CAPITULO 2 - DE VOLTA AO LAR
Rony Wesley desceu do cavalo olhando em volta sem compreender o porquê dos olhares. Haviam poucas pessoas na cidade e essas o olhavam como se ele carregasse a peste consigo.
Tratando de amarrar o cavalo ele entrou no velho bar, pedindo uma bebida bem forte. O sol quase queimara seus miolos e tantas horas sobre o lombo do pobre animal não fizera bem nem para ele, nem para o cavalo.
O velho atrás do balcão olhou-o atravessado e serviu-o enquanto sua mulher, uma mulher muito baixa e gorda, tirava uma criança pequena de perto dele.
-O que tem essa cidade? – ele perguntou após um gole da bebida forte. – Parece que todos viram uma assombração!
-Não gostamos de forasteiros – ele disse sério olhando-o atravessado e deixando que visse a arma em sua cintura.
-Não sou um forasteiro - ele disse em defesa – Estou voltando, amigo. Pode guardar isso – ele apontou a arma e o homem não pareceu nada convencido.
-Não me lembro de já ter visto sua cara por aqui – ele respondeu.
-Sou Ronald Wesley, filho de Artur Wesley. – ele falou e os olhos do homem se estreitaram.
-O pequeno Wesley que foi estudar na capital? - ele perguntou.
-Sim, agora não mais tão pequeno assim – sorriu - Estou de volta à cidade. Agora diga o que aconteceu para tanto medo?
O velho Sr.Ernest olhou para a mulher e então em volta, antes de falar:
-Têm sido tempos difíceis, filho. Tempos difíceis desde que a ferrovia chegou. – era como se contasse um segredo.
-A ferrovia trouxe o progresso. Meu pai contou-me em uma carta como aumentaram os negócios por essas bandas – ele disse sabendo que haveria mais do que mágoa por uma ferrovia.
-Sim, ninguém nega isso, mas ela também traz forasteiros. Pessoas sem parada, meu filho. E a desgraça os acompanha por onde passam.
-O que quer dizer? – por um instante ele pensou na família. Nos pais e nos irmãos.
-Um demônio, filho – ele disse fazendo o sinal da cruz e sua mulher fazendo o mesmo – Um homem sem piedade, desceu daquele trem e fez a maior desgraceira que essas terras já viram. Tem um mês, mas as pessoas não conseguem esquecer!
-E o que esse homem fez? - ele estreitou os olhos, mas quem respondeu foi à mulher do dono do bar, a velha Gertrudes, que tudo via, e tudo comentavam. Sua língua estivera muito calada no último mês, por medo.
-Lembra-se da fazenda ao Sul da colina? Do velho Antenor? – ele maneou a cabeça concordando, mas na verdade não lembrava, fazia muitos anos que saíra daquele local – Pois bem, meu filho. Um forasteiro escondeu-se na casa, e no finzinho da noite, atacou toda uma família – ela disse com voz sofrida – Antenor, a mulher, os empregados. Até mesmo os cavalos esse desgraçado matou! E não satisfeito, levou a vida da pequena Ann, filhinha mais nova. Uma criança que era um verdadeiro anjo! Toda uma família morta! Uma judiação!
-Ele foi preso? - era realmente uma tragédia que o fez se arrepiar, pois na capital eram comuns esses relatos.
-Não. Foi morto. Ann e a irmã mais velha estavam na cidade quando aconteceu. A pobrezinha foi atacada primeiro, e a irmã o matou. Pobre criança, ter uma morte nas costas! – Gertrudes lamentou.
-Pobre menina, pois agora que começara sua desgraça – o velho instigou.
-A família não olhará por ela?
Ele vivia em uma cidade maior, e as mulheres não eram tão cobiçadas como em terras como aquela, mas no interior, era desse modo.
-Não sobrou ninguém, meu filho. A pobre tem ficado sozinha naquela casa, dormindo sob o teto onde toda a família morreu e cuidando sozinha do gado e das plantações. E sabemos que o pior está por vir. Quanto tempo pode uma mulher jovem e sozinha viver em paz nessas terras? Uma pena. Uma pena mesmo.
Rony concordou pensativo. Não era um assunto do seu interesse. Bem ou mal, ele saíra daquela cidade aos dez anos para estudar em uma escola interna. E hoje aos vinte e quatro anos, era um jovem doutor.
Com o diploma nas mãos voltara ao lar, apenas e unicamente para dar o orgulho que a família queria. Depois, voltaria à cidade, e cuidaria de sua vida.
Pagando a bebida ele se despediu e foi embora.
Desamarrava o cavalo quando algumas pessoas cruzaram a ruela de terra em direção ao prédio ao lado do bar.
Eram homens velhos e uma jovem.
Ela vestia-se de preto, um vestido simples e de gola alta, que cobria seus braços e colo. Os cabelos estavam presos em um lenço, talvez para abrigá-los do vento. Ela olhava para frente, sem ver e sem ouvir.
Não chamava muita atenção, não fosse à áurea de ódio a sua volta. Desistindo dessa imagem, ele montou no cavalo e colocou o chapéu sobre os cabelos ruivos, pondo-se na estrada novamente.
De volta ao lar, ele estava de volta ao lar.