CAPITULO 67 –SOLIDÃO
Rony terminava de fiscalizar o trabalho quando Duran apareceu correndo, aos gritos, chamando por ele.
Ficou irritado achando ser algo com Lilá, até o menino lhe dizer que Harry estava na fazenda e o chamava com urgência. Não entrou em detalhes, pois haviam outros empregados por perto, e não queria falatórios.
Rony irrompeu na casa, avançando até encontrar a porta do quarto aberta. Avistou Harry de pé perto da janela, olhando para a rua, aflito.
Hermione estava deitada, adormecida, apesar de estar vestida.
-Rony! - Harry pareceu feliz e aliviado ao vê-lo – Ainda bem que não demorou! Hermione...
-O que está fazendo aqui? No meu quarto, com minha mulher?
Havia tanta hostilidade em sua voz que Harry deu um passo para trás, em sinal que não queria saber de brigas.
-Hermione desmaiou. Mal tive tempo de ampará-la antes que caísse no chão e se machucasse. Faz alguns minutos. Pedi ao garoto que o chamasse imediatamente!
-Que drama fazem vocês homens! – a inconfundível voz de Juanita o fez olhar para trás, para a mulher que entrava com uma vasilha com água. – Saiam os dois!
-Hermione está bem? – Rony perguntou nervoso, achando-a pálida demais.
-A pobrezinha vai passar por todos os sintomas desagradáveis da gravidez. Com o azar que ela sempre tem, não é de surpreender! - ela riu, apontando para a porta – Vou ajudá-la. Agora, me faça o favor de ir à cidade comprar os mantimentos que faltam? Nessa fase ela precisar comer bem.
-Não há risco de me ausentar com Hermione...? – ele também estava pálido.
-Pelas minhas contas, ainda faltam quase oito meses. Isso vai acontecer outras vezes. Tudo que ela não precisa é de um marido super protetor! Aproveite e mostre ao Sr.Potter a fazenda dos Gueen. Eles estão com dívidas de jogo...
-Eu sei – ele cortou tenso ao olhar para Hermione desacordada -Farei isso. Mas antes, vou esperá-la acordar.
-Espere lá fora – Juanita disse taxativa, não querendo um homem babão atrapalhando-a.
Hermione acordou com algo gelado sobre sua testa. Um pouco zonza, viu Juanita tirar uma compressa de sua testa.
-Eu desmaiei... – disse confusa.
-Acontece – ela sorriu e segurou sua mão como uma mãe faria - Vai descansar um pouco.
-Rony... - ela não terminou a frase, mas ele sim.
-Estou aqui – ele estava na porta, de braços cruzados.
Juanita saiu do quarto e Rony encostou a porta.
-Irei à cidade. Faltam mantimentos e preciso pagar a hipoteca. Prometo guardar sua parte no banco.
-Eu... Pode me trazer algumas coisas? - ela perguntou angustiada. Ele iria sozinho à cidade e provavelmente falaria com o juiz, pai de Susan.
-Peça o que quiser – ele segurou sua mão, ajudando-a a sentar na cama, recostada nos travesseiros.
-Preciso que compre algo de criança, para Ruanzito, e não reclame! – avisou – Preciso de um pote de balas para os meninos de Juanita. É um pagamento justo, eles me ajudam com as galinhas e os porcos. – Rony apenas sorriu, deixando-a falar. - Poderia... Levar algumas flores ao túmulo dos meus pais e o de Ann? – ela baixou os olhos – Faz tempo que não faço isso, não quero que achem que me esqueci deles...
Com o coração apertado por Hermione, ele concordou.
-Vou lhe trazer um presente Hermione – ele prometeu.
-Por quê? – ela estranhou.
-Porque um marido traz um presente para a esposa? – provocou – Quero agradá-la. Fazê-la sorrir. Vê algum mal nisso?
-Tenta me ludibriar - ela acusou sorrindo sem querer.
-Antes, eu morria por fazê-la sorrir sabia? - ele beijou sua testa pegando-a de surpresa – E agora, sorri para mim espontaneamente. Sabe que isso quer dizer que me ama?
-Não. Quer dizer que me acostumei a você. Como alguém se acostuma a um chinelo velho – ela ridicularizou.
Ele riu gostosamente, apreciando o modo como tentava mentir para ele.
-Hoje a noite vai me escorraçar de sua cama Hermione? – testou o terreno.
-É claro que sim – ela deu de ombros.
-Mesmo que lhe traga um lindo anel de ouro, ou um vestido de seda? – ele mesmo riu.
-Atreva-se a gastar o pouco que temos com supérfluos e nunca mais entrará nesse quarto! - ela ameaçou falsamente brava.
-Hum, então, há uma possibilidade de voltar a sua cama - ele disse exultante.
-Não podemos dormir em quartos separados enquanto essa... Sua ex-amante estiver aqui dentro. – tentou não parecer tão interessada em tê-lo perto de si.
-Admiro seu sacrifício Hermione – ele ironizou sorrindo. – Mesmo que não queira, lhe trarei um presente.
-Se quer me dar um presente, traga linhas e agulhas. Juanita quer que façamos um enxoval para presentear Ginerva.
-Trarei tudo que Juanita pedir – ele garantiu, rindo por dentro.
Com carinho, fez uma carícia em seu rosto, desejando arduamente contar a ela que esse enxoval era para os filhos deles. Que Juanita era peça importante do futuro deles, visto que era boa parteira e entendia tudo de bebes. Que essa mulher, com quem implicava se tornara sua aliada para proteger Hermione.
-Irei demorar. Levarei Harry para ver a fazenda dos Gueen. Não faça esforços, nem se preocupe com nada. Promete-me?
-Rony – ela disse com voz baixa e preocupada -Se eu estivesse muito doente, me contaria?
-Sim, contaria. Não está doente Hermione. Está convalescendo. O médico me avisou que seria assim. Não se preocupe, em poucas semanas estará novinha em folha!
-Espero que sim. Detestaria enfrentar o inverno doente – ela disse pensativa.
Rony não se aventurou a responder, pois ela enfrentaria o inverno no pior estágio da gravidez. Mas não era o fim do mundo, Hermione era muito reclamona quando estava entediada!
Foi embora à contra gosto, levando Harry consigo.
Harry estava cheio de formalidades, tenso e constrangido, e demorou um bom pedaço da viagem até tocar no assunto.
-Ginerva contou aos pais que sente ciúmes de mim com Hermione – contou, esperando sua reação.
Estava derretendo sob o sol forte, e havia se desfeito de boa parte do fraque durante o caminho. Viajar de charrete não era a mesma coisa que andar de carruagem, protegido do sol escaldante.
-E minha irmã tem razão? – foi sua indiferente pergunta.
-Cada dia se torna mais claro para mim o sentimento que tenho dentro de mim. Estou apaixonado por Gina, mas detesto seu comportamento imaturo. Sinto-me atraído pela maturidade de Hermione. Mas não é um sentimento que me envergonhe.
Rony não respondeu nada. Manteve os olhos na estrada.
-Gina me fará feliz. – Harry complementou – É estranho, pois jamais achei que fosse ter essa certeza em relação a alguma mulher.
-Sou possessivo em relação à Hermione – Rony tentou explicar, desconfortável – E ela gosta de me testar e provocar. Não me peça para explicar nosso relacionamento, é complicado. Mas saiba, não perdoarei o homem que se impor entre nos dois.
-Sabe, acredito que está errado – Harry disse pensativo – A relação de vocês dois não é complicada, é simples.
-Simples? – Rony sentiu ganas de rir histericamente.
-Hermione tem medo. É simples, o medo é irracional. Ela ataca para se defender de tudo e todos. Para ela, não sou um risco. Não desperto suas emoções de forma intensa e não cobro retribuição a minha amizade. Notou como ela é próxima de sua empregada e de seus filhos? Pela mesma razão. É algo que não a ameaça.
-Eu sou uma ameaça a Hermione? - ele perguntou incrédulo, olhando para o amigo como se ele estivesse louco.
-Ela sente algo por você, e sente que irá sofrer novamente por sua causa. E tem medo de perder. Tem medo da dor da ausência e da solidão.
Harry explicou com tanta convicção que Rony acreditou. Harry entendia de solidão, mas não era um homem fechado como Hermione.
-Porque Hermione é assim? Quero dizer, Harry, você é aberto às pessoas. Não as afasta!
-E por acaso sabe o preço que pago por ser assim? – ele perguntou com amargura – Quando um amigo sai de sua vida e se muda para o outro lado do país, e é a ultima ligação que você tem com o que considera uma família, é como se tornar órfão novamente. É difícil de explicar.
-Porque não me disse como se sentia? – ele perguntou surpreso.
-Porque é sua vida. Assumo o risco. Hermione, no entanto, ainda não está pronta para assumi-lo do mesmo modo.
-E o que faço? Como faço para que esteja pronta? – havia um traço de desespero em sua voz.
-Espera – Harry disse sorrindo – Esperar é a única solução, pois só o tempo vai curá-la.
-É claro, paciência é meu ponto forte – ele ironizou e Harry riu mais leve depois dessa conversa franca.
-Pense na recompensa.
Rony teve que rir, pois era difícil ficar chateado com Harry. E era inacreditável que estivesse desconfiando de seu melhor amigo.
-Terá a oportunidade de me acompanhar ao Banco e conhecer as mazelas da vida de um fazendeiro pobre - ele disse brincalhão.
-Admita Rony, quer me exibir para seus oponentes - ele brincou de volta.
-Bem, isso também – ele concordou, no mesmo tom, afinal, um homem do prestigio de Harry ao seu lado com certeza amenizaria os ânimos e desconfianças de seus opressores.
-Rony, nós seremos cunhados, porque não me deixa...
-Não se atreva a terminar essa frase Harry - ele cortou, sem se abalar – Posso ter fingido acreditar no benfeitor anônimo que custeava meus livros e uniformes novos quando meus pais não podiam pagá-los, mas não deixarei que isso se repita agora que sou adulto. Tenho uma divida de gratidão muito grande para com você, e não gosto de me sentir em divida!
-Fala muita tolice para um homem tão esperto – Harry deu de ombros – Me apresentou sua irmã, saldou todas as dividas que pudesse ter entre nós e ganhou saldo para a vida toda!
-Vá brincando Harry. Gina pode fazê-lo o homem mais feliz do mundo, mas também pode te destruir. É bom ser atento.
-Sua irmã é inestimável – havia um ar sonhador em sua face ao lembrar-se do toque macio de seus seios, e os gemidos surpresos e apaixonados, enquanto a fazia sua; perdido em sua feminilidade aveludada...
-Harry? - Rony, insistiu após chamá-lo por duas vezes e não obter respostas.
-Desculpe, minha mente ia longe. – ele tentou não parecer tão culpado quanto se sentia...
-Bem sei onde está sua mente – Rony sorriu malicioso, achando serem pensamentos fantasiosos sobre o que faria com Gina e não com o que ‘já’ fizera!
-Diga-me Harry, aceitará ser padrinho do meu filho?
-Hermione está de acordo? – ele perguntou inocente.
-Estará quando souber da gravidez, tenho certeza. – Rony confessou.
-Pois bem, serei o padrinho mais feliz desse mundo, desde que ela não me persiga armada por ter participado desse seu plano para enganá-la!
-Não seja estraga prazeres Harry. Vou ser pai. Cabe a mim, proteger minha mulher e meu filho.
-Sempre foi capaz de meter-se nas mais sinuosas confusões – Harry maneou a cabeça, não querendo parecer que o apoiava – Que seja um menino, para que possa seguir os passos do pai e infernizar a vida de todas as cortesãs de Londres! - ele gargalhou de sua expressão.
-Será um fazendeiro. – ele disse orgulhoso – Terá estudo e conhecerá o mundo, mas terá alma de fazendeiro e se casará com uma mulher e sossegará quando for sua hora – disse convicto – Ou... - um sorriso nasceu em seu rosto diante desse pensamento súbito - ...será uma linda menina arisca e respondona e ficarei grisalho antes que ela complete dez anos, tentando manter os pretendentes afastados!
-Sobreviveria a duas Hermiones em sua vida? – Harry protestou.
-Sou um homem resistente.
-Eu diria corajoso.
Os dois riram e seguiram conversando, deixado de lado as duvidas e brigas.
Na cidade, a primeira parada foi para vender o milho e garantir a troca dos outros produtos no armazém. Então, seguiram para o banco, onde Rony apresentou Harry a seu irmão Guilherme, e então ao Sr.Ford.
O banqueiro ficou tão encantado com a presença de Harry e seu relógio de ouro preso ao colete, que mal prestou atenção em Rony.
Quando saíram de lá, entre comentários nostálgicos sobre Ford, os dois fizeram uma parada no armazém para comprar os mantimentos. Rony lembrou-se de todos os pedidos de Hermione e após alguma dúvida, separou um presente. Sorrindo, arrastou Harry, que reclamava do calor, até o cemitério para uma parada rápida.
De volta à carroça, eles seguiram para a propriedade do juiz, onde morava Susan.
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Hermione vagou pela casa, sozinha. Passado a indisposição matinal, ela não tinha nada a fazer ou com quem falar. Juanita tirara um momento para os filhos e os levara ao lago. Lilá e sua filha estavam no quarto.
Até mesmo Duran saíra!
Sozinha, ela vagou pela casa, se perguntou por que, de repente, era tão estranho estar solitária.
Na cozinha, ela observou o silêncio, lembrando quando sua mãe estava sempre ali, atarefada, tentando dar conta de todo o serviço e ainda cuidando de seu pai. Desde pequena crescera na barra de sua saia, seguindo-a, porém, sem receber atenção.
Seu pai ficava no quarto, sempre deitado, ou recostado contra os travesseiros e nas poucas vezes que o via acordado, era para reclamar da própria infelicidade, ou para ler e distraí-lo. Não havia conversa. Não havia atenção.
E quando Ann nascera, ficou ainda mais de lado, até Ann ter idade o bastante para ser sua amiga. Fora a primeira vez em sua vida que tivera companhia de verdade!
Até a morte de seu irmão a privar do pouco tempo que tinha entre os afazeres domésticos e os cuidados com seu pai. Levava seus dias num terrível silêncio, sempre trabalhando.
Fechou os olhos ao lembrar-se da morte de seus pais, e em como tudo parecera quieto e calmo. O ar mais fraco, como se o vento não ousasse soprar e levar com ele o cheiro da morte.
Suspirando ruidosamente ela voltou para a sala, lembrando dos dias atarefados e do cansaço que a deixava a beira da exaustão. Lembrou-se das noites, amedrontada, sozinha naquela casa, temendo ter o mesmo fim de seus pais.
Ela sentiu que tremia ao reviver essas lembranças, que não eram mais tão vividas como no início.
Olhou em volta para a sala limpa e arrumada, e pensou em como tudo mudara tão rápido. Cada dia havia mais móveis, mais modernidade, mais novidade.
Ann teria sido tão feliz de ter um marido que lhe trouxesse visitas e presentes, como Rony fazia. Que cuidasse da decoração e quisesse ter tudo bonito para agradá-la. Sua mãe teria sido tão orgulhosa se Ann houvesse vivenciado essa vida!
Lamentando ter sobrevivido, ela sentou-se no sofá, mordendo o lábio, aflita.
Hoje à noite, Rony a procuraria na cama. Tinha certeza disso.
Teria de dizer não e recomeçar todas as discussões. Esse pensamento era angustiante.
Precisava encerrar essa intimidade toda. Estava indo longe demais! Não podia mais negar que apreciava sua companhia e apreciava estar em seus braços. Mas isso não queria dizer que se sentiria assim para sempre!
Quando estivessem afastados e o tempo varresse de sua lembrança as emoções e desejos, seriam apenas dois estranhos vivendo juntos, ou quem sabe dois amigos.
Então, quando ele se fosse, não sentiria sua falta.
Poderia ficar contente em ter sua independência de volta!
Esse pensamento a deixou nervosa, e Hermione levantou-se desejando não estar tão sozinha.
Era tolo, pois era momentâneo, uma coincidência terem saído e ela ficado, mesmo assim, a solidão agora a assustava.
Desconcertada, ela entrou no quarto de sua hóspede, conferindo que estava acordada. O bebê estava ao seu lado na cama, mas ela apenas a olhava, sem contato.
-Porque está tudo tão silencioso? –Lilá perguntou.
-Porque todos saíram – ela respondeu – Posso? – apontou o bebê e Lilá deu de ombros.
Hermione apanhou a menina, com uma sensação de carinho gigantesca. Era deliciosa a sensação de ter um bebê em seus braços! Tentou não pensar que poderia ter um bebê seu, e ter esse sentimento todos os dias de sua vida, mas recriminou-se.
Não poderia sofrer como sua mãe sofrera, recebendo um filho atrás do outro dentro de um caixão.
-Gosta da menina? – Lilá perguntou.
-Gosto de crianças – foi evasiva, notando que a recém nascida era atenta ao que se passava a sua volta, com seus olhinhos castanhos – Você não gosta?
-Gosto – respondeu – Gosto de crianças, só não gosto do que fazem com a nossa vida.
-O que quer dizer? – ninou a menina, olhando para a face tão bela de Lilá e tão vazia.
-Essa criança acabará sendo minha vida, e terei que fazer escolhas que não serão boas para mim em nome dela. E um dia, quando ela se for e se casar, e me esquecer, irei me arrepender.
-É uma mulher egoísta – Hermione acusou.
-Sim, é o que sou – concordou.
-Porque não arruma uma família que queira criá-la? – sugeriu Hermione.
-Acha que Rony a criaria? – havia esperança em seus olhos.
-Se você não fosse à mãe, eu poderia permitir – ela confessou.
-E quem está sendo egoísta agora?
-Talvez sejamos parecidas – Hermione retrucou um tanto amarga.
-Não a entendo – Lilá maneou a cabeça – Tem Rony, tem um lar, tem a atenção de todos, e parece infeliz!
-Sua filha está dormindo – ela mudou de assunto. – Vou colocá-la no berço.
-Rony foi à cidade? – Lilá também mudou o assunto, pois ambas estavam sozinhas e querendo companhia.
-Sim, fazer as compras de mantimentos – explicou.
-Será que ele trará um presente para mim? Afinal, acabei de ter uma filha! Agora, ele é pai.
Hermione sorriu, e havia humor.
-Talvez traga um presente sim – concordou, achando que Lilá não podia ser real!
E com certeza, Rony era capaz de lhe trazer um presente, e se isso acontecesse, seria obrigada a arrancar os olhos dele com as próprias unhas!
-Porque não foi com Rony a cidade? – Lilá perguntou desconfiada.
-Porque não quis – ela respondeu, saindo do quarto.
Péssima idéia achar que encontraria distração que não fosse briga com aquela mulher desumana!
Passaram-se mais uma hora e Hermione estava quase enlouquecendo quando ouviu o som da carroça e a movimentação dos empregados.
Aliviada por não estar mais sozinha, sentiu vontade de correr ao encontro de Rony, quando o avistou descendo da carroça e ajudando a retirar as compras. Ele lançou-lhe apenas um olhar a distância, enquanto continuava o trabalho.
Hermione cruzou fortemente os braços para conter o impulso de correr até ele e abraçá-lo. Estava ficando boba como Ginerva! Nunca antes tivera esses impulsos infantis!
-Harry, eu não tive a oportunidade de agradecer por ter me ajudado hoje cedo - ela sorriu para um envergonhado Harry quando os dois entraram na casa.
-Não se importe com isso Hermione – ele não parecia muito à vontade, depois das acusações de Gina.
-Por favor, não faça cerimônias! Ginerva é uma tola! Não acredito que qualquer outra pessoa adulta possa levar em consideração as besteiras que inventou! – ela olhou de relance para Rony, mas ele não reagiu à provocação, apenas estendeu um braço e a puxou para si. – O que está fazendo?! – protestou.
-Impedindo-a de dizer algo que me irrite – ele disse com um humor maravilhoso, antes de beijar seus lábios rapidamente, num selinho debochado.
-Trouxe minhas encomendas? - ela o afastou, envergonhada.
-Sim, é claro que trouxe. Estive no túmulo de seus pais e deixei flores também – notou seu sorriso nascer e ficou surpreso quando espontaneamente ela o beijou na bochecha.
-Obrigada, significa muito para mim – por trás da tristeza em relembrar os familiares mortos, havia a felicidade de estar se recuperando disso.
-Trouxe-lhe um presente também – ele fez ares de mistério.
-Saiba que sua amante também espera um presente seu – ela alfinetou.
-Bem, trouxe um presente para Lilá também - ele disse ainda sorrindo.
Harry notou o exato segundo que a expressão de Hermione mudou.
-É mesmo? – ela ficou gelada. – Tenho certeza que ela irá adorar seu presente.
-Não é meu presente, é nosso presente - ele esclareceu, estendendo a ela um pequeno embrulho – Acha que pode deixar uma criança inocente dentro de sua casa sem um pingo de atenção e carinho? – notando sua desconfiança ele insistiu – Vamos Hermione, seja superior.
-O que você comprou? – não queria ter nenhuma surpresa desagradável ao abrir o presente na frente de Lilá e dar-se de cara com um presente entre amantes.
-Apenas algumas fraudas – ele garantiu – Juanita pediu, pois Lilá não havia comprado nenhuma em seu enxoval - ele satirizou. – O que não é de se surpreender...
Com um profundo suspiro, olhando em seus olhos tentando encontrar resquícios de mentira, ela concordou.
-E o seu presente? Não o quer? - ele perguntou malicioso.
-Abrirei mais tarde – deu ares de indiferença, recebendo nas mãos o embrulho um pouco maior.
Rony concordou sabendo que era mentira. Hermione agüentou firme durante uma hora, ouvindo as novidades sobre a fazenda dos Wesleys e sobre a bronca que Gina recebera da mãe por seu comportamento.
Sentira pena ao pensar na ex-amiga sendo repreendida, pois Gina não aceitava ser corrigida. Nisso ambas eram muito parecidas!
Agüentou a curiosidade, até mesmo ajudou Juanita a preparar o jantar, esperou todos terem comido e a louça estar lavada, Juanita ter ido embora, e os dois homens estarem conversando na sala, para correr para o quarto.
O embrulho estava sobre a cama, e com mãos nervosas ela rasgou o papel.
Era tecnicamente o primeiro presente que Rony lhe dava. Os vestidos, e as roupas de baixo eram apenas coisas necessárias para sua apresentação como esposa e não via como um ato de carinho.
Ela abriu o papel e conteve a respiração.
Eram algumas roupas de criança. Camisetinhas, dois xales e um conjunto que era usado em batismos. Uma súbita emoção a fez tremer os dedos e por isso não ousou tocar nas peças.
-São para que treine o enxoval de Gina - ele explicou da porta, onde a observava.
Hermione parecia tão perturbada que sua coragem em contar havia se esvaído. Não estava pronta ainda para saber.
-É claro... Como pude esquecer? – ela falou consigo mesma tocando uma das peças.
Embaixo um embrulho menor chamou sua atenção e afastou um pouco a emoção e o susto. Por um segundo chegara a pensar que aquele enxoval fosse para ela e para... Um filho deles. Mas que idéia! Rony sabia muito bem que não teria filhos!
-O que é isso?
-Um mimo – ele sorriu quando ela abriu a caixa e retirou uma presilha dourada com pérolas e cristais.
-É lindo – ela acariciou a jóia sentindo o toque gelado do metal, e sentiu as bochechas coradas – Não espere nada em troca desse presente! – avisou mordaz e ele jogou a cabeça para trás, rindo.
-Espero apenas fazê-la sentir-se feliz - disse falsamente humilde.
-Mentiroso – ela reclamou, levantando-se e prendendo um dos lados dos cabelos longos, observando-se no espelho. Infelizmente, sempre que se olhava naquele espelho a única imagem que via eram os dois, fazendo amor, na noite passada...
-Harry passará a noite aqui e amanhã cedo irá para a fazenda de meu pai, buscar Gina para ir à cidade, eles precisam tratar dos documentos do casamento. Falar com o padre. Se estiver disposta, podemos ir todos juntos à tarde, e aproveita para sair um pouco.
-Sua mãe não pode acompanhá-los? – perguntou desconfiada.
-Iremos almoçar com o Sr.Simon, o juiz. Ele fez o convite e não pude recusar. Foi um pagamento muito bom que me deu em troca dos meus serviços e disse ter um negócio lucrativo para mim. Não posso ir sem minha esposa.
-Almoçar com a família de Susan? – ela quis rir histericamente. Então, quis gritar. Esbravejar e jogar aquela maldita presilha em sua cabeça, ou fazê-lo engoli-la!
Não era um presente, era uma armadilha. Queria empetecar a feia e sem graça roceira, para não se envergonhar em público! Magoada, retirou aquilo dos cabelos com nojo.
-Harry e Gina estarão lá conosco, não se esqueça.
-Porque precisamos ir?
-Por causa do dinheiro. Hermione, eu posso conseguir um preço ótimo pelas ovelhas, mas preciso investir para criá-las. Com o dinheiro extra, será possível.
-Porque precisa tanto de dinheiro? Não pode viver com o que tem? – ela acusou furiosa por ter que passar por essa humilhação.
-Porque preciso de dinheiro? – ele ficou ofendido – Estou ouvindo isso da mesma mulher que quase perdeu tudo pela falta de dinheiro? Hermione acha que desejo morrer um dia e saber que deixei uma filha sozinha e desamparada no mundo? Como fez seu pai? Não mesmo! – defendeu-se – Meu pai trabalhou duro a vida toda para garantir que nada nos faltasse, e dinheiro é sim um bem necessário. Não compra dignidade, mas garante que minha mulher não tenha que perder a sua. Ou que eu tenha que abrir mão da minha dignidade e dos meus filhos por causa de um prato de comida!
-Não quero ser olhada como se fosse um palhaço em um circo!
-E quem a olharia assim? - ele se aproximou.
-Não se faça de bobo. O juiz só tem interesse em seu trabalho para seduzi-lo com o dinheiro! Até o final do ano estarei na rua e você casado com Susan! – desabafou.
-Se fosse esse meu desejo, porque não partir com Lilá? Tem idéia de quanto essa mulher pode gerar de dinheiro com seu corpo? – havia amargura em sua voz.
-Sim, mas nesse caso não seria genro de um juiz e não teria prestígio e respeito frente a sua família – encheu a boca para falar, venenosa – Mas se é essa sua vontade, serei gentil e farei esse papel patético ao seu lado! Mas saiba que não ficará com minha fazenda! Quando for embora, irá pobre e pé rapado como chegou aqui! – elevou a voz, furiosa.
-Sua bruxa! - ele esbravejou com raiva de seu desprezo – Sequer se importa se vou embora! Só quer saber dessa maldita fazenda! Talvez eu a deixe sim, mas não será por causa de dinheiro ou fortuna! Será por não suportá-la!
-É um favor que me faz! - ela gritou de volta, jogando aquela maldita presilha no chão, do outro lado do quarto.
O som da peça batendo na parede e caindo ao chão os fez calar as vozes alteradas, e Rony olhou aquele objeto abandonado, sentindo como se fosse ele mesmo. Hermione o jogava fora.
A despeito do quanto quisera se enganar, não sentia nada por ele.
Era fato consumado. Hermione jamais o amaria.
Pretendia convencê-la a aceitar seu ponto de vista, mas ela carregava seu filho e não teria coragem de bater de frente com ela, tão nervosa e agitada.
A única coisa que poderia fazer para recuperar seu orgulho era sair.
Harry na sala ouvia os gritos, e ouviu quando a porta da cozinha bateu com força, anunciando que Rony saíra da casa de modo intempestivo.
Com receio, ele andou pelo corredor ouvindo o que se passava dentro do quarto. Ele não viu Hermione apanhar a jóia no chão, e segurá-la junto ao peito profundamente arrependida, ao notar que uma das pérolas soltara e jazia inútil no chão.
Mas ouviu seu choro quando ela enterrou o rosto no travesseiro extravasando aquela dor abominável que apertava seu coração e tirava seu ar...
Beta: Hormônios a flor da pele, mais o ciúme, dá nisso né, fazer o que?