frente de uma arma para defende-lo – ele disse assustado com seu tom de rancor.
-Mas é culpado de ter feito amor a sua irmã. É culpado de não ter ido embora tão logo começou a ficar confuso sobre seus sentimentos.
-Não, eu o incentivei a agir assim, confiando demais nele.
-Ora, desde quando isso é razão para alguém se aproveitar? – levantou-se. – Deixei algo no forno.
-Ah, não vá – ele reclamou – quero sua companhia.
Ele sorria, apesar da dor.
-É um péssimo paciente - ela disse sorrindo. – Não demoro a voltar. Posso ler se quiser. Algo para distraí-lo...
-Vou adorar desde que prometa que deitará ao meu lado enquanto ler – barganhou.
Hermione não disse sim, muito menos não. Deixou-o sozinho com a sombra do que era a felicidade. Se não estivesse fraco e dolorido, seria o dia mais feliz de sua vida.
Podia ver o muro que Hermione construíra em volta de si ruindo lentamente diante de seus olhos.
Poucos minutos depois, ela voltou com um livro e um prato com biscoitinhos fumegantes. Um cheiro delicioso o fez sorrir e recebê-la em seus braços.
Surpreso, ficou imóvel quando ela se acomodou e o beijou espontaneamente. Um doce e rápido beijo, enquanto se recostava com ele nos travesseiros e abria o livro.
Uma leitura agradável e leve, sobre aventureiros apaixonados, uma leitura que o deixasse sonolento e pudesse descansar seu corpo fraco pela enfermidade. Rony mal provou os biscoitos antes de adormecer, o rosto apoiado em seu ombro.
Esperava que fosse um sono que pudesse durar a noite toda. Precisava daquele descanso.
Amanhã, pensou Hermione, amanhã lhe diria como se sentia. Que o queria como marido com todas as responsabilidades que isso traria.
Sorrindo, ela ficou mais um pouco, usufruindo o bem estar de apenas estar ao seu lado, ouvindo sua respiração e sentindo o calor de sua pele...
Autora: estou suspirando...
Quanta paz...quanta harmonia...heheh