CAPITULO 76 – MORRENDO POR DENTRO
-O médico! – Gina se ajeitou agarrando o braço de Harry, enquanto Rony era carregado para dentro da casa. – Onde está o médico?
-Está a caminho, não vai demorar - ele garantiu muito perto de Hermione, olhando para ela, esperando alguma reação. – Hermione...
-Ele está vivo Hermione – Gina afastou-se de Harry e tocou no ombro da cunhada, notando que estava gelada como uma pedra de granito em noite de chuva.
Sabia que não seria para sempre. Congelada no lugar, sentiu a garganta apertar. Não podia ser para sempre. Nunca era.
-Hermione – Gina insistiu – Hermione! – ela a sacudiu, segurando seus ombros com força e empurrando-a para frente e para trás – Rony está vivo! Precisa de ajuda!
Sem parecer ouvir, ela olhou para Gina e então para Harry.
Gina comprou o olhar de Harry, sabendo que ela estava em estado de choque.
Tomando as rédeas, Gina a puxou pelos braços e Hermione se deixou levar. Estacou quando foi empurrada para dentro do quarto.
Rony estava deitado na cama. A roupa ensangüentada. Estava morto.
-Deixou-o morrer – ela disse baixo, e Harry sentiu como se fosse uma facada em seu peito – Deixo-o morrer.
-Rony está vivo! – Gina disse chorando sem saber o que mais dizer – Veja, ele respira ainda – ela levou sua mão até o peito de Rony, onde o peito subia e descia num respirar muito fraco. Muito lento.
Hermione sentiu a pele sobre os dedos. As sensações explodiram dentro dela, e sem entender o que se passava, sentiu que as pernas dobravam e o corpo perdia a força. Escorregou, ficando ao seu lado na cama.
Só então percebeu que era ela quem chorava desesperadamente, apertando o tecido fino da camisa sob seus dedos quando Juanita apareceu no quarto.
-Não faça assim Hermione - ela ajudou-a a se afastar, mas Hermione empurrou-a querendo tocá-lo novamente. – Ginerva, vá à fazenda de seus pais buscá-los. Leve Duran – Juanita tomou as rédeas – Sr.Potter, vá atrás do médico.
-Eu...
-Vá de uma vez! Aquele preguiçoso não virá a menos que alguém importante o chame! - ela mandou sabiamente calma.
-Não posso deixar Hermione assim – Gina disse, fitando a empregada com tanta determinação que ela concordou
–Mandarei Duran sozinho. Tire-a daqui enquanto tiro a roupa manchada de sangue – ela olhou com pesar – pobre homem!
-Não fale assim – Gina pediu baixinho, tentando levar Hermione.
Como uma boneca de pano, se deixou levar. Na cozinha, desabou sobre a cadeira. Gina pretendia dizer algo, mas ela não ouviria. O pranto a fazia surda. Cobrindo o rosto com as mãos, ela soluçou interminavelmente.
Gina se ajoelhou no chão, e ficou com o rosto na mesma altura, fazendo-a olhar em sua direção.
-Você o ama – ela disse suavemente, afastando os cabelos de Hermione de sua face – Não pode desabar agora. Não agora. Hermione seja forte, por favor. Rony... Precisa de você.
-Não, não precisa. Ele vai me deixar...
Sua voz era tão sofrida, seu olhar tão magoado, que Gina chorou com ela.
-Não, não vai. Não conhece meu irmão? Ele jamais vai deixá-la em paz! Nem que para isso viva mil anos! – tentou fazê-la sorrir – Hermione, vamos cuidar de Rony enquanto o médico não vem.
Ela maneou a cabeça negando. Gina levantou-se e se afastou, pois não poderia mais deixar o irmão abandonado. Sozinha, Hermione achou que nunca mais respiraria sem sentir aquele sufoco no peito, aquela opressão.
Há poucas horas estivera em seus braços e agora, estava partindo e abandonando-a.
Suas mãos estavam molhadas pelas lágrimas e ela lembrou-se de como ele adorava segurá-las e mostrar o quanto era capaz de causar-lhe emoções com esse simples gesto.
Como viveria sem ele?
Fechando os olhos com força, pensou ter ouvido um sussurro ou algo assim. Era a lembrança lhe trazendo o som de sua voz, sussurrando seu amor em seu ouvido durante a noite, quando achava que ela estava profundamente adormecida.
Contendo os soluços, ela limpou as bochechas e os olhos, secando as lágrimas.
Se ele estava vivo, havia uma esperança.
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Juanita notou o momento em que ela entrou e enxotou Gina.
-Me ajude a trocá-lo – mandou e Hermione obedeceu.
Achando que poderia cair no choro a qualquer momento se concentrou nas ordens de Juanita. Tirou sua calça e suas cuecas. A camisa fora cortada para não atrapalhar, e agora jazia em farrapos no chão. Juntas o colocaram bem no meio da cama, de modo a não ficar desconfortável.
Hermione recebeu a pequena bacia com água limpa, um pedaço de pano limpo e molhou-o na água, olhando para a ferida.
Era feia e sangrava. Logo abaixo das costelas, perto do umbigo. Um buraco mínimo, mas que fazia tanto estrago quanto possível. O rosto bonito estava pálido sobre a barba que crescia sem cuidado, pois não tivera tempo para higiene naquela manhã. Parecia apenas dormir calmamente.
Ternura a fez acariciar seus cabelos ruivos, antes de começar a limpar a ferida.
-Ele vai sangrar até a morte. Não dará tempo de o médico chegar – Juanita disse em seu canto, tensa.
Havia medo naquela mulher, e não apenas pela vida do jovem homem, mas pela vida daquela menina a quem se afeiçoara como a uma filha. O que seria de Hermione se perdesse seu amor? Mais uma perca. Mais uma ferida em seu coração não cicatrizado. Poderia ser destrutivo.
Seria destrutivo.
-Se não removermos a bala o sangramento não irá parar – ela elevou a voz, ganhando a atenção de Hermione.
-Sabe fazer isso? – ela perguntou baixo, rouca, sem voz.
-Eu vi fazerem. Mas não teria coragem. – ela confessou – é previsto tirar a bala com uma faca afiada. Está inconsciente, mas se acordar será uma dor terrível. Sem falar no sangue. E na responsabilidade. Não poderia fazer. – ela mostrou as mãos que tremiam – Não sou tão forte assim Hermione.
-Então me diga como fazer – ela disse decidida, abandonando a limpeza que não exercia efeito algum, pois o sangue não estacava. – Traga o que for preciso e me mostre como fazer.
-Tem certeza? – a voz de Juanita fraquejou.
-Tenho.
Não era uma opção. Não havia uma opção.
Sentada ao lado de Rony esperando, para ela foi um tempo longo demais. Tão pálido e tão assustadoramente quieto.
Sua mão segurava a dele, esperando que a qualquer momento se movesse e acordasse, dizendo estar tudo bem. Mas não aconteceria.
Juanita reapareceu, as mãos ainda trêmulas, carreando água e toalhas.
-Passei no fogo, está quente – lhe entregou uma grande faca de cozinha com uma ponta afiada e fina, o cabo enrolado em um pano, para não queimá-la.
-O que eu faço agora? - ela perguntou sem expressão ou emoção.
Fria. Tinha que ser fria.
-Limpe a ferida com álcool – A voz de Juanita estava muito baixa, engasgada.
Não tinha tanta força interna a ponto de achar normal ter a vida de alguém em suas mãos. Por outro lado, já vira homens fortes e saudáveis morrerem sangrando como porcos abatidos, por causa de tiros acertados na barriga.
Um local doloroso e fatal se não houvesse socorro.
Hermione molhou o uísque numa das toalhas e passou sobre a ferida num movimento decidido e firme. A dor provocada o fez se mover, mas não acordar.
Melhor assim.
-Precisa achar a bala e tirá-la para fora – Juanita explicou, se afastando e deixando-a ter espaço e luz para ver o que faria.
Hermione se inclinou analisando o pequeno buraco por onde a bala entrara. Não havia como ver muita coisa. Controlando as mãos para não tremerem, encostou a ponta da faca e introduziu-a pela abertura, até sentir que tocava algo sólido demais para ser carne ou osso.
Tremendo por dentro, aprofundou a lâmina, Juanita tendo que correr para segurar Rony, pois seu corpo tremia pela dor.
Alheia a tudo e concentrada no que fazia, abriu caminho e começou a empurrar a bala para cima. Depois do que pareceu uma eternidade, mas não passou na verdade de segundos, o artefato de ferro e aço, subiu a superfície e ela retirou com os dedos.
Imediatamente, o sangue subiu e jorrou, deixando-a em pânico.
-Passe mais álcool – Juanita mandou, correndo a apanhar mais toalhas limpas.
Hermione pressionou o tecido embevecido em uísque, e a pressão ajudou há estancar um pouco o sangue. No entanto quando soltou o sangramento voltou.
-Me dê mais toalhas – Hermione pediu, tendo uma idéia. Dobrou duas toalhas e pressionou sobre a ferida, usando as duas mãos para fazer força. – Separe mais toalhas!
Juanita correu a obedecer, e Hermione esperou.
Manteve as mãos sobre as toalhas pressionando o ferimento por quase uma hora. Tensa, imóvel e muda, esperou a chegada do médico.
Dr.Nut chegou apressado, sendo praticamente arrastado por Harry e Arthur Wesley. O franzino homem parecia assustado, tendo sido tirado à força da cabeceira de outro doente. Por sorte o filho dos Gueen não tinha nada além de uma forte ressaca mal curada.
A última coisa que o médico, ou Harry, ou Artur poderiam esperar ao entrar naquele quarto, era ver Hermione estancando o sangue.
-Tiramos a bala – Juanita foi logo avisando, pois Hermione não tinha condições de falar. Mostrou o que sobrara da bala depois de ter estourado e penetrado no corpo de Rony. – O sangramento diminuiu desde que mantivemos a pressão sobre a ferida.
-Sim, sim – o médico disse abrindo sua maleta e retirando alguns objetos. – Pode soltar, filha – ele disse para Hermione.
Ela olhou para o médico, e então para as próprias mãos cheias de sangue e demorou mais de um minuto para obedecer. Tinha medo que tão logo cessasse a pressão, o sangue voltasse a jorrar com força. Mas nada aconteceu.
Sentindo-se dolorida, os braços enrijecidos pela força empregada, foi amparada por Harry, que a segurando pelos ombros, afastou-a da cama para dar passagem ao médico.
-Meu filho – Arthur se aproximou – Como isso pode acontecer com meu filho?
Sua expressão incrédula era dolorosa demais para Harry encarar.
Com a desculpa de tirar Hermione dali, saiu do quarto. Gina correu até eles, fitando as mãos dela machadas com o sangue de Rony, o vestido também estava manchado.
-Mamãe já sabe? – perguntou num fio de voz.
-Não. Seu pai achou melhor não contar ainda. – explicou – Ajude Hermione a se limpar – ele pediu.
-Sim – aproximou-se dela – Vem Hermione, vamos subir.
Hermione se deixou levar, sem saber exatamente por que falavam com ela naquele tom pausado e comedido. Talvez Rony estivesse morrendo nesse exato momento e não quisessem lhe contar...
Gina lavou suas mãos com água limpa e ajudou-a a trocar o vestido sujo por um limpo. Abotoou-o nas costas e prendeu seus cabelos numa trança.
Todo o tempo Hermione não se importou.
-Foi muito corajosa retirando a bala – ela disse surpresa, não por sua coragem, mas por sua fibra – Hermione...
-Não quero falar – ela cortou, fitando o vazio que havia dentro de si, olhando apenas para as próprias mãos.
-Vamos descer; talvez Dr.Nut já tenha um parecer – disse para tentar animá-la.
Na sala, Harry esperava nervoso, andando de um lado ao outro.
-Você atirou? – Hermione perguntou assim que o viu.
-Não – ele respondeu num tom de auto-penitência – Mas é como se houvesse apertado o gatilho. – não tinha como erguer os olhos e encarar Hermione.
A dor que havia em seu olhar seria o bastante para matá-lo de vergonha e culpa.
-Rony me defendeu de uma briga e levou o tiro por mim. Era eu quem deveria estar morto. Eu quem deveria estar sangrando a beira da morte...
-Deus! Não diga isso! – Gina soltou um gritinho correndo para abraçá-lo – O que seria de mim se o perdesse?
Ele deixou-se abraçar com vergonha de si mesmo.
-Fui fraco. Não me defendi o bastante, me curvei. Causei toda a dor que sente, Hermione. Nada que eu disser mudará isso. Mas sinto muito.
-Não sinta – ela disse fria e distante.
Era impossível saber o que pensava.
Sentindo-se vazia, se sentou no sofá quando uma dor correu sua barriga e a fez querer fechar os olhos e gemer. Controlou-se e esperou que passasse. Suas pernas estavam tão fracas. Suas vistas tão turvas.
-Hermione, tem algo que possa fazer para ajudá-la nessa hora? – Gina perguntou, se esforçando para controlar as lágrimas.
-Não - disse cortante.
-Hermione, eu... - Harry tentou falar, mas ela não deixou.
-Não quero saber.
Era verdade não queria saber como Harry se sentia.
Sensibilizada, Gina gentilmente conduziu Harry para fora da sala, lhe dado espaço.
Hermione nem notou. Quando seu pai sofrera aquele acidente na estrada e ficara numa cama para toda a vida, era apenas uma menina, mas entendeu a dimensão do fato vendo a mãe sofrer. Então, quando vieram contar da morte de seu irmão, ela presenciara dentro de si o que era dor.
A perca. A falta. O vazio. Não tiveram um corpo para enterrar, e a dor havia sido sufocada pelo trabalho e as novas obrigações para com a família.
Até o dia que perdera os pais e Ann.
Não deveria haver dor mais forte que essa. Sua mãe, seu pai. Sua irmãzinha inocente e angelical. Perdê-los fora como perder o senso de direção. Não saber que era e para onde iria. Sentira raiva, medo, dor.
Hoje, enquanto sentia o sangue quente de Rony correndo entre seus dedos e assistia sua pele cada vez mais pálida, mais quente, febril, ela sentira outra coisa.
Uma espécie de dor que deixara sem forças. Seus braços estavam vazios. Suas mãos insensíveis. Sua mente vazia e seu coração apertado de um modo que parecia que iria sufocar.
Aflição, duvida, medo. Se ele a deixasse o que seria dela? O que seria de suas noites? De seus dias? Quem estaria ao seu lado para tentar transformá-la em uma mulher melhor?
Preferia mil vezes que ele fosse embora com Suzan ou Lilá, a vê-lo morto. Como gostaria de voltar atrás e desfazer todas as vezes que lhe disse que não se importava.
Pois se importava. Tanto que sentia o peito doendo. Queria voltar ao quarto, deitar-se ao seu lado e dizer que não poderia continuar sozinha. A dor a sufocou ao pensar que nunca mais veria seu olhar azul, vivo e malicioso.
Nunca mais veria seu sorriso zombeteiro, obrigando-a a se rebelar contra sua sedução. Jamais ouviria sua voz rouca dizendo o quanto a desejava, ou sentiria seu corpo possuir o seu com ardor e força!
Seria sozinha novamente, mas de uma forma mais triste. Seria a solidão da saudade de seu marido, seu amante e seu amigo. Perderia tudo em um minuto de fraqueza de Harry.
Queria sentir raiva de Harry, mas não conseguia. Sufocada pela dor da impotência, levantou-se e caminhou para fora de casa. No pátio, andou rapidamente ao longo da cerca, sem notar que o menino Duran a seguia.
Havia visto a patroa sair de casa a passos muito rápidos, e não pensou duas vezes em segui-la. Seu patrão havia lhe dado ordens expressas de sempre zelar por sua segurança, e era isso que faria!
Hermione só percebeu que corria quando chegou às margens grandes do lago. Seu corpo tombou sem forças, e ela baixou a cabeça quando as lágrimas vieram. Não era vergonha de chorar. Era para não ver as águas calmas e serenas e lembrar-se dos beijos e abraços tocados dentro do lago.
Para não ver que o dia era bonito e luminoso enquanto sua vida estava ruindo a seus pés. Que havia uma escuridão infinita dentro dela, e a dor era horrível demais para que pudesse pensar.
Ao longe, Duran esperou atrás de uma árvore. Não se aproximaria.
Hermione chorava e ele não sabia o que fazer com uma mulher chorando.
Em algum momento, Hermione notou o menino, mas isso lhe trouxe uma onda de choro compulsivo, pois sabia, eram ordens de Rony para protegê-la.
Como viveria sem esse homem?
Como viveria sem seu amor?
AUTORA: Parece antepenúltimo capitulo de livro, né? A mocinha descobre seus sentimentos, aí, ele melhora e os dois ficam juntos e Fim.
Hehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehe....
Próximo capitulo na quinta-feita!