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9. SEM FORÇAS


Fic: O Acordo Perfeito RxHrm- Fic completa by marja


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CAPITULO 9 - SEM FORÇAS


 


 


A noite caiu sem que qualquer um pudesse notar. Havia muito a ser feito e quando Juanita finalmente colocou o jantar, todos estavam exaustos. Os homens comeriam na rua, pois ainda não havia um lugar para eles. Rony preferira ficar com eles, só para não precisar olhar para ela.


Juanita não era do tipo que conseguia ficar quieta por muito tempo, e apesar de notar o clima tenso, as palavras saíam de sua boca com muita facilidade.


-Até o final do verão teremos um galinheiro cheio – ela disse empolgada em dividir isso com ela – a idéia foi minha, eles nem pensaram nisso. Com o espaço atrás da casa dos fundos, podemos criar as galinhas e deixá-las no poleiro dos passarinhos. É só não fazerem corpo mole. Pedi ao meu marido que construa um forno para nós. Um que possamos fazer muito pão. E a mesa um dos rapazes vai fazer nas horas vagas. Pensei em construirmos um toldo e colocar a mesa ali.  – Ela disse e Hermione ergueu os olhos da sopa e do pão, mirando a mulher.


-Não será prático tirarmos a mesa para rua todos os dias - ela opinou – Meu pai queria construir um segundo celeiro, mas paramos a construção quando meu irmão morreu. Faltou pouco. Podemos servir a comida ali, e alguns homens podem dormir nesse local, se colocarmos camas – ela opinou.


-É uma boa idéia - Juanita sorriu. – Será mais fácil também.


-Tínhamos uma horta para a família antes... - ela perdeu um pouco do apetite ao falar do passado. – mas não tive mais tempo para cuidar.


-Podemos trabalhar nela amanhã cedo, o que me diz? – Juanita perguntou comendo com avidez. – Guardei um pouco de leite para nós duas – ela confidenciou depois de olhar para trás e ver se nenhum homem estava ouvindo. Levantou-se e apanhou uma jarra – Tome bastante, vai ajudá-la a ganhar peso – ela disse maternalmente – Eu sempre bebo muito leite, para dar conta dos meninos. Os homens não precisam de tanto, já que comem mais que nós. – disse rancorosa.


Hermione bebeu praticamente todo o copo e quase reclamou quando ela colocou mais.


-Gostaria muito de dizer que entendo como se sente, eu também tive que aceitar muita coisa na vida – Juanita falou muito baixo e Hermione não pode mandá-la parar – Meu marido é velho. É pobre. É difícil viver assim às vezes, mas ele cuida de mim e dos meus filhos. Ele me ajuda e eu o ajudo. A felicidade vem com o tempo. Fica mais fácil, se não pensar nas tristezas. – ela deu um suave tapinha em sua mão e Hermione olhou para ela curiosa:


-Onde viviam antes?


-Conheci Suares a três anos. Eu já tinha cinco dos meus filhos e carregava o sexto sem saber - ela sorriu – ele me tirou do saloon e me deu uma vida digna. Viemos para essas bandas no início do ano, e Molly me chamou para a cozinha. Boa mulher sua sogra. Ensinou-me a cozinhar e cuidar da casa. Ela disse que seríamos perfeitos para ajudar nesse começo de vida.


Havia sinceridade nos olhos daquela mulher e por um segundo Hermione ficou feliz que estivesse ali. Não era fácil viver desse modo. Sempre sozinha.


-Eu vi a arma embaixo do colchão – ela sussurrou – eu mesma tenho uma escondida. Não se livre dela, pode precisar – Juanita sussurrou e Hermione definitivamente gostou dela.


Nessa hora Rony entrava pela porta dos fundos e pegou uma imagem que achou que não veria. Era um sorriso tímido, e doce. Não era um sorriso de verdade, mas era quase um.


-Eu arrumei a cama e o quarto – Juanita disse levantando, e havia um pouco de malícia em sua voz – tem água fervendo nos tonéis, vou levar um pouco para o quarto. Deve se banhar, antes de ajudar seu marido a fazê-lo.  – lembrando-se de algo ela parou - Casaram-se ontem certo?


Ela meneou a cabeça concordando e a mulher sorriu algo que só ela mesma entenderia.


-Cuido da louça amanhã cedo – ela disse antes de sair e fechar a porta dos fundos.


Rony trancou a porta e andou pela casa deixando-a sozinha.


Ele andava com a naturalidade de quem é dono, ela pensou magoada. Não deixaria a louça para a manhã seguinte. Levantando-se ela arrumou os pratos, apanhando inclusive a pilha dos pratos das crianças e dos homens. Eles haviam raspado o prato e ela teve que admitir que era bom ver a fazenda movimentada de novo.


Nos últimos anos eles tinham apenas três pessoas ajudando e era muito pouco. Ela apanhou um pouco da água quente, e colocou sobre a louça para ajudar a soltar a sujeira, reservando o resto para os banhos. Não prepararia o banho dele, nem que sua vida dependesse disso, mas queria tomar um banho morno.


Esqueceu dele pelos próximos minutos, ocupando sua mente com o trabalho. Estava quase terminando quando ele voltou.


-Fechei a casa. Estou pensando em fazer travas para as janelas e portas – ele comentou sentando-se a mesa – Tem café?


De má vontade, ela conferiu o bule e serviu um pouco do café morno que sobrara. Não olhou para ele e voltou à atenção para a louça.


         Ele também não disse nada, observando calado a louça ser limpa e colocada para secar. Ela terminou e enxugou as mãos no pano de prato, indo arrumar o armário e apanhando um balde para a água. Ele continuou calado enquanto ela levava água quente para o quarto, em três viagens.


Terminado, ela conferiu o que sobrara de água e decidiu que não tinha mais nada a fazer ali.


-Espere – ele disse com a voz mais calma, pedindo paciência aos céus só de pensar em falar com ela – temos assuntos a resolver.


-Foi um longo dia – ela disse, querendo fugir de qualquer conversa.


-E vai ser mais longo ainda se não falarmos logo - ele acrescentou e contrariada ela cruzou os braços. – Levei minhas coisas para o quarto do casal, pois vi que seus pertences estão no outro quarto. Visto que apenas nós dois ficaremos na casa a noite, ninguém deve notar os quartos separados. A menos que você queira mudar de idéia.


-Arrumo os quartos antes de Juanita chegar – foi à única coisa disse, se eximindo de responder.


-Notei que não há trancas nos quartos - ele disse olhando para ela que somente naquele momento lembrou disso.


-Meus pais nunca acharam importante chaves nos quartos – disse tensa.


-Eles tinham razão. – ele levantou-se também. – Eu decidi muitas coisas sozinho, e agora preciso que confirme minhas decisões. Não sou um homem do campo. Posso estar errado – ele disse num tom de trégua e ela quase baixou a guarda, enquanto ele contava das decisões sobre o gado e a plantação. – Na minha família os homens acreditam que as mulheres não devem fazer o trabalho pesado. Devem cuidar da casa e da família.  Eu cuido lá de fora, e você cuida aqui de dentro. É um bom acordo não é?


-Não, se pretende ficar com tudo que a fazenda gerar – ela disse pensando friamente.


-Estou investindo muito dinheiro aqui – ele alertou e ela manteve o olhar fixo nele.


-Mas a terra é minha. – disse duramente.


-O que sugere?  - ele resolveu testar o terreno antes de entrar em uma longa e desgastante discussão.


-Primeiro a fazenda. Depois meio a meio.


Rony achou que ela não aceitaria outro acordo. E tinha total razão. Ela sequer ouviria outra sugestão.


-Se o tempo colaborar e a chuva vier, poderemos ter um bom lucro até o fim da estação. É muita coisa para guardar em casa. Pretendo abrir uma conta para mim no banco e sugiro que faça o mesmo. É o melhor meio de guardar dinheiro – ele avisou, concordando com ela.


-Uma conta? – ela ficou um pouco confusa, sem querer mostrar que não entendia nada disso.


-Seu pai tinha uma conta no banco não tinha? – ele perguntou intrigado. – Para ter adquirido a hipoteca, ele deveria ter algum dinheiro guardado e provavelmente numa conta. Imagino que tenham liquidado esse valor com a hipoteca ao longo dos anos. Mas qualquer um pode abrir uma conta, menos mulheres solteiras. Como é casada – havia um sorriso irônico que ele não pode conter – posso abrir uma conta em seu nome.  


-Posso fazer isso sozinha? – era uma pergunta direta e não deixava dúvidas de sua opinião sobre ele.


-Infelizmente o marido precisa autorizar – ele sentiu uma pontada de prazer ao dizer isso.


-Entendo – ela sentia a incontrolável vontade de gritar, mas se conteve. – Nessas contas... é possível guardar qualquer bem?


-Alguns bancos da capital guardam jóias, e objetos de arte, mas aqui, no interior, apenas dinheiro vivo. – Ele explicou notando seu súbito interesse. Talvez ela estivesse escondendo algo que não pudesse contar.


-Depois de aberta a conta, preciso de você quando for usá-la?


-Não - ele respondeu prestes a perguntar para que ela usaria sem ele, mas achou melhor calar a boca e não entrar em uma guerra estando tão cansado.


-A água está esfriando, se quiser tomar um banho – ela orientou pretendendo sair, mas ele ainda tinha muito que falar.


-Temos que tomar cuidado com Juanita - ele disse surpreendo-a – é uma boa mulher, mas pode falar mais do que deve. Ela não deve saber que dormimos em quartos separados. Ninguém deve saber. O banco pode voltar atrás com o leilão se houver a suspeita desse casamento ser uma farsa.


-Isso é possível? – sentiu o sangue parar em suas veias, ficando ainda mais pálida diante dessa possibilidade.


-Sente-se – ele pediu e ela o fez, chocada demais para reclamar de seu pedido. – Me formei advogado e tive oportunidade de advogar em um grande escritório da capital e defendi alguns casos parecidos. É mais comum do que pensamos esse tipo de acordo. Há um casamento e não a consumação dele. O banco revoga o leilão e após alguns meses, o casal pede a anulação do casamento.


-Um casamento pode ser anulado?


Ele tentou ignorar o tom interessado de sua voz e não se sentir ofendido.


-Pela lei sim, pela Igreja nenhum casamento pode ser desfeito. Mas pela lei, o casamento é desfeito e o homem em questão tem direito a metade das terras, e esse tipo de luta judicial leva anos, sendo o banco o perdedor no fim. Como vê, é um golpe comum. Não é minha intenção e suponho, não seja a sua. Mas o banco vai ficar de olho, e qualquer boato sobre nossa situação pode desencadear um ataque. Estou gastando tudo que tenho para fazer a fazenda funcionar. Não terei como lutar com banqueiros. Seremos dois na rua.


Ela teve quer morder a língua para não dizer que ele ao menos tinha sua família e um lar, mas se conteve, afinal, ele não tinha culpa da vida ter sido amarga para ela.


-Juanita não irá notar nada – ela garantiu levantando e dando a conversa por encerrada.


-Quanto a nossa briga de mais cedo... – ele tentou falar, mas ela já estava longe.


Rony sentou-se pesadamente. Seriam longos dias. Longos dias ao lado dela.


 

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