CAPITULO 52 – ESPERE POR MIM
Hermione foi a primeira a acordar naquela manhã. Notou que era muito cedo e ainda estava escuro lá fora, por isso levantou-se e espiou pela fresta da janela, conferindo que era madrugada ainda.
Aproveitou para vestir a camisola e arrumar as roupas que ficaram sobre o chão quando ele se despira. Não sentia muito sono, pois vinha dormindo muito durante o dia. Pensativa, considerou que era hora de combater aquela terrível sonolência que se abatia sobre ela depois do almoço.
Olhando para Rony conteve um suspiro. Dormia profundamente, na mesma posição em que ela também estivera até acordar. Estava de lado, precariamente coberto pelo lençol e roncava.
Rony sempre roncava, mas não era um som que a desagradasse ou impedisse de conciliar o sono. Era um som agradável, pois a fazia sentir-se acompanhada.
Parte de Hermione lembrou-se de Lilá no quarto ao lado, e decidiu que uma pequena vingança poderia afugentar seu mau humor, e com certeza, garantiria alguma sensação de alívio, depois de todo o ódio que sentia!
Sorrateira, saiu do quarto. Descalça, tomou cuidado para não ser ouvida, e na cozinha encheu uma jarra de água fria. Sorrindo, ela andou de volta, o mais silenciosa possível. Parou em frente ao antigo quarto que usava, o mesmo que Lilá Brown usava para dormir.
Conhecia as madeiras velhas daquela casa, e ainda ouvia os gritos de reclamações de sua mãe sempre que lavavam o chão e a velha porta inchava e emperrava. Hermione derramou água sobre o batente da porta e na própria madeira da porta, garantindo que a porta estaria bem fechada.
Em poucas horas, quando o mormaço da manhã chegasse, aquelas madeiras velhas seriam responsáveis por agradáveis horas de clausura para sua hóspede.
Sorrindo consigo mesma deixou a jarra na cozinha e voltou ao quarto. Rony continuava adormecido, e se mexeu na cama, roncando mais alto e falando palavras soltas. Hermione mordeu o lábio, se aproximando e sentando-se na beira da cama para observá-lo dormir.
Sob seu olhar guloso algo se passava sob o lençol branco. Um volume inconfundível que a fez estreitar os olhos e estranhar. Gostaria de acordá-lo e perguntar se isso era normal, visto que dormia tão calmamente.
Mas obviamente, não faria isso.
Com as mãos aflitas, tentada a tirar a camisola e se acomodar novamente ao seu lado, ela olhou para o outro lado.
E foi assim que Rony a viu, tão logo abriu os olhos. Olhando para longe, as mãos apertadas, pousadas sobre as pernas, como sempre tensas.
Ao menos não fugira.
Já era um alívio.
Com olhos deliciados pela imagem de sua Hermione docilmente esperando que acordasse, apoiou um dos braços atrás da cabeça enquanto a outra mão se apoiou sobre o peito, e esperou pela sua paciência se esgotar e decidir acordá-lo!
Não precisou esperar muito, ela logo se cansou e olhou para ele, acusadora.
Será que até mesmo dormindo de boca fechada e inofensivo era capaz de despertar fúria em Hermione? Era um pensamento divertido.
-Bom dia Hermione - ele disse sorrindo, muito provocador.
-Bom dia – ela disse engolindo um palavrão.
Era sua parte, ser cordata e gentil. E assim o faria.
-Quero meu beijo de bom dia – ele avisou e ela olhou discretamente para aquele relevo em seu lençol e Rony também olhou para baixo – Não se importe com isso, é fisiológico – ele explicou notando seu rubor. – Dormir ao lado de uma mulher desejável e perfumada faz isso a um homem.
-Acontece que essa mulher desejável e perfumada, cumpriu sua obrigação ontem à noite e só voltará a fazê-lo hoje à noite. – avisou levantando-se e contendo um sorriso diante do efeito de sua ironia.
-Me de meu beijo antes que fique azeda demais – ele mandou, relevando sua maucriação.
-O dia está amanhecendo, levante-se e se vista. Deve dar o exemplo para seus empregados - ela disse esperando que entendesse que não se aproximaria enquanto não estivesse vestido.
-Separe minhas roupas - ele notou seu olhar surpreso e explicou – O que foi? Minha mãe sempre ajudou meu pai a se vestir!
-Por acaso pareço com sua mãe? - ela ridicularizou.
-Graças a Deus não, ou me sentiria um depravado – ele riu de bom humor – Desista Hermione, nada poderá estragar meu humor. Depois da noite de ontem serei eternamente bem humorado!
Seu humor esfuziante não a contagiou, e quando ele se ergueu nu em pêlo e andou até ela, Hermione virou-se de costas separando rapidamente as roupas que vestiria.
Rony abriu mão da provocação e abraçou-a por trás. A despeito da tensão ela não o repudiou.
-Não brigue comigo tão cedo Hermione. Não hoje que te quero arrumada e gentil ao meu lado.
-Para que? – desconfiou de suas atitudes.
-Para me sentir apoiado, ou acha que não me incomoda ter uma mulher dentro da minha casa exigindo que assuma seu filho bastardo? Ela dorme sobre nosso teto, come nossa comida e tudo em que posso pensar é no problema que pode me trazer. Na capital todos sabem que Lilá é cortesã. Mas aqui...
-Acha que poderá ter problemas judiciais por causa dela? – ficou surpresa.
-Espero que não – apertou-a em seus braços, mantendo seus braços imóveis, quem sabe para se garantir contra um tapa ou empurrão – é ainda mais perfumada pela manhã... – ele elogiou beijando sua nuca. – Meu beijo Hermione, quero meu beijo.
Era uma criança mimada, ela pensou. Sem alternativas, ou ao menos, mentindo isso para si mesma, virou-se em seus braços e o beijou. Fizera isso na noite passada, mas agora tinha um significado diferente.
Não tinha a noite como desculpa ou suas exigências maliciosas. Deveria ser um beijo rápido e desprovido de sentimentos.
Mas não foi.
Como na noite anterior, provocou para ser correspondida, exigindo dele o mesmo que Rony exigia dela! A única diferença é que não admitia isso!
Diante da paixão de seu marido, estava quase inclinada sobre a penteadeira, quando lembrou-se da razão para estar beijando-o!
Empurrou-o e saiu do aperto de seus braços.
-Esperei que acordasse, lhe dei bom dia e um beijo. Posso ir agora?
Medindo sua decisão, ele concordou.
Nada, pensou enquanto a observava se vestir, nada nesse mundo poderia minar seu bom humor!
-Esteja pronta para um passeio quando eu voltar - ele disse roubando-lhe um beijo rápido antes de sair do quarto e se apressar para o trabalho.
Ouviu sua voz conversando com Harry na cozinha e o chamando para desjejuar com ele e os agregados no refeitório, e ao ouvir o silêncio reinar saiu atrás de Juanita e o café da manhã.
-Acho que estou doente - ela disse para Juanita ao terminar de comer uma fatia de pão e apanhar outra.
-Porque diz isso?
-Nunca senti tanta fome em toda minha vida!
-E isso é um problema? – Juanita estreitou os olhos, curiosidade aliada a reconhecimento.
-Nunca tive muito apetite. Não sei por que isso agora!
-Deve ser por causa da sua recuperação - Juanita se apressou a dizer – Passou por um mês difícil e seu corpo está repondo as forças... – Juanita colocou um copo de leite adoçado em sua frente e praticamente empurrou em direção a sua boca para que bebesse.
Hermione terminou o café e sentiu-se pesada por ter comido tanto, tanto que quando Gina surgiu na cozinha alegre e sorridente, provavelmente por muito sonhos doces que tivera com Harry, ela saiu apressada da cozinha.
Precisou de vários minutos na sala para conter o forte enjôo que se apoderou dela. Quando se recuperou um pouco notou que Juanita estava de pé olhando para ela, enquanto enxugava as mãos num pano de prato.
Hermione esperava que Gina desistisse, olhando tudo com um olhar complacente. A cunhada tentava há alguns minutos fazer a porta ceder. Juanita estava ao seu lado, mas apenas assistia assim como Hermione.
-Já disse, quando essa porta emperra não a nada que se possa fazer a não ser esperar – Hermione disse sorrindo gentil.
Lá dentro, o choro de Lilá aumentou, assim como o sorriso de Hermione.
-Hermione! Não podemos deixar uma mulher grávida presa nesse quarto! – Gina argumentou.
-Porque não? Se ela tiver um mal estar pode nos avisar não pode? Aí sim, derrubaremos a porta. – Hermione sugeriu – Sabe quanto custa substituir uma porta? Teríamos que encurtar a estadia de Harry nessa casa, pois não teremos com o que alimentar tantas bocas!
Quase imediatamente Gina desistiu. Corada por ser tola a ponto de se preocupar com a visita, mas decidida a ponto de não querer se prejudicar pela mesma, ela desistiu.
-Srta. Brown! Ouça-me com atenção – Gina falou mais alto para ser ouvida – Em poucas horas a madeira deve ceder e a porta abrirá.
-Oh, não me abandone aqui dentro!
-Estamos aqui Srta.Brown não está abandonada! Levarei seu café da manhã... Pela janela – Gina pareceu incerta.
-Se eu não estivesse tão gorda pularia essa maldita janela!
O esbravejo de Lilá fez Hermione ocultar um riso satisfeito.
-Seu irmão não pensará em você se souber do mal que aflige essa aí – Hermione avisou, com ares de descaso e foi para a cozinha.
Juanita a seguiu e disse apresada:
-Ficarei de olho nessa daí. Mas se aceita um conselho Hermione, tire seu marido da casa por um tempo. Será uma lição para essa outra!
-Não é minha intenção... – ela tentou explicar, pois aparentemente Juanita sabia o que fizera.
-É claro que é sua intenção! – Juanita afirmou – É preciso que mostre quem é a dona da casa! Sobretudo, quem manda de verdade, pois às vezes um marido pode tomar as dores da casa, mas uma esposa pode e deve controlar o que se passa em seu lar na ausência dele! O que os olhos não vêm, o coração não sente! É preciso que mostre a ela que tem suas armas!
-E porque eu faria isso? – tentou soar desinteressada.
-Porque é em sua mão que há uma aliança. Foi a sua fazenda que o fez melhorar de vida e são seus esforços para conduzir a casa com perfeição que o faz um homem saudável e bem cuidado! E ela? Vai apenas se refestelar no que lhe pertence? Lute pelo que é seu!
-Não sei do que está falando Juanita – jamais admitiria que era exatamente isso que estava fazendo – Terei que fazer o que Rony manda. Fizemos... Um acordo. Por enquanto terei que obedecê-lo.
-Um acordo? – os olhos de Juanita brilharam de curiosidade.
-Não deveria estar preparando o almoço? - ela cobrou, apenas para desviar o assunto.
Juanita detestava ser cobrada e com alguns resmungos começou a mexer em suas panelas com olhares ressentidos que Hermione preferiu ignorar.
.........................................................
Com jeitinho, Gina conseguiu calar as reclamações de Lilá e seu choro, e conseguiu fazer isso antes que Rony voltasse com Harry da plantação. Harry tinha a camisa dobrada nos antebraços e alguns botões abertos.
Estava suado e as calças sujas.
-Meu irmão, teve coragem de levar Harry para arar terra? – perguntou horrorizada.
-É claro que não, ou me ariscaria a perder o plantio - caçoou.
-Rony me mostrou como acontece a preparação da terra e não resisti. Me ofereci para ajudar – ele esclareceu, sorrindo de orelha a orelha – é uma boa vida essa de fazendeiro – completou.
-De certo, uma vida tola para um homem com seu poder e estilo de vida – Hermione se fez notar, desafiando-o a falar o contrário.
-Reconheço estar me questionando à razão da energia elétrica ainda não estar disponível por esses lados, visto que na cidade está disponível. – ele disse diplomata.
-E essa é a única coisa que o incomoda na vida do campo? – havia simpatia na voz de Hermione deixando Rony mudo, apenas olhando de um para o outro com uma expressão azeda.
-Confesso, precisaria de um grande estimulo para me mudar para o interior - ele olhou de Hermione para Gina, e a jovem corou ao ser alvo de seu olhar.
-Tenho certeza que a vida em Londres deve ser adorável – Gina apressou-se a dizer, desesperada com a idéia de ele acreditar que parte de casar-se seria ter que desistir de sua vida em Londres!
Harry sorriu agradecido e apressou-se a se desculpar e pedir licença para trocar-se.
-Está graciosa – Rony elogiou ao notar que ela vestira o vestido lilás que era seu preferido. Realçava sua pele e seus olhos castanhos e com os cabelos soltos, apenas uma presilha prendendo duas mechas atrás ficava ainda mais encantadora.
-Obrigada – ela aceitou o elogio, os olhos brilhando intensamente de indignação pelo papelão de ser dócil com ele.
-Gostaria de tomar um refresco antes de nosso passeio? – ele perguntou e ela afastou os olhos um pouco culpada.
-Hermione acabou de devorar metade do meu pão – Juanita disse animada com essa novidade e seu olhar malicioso parecia querer alertá-lo de algo, mas ela não disse mais nada e ele não insistiu.
Detestaria que Hermione percebesse não haver a menor pretensão de demitir aquela mulher. Às vezes, na hora da raiva pensava nisso, mas era apenas conseqüência de seu sangue quente.
-Espero que tenha guardado um espaçinho em seu estômago Hermione, pois está prestes a devorar a melhor comida que já experimentou em sua vida – ele tocou sobre seu estômago num suave afago e ela reteve o ar, sem entender por que.
Cobriu a mão de Rony com a sua, e afastou gentilmente com a desculpa de apanhar um lenço para os cabelos.
-Deixe-os soltos – ele pediu.
Juanita notou algo estranho, pois ela não o questionava, argumentava ou se rebelava. Aceitava placidamente suas ordens.
Em outra jovem, suporia terem finalmente entrado em uma trégua, mas ao notar a forma desafiadora como ela olhava para o marido, soube que era algo entre eles, algo que não deveria tentar entender.
Assim como não devia comentar ainda sobre suas suspeitas.
Juanita esperou que ambos saíssem e estivessem longe para ir até em casa procurar suas agulhas de tricô. Queria ter certeza se ainda às tinha ou se precisariam comprar novas, afinal, o inverno por aqueles lados era rigoroso, e se estivesse certa precisaria urgentemente de um enxoval...
..........................................................
-Não perguntará onde estamos indo? – ele questionou conduzindo o cavalo lentamente.
-É claro que está me levando a casa dos seus pais – ela disse placidamente.
-Achei que não houvesse percebido – ele respondeu surpreso.
-Só porque mudou o caminho e pegou um desvio para me confundir?
Rony poderia ter corado se não houvesse feito de propósito.
-Esqueci que sempre sabe tudo – ele retrucou e ela suspirou – Porque não está reclamando? Sei que não gosta da minha família.
-Se engana. – ela disse, tendo que admitir que estava se acostumando rapidamente a obedecê-lo... – Sempre adorei a Sra.Wesley. E simpatizava com seu pai e seus irmãos. Isso até... Descobrir que não eram quem pensava que eram.
-Está enganada Hermione, sei que aconteceu alguma coisa, meu pai não me contou, mas sei que tem mais nessa história do que sabemos.
-É sua família, isso não deve incomodá-lo.
Essa frase o incomodou muito.
-Sei que gostará do almoço que minha mãe preparou – ele quis mudar de assunto.
-Não tenho escolha. – ela disse olhando para frente sem encará-lo – Gostando ou não, não tenho escolha.
Novamente Rony sentiu aquela sensação ruim. Odiava a idéia de ver Hermione oprimida. Queria que fosse livre e feliz. Mas livre e feliz ao seu lado. Por isso não poderia abrir mão de sua companhia, e as noites eram muito solitárias sem o seu corpo ao seu lado!
Egoísta, se calou.
Ao avistar a fazenda de seus pais, ele soltou um profundo suspiro de contentamento e quando olhou para baixo, deu-se de cara com os profundos olhos de Hermione sobre ele. Talvez tentando entender o que se passava em sua mente.
-Não tem idéia de como senti falta de todos eles – ele explicou antes de apear. – Venha.
Dessa vez ela saltou do cavalo antes que Rony pudesse apanhá-la pela cintura. Ele ficou entre irritado e deliciado com seu jeito. Tentava ser dócil, mas era difícil para alguém como ela!
-Porque não trouxe Gina e Harry? – ela perguntou enquanto ele entregava o cavalo a um empregado.
-Porque é um almoço só para nós quatro - ele explicou – Não quero meu irmãos fuxicando logo na primeira vez em que vem visitar meus pais.
-Tem medo que ouça a verdadeira opinião deles a meu respeito? Nada poderá ser pior do que as coisas que Gina já me disse. – ela disse segura, mas havia algo em seu olhar, algo frágil que o fez sorrir e tomar seu rosto em suas mãos dizendo muito perto:
-Tenho muito mais medo das coisas que você poderia dizer sobre mim. Afinal, sua opinião a meu respeito ainda me causa arrepios!
-Não lhes diria mais do que a verdade – sua falsa doçura arrancou o riso fácil de Rony.
-Minha doce Hermione, não me envergonhe na frente dos meus pais. – pediu humilde, apanhando suas mãos e beijando-as sem afastar os olhos dos seus – Prometo-lhe consentir um desejo se for boazinha comigo – notando o brilho esperto em seus olhos apressou-se a esclarecer – um desejo cabível!
-Me deixe em paz e estarei satisfeita – ela rebateu.
-Pois que assim seja. Te deixarei em paz... Hoje à noite, depois que for minha e estiver sonolenta demais para brigar comigo! – seu comentário foi sussurrado, e ela lamentou a sensação de calor que a dominava e também lamentou a oportunidade perdida.
Poderia ter lhe cobrado alguma regalia. Esse pensamento a chocou. Desde quando pensava nisso? Desde quando precisava de um marido para lhe dar bobagens e futilidades? E por Deus, desde quando as queria?
Desde que lembrara o que era vaidade, pensou, e saber a resposta também a chocava. Queria estar bonita e, queria estar bonita para ele.
-O que foi? – ele perguntou ao notar que ela fechava os olhos, uma expressão indecifrável.
-Nada – afastou-se ao ouvir som de vozes e passos.
-Vamos entrar - ele disse animado, colocando sua mão sobre seu braço e a conduzindo em direção a casa.
Sentindo-se ofendida por ser obrigada a suportar tal humilhação ela pensou na mãe. Sua desgostosa mãe, chorando pela dor de seu pai ao ser abandonado pelo melhor amigo e também pelo dinheiro que naqueles momentos tanta falta lhes faziam! Lembrou-se de sua mãe e lembrou-se também que a família Wesley não lhes fizera mal algum. Apenas negaram-se a estender uma mão em socorro de seus visinhos.
Não era um crime, mas era uma vergonha.
E Hermione jamais esqueceria isso.
.......................................................
Sentada na sala de estar dos Wesleys ela conteve a incrível vontade de rir. Pai e filho conversavam sobre o gado e a colheita da próxima estação, enquanto Molly falava sem parar sobre casamento.
Sentada, com as mãos pousadas sobre as pernas, ela pensou em como seria caso levantasse daquele sofá, atravessasse a sala e agarrasse Rony pelos cabelos, batendo-lhe a cabeça contra a parede até ver o sangue escorrer e estar finalmente livre dele.
Era um pensamento odioso.
-Querida, tenho certeza que irá se deliciar com o almoço que preparei! – Molly garantiu, querendo agradar sua nora que não dera um único sorriso desde que chegara.
-Tenho certeza que sim – ela respondeu educada.
Rony afastou o olhar de seu pai ao ver o desespero de sua mãe. Era o inferno agradar Hermione quando ela estava contrariada. Por alguma razão guardava consigo todas as mágoas do mundo.
-Deixe-a mãe. Hermione está aborrecida novamente - ele disse sorrindo e viu sua mãe relaxar um pouco.
-Aborrecida? Não diga que Rony está sendo um mau marido! - ela aproveitou para puxar assunto.
-Não, seu filho é o melhor homem do mundo – Hermione respondeu sorrindo.
Sua expressão era tão falsa que Molly desistiu. Com uma desculpa qualquer arrastou Hermione para a cozinha com a desculpa de ver se o guisado estava pronto. Sozinho com Arthur, Rony desfez o sorriso.
-Hermione sempre foi uma jovem difícil e geniosa – Artur relevou.
-Ela é doce quando quer – ele confessou – o problema é que nunca quer! Hermione sente necessidade de afastar todas as pessoas, eu sou seu principal alvo! – maneou a cabeça.
-É uma menina que perdeu muita coisa Rony, que ainda não entende esse mundo como ele é. De tempo ao tempo e ela se adaptará a vida que tem. – ele aconselhou e Rony sorriu com escárnio.
-Está enganado, Hermione conhece o mundo muito melhor que nós dois juntos, e é exatamente por isso que age assim – ele defendeu-a, sorrindo triste – se ao menos falasse do assunto, talvez fosse mais fácil.
-E porque não a ajuda a desabafar? – Artur perguntou.
-Porque Hermione simplesmente me odeia – ele respondeu, baixando os olhos envergonhado e com aquela sensação horrível ao admitir essa verdade que cortava seu coração.
Olhando o semblante derrotado do filho, Arthur colocou uma das mãos em seu ombro atraindo sua atenção e sorrindo:
-Não esqueça filho, o ódio é a outra face do amor.
A chegada súbita de Molly avisando que o almoço estava servido os obrigou a mudar de assunto, mas essa constatação ficou na cabeça de Rony, fazendo-o pensar em Hermione sobre outro ângulo.
Molly possuía uma jovem, possivelmente descendente de índios que servia a mesa, e Hermione sorriu para ela, pensando que até pouco tempo atrás Juanita trabalhava ali.
-Essa é Aporah, está me ajudando por uns tempos. O marido está doente, por isso não podem seguir viagem. São de Nova York. Vão atravessar o mundo esses dois! – Molly contou ao notar seu interesse – Ela está esperando um menino, e apesar de terem posses em Nova York, aqui estariam na miséria. Arthur ficou em dúvida sobre ter estranhos em casa, mas, não pude deixá-los na rua!
-Claro, como poderia fazer isso? – Hermione ironizou, disfarçando o fato enquanto bebia um gole de água.
Rony desejou achar um meio de calá-la. Mas achou que não tinha esse direito. Correra esse risco ao impor-lhe uma visita nunca desejada. Conhecia seus rancores.
-Diga-nos Hermione, como tem se comportado Gina – Arthur pediu, mudando drasticamente o assunto.
-Ela tem uma personalidade difícil – ela resumiu e Arthur sorriu.
-Sempre foi impressionante que pudessem ser amigas, pois não é muito melhor que Gina.
-Não somos mais amigas.
Ela disse olhando em seus olhos e cobrando-lhe com esse olhar o peso da humilhação daquela tarde, onde cansada, suada e tentando a todo custo alimentar o gado praticamente sozinha, tão poucos dias após a morte do irmão, ainda de luto, Arthur surgira em seu cavalo apenas para pedir-lhe que deixasse sua filha em paz agora que era uma perdida.
Não usara essas palavras, e nem fora preciso.
-Agora são cunhadas – Molly interferiu – mais que amigas, são irmãs agora.
-Sim – ela respondeu sem conseguir digerir tanta hipocrisia.
-Talvez fosse melhor meu pai, que nos contasse porque negou auxílio ao seu amigo. Hermione acha que assim o fez – Rony resolveu acabar logo com aquilo.
Arthur não respondeu, mas a troca de olhares entre ele e a esposa disse mais que mil palavras. Ele bebeu um longo gole de vinho e fitou Hermione profundamente.
-Contei a seu pai minhas razões e ele me mandou embora. Fiz o melhor que pude diante da situação. Não vou me justificar Hermione. É capaz de entender que há muitas coisas na vida que devem ficar enterradas. Sinto falta de meu amigo, mas sei que ele nos abandou muito antes de sua morte e sua mãe... Precisava achar um culpado.
-Ele queria apenas uma visita sua – ela disse de queixo erguido, a lembrança doendo dentro de si.
-E só eu sei como desejei vê-lo nos meses antes de sua morte. Mas não foi possível. Ele tomou suas decisões, não concordei com elas. Tenho uma família, sete filhos, sendo um deles uma jovem muito nova e a quem preciso zelar pelo futuro. Não posso faltar. Não posso partir por causa dos erros dos outros. É uma jovem inteligente Hermione, e sabe julgar as pessoas.
-As pessoas são o que suas atitudes refletem – ela afirmou – o que importa as razões frente às ações? – havia intolerância em sua voz.
-Uma interferência minha teria mudado alguma coisa?
-Nunca vamos saber – ela respondeu automaticamente.
-Acredita quando digo que tive uma forte razão para ter feito o que fiz?
-Não – ela foi sincera.
-Meu Rony obrigou-a a vir? – Molly interrompeu e notou o filho ficar envergonhado.
-Sim – ela não mentiria mais.
-Oh, isso é terrível. Os homens dessa família têm esse horrível costume de serem mandões. – ela sorriu, mudando totalmente o assunto – não o deixe mandar em você.
-Molly... – Arthur interrompeu, não gostando daquele rumo.
-Precisa saber que os homens dessa família são facilmente dobrados com vinho e um pouco de atenção – ela revelou.
Hermione não conteve um pequeno sorriso verdadeiro diante dessa verdade.
-Hermione, agora é nossa filha também. Não podemos mudar o passado, mas podemos recomeçar o futuro. – Molly segurou sua mão, os olhos turvos – Não deixe que uma tragédia estrague esse laço entre nossas famílias.
Hermione não pensava desse modo, mas acabou concordando com a cabeça apenas para não causar maior desconforto.
-Sinto muito minha filha, por não ter as respostas que esperava – Arthur desculpou-se e olhando naqueles olhos azuis, tão iguais aos de Rony, soube que falava a verdade.
Havia sim uma verdade escondida, mas esse homem íntegro não podia contar. Todos têm uma razão, e se pensasse em sua vida notaria estar errada, e as razões raras vezes, poderiam ser mais importantes do que as ações.
-Sinto estar sendo tão desagradável – ela também se desculpou e Rony, calado ao seu lado achou que explodiria de tanto orgulho.
-Pois não sinta! – Molly afastou as lágrimas ao entender que estava tudo superado. Ao menos por enquanto – Nos conte de Harry Potter. Rony garante ser o homem ideal para Gina!
O assunto mudou e também mudou a expressão de Rony enquanto ouvia Hermione falar mais animada e fluente. Seus olhos brilhavam ao contar de Harry. Estava desprovida de barreiras ou indiferença.
Apesar do apetite inicial, ele sentiu a fome o abandonar enquanto Hermione devorava sem notar o almoço.
-Harry é um cavalheiro – ela disse por fim ao assegurar Molly que não haveria nenhum risco de Harry abusar de sua filhinha. Olhou para Rony com um sorriso meigo que não o enganou. Havia vingança em seus olhos. – Tem se portado maravilhosamente bem, apesar do desagradável fato de dividir nossa hospitalidade com uma cortesã.
Rony empalideceu ao seu lado, jamais supondo que ela teria coragem de contar.
-Uma cortesã? – Molly ficou um pouco chocada.
-Sim, a amante de seu filho. A mesma que está prestes a dar a luz a um filho seu. E que ele hospedou em minha casa – havia ainda muita calma em sua voz.
Como um assassino ao dar uma facada pelas costas.
-Ronald Wesley!
O grito de Molly o fez manter a língua dentro da boca enquanto ouvia seu sermão.
Enquanto tentava se explicar ela comia calmamente a sobremesa, olhando para ele satisfeitíssima.
AUTORA: pobre, Rony, levando sermão da mãe! Só Hermione para fazer uma maldade dessas!
Seguinte, são 7 noites, mas eles vivem o dia também, então serão capítulos interligados.
Minhas férias serão do dia 26/12/09 à 02/01/10. Como não sou cruel e tenho alguns capítulos prontos, vou postar de 2 em 2 dias. Ok? Tem atulização dia 25 normalmente e será um NC (oba!).
AH!!!!!!!!!!!!Já estou no cap 52. Como isso aconteceu? Deveria ter tido no máximo uns 30 cap! Essa fic nao para nunca! Heheheheheheheh....
Beijos e Feliz Natal antecipado (para quem nao vir aqui amanhã, claro)
BETA: A gente fala do Rony mas a Mione também é cruel.
E meninas, obrigada pelas palavras doces e suaves, RS, estou adiantando o que posso, estou meio atolada, se a Marja entrar de férias vai me dar um tempinho pra adiantar as coisas, então relaxem e curtam, pois vêem muito mais por ai!!!