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CAPITULO 8 - CHÃO DE TERRA.
Precisamente ao meio dia ele chegou acompanhado de duas carroças e alguns homens. Hermione tinha terminado de ordenhar as vacas e estava guardado o leite em tonéis quando os viu. Andou lentamente em direção a porteira, odiando o som das vozes e dos risos. Haviam crianças ali.
-Venha conhecer nossos agregados – ele gritou, fazendo-se ouvir e ela se aproximou a contra gosto. – Esses são os Suares - ele disse apresentando um senhor baixo e muito magro e uma mulher, linda e faceira. Ao redor dela varias crianças pequenas. Ela parecia estar grávida, mas não dava para saber, pois tinha um corpo muito cheio de curvas. – Suares e Juanita. Ele irá me ajudar com o gado e a plantação e Juanita cuidará da casa.
Juanita era toda sorrisos, mas sua expressão fechada a desmotivou de tentar uma aproximação, e ela se distraiu segurando uma das crianças perto de si. Era possível ver que seu marido era bem mais velho que ela.
-Mais tarde apresento todos os agregados. Agora, mostre a casa a Juanita e ajude-a a se acomodar na casa dos fundos. Precisam decidir como farão para servir a comida aos peões – ele disse, sem notar a expressão azeda e o ódio em seu olhar. – Trouxe mantimentos para a semana, e algumas provisões extras para o gado.
O choro de uma das crianças quebrou sua linha de raciocínio e Juanita apanhou um menino de não mais de dois anos, sorrindo para ela e olhando para a casa, a espera que se decidisse.
-É por aqui - ela disse seca e mortalmente ferida em seu orgulho.
Juanita gritou para que as crianças não atrapalhassem os homens e os menores foram atrás dela.
Hermione assistiu aquelas pessoas entrarem em sua casa, as crianças andando por todo lado, e Juanita quis primeiro ver a cozinha, falando sem parar:
-Vamos precisar de um forno maior, mas meu homem pode fazer um para nós - ela disse analisando o local – precisaremos também de uma mesa maior! Onde os homens comiam antes...? - ela parou antes de mencionar a tragédia.
-Eles apanhavam seu prato e comiam onde quisessem – ela respondeu gelada.
-Na fazenda Wesley, Molly tem um jeito diferente. Vai gostar querida. – Ela garantiu pondo a mão sobre seu braço e Hermione se afastou, mantendo distância entre as duas.
-A casa dos fundos, fica atrás do celeiro. Não se preocupe não houve nenhuma morte dentro da casa – ela disse seca e um pouco sarcástica, se afastando. Parou quase tropeçando em uma das crianças.
-Tenho seis filhos, seu marido disse que não havia problema das crianças ficarem comigo durante o dia – ela disse um pouco sem jeito – bom homem esse, tem sorte.
Hermione fechou os olhos por um segundo.
-Faça como combinou com ele – ela disse saindo da cozinha e da casa.
Rony avistou quando ela saiu rapidamente da casa, e pelo canto dos olhos seguiu-a, tentando não parecer interessado e continuou falando com os homens, mesmo quando notou que ela se afastava demais da casa.
Hermione correu assim que estava longe o bastante para não ser vista. Correu até chegar ao riacho que cortava a propriedade.
Seu coração estava partido em muitos pedaços. Ver a casa de sua família ser invadida desse modo era torturante. Logo ela que cuidara de tudo nos últimos anos ser relegada a receber ordens de um estranho!
Um estranho que agora era dono daquilo que era seu! Sentando-se na relva, ela olhou para as águas daquele rio deixando as lágrimas de raiva correr em sua face. Era ódio puro que a corroia.
Ficou ali muito tempo, esperando que a raiva fosse embora, mas ela não foi. O que faria agora? Não sabia.
Rony achou que ela não voltaria. Estava prestes a ordenar uma busca, quando a avistou voltar a passos lentos. O sol havia decido, e a tarde ia longe quando ela voltou.
Passos lentos, de quem não quer voltar para casa. Ele estava na varanda, e cerrou os olhos mirando-a, ela tinha o lenço nas mãos, e os cabelos estavam soltos e molhados. A roupa estava úmida denunciando que ela estivera no rio.
Aquela mulher era um quebra cabeças, pensou. Seria como andar em areia movediça a convivência ao seu lado. Tentando não expressar sua insatisfação ele esperou que estivesse a alguns passos de si para falar.
-Por onde andou? - Ele tentou não soar tão acusador, mas não conseguiu.
Notou que ela engoliu em seco, antes de responder:
-Estava no lago – doía dar satisfações.
-Perdeu o almoço. – ele acusou irritado – Por alguma razão, Juanita guardou um prato para você. Se dê ao trabalho ao menos de agradecer, uma vez que não a ajudou em nada.
-E o que deveria fazer? – ela perguntou falsamente humilde.
-O que fazia antes?
-Cuidava de tudo sozinha – ela disse friamente, com um desafio na voz.
-Agora, vai ajudar Juanita no que ela precisar. O trabalho aqui fora é para os homens.
-É mesmo? – ele a viu sorrir pela primeira vez e era um sorriso tão irônico que ele sentiu vontade de bater em uma mulher pela primeira vez na vida – Não parece que seja capaz de cuidar da fazenda junto com os outros homens. Para ser franca, acho que nem sabe o que é trabalho de homem.
-Temos um acordo – ele disse ficando furioso – Essas pessoas estão aqui para tocar essas terras. Sinto muito se antes era diferente. Não vou me matar fazendo um trabalho que não dou conta sozinho. E quanto a você, baixe a crista e seja educada. – ele ordenou e ela mediu forças, mantendo o olhar duro – e quando sair, diga aonde vai.
-Ter direito a essa terra, não o faz meu dono – ela avisou – Cuide da sua vida, que da minha, cuido eu. – Concluiu aumentando o tom de voz.
Rony estava cheio daquela garota. Por mais que seu pai tenha pedido que fosse paciente, paciência tinha limite!
Seguindo-a para dentro da casa, ele segurou seu braço fazendo-a parar bruscamente:
-Baixe sua voz ao falar comigo! Não vou aceitar gritos nessa casa!
-ME SOLTA! – ela gritou sacudindo o braço para se libertar – NÃO ME SEGURE! – gritou fazendo força para ser solta – EU MANDEI ME SOLTAR!
Por um segundo ele sentiu medo daquele olhar furioso. Mas foi só por um segundo. Segurando seu outro braço ele a fez parar:
-Nunca mais grite na minha cara, está ouvindo? - contrariando suas próprias palavras, ele gritou a centímetros dela – NÃO SOU OBRIGADO A OUVIR SEUS GRITOS!!!!
Os dois pareciam prestes a entrar em uma briga de socos quando o choro cortou o silêncio mortal entre eles. Era uma das crianças de Juanita que olhava para os dois.
Subitamente consciente do que fazia ele a soltou. Hermione manteve-se de pé a custo, pois tremia de raiva e impotência. Queria poder atirar nele e encerrar essa fase de sua vida.
-Juanita está cuidando das galinhas – ele disse sem poder olhar para ela – faça-o parar de chorar.
Hermione olhou para o menino que chorava e então olhou para Rony sem saber o que fazer.
Não aceitava ordens, mas não tinha escolha, tinha? Desajeitada, ela apanhou o menino no colo. Ele mordia os dedos da mão enquanto fartas lágrimas corriam em seu rostinho contorcido de sofrimento. Hermione afastou sua mãozinha e tentou balançá-lo para calá-lo, mas ele não parava.
Ficando de costas, ela o levou para a cozinha, longe do olhar dele. Sozinha, ela manteve-se de costas para a porta, enquanto falava com o bebê e passava a mão em suas lágrimas acalmando-o.
Hermione entendia sua dor, ele tinha medo. Estava longe da mãe e tinha medo.
Não conhecia esse mundo a sua volta, e apenas sentia medo.
Assim como ela.