CAPITULO 77 – UM PASSO DE CADA VEZ
Hermione acordou no quarto de hóspedes. Assustada, sentou-se na cama achando que tudo não passara de um grande pesadelo.
Olhou para as roupas limpas, para o vazio do quarto. Estava em casa. E haviam vozes vindas do primeiro andar.
Vozes de homens. Homens alterados.
Sentindo como se houvesse sido revirada do avesso e estivesse se recuperando de uma longa enfermidade, tal fraqueza, se colocou de pé, calçou os sapatos e se dirigiu as escadas.
Medo a paralisou nos primeiros degraus. Será que queria mesmo saber como Rony estava?
Uma das vozes a fez tremer. Era uma voz de homem muito parecida com a de Rony. Desceu as escadas e dirigiu-se para a cozinha. Na porta, analisou as pessoas.
Arthur Wesley estava sentado, a cabeça apoiada nas mãos, cansado e preocupado. Gina estava ao seu lado, uma das mãos tocando seu ombro e consolando o pai.
Dr.Nut estava na outra ponta da mesa, pálido diante da reação dos gigantescos homens a sua volta. Eram muitos. Todos os irmãos de Rony.
A voz alterada que ouvira era de Guilherme, dirigido a Harry.
A discussão foi interrompida quando Gui avisou Hermione.
-Aproxime-se, minha filha – Arthur estendeu a mão, mas Hermione não se aproximou.
-Papai – Gina se fez notar – Hermione ainda não sabe – lembrou-o.
Estivera chorando na beira do lago por muito tempo e quando adormecera exausta, quase num desmaio, onde suas forças a abandonaram, fora o menino Duran quem a trouxera no colo.
Direto para a cama, para descansar. Não poderiam esquecer que esperava um filho.
-Hermione – Harry se aproximou, ajudando-a a dar os passos que ela hesitava. – Está pálida, precisa comer e sentar.
-Não quero nada – ela reclamou se afastando dele.
Gina levantou-se e a puxou pela mão em direção a mesa. Ela sentou sem reclamar.
-O Dr.Nut ficará aqui na fazenda até que Rony se recupere – Arthur disse, segurando suas mãos pela mesa.
-Se recupere? – ela sussurrou, olhando dentro daqueles olhos tão azuis quanto os de Rony. Longe da vivacidade costumeira dos Wesleys, havia abatimento e medo.
-Rony ficará bem. Vai sobreviver. – ele disse tentando sorrir, mas a situação era tensa demais para isso – Graças a você e Juanita, ele vai viver.
-Eu não fiz nada... – tentou se soltar, mas ele não deixou.
-Fez. Retirou a bala que o faria sangrar até a morte. Estacou o sangue e impediu-o de perder mais forças. Não é isso doutor?
Dr.Nut manifestou-se sério.
-Ronald Wesley é um homem forte. Mas perdeu muito sangue. Se não houvessem agido rápido, não haveria nada que pudesse fazer. – explicou – Agora, a única coisa a fazer é esperar que a febre ceda e que se recupere. Se não houver nenhuma infecção, escapará dessa.
-Não fiz nada - ela disse tensa – Juanita me orientou, não teria feito se não fosse ela – constrangida e tensa se afastou.
-Não diminua seu mérito - Arthur mandou – Viverei mil anos e não terei palavras suficientes para agradecer o que fez por meu filho. Sua coragem o salvou.
-Papai – Gina disse num meio sorriso – Não faça isso com Hermione, ela fica retraída com elogios – conhecia muito bem a cunhada e amiga – Deixe-a lamber as próprias feridas do jeito dela.
-Sim, tem razão – ele soltou suas mãos e ela se encolheu em sua cadeira, sem jeito com tantos olhares. – Quero que saiba Hermione, que sou um homem satisfeito em saber que ajudei meu filho a escolher a mulher certa.
Sem palavras para responder afastou o olhar. Harry estava encolhido em um canto, e era claro que era o alvo dos gritos anteriores.
-Meu irmão escapou por pouco – Gui disse alterado, o rosto muito vermelho, numa presença muito parecida com o do próprio Rony – E não graças a ele – apontou Harry.
-Foi uma briga de bar – Hermione disse com voz cortante – Harry e Rony tiveram uma discussão. São dois homens tolos e brigaram por um motivo fútil. Seu irmão foi atrás de Harry para pedir desculpas – notou a surpresa na face de Harry – ele irá querer seu amigo aqui quando acordar.
-É mesmo? Ou é você quem quer Harry aqui? – Gui perguntou e ela ergueu o queixo em desafio.
-Cale a boca Guilherme – Arthur disse mais alto que a voz do filho – não ouse ofender sua cunhada em sua própria casa. Confio no julgamento de meu filho, e se ele deu a vida para proteger a vida de Harry, é porque é um homem valoroso.
-Ah pai! – Gui pareceu incrédulo – eles são amantes!
-Não, não são – Gina disse com voz arrependida – Eu demorei a ver isso... A Srta.Brown conhecia muito bem Harry... Foi sua... Amiga íntima por muitos anos. Talvez ela conhecesse sua letra e soubesse reproduzi-la. Sei que é capaz disso. Hermione não tem culpa de meu ciúme. Muito menos Harry.
Aceitando aquelas palavras, Hermione sentiu parte do peso em seus ombros aliviar.
-Preciso que Gina fique para me ajudar – pediu – Assim como preciso de Harry. Sei que Rony confiaria nele para administrar a fazenda enquanto... Recupera-se – não quis pensar na possibilidade disso não acontecer. – Não posso cuidar de tudo sozinha. - não era tão difícil admitir afinal.
-É mesmo? – Gui carregou na ironia – Até onde sei sempre fez isso sozinha. O que mudou agora?
Hermione não respondeu, mas Fred sussurrou algo para o irmão que o calou. Eram gêmeos calados quando o assunto era sério como agora, mas normalmente eram divertidos e palhaços. Mas hoje, ninguém queria rir.
Hermione se perguntou o que teria sido dito entre os irmãos, mas fosse o que fosse fez Gui se calar.
Hermione pensou em explicar a ele as razões para não poder mais assumir tudo sozinha, mas não pode. Era íntimo demais. Ser cuidada e protegida ascendera dentro dela uma necessidade gigantesca de ser mulher e esposa.
Cuidar da casa e do marido, não poderia deixá-lo sozinho em uma cama e ir cuidar da fazenda. Tinha que ser prática, no entanto.
Poderia deixar os irmãos de Rony cuidarem de tudo, mas não queria.
-Suares pode orientar Harry - ela disse convicta. – e Gina precisa me ajudar com a casa.
-É hora de irmos – Arthur anunciou – Hermione dará conta de cuidar de tudo a seu modo – havia censura no olha do patriarca ao notar a expressão contrariada de Gui – Preciso contar a Molly. Parto com a convicção de que meu filho vai sobreviver. Não pense o contrário Hermione. E não esqueça: tem essa família ao seu lado. Não está sozinha.
Engolindo em seco, ela não respondeu.
Os irmãos de Rony foram embora com singelos cumprimentos, o médico foi até o quarto ver o paciente, e quando ficou só com Harry e Gina ela encarou ambos, antes de dizer séria e seca:
-É a última vez que falaremos sobre isso, pois tenho mais em que pensar, irão se casar o mais breve possível. Tão logo Rony possa ficar de pé chamaremos o padre e se casarão. Não vou permitir que essa vergonha continue. Não estou perguntando se quer ou não Ginerva. Seu irmão quase morreu por seu excesso de vontades e ciúmes. Chega. Harry, eu sei que sente culpa, e deve sentir, para que pense duas vezes antes de agir desse modo de novo. Sua vida também faria falta. Não a destrua. Preciso que me ajudem com a fazenda. Mas isso não quer dizer que não sou eu quem manda aqui na falta de Rony. Entenderam?
-Não posso me casar se Harry não me ama – Gina disse com o coração nos olhos.
-Pode e vai – ela disse ameaçadoramente – se ousar falar novamente com Lilá, ou dar ouvidos ao que ela diz, eu mesma encontrarei um cabaré e a colocarei lá, junto com Lilá. Para que sejam unha e carne! – horror diante da ameaça fez Gina se calar, pois não duvidava de Hermione quando ficava furiosa.
De pé, Hermione virou-se para Harry.
-Troque de roupa. Precisa falar com Suares e se interar do trabalho.
-Hermione, eu sinto muito, jamais teria entrado em uma briga se soubesse que...
-Que é errado? Que acaba em tragédia? – completou por ele, incapaz de deixar que Harry saísse dessa achando que seus problemas eram desculpa para suas atitudes – Guarde suas desculpas. Palavras não têm o poder de concertar as atitudes erradas.
Com essa certeza, Hermione os deixou sozinhos.
Na porta do quarto deles, ela parou assustada com a idéia de entrar e vê-lo novamente a beira da morte.
Juanita a notou e abriu totalmente a porta para que entrasse. Subitamente formal, teve medo de olhar para a cama e vê-lo indo lentamente para outro mundo, o mundo dos mortos.
Juanita fez um gesto significativo para o médico que se afastou da cama dizendo:
-Acredito que o almoço seria bem vindo – disse a Juanita - Mesmo um velho homem como eu pode ainda conservar sua memória e lembrar-se de como é deliciosa sua comida Juanita.
-Sim, e também deve se lembrar como é zeloso o meu marido – ela riu-se, conduzindo-o para fora do quarto.
Hermione mal ouviu a porta fechar lhe dando privacidade. Ergueu os olhos e finalmente fitou seu corpo sobre a cama.
Não havia marcas de sangue. Tudo estava limpo, inclusive a ferida, enfaixada em sua barriga. Seu peito estava nu, o lençol cobrindo-o até a cintura.
Um dos pés estava descoberto, e Hermione sentiu um nó se formando em sua garganta ao cobri-lo. Tirou a mão rapidamente, como se um simples toque pudesse machucá-lo.
Se aproximando mais, ela olhou para seu rosto. Adormecido, aparentava tanta fragilidade. Pálido, os lábios sempre cheios e bonitos estavam arroxeados e quebradiços. Aparentava calma, um sono pesado, mas seu peito se movia muito pouco. Respirava difícil, e seu olho acostumado a conhecer cada centímetro daquele corpo, e cada pequena reação, notou seu pescoço avermelhado e o começo dos ombros, como se estivesse febril.
Hermione tocou a pele do braço que descansava caído sobre a cama e notou que era exatamente isso. Febre.
Febre alta, que consumia suas forças.
Tentando entender o que se passava dentro de si mesma, puxou a única cadeira do quarto e sentou-se ao lado da cama, muito perto. Suas mãos tocaram em seu braço e ficaram ali, sentindo-o.
Esse homem não podia morrer.
Era jovem demais, persistente demais, eloqüente demais. Precipitado, arrogante, engraçado. Era homem demais para morrer.
E principalmente, era o amor da sua vida.
Nunca lhe dissera.
Se houvesse morrido, jamais saberia.
-Rony – ela disse muito baixo, esperando que em algum lugar de seu sono, pudesse ouvir – Eu ia pedir que fizesse parte da minha vida. Só não sabia como fazê-lo.
Era verdade. Não iria pedir que dividisse sua cama. Era mais que isso.
As lágrimas corriam em sua face. Eram lágrimas silenciosas.
Seus pais e Ann sabiam do tamanho do seu amor. Sempre dizia a sua mãe o quanto a amava. Sempre abraçava a irmã e lhe contava do carinho e ternura que sentia por ela.
Mas Rony não. Nunca dissera. Nunca o permitira se aproximar.
-Não morra – disse muito baixo – Apenas não morra.
Sua voz se perdeu no silêncio do quarto, mas ela não notou.
Permaneceu na mesma posição velando seu sono, sem notar nada a sua volta.
Culpa, remorso e medo.
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Gina olhava para Hermione sem coragem de se aproximar ou se fazer notar. Havia aberto a porta, pronta para se oferecer a ajudar. Mas ao ver sua cunhada e amiga tão compenetrada em sua própria dor, se acovardara.
Era amor que via em seus olhos. Envergonhada por ter desconfiado de Hermione em relação a Harry apenas ficou quieta, esperando ser notada.
Passou-se um bom tempo até que entendesse que ela não notaria.
Talvez estivesse errada sobre os próprios sentimentos. Gina achou seu próprio amor muito pequeno perto que via no olhar de Hermione.
Um amor mesquinho e covarde. Ciumento e arrogante demais para perguntar antes de tirar conclusões.
Fechou a porta deixando os dois sozinhos, pois tinha certeza que a simples presença de Hermione junto a Rony seria o bastante para ajudá-lo a se recuperar.
Juanita estava na cozinha preparando o almoço, que fora relegado a segundo plano quando avistou Gina. Harry lhe contara brevemente da decisão de Hermione a cerca da fazenda, e ela teve que concordar.
-Mandei Duran buscar algumas roupas suas e de Harry na fazenda de seu pai – disse sem olhar para ela, sem interesse.
-Eu... Poderia ter ido junto.
-Não, não poderia. Pegue uma galinha no galinheiro. Mate e faça uma canja, enquanto preparo o almoço dos homens. Eles devem estar famintos.
-Uma... Uma canja? – seus olhos se arregalaram.
-Hermione não deve comer nada pesado agora. E se por milagre, seu irmão acordar, será bom que coma alguma coisa.
-Mas eu... Nunca matei uma galinha antes... – havia horror em sua face.
-Acabou com a vida de sua cunhada e de seu irmão. – ela disse séria e direta, parando o que fazia e encarando-a – Agora, eles tentam se reerguer. Hermione está colocando-a em seu lugar, nas atividades da casa, e Hermione faz canjas. Então, você também fará.
Gina não argumentou.
A culpa era grande mais para que fizesse isso.
Uma hora depois, Harry voltou de uma longa conversa com os empregados, tranqüilizando-os sobre Rony e seus empregos, quando avistou a cena mais inusitada que poderia imaginar ver.
Nos fundos da casa, sentada nos degraus, com a saia do vestido sungada acima dos joelhos presa entre as pernas, Gina equilibrava uma bacia sobre um degrau, enquanto arrancava as penas de uma galinha morta. Fumaça escapava da água quente e corava suas faces, enquanto o suor corria entre seus seios.
Ficou observando, e sorriu quando ela terminou e fechou os olhos como se agradecesse aos céus.
Pela porta, Juanita aparece e lhe estendeu uma bacia limpa e uma longa faca. Falou algo, e Gina apanhou-a com pânico nas faces.
Era óbvio que Juanita não facilitaria o seu lado. Harry quase sentiu pena ao vê-la cortar o animal, com uma expressão de pena, nojo e horror.
Gina tinha que crescer. E não seria ele quem barraria seu aprendizado.
Ela ergueu os olhos em sua direção e então, afastou-se carregando a bacia para dentro.
Harry, por sua vez, seguiu seu caminho, pois havia muito trabalho. Não ousaria deixar a fazenda afundar. Cuidar e zelar do patrimônio de Rony era o mínimo que poderia fazer depois de quase lhe roubar a vida.
Beta: Fiquei com o coração apertado diante da dor de Gina!
Autora: pena da Gina? Nem eu consegui ser tão boazinha assim! Ela merecia era uma punição mais severa! Ir para um convento, talvez....heheh...