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CAPITULO 4 - ENCONTO INESPERADO
Era uma mulher pequena e muito jovem. Quase uma criança ele notou. Seu vestido preto tornava sua pele assustadoramente pálida e seus cabelos estavam desalinhados pelo vento e pelo tranco de manter os cavalos controlados.
Ele levara um tremendo susto achando que causaria uma desgraça quando a vira perder o controle das rédeas. Sem poder fazer nada ele assistiu de camarote, a luta entre a força dos animais e a força dela, ao manter as rédeas presas e o controle.
Apesar de pequena ela crescera diante do seu olhar, tornando-se gigantesca. E agora, desconcertada e um pouco trêmula, pois o susto fora imenso, ainda era capaz de manter a arma em risque, o braço firme e a pontaria certeira.
-Eu não vou atacá-la! – ele gritou de volta – Meu cavalo foi picado por uma cobra – ele indicou com a cabeça o belo animal tombado sobre a relva ao longo da estrada.
-Não se aproxime mais! - ela gritou novamente, se afastando alguns passos, sem tirar os olhos dele, e ficando mais perto do animal.
Em sua pata dianteira havia marcas de sangue e ela constatou que o belo animal estava perdido.
-Ele precisa de ajuda! – Rony disse angustiado – Posso colocá-lo em sua carroça? Tenho certeza que meu pai pode...
Antes que ele terminasse a frase ela apontou a arma para a cabeça do animal e disparou.
Um tiro seco e preciso e o animal parou de se mover e sofrer.
-Mas que diabos você fez! - ele gritou aproximando-se imediatamente, num reflexo e sendo parado por ela. Pela arma apontada em sua direção.
-Não havia mais nada a fazer a não ser acabar com seu sofrimento - ela avisou.
-Eu não acredito! Como pode atirar desse modo? – havia incredulidade em sua expressão – poderia ter feito algo por ele! Poderia ter... Feito algo!
-Siga seu caminho. Essas estradas são perigosas – ela avisou, se aproximando e subindo na carroça ainda com a arma nas mãos.
-Estou indo para a fazenda de Arthur Wesley – ele disse mais ameno, pois ela não estava para brincadeira – Não fica longe daqui...
-Sei onde fica – ela cortou seca.
-Pode, por favor, me dar uma carona? Sou filho de Arthur – ele pediu e por um segundo pensou ter visto algo mais suave em seu olhar.
Mas durou apenas um segundo. Ela tornou a apontar a arma dizendo friamente:
-Se afaste.
Rony sequer pensou em desobedecê-la. Andando para fora da estrada, ficou ao lado do cavalo morto observando-a partir.
A carroça ia longe quando ele baixou as mãos, incrédulo.
Esse tipo de coisa só podia acontecer naquela terra perdida, pensou. Se contasse uma coisa dessas para seus amigos da capital, eles não acreditariam!
Olhando para cima, para o céu que começava a dar sinais de escurecer, ele começou a andar, querendo ao menos saber quem era aquela mulher completamente louca.
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O dia caia no céu quando Hermione chegou à fazenda. O aspecto largado havia tomado conta da fachada, pois sozinha ela não dava conta de capinar todo o mato. Mal conseguia cuidar da plantação e dos animais.
Mas isso ia mudar.
Em alguns dias os homens da cidade esqueceriam-se das mortes e do medo e viriam atrás de emprego, pois naquela época do ano era difícil arrumar qualquer coisa que não fosse no campo.
Convicta disso, e tentando se agarrar a essa esperança, ela entrou na casa, depois de arrumar os cavalos e fechar o celeiro. Com passos urgentes ela foi diretamente para seu quarto. Com a casa toda trancada, como vinha mantendo nos últimos dias de solidão, ela arredou o roupeiro de madeira, pesado e velho e com as mãos ela puxou uma tabua solta do chão, retirando algo de lá. Levantando-se do chão, ela colocou o pequeno pano amassado sobre a cama, e desembrulhou.
Era um longo cordão de ouro, perolas e diamantes. Seu único bem além da fazenda. Pensando muito ela chegou à conclusão de que não poderia deixar isso ali, caso eles fossem tirar a fazenda dela.
Fechou os olhos fortemente. Triste destino.
Ela ficou de pé e abriu o vestido com dificuldade, pois os botões eram atrás. Resignada colocou a jóia dentro do espartilho que mantinha seu corpo preso na roupa. Carregaria seu único bem junto dela por garantia.
O destino não poderia tirar-lhe mais anda, pensou.
Guardando o tecido velho, ela arrumou o roupeiro no lugar e sentou-se na beira da cama, sentindo o peso da responsabilidade que tinha sobre os ombros.
Evitava pensar em tudo que perdera. Evitava pensar nos pesadelos que a atormentavam todas as noites. Tinha muito que fazer para se lamentar pela vida.
De pé, Hermione respirou fundo antes de sair da casa e trancar tudo novamente.
O sol ainda estava ardendo sobre sua cabeça, e amarrando o lenço nos cabelos ela foi para o celeiro. Ainda havia muito trabalho a sua espera...
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Rony andou por algumas horas até finalmente chegar à frente da fazenda onde nascera. Ele se apoiou na porteira e ficou olhando para a casa. O tempo tinha parado. Algo dentro dele explodiu ao ver a casa.
Algo que supunha ter morrido ao entrar naquela escola interna contra sua vontade. Quantas noites havia chorado em sua cama, dizendo a si mesmo que homem não chora, enquanto pensava em sua mãe. Com os anos a saudade morrera, visto que um mundo se abrira diante dele, cheio de novidades e conhecimento, um mundo tão diferente do mundo ao qual pertencia.
E esse mundo gritava diante dele. A terra sob seus pés. O sol sobre sua cabeça.
Por mais que os anos houvessem apagado de sua mente, aquela terra estava dentro dele.
Ele assistiu a porta da casa abrir, uma casa mais simples do que ele se lembrava, e uma roliça mulher sair acompanhada de uma bela jovem.
A senhora carregava uma bacia grande cheia de água e a jovem carregava um balde com frutas. A jovem ruiva, ele não teve dúvidas, só podia ser sua irmãzinha Gina. Lembrava-se dela, embora fizesse muito tempo desde que a tenha visto.
Elas conversavam e quando a roliça senhora virou-se em direção ao portão, viu aquele homem alto, ruivo e expressivo olhando para ela com a mesma expressão de quando se olha para algo muito bonito e verdadeiro.
Levou um segundo para Molly Wesley reconhecer o franzino filho naquele homem austero, apesar da roupa suja e da pele molhada de suor.
Levou apenas um segundo para seu grito cortar o silêncio do dia, e a bacia cair aos seus pés quando ela se pôs a correr em sua direção.
Estava em casa. Ele finalmente estava em casa.