CAPITULO 15 - AFEIÇÃO
-Hermione ficou no quarto o dia todo – Juanita disse aflita – Ela não queria conversa. Eu não percebi que saiu.
Rony apanhou a arma e colocou no coldre, vestindo as botas e apanhando o chapéu antes de sair, ignorando a pobre Juanita que desconsolada carregava um de seus filhos, este chorando em seu colo e exigindo sua atenção.
Não podia deixar aquela louca um minuto sozinha, pensou furioso! Aquela mulher era uma cruz em suas costas, pensou revoltado, montando no cavalo e dirigindo-se para o maldito lago.
Alguns peões lhe contaram que ela passava muito tempo lá, e eles viram que ela estava sentada perto do riacho, pensando. Pois bem, ele a encontraria e a traria arrastada pelos cabelos se fosse necessário!
A decisão o fez ter pressa e estava longe em poucos minutos.
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Hermione virou uma página lendo sem realmente ler. Era um dos livros de seu pai, um em francês. Ela lia sempre que tinha tempo, o que não acontecia muito nos últimos anos, e seu francês estava enferrujado, por isso estava sendo lento o processo de entendimento.
Ler sempre a acalmava e desviava sua mente de qualquer pensamento angustiante.
Ela olhou para o rio, notando que a tarde havia caído e a noite se erguia no céu manchando as nuvens com um azul escuro, quase negro. Esperaria mais um pouco para voltar, não se sentia pronta para vê-lo ou ouvir as desculpas que lhe daria.
Ronald Wesley era um homem polido quando lhe interessava e com toda a certeza saberia enganá-la com suas falsas justificativas.
Infelizmente Hermione sentia-se desesperada demais para lutar o tempo todo. Se olhasse para trás quase não podia lembrar-se de toda a privação e trabalho árduo. Esses poucos dias de trégua eram uma bênção para seu corpo cansado, mas não conseguia desfrutar.
Parecia tão errado. Seu alívio em troca da vida das pessoas que amava. Era tão vil, mesmo que a escolha não houvesse sido sua!
Manteve os olhos fechados por um instante, lembrando do som suave da voz de sua mãe, na porta da casa, chamando-a para comer. Ela o fazia todos os dias, com um olhar condoído de dó ao ver a filha trabalhando como um dos homens.
Ela nunca dizia nada, apenas limpava as mãos no avental e a conduzia para dentro de casa com uma mão sobre o ombro, dando a filha o pouco de conforto que tinha para lhe dar.
Sua mãe de olhar tristonho e expressão apagada que apenas se iluminava ao ver Ann e ao fazer planos de seu futuro tão mais feliz que o dela. Ela havia notado que desde a morte de seu irmão, sua mãe deixara de falar do futuro de sua filha Hermione, para falar apenas de Ann. Em sua mente, a consciência de uma mãe que não poderia mudar o triste destino de sua filha.
E esse era um dos punhais que a matavam dia a dia.
Ela ouviu o som ao longe do cavalo, mas não olhou para trás, continuou sentada na margem do rio, lendo calmamente. Quantas e quantas vezes, naqueles últimos dois meses, não se pegara pensando em como seria bom entrar naquelas águas e deixar a vida para trás?
Dezenas de vezes, mas lhe faltava coragem.
Rony parou a poucos metros, olhando para a imagem tão integrada a paisagem. Hermione usava um de seus vestidos antigos, com as bainhas carcomidas pelo uso. Era acinzentado e contribuía para lhe dar um aspecto triste. Os cabelos estavam soltos, apenas uma velha fivela prendendo mexas atrás, mexas encaracoladas que caiam numa cascata macia por suas costas. Estava sentada na grama sobre um pedaço de pano e tinha um livro aberto sobre as mãos, os olhos pousados nas páginas, embora tivesse certeza que não lesse uma palavra sequer escrita.
Tinha o olhar distante e perdido, e quando olhou para o lago pensou no que ela seria capaz para se livrar daquela vida que não a agradava. Engolindo em seco apeou e deixou o cavalo amarrado em uma árvore, então se aproximou.
Tudo o que não desejava era assustá-la, por isso andou o mais ruidosamente possível. Perto, ela ergueu o rosto em sua direção voltando à atenção ao livro.
-Está tarde para ler – ele disse sério.
Hermione não respondeu, achando que ele não merecia que se desse a esse trabalho.
-Quando sair avise Juanita - ele mandou, ficando mais próximo – Quero saber por onde anda.
-Por quê? - foi impossível não perguntar.
-Porque se você sumir perco meu investimento. - Não eram as palavras que a conquistariam, pensou. - e também porque não quero viver minha vida na insegurança.
-Não finja se importar comigo – ela disse em tom suave, mas por dentro estava mordida. Raiva pela audácia de tocá-la, raiva pela audácia de achar que podia lhe dizer esse tipo de coisa!
-Vamos passar os próximos anos de nossas vidas desse modo? Como inimigos? É isso que você quer?
Era uma pergunta e tanto. Fechando o livro, Hermione levantou-se arrumando a saia do vestido e apanhando o lenço que há muito tempo deixara de ser vistoso, era desbotado e gasto.
-Quanto a essa manhã... – ele tentou falar quando notou que não haveria resposta.
-Aguardo que coloque a tranca – ela disse friamente – quanto a minha arma, não se preocupe, tenho outra.
Era educada, e mortal.
Rony sentiu o impulso de sorrir. É claro que teria outra! Hermione, essa fera em forma de mulher, deveria ter um estoque de armas.
-Não há razão para usá-la, o que se passou essa manhã não se repetirá a menos que guarde essa arma fora do alcance de qualquer um que não tenha consciência do que faz. – ele avisou – ontem a noite estava com ela nas mãos, e não estava acordada. E mesmo que fosse manhã, poderia ser uma das crianças de Juanita. Pense no que aconteceria se cometesse um desatino desses.
Ela baixou os olhos por um instante, mas não esmoreceu.
-Juanita acha que dormirmos no mesmo quarto. Nenhuma de suas crianças entrará no quarto – ela disse espertamente e ele sorriu.
-O que está lendo? - mudou o assunto antes que virasse uma briga interminável.
Ela olhou dele para o livro. Havia ironia em seu olhar, descaso ao nada responder. Irritado, ele puxou o livro de suas mãos e ela deu um passo para trás, provando que não acreditava em suas promessas de não tentar nada novamente.
-Lê em francês? – perguntou surpreso.
-Meu pai me ensinou – disse seca.
Ele sorriu a uma lembrança distante, devolvendo-lhe o livro.
-Nunca tive paciência para francês. Aprendi muito, mas idiomas, não são meu forte – havia um traço de diversão em sua voz – ser o único caipira e ainda afrontar seu professores de francês não fazem de um garoto o mais aceito de uma escola - ele disse sorrindo a essa lembrança perdida.
Hermione não sorriu. Era exatamente isso que ele pensava dela, uma caipira. Toda sua família, inclusive os Wesleys eram caipiras.
-Você nunca sorri? – ele perguntou decidido a por uma trégua entre eles.
Ela não respondeu. Não tinha como responder sem entregar tudo que lhe ia ao coração. É claro que sorria. Quando a família vivia e ela olhava para sua irmãzinha, esses sim eram os mais belos sorrisos de sua vida. Quando o irmão a ensinava a andar a cavalo, ela ria contra o vento que despenteava seus cabelos. E ria muito, quando sentava ao lado de seu pai na cama, e lia para ele, rindo de suas correções em seu francês imperfeito. Ela muitas vezes fingia errar apenas para que ele se sentisse útil e a corrigisse.
Mesmo sem responder, isso estava em sua face de uma forma tão brutal que ela se afastou andando para a casa. Rony não tentou pará-la ou oferecer-lhe o cavalo para que não andasse tanto.
Por um segundo havia tanta dor em sua face que ele teve vergonha de cobrar-lhe o que quer que fosse.
NOTA DA AUTORA:
estou tentando sempre postar de forma a ficar disponivel durante todo o dia, e nao apenas a noite, como acontecia antes. esse cap é referente ao dia 16/11. O proximo vem dia 18. Não estou me segurando, e estou postando mais que devia! Desse jeito vou matar de susto a minha beta, que contava com um tempinho a mais para betar, hehehehe!!!!
Bjs