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1. FIM DE TARDE


Fic: O Acordo Perfeito RxHrm- Fic completa by marja


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1827


Cidade Fictícia


Em algum lugar da Inglaterra.


 


 


 


 


CAPITULO 1 - FIM DE TARDE


 


 


Os cavalos estavam inquietos naquela noite escura de fim de maio.  Os mais velhos diriam que isso era sinal de um mau presságio. Um presságio de morte ou tragédia. Mas os mais novos apenas ririam e prosseguiriam com suas vidas.


Como aconteceu naquela noite.


A revelia da vontade de seus pais, a pequena Ann e sua irmã, Hermione seguiram para a cidade atrás de suprimentos e medicamentos tão logo a noite começou a findar, e o sol ainda não despontara quando as duas saíram de casa.


 A cidade tinha crescido muito desde que a ferrovia havia sido instalada, e as fazendas e propriedades ao longo do vale tinham um maior aproveitamento agora que bastavam poucas horas para obter proventos que os mantivesse.


A carroça seguiu pela árida estrada de chão, e Ann reclamou, pedindo à irmã que diminuísse a velocidade, mas Hermione apenas lhe sorrira, e continuara tocando os cavalos com a perícia de uma jovem de dezessete anos, que crescera cuidando da família.


Eram as últimas de uma penca de filhos, somados em mais de doze. Filhos homens que se perderam na guerra, nos tempos de seca e em brigas de bar e estrada. Filhos que deixaram apenas as lágrimas e que pouco Hermione se lembrava. O último deles fora morto a pouco mais de dois anos, e desse ela lamentava, pois era o que a ensinara a cavalgar.


Seu pai, muito doente para tocar a fazenda, permitira que a filha, apesar de mulher, cuidasse dos negócios, era sua única alternativa, desde que numa tempestade, num acidente infeliz, se tonara inválido.


Um peso para a família, pois se ao menos estivesse morto, outro homem poderia tomar sua esposa e cuidar de suas filhas.


Mas esse homem não existia em tal lugar.


Os fazendeiros da região eram todos velhos conhecidos e não passavam de raposas velhas atrás de ouro. Qualquer um acabaria com a vida de Madeleine e venderia suas filhas como se vende gado.


Por isso o velho Antenor resistia em sua cama, postergando o sofrimento de sua vida inútil.


Nesse tempo vira a filha tornar-se o homem da casa, cuidando dos animais e aprendendo a atirar. Ela cuidava do gado e mantinha os agregados com rédea curta.


Havia doçura em sua face, apesar de tudo, ainda havia doçura em sua face, e ela sempre se lembrava de trazer um pedaço de tecido para sua mãe costurar um vestido para a irmã.


Essa sim deveria ser uma dama e casar-se-ia com um homem estudado. Ele a levaria para outra cidade e faria dela uma mulher feliz. Era o sonho da família. Para Hermione, restava a rudeza e a solidão, mas ela não parecia pensar nisso. Tinha metas.


Cuidar da família era uma delas.


Aquele dia não deveria ser diferente dos outros. Buscar ração e alimentos. Ervas e remédios. Uma ida rápida, pois deveria chegar antes que anoitecesse e as estradas se tornassem ainda mais perigosas.


Ann não parecia notar a troca de olhares entre Hermione e os homens do outro lado do saloon* que as mediam atentamente, desde seus movimentos nada femininos ao retirar os sacos de milhos da carroça, até seu grito exigindo que a irmã ficasse perto.


Ann tinha treze anos e era linda demais para ficar só. Vestia-se com esmero e cuidado. Era de uma beleza clássica que despertava o interesse de qualquer homem. Por isso tanto zelo.


Hermione por sua vez, abandonara os vestidos bem cortados, por um mais simples, a qual não se preocupasse se estaria sujo ou não. Por ela, usaria calças como os homens e o coldre da arma a mostra, mas isso mataria sua mãe de desgosto.


As duas não demoraram dentro do armazém. Apenas um par de horas para trocar o milho por tudo que precisavam.


Em dado momento Hermione olhou em volta atrás da irmã e não a encontrou.


Colocando a ração atrás da carroça ela saiu pra procurá-la. Alguns conhecidos a cumprimentaram, mas não era atrás deles que estava.


Seu pânico amornou quando enxergou Ann conversando com outra menina. Ela arrastou a menina aos berros para a carroça e as lágrimas de Ann não a comoveram.


Por dentro estava rachada, mas por fora tinha que ser dura. Ann merecia um futuro maior e melhor do que cuidar da terra ou cuidar de filhos que morreriam cedo, como acontecera com sua mãe.


Ann iria ser feliz, ela pensou conduzindo a carroça pelas estradas de chão.


O trajeto fora rápido, pois o sol ainda queimava sobre suas cabeças. De volta a casa, Ann ajudou a irmã a levar os medicamentos para dentro de casa.


Hermione estava tirando os sacos pesados de ração da carroça quando ouviu o grito.


Um grito terrível de pânico.


O sangue gelou em suas veias e ela correu para dentro da casa, tirando a arma das costas, onde se escondia sob o colete do vestido.


A sala de madeira estava vazia, mas tinham marcas de barro na sala. As marcas no chão levavam para os quartos e ela abriu a porta, esperando encontrar sua mãe ou seu pai. Nada. Estava tudo vazio.


Um novo grito, e ela correu para a cozinha vendo marcas de barro pelo chão, que saiam pela porta aberta.


 Correndo sempre ela foi atrás dessas marcas. No caminho, encontrou um dos cavalos abatido e perdeu o ar, desesperada para encontrar Ann e os pais. O celeiro era o único esconderijo e quando entrou ela avistou pés. Atrás da porta haviam pés e ela reconheceu o caseiro, que tanto a ajudava no trabalho pesado.


Ele não era o único, haviam outros homens, que cuidavam do gado e das plantações. Todos mortos. O sangue corria pelo chão e ela sentiu o pânico paralisá-la.


Não havia mais gritos e isso era ainda mais aterrorizador.


Saindo do celeiro ela andou por trás da construção, onde ficava o bebedouro dos cavalos.


A primeira imagem que teve foi da boneca no chão.  Manchada de barro, a boneca de Ann estava jogada na lama. A segunda imagem foi de um dos seus sapatos.


Preparando-se para o que veria, ela empurrou os sacos de milho que estavam amontoados atrás do celeiro e viu. Um homem grande e corpulento. Vil o bastante para ter rasgado as roupas de uma criança e possuí-la a força, violava sua irmã. Com um pano velho no rosto, Ann parecia sufocada e não se mexia. Ele ao contrário, sem se dar conta, continuava com suas investidas, tomando aquilo que roubara para si.


Hermione ergueu a pistola velha, mas que ainda funcionava e o som dela sendo destravada o fez saltar para longe tentando achar sua arma, mas antes que o fizesse a bala cravou em sua cabeça e passou por sua testa indo alojar-se em alguma árvore longe dali.


O corpo caiu ao chão sem valer mais nada e ela ficou de pé esperando que algo acontecesse. Alguém aparecesse e dissesse que isso não estava acontecendo.


Mas ninguém apareceu e Hermione andou lentamente até o corpo da irmã, girando-a e tirando-a daquela posição indigna para qualquer cristã. Arrumou seu vestido para cobrir seu jovem corpo, e destampou sua face, acariciando seu rostinho de anjo, agora sem vida.


Fechou-lhe os olhos, pois estes ainda estavam abertos e segurou-a contra o corpo, abraçando-a uma última vez.


Havia um silêncio total a sua volta. Um silêncio total dentro dela.


Hermione queria chorar e gritar, implorar para que aquilo não fosse verdade, mas a obrigação a fazia forte e ela deixou Ann onde estava procurando pelos pais.


Estivera fora tempo suficiente para o pior ter se dado e não se surpreendeu ao encontrar os corpos. Seu adorado pai, ela pensou ao se ajoelhar ao lado do corpo e passar as mãos por sua barba branca e longa. Seu amado e idolatrado pai, tão triste e tão insultado pela vida.


Ao seu lado o corpo de sua mãe, uma mulher que tivera tanta beleza no passado, mas que a tristeza tratara de matar aos poucos.


Ela tinha certeza, de todos, Madeleine fora a que menos sofrera, pois já estava morta há anos. Eram inegáveis as marcas de sangue em suas pernas e as roupas rasgadas não negavam que aquele animal não tivera respeito sequer por uma senhora.


Maldito dia que a fizera sair de casa logo cedo. Ao menos agora, estaria morta junto com sua família.


 


 


 


*Saloon: Cabaré.

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